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Scope of our work

Dans le document Report of the Auditor General of Alberta (Page 28-39)

Public Agencies—Executive Compensation

2. Scope of our work

São muitas as histórias trágicas de autores que não se adequaram à estética oficial imposta pelo Partido Comunista. Nomes como os do poeta Óssip Mandelstam (1891-1938), condenado a trabalhos forçados na Sibéria, aonde viria a morrer, por ter escrito um poema satírico em que Stálin aparece com enormes bigodes de barata; ou do romancista e dramaturgo Mikhail Bulgakov (1891-1940), autor de O mestre e Margarida, cujos livros foram

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tirados de circulação e suas peças recusadas, ao ponto de ter dito, em uma de suas cartas: “Tudo me foi proibido, estou na miséria, acossado, em completa solidão”. E, em outra missiva: “Nos últimos sete anos, concluí dezessete obras de diferentes gêneros, e todas elas se perderam. Semelhante situação é impossível, e em nossa casa há trevas e uma completa falta de perspectiva”. (SCHNAIDERMANN, 2005, p. 38)

Merecem capítulos especiais o ficcionista Isaac Bábel, autor de

Cavalaria vermelha, fuzilado em 1941; o diretor de teatro V. Meyerhold,

preso e morto a tiros em 1940; D. Mirsky, Daniil Kharms, curiosíssima figura da literatura e do teatro do absurdo, que prenuncia Beckett e Ionesco; Ana Akhmátova, Vielimir Khlébnikov, sem falar nos nomes mais consagrados tais como o do poeta e romancista Boris Pasternak, Prêmio Nobel de 1958, e de Maiakovski, cujo suicídio tem a ver também com seu desencantamento em relação ao rumo tomado pelo comunismo na Rússia. Outras personalidades, a exemplo do linguista Roman Jakobson e dos pintores Chagall e Kandinsky, cujas obras foram boicotadas nas grandes galerias de arte da Rússia e só mais recentemente vêm sendo revalorizadas, optaram por viver no Ocidente por não encontrarem um ambiente cultural e político favorável à sua atuação intelectual. Vale acrescentar que a desgraça perante o partido atingia também a família do “traidor”. É o caso da mulher de Meyerhold, Zinaída Reich, que, após sua prisão, “apareceu morta e barbaramente mutilada em seu apartamento”. Diz Schnaidermann:

Realmente pavoroso, o destino dos parentes das vítimas, que em princípio partilhavam a ‘culpa’ de seus familiares. Irina Ovtchínikova conta que havia no interior estabelecimentos especiais para os filhos menores, que eram submetidos a um tratamento desumano. Têm-se notícias da transferência de crianças de uma cidade a outra, conduzidas sob a guarda de cães policiais. Nas regiões ocupadas pelos alemães, estes separavam, crianças judias e as fuzilavam, e as outras eram simplesmente soltas em meio à população faminta. (SCHNAIDERMANN, 2005, p. 48-49)

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E havia casos como o do ficcionista russo Iúri Olecha, que renegariam todas as suas idéias “contra-revolucionárias” para não cair em desgraça perante o Partido e o Camarada Stalin. Autor de uma novela (Inveja, 1927) em que retratava, “numa prosa rica de metáforas, estranha, sutil”, “um intelectual desajustado no mundo tecnocrático e estranho dos planos quinquenais”, e depois de ter, no início dos anos 30, manifestado apreço pela obra de James Joyce, Olecha se veria, anos depois, compelido a penitenciar-se daquele “velho pecado”.

Disse ele:

O artista deve dizer ao homem: ‘Sim, sim, sim’, mas Joyce diz: ‘Não, não, não’. Tudo é ruim sobre a terra, diz Joyce. E, por isso, toda a sua genialidade me é desnecessária [...] Vou citar um trecho de Joyce. Este escritor afirmou: ‘O queijo é o cadáver do leite’. Vejam, camaradas, como é terrível. O escritor ocidental viu a morte do leite. Ele disse que o leite poderia estar morto. É boa esta formulação? Sim, é boa. Isto foi dito corretamente, mas nós não queremos esta correção. Nós queremos [...] a verdade artística dialética. E, segundo esta verdade, o leite nunca pode ser um cadáver, ele escorre do peito materno para a boca da criança, e por isso é imortal. (SCHNAIDERMANN, 2005, p. 51)

E, para se entender bem a utilização do adjetivo “kafkiano” para definir o que se passava naqueles anos, veja-se o seguinte diálogo entre os poetas Maiakovski e Nicolai Assiéiev, contado por este último, em 15 de novembro de 1939:

[...] estávamos caminhando pela Pietrovka em 1927, quando Maiakovski de repente me disse: ‘Kólia, e que tal se, de repente, o Comitê Central baixar a seguinte ordem: escreva-se em versos iâmbicos?’. Eu lhe disse: ‘Volóditchka, que fantasia absurda! O Comitê Central vai decretar a forma do verso?’. ‘Mas imagine que você de repente...’ ‘Não consigo imaginar isso.’ ‘Ora, será que te falta imaginação? Então, imagine o inconcebível.’ ‘Bem,

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não sei. Eu certamente não saberia, seria o meu fim.’ Calamo- nos e continuamos a caminhar. Não dei importância a isso, achei que era uma fantasia louca. Percorremos uns quarenta passos. Ele agitava a bengala, fumava e de repente disse: ‘Pois eu vou escrever em verso iâmbico.’ (SCHNAIDERMANN, 2005, p. 52)

Este diálogo, diz Boris Schnaidermann, “lança uma luz terrível sobre aqueles anos”. Maiakovski estava, evidentemente, bem cônscio da ameaça que pesava sobre a arte e a poesia modernas. Ele escreveria em 1928:

A república das artes

está em perigo mortal; perigam a cor,

a palavra,

o som.

Não por acaso, a frase de uma antiga canção patriótica que dizia: “Nascemos para tornar o fantástico realidade”, seria modificada para “Nascemos para tornar Kafka realidade”. Isto num país em que foi editado até um Guia para a eliminação das bibliotecas que atendem ao leitor de massa

de obras antiliterárias e contrárias à revolução, publicado por N. Spierânski e

Nadiedja Krúpskaia, a mulher de Lênin. E que incluía, em sua lista, obras de autores como Platão, Kant, Schopenhauer, Taine, Nietzsche e Tolstói, além de todas as obras da rica teologia russa e até de um clássico sobre a própria Revolução de Outubro, a reportagem Os dez dias que abalaram o mundo, de John Reed. Na conclusão de Os escombros e o mito, Boris Schnaidermann declara seu espanto quanto aos extremos do sublime e do repulsivo aos quais o povo russo passava com tanta rapidez. E referia-se a um episódio relatado por Iúri Borev, autor do livro Curso breve de stalinismo. Em Lendas e anedotas:

Durante a coletivização forçada, as camponesas enviadas para a Sibéria muitas vezes levavam seus bebês para o soviete lo- cal, pois compreendiam que eles não poderiam sobreviver à penosa viagem e esperavam que os conterrâneos se

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encarregassem deles. Mas os conterrâneos não se atreviam a nada, sem uma ordem superior. Consultadas as “autoridades competentes”, estas concluíram que, em primeiro lugar, os bebês pertenciam a uma classe hostil e, em segundo, era preciso cortar pela raiz a prática dos kulaques de deixar para o Estado ou para os camponeses pobres a tarefa de alimentar os seus filhos. Em conseqüência disso, os sovietes locais encaminhavam os pequenos para um soviete mais central, onde eles ficavam no chão, berrando enquanto podiam. E aos poucos os gritos iam rareando, até cessar por completo. (SCHNAIDERMANN, 2005, p. 269)

Chegava-se, assim, à trágica situação prevista pelo romancista Yevgêni Zamiátin, autor da novela Nós!, que inspiraria, anos mais tarde, o escritor inglês George Orwell em sua distopia, 1984. Para Zamiatin, a “verdadeira literatura não pode fluir da pena de obedientes e rotineiros burocratas, mas terá que ser produzida por loucos, eremitas, heréticos, sonhadores, rebeldes e céticos”. O que não poderia se esperar de um país cujos “heréticos” (e seus descendentes) eram simplesmente eliminados, era que seu vigor subsistisse – e que, ao fim de tudo, aparecesse o que não se esperava: uma arte e literatura dignas do que melhor se produziu no século 20.

Rascunho, nov. 2006.

Referências

SCHNAIDERMANN, Boris Os escombros e o mito: a cultura e o fim da União Soviética. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

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