preliminary draft Convention
2. The scope of the Convention The ml1terial scope
arquitetura ou Arquitetura
O depoimento auto-crítico do arquiteto Oscar Niemeyer, publicado no número 9 (volume segundo), da revista “Modulo”, deu lugar a várias controvérsias, mas, pelo público interessado, quer dizer pelos arquitetos, tem sido interpretada como uma “confissão”, uma espécie de “mea culpa” arquitetônica.
Mas o que diz em seu depoimento o arquiteto Oscar Niemeyer? O que êle diz é o seguinte, praticamente: - “Depois que eu voltei da Europa muito mudou minha atitude profissional. Até áquela época estava desanimado, pela convicção de que a arquitetura exercida num meio em que imperava a injustiça social fosse uma atividade transitória, impossibilitada de resolver os problemas do povo. Assim, combatido, comparava a profissão com espírito esportivo, com negligência, aceitando trabalho em demasia, confiando na minha capacidade de improvisação, satisfazendo os caprichos da classe mais favorecida, que requeria repercussão e realce”. – E o depoimento continua, anunciando a superação dessa crise moral arquitetônica e o propósito de recusar qualquer trabalho comercial, de se dedicar, exclusivamente, a obras importantes, como, por exemplo, os edifícios governamentais de Brasília, projetando por encargo do Presidente da República.
Por essas obras, o arquiteto Niemeyer está procurando soluções compactas e geométricas, simples e elementares, á realização das quais se dedica com extremo cuidado. O depoimento acaba, citando como “a própria essência da arquitetura, a antiga definição de Le Corbusier: “l’arquiteture est le jeu, savant, correct e magnifique des volumes, assemblés sous la lumiére”, e confirmando que o fim de sua obra será de comunicar “um pouco de beleza e emoção”.
Mas o que é arquitetura, senão o meio mais eficaz para combater com o exemplo a mesma injustiça social que obrigou o arquiteto Niemeyer a contribuir e alimentar (dada a sua popularidade e ascendência sôbre a juventude), no campo da arquitetura, aquela mesma injustiça que tanto o feria? Não é o arquiteto moderno construtor de cidades, bairros e casas populares, um combatente ativo, no campo da justiça social? O que criar no espírito firme e convencido a dúvida moral, a consciência da injustiça humana, senão o sentimento agudo de responsabilidade coletiva e, em consequência, uma posição de luta para a consecução de um fim positivo, moralmente positivo?
A posição de revolta do arquiteto Niemeyer, ao fazer o contrário daquilo que êle teria podido fazer, enfrentar a especulação imobiliária para servir-se dela como uma arma, contra a própria especulação (a sua celebridade o teria permitido), é uma posição de artista desligado de problemas sociais, uma posição de “l’art pour l’art”, esta posição é reafirmada hoje pelo seu depoimento que põe como base da arquitetura moderna a já citada definição de Le Corbusier pelo mesmo, aliás, hoje superada. Onde está o humano no depoimento de Oscar Niemeyer? Sufocado pelas formas, pelas composições, pela evocação de praças monumentais européias, obras de gênios ao serviço dos Papas e dos Grandes da humanidade, testemunhas dum tempo desaparecido para sempre.
A injustiça social existe, mas os problemas não se resolvem, passand o sôbre êle e esquecendo-os. Ao Museu de Caracas, aos edifícios de Brasília, definidos pelo mesmo Niemeyer, como de uma concepção, de uma pureza irrecusáveis, nós preferimos a Igreja da
Pampulha, a casinha de Vassouras que se impuseram á atenção internacional, pela simplicidade, a proporção humana, o sentimento modesto e poético da vida que denunciava aquela mesma condição de desânimo, o combate entre o homem social e a arquitetura, que Oscar Niemeyer no seu depoimento afirma ter superado, indicando como fim arquitetônico uma posição formal que nega todos os valores humanos e tôdas conquistas da arquitetura nacional.
-ARQ. [como alguém que assina o artigo]
Foto; legenda:
“Arquiteto OSCAR NIEMEYER:maqueta do Palácio do Congresso Nacional em Brasília”
“DOMINGO” Desenho de B. B.
[casa colonial com pessoas nas janelas, mar ao fundo]
Ôlho sobre a Bahia
É uma rua de Cachoeira, mas igual a tantas outras ruas desta Cidade do Salvador e Cachoeira é ainda Salvador e uma cidade não é nenhum compartimento estanque, ramifica-se, cresce. cria galhos, folhas e raízes e devagar sai dos confins e torna-se adulta como qualquer organismo vivente. O arquiteto planificador tem que basear o. seu projeto sobre este desenvolvimento natural das formas arquitetônicas, urbanisticas, criadas pela necessidade da vida cotidiana. O projetista que olha as revistas de arquitetura, sentado na prancheta e não tem olhos para a realidade, será um criador de edifícios e cidades abstratas, projetadas para uma humanidade que existe somente na sua fantasia e os homens reais obrigados a habitar casas e cidades nas quais serão estrangeiros, as abandonarão ou serão transformados numa humanidade amorfa, sem desejos e sem personalidade. O arquiteto de hoje mesmo se fôr um bom arquiteto obterá os mesmos resultados das obtidas pela especulação imobiliária: a ausencia de características ou nada. A significação intima da vida de uma cidade é sempre moderna enquanto atual. Ao arquiteto compete estudá-la e compreendê-la e traduzi-la em formas modernas e eficientes. O homem, a mulher que passa nesta rua, têm os seus determinados problemas materiais e espirituais. A propria casa e os proprios habitos, e o arquiteto moderno expressão máxima de responsabilidade social, enquanto construtor de obras públicas, terrenos e capitais publicos, quer dizer de obras expostas ao julgamento e á vista de todos, tem que pôr na base de sua propria projeção não o individualismo formalistico, mas a consciencia de ser útil aos homens, por meio de sua arte e de sua experiência. Esta é a verdadeira significação da arquitetura de hoje.
Foto ENNES S. MELO e SILVIO ROBATTO [referente à coluna Olho sobre a Bahia]
Antologia
Carta do Rio
A publicação, domingo passado, de uma carta vinda das mais puras camadas populares, com seu conteúdo saboroso de humanidade e de poesia, agradou a muitos e a outros desagradou Não entendem alguns porque publicar coisas tão erradas. Falam certamente da ortografia, mas êstes contrários não perceberam a chama que encontramos nela. E que encontram os leitores na sua grande maioria.
Cresce a nossa coleção destas saborosas cartas, enviadas pelos leitores embevecidos. Abaixo está não menos admirável carta com as nossas desculpas pelo severo julgamento aos mineiros,
“Rio de Janeiro Brazil 9.6.56. Cempri lembrado colega José. Caudaçois,
Eu graças ao bom Deus estou com caudi.
Jose eu lutei muito para chegar nu Rio pacei por coisas de todu tamanho em Belorizonti foi muito maltratado pelus minero elis ção mitido abestas desfais em todus pispal bahiano não dão na cara porque não podi oli cabi quantas cidades eu andey (são Curvelo Corito montis claro montis azul dorabela concelheiro lafaieti juys de fora barsevna bunier tudo iso em Minas) deu um azar que eu parasya que não podia cay do estado eu em qui mi encontrava as cidades maravilosas o pessoal que não presta Belorisonte e uma cidade José tem cada um edificio voser tei ater medo aqui no Rio não tem ifual é um acidadis muitos boua so fautar elis minero bastas Terra para viver e o Rio os carioca ção muitos caridoso u poco tempo que levei em Minas vendi ate ropas do corpo dois mesis que levei lar não conseguir nada no Rio adiqrir 3 par de sapatus 3 salças 5 camisas boua e maisum bom emprego ganhando 2 mil cruzeiro para não fazer meu servisu e muito um mosu estar my ensinando escrever na maquina esa letra e minha
Cem mais nada du ceu colegar um abrasu apertado lembranza para Dariu Luiza i todus a quei pergunta por mi sim ai meu enderesu
Meu enderesu e rua Laranjeira cento trinta dois Rio Janeiro sem mays nada du seu querido colegar milois de lembrasas e saudades
Notisia urgente Um abraso apertado Euclides Canedo Silva”
Documentos: Escola de Belas Artes, 1900 [Foto de um ateliê]
Turris Eburnea?
O sr. Dufy não recebe ninguém. É uma defesa contra as senhoras grãfinas, diletantes de arte ou um ato de soberba? Talvez os dois. O pintor Dufy, pintor da Côte DAzur e do Sweepstake talvez não gostasse da sociedade. Talvez não gostasse de pseudo-artistas intelectuais. Talvez olhasse antes de abrir, por um buraco especial da porta, a cara do pedinte. Mas êste cartão é o emblema do artista de hoje, conhecido, publicado, celebrado, isolado? Não poderia êste cartão estar pregado embaixo de algumas obras de arte inteligentes e brilhantes, mas resumida pelo grande público, na lacônica frase. “A arte, senhores, ne recoit pas?”