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Scintigraphie osseuse

MATERIELS ET METHODES

III. ETUDE RADIOLOGIQUE

2. Scintigraphie osseuse

A Impugnação Analítica propõe classificar como catalepsia os fenômenos da beata. Gomide não deixou dúvidas de que o êxtase da beata era uma enfermidade, uma doença nervosa, precisamente classificada segundo os quadros nosológicos da época como catalepsia convulsiva. Para tanto, buscou apoio nos trabalhos de Phillipe Pinel e de outros nomes expressivos já citados.

Os estudos sobre as doenças nervosas no período moderno gradativamente romperam com as antigas concepções das doenças mentais como fruto das alterações humorais, abrindo espaço para novas interpretações sobre o corpo, considerando os órgãos, as fibras e os nervos. O estudo da sensibilidade e irritabilidade como função do sistema nervoso e a compreensão de que a enfermidade nervosa deixa o doente mais sensível, mais irritado trouxeram implicações sobre a vida social do doente, sobre o seu comportamento. O ambiente do entorno e a formação moral passaram a ser elementos a influenciar o estado do doente, entrando em consequência para a terapêutica.

No que diz respeito especificamente à classificação da moléstia da beata como fenômeno natural diagnosticado por Gomide, o médico recorreu ao Dr. Pinel, situando-a como pertencente à classe IV da Nosografia Filosófica dedicada às neuroses e na ordem II, aos espasmos.

Assim, suas observações indicariam que, no caso de Germana, os nervos irritados por falta da alimentação e da consequente irritação epigástrica, teriam comunicado sua afecção até o cérebro, causando suas convulsões gerais. Gomide ressalta que, além do mau funcionamento dessa região, as causas dos fenômenos observados em Germana poderiam ser resultado de substâncias ingeridas ou serem de ordem moral. Conforme destaca Pinel, quando há transtorno das leis da natureza ou perda de algumas regras da moral, as afecções espasmódicas aumentam, provocando a piora do estado do doente.428

As estatísticas feitas por diferentes alienistas teriam sido capazes de detectar que as causas morais eram muito mais frequentes do que as causas físicas, nos casos da alienação.

161 Um levantamento realizado por Benjamin Rush (1743-1813), por exemplo, havia demonstrado que as causas morais mais destacadas para agir isoladamente ou em conjunto para a alienação eram: desgostos domésticos, amor contrariado, acontecimentos políticos, fanatismo religioso, pavor, ciúme, miséria e reverso da fortuna, excesso de estudo, entre outros.429

A medicina mental, que então se construía, não conseguiu comprovar no exame cadavérico, com o uso das técnicas modernas anatomopatológicas, suas suposições. No entanto, a negativa empírica não levava à anulação das hipóteses etiológicas: Pinel continuava a afirmar o substrato corporal da loucura, atribuindo-a a uma alteração cerebral, ainda que sua confirmação ficasse por ser dada pelo processo de evolução da ciência alienista. A acumulação de dados sintomáticos e de observações levaria a generalizações capazes de confirmar a etiologia. 430

Assim, a relação entre alterações corporais e loucura, como o mau funcionamento epigástrico de Germana, se articula num movimento mais amplo que reduz o moral ao funcionamento corporal. As faculdades morais, articuladas às funções vitais, não separavam mais o corpo da alma, mas se apoiavam na estrutura anatômica.

Portanto, os princípios da fisiologia moderna de A. Crichton, estreitamente articulados à prática clínica de Pinel, são retomados por Gomide na busca de fazer da medicina mental uma ciência como a medicina somática proveniente “da vinda do progresso humano deflagrado pelo século das Luzes”.431

Segundo Gomide, a catalepsia foi estudada com maior frequência a partir de meados do século XVIII, mas seus estudos buscam afirmar que a doença seria um exemplo do lento curso do desenvolvimento da medicina, que vinha desde a Antiguidade. Sua perspectiva não difere da de Philippe Pinel, que nos relata em sua Nosografia que alguns bons observadores clássicos, como Henrique de Heers e Zacuto Lusitanos, deram uma boa descrição da catalepsia. Segundo suas descrições, a catalepsia poderia surgir de uma comoção exagerada capaz de se apoderar de todas as faculdades morais.

Naqueles autores, bem como em Pinel, as mulheres catalépticas foram descritas como mulheres de expressão triste, que emitiriam sons desarticulados, manteriam o pensamento ocupado com algum objeto, viveriam sem apetite, dormiriam pouco, teriam visões, seriam

429RUSH, Benjamin. Medical Inquiries and Observations upon the Diseases of the Mind (1812). Apud,

BIRMAN, Joel. A psiquiatria como discurso da moralidade. Rio de Janeiro: Graal, 1978. p. 82-84

430 Ibidem, p. 59

162 taciturnas, chorariam lágrimas de ternura.432 A catalepsia era uma dessas afecções cujas causas seriam predominantemente morais. 433

Já no Tratado médico- filosófico..., não há uma exposição explícita acerca do tema da catalepsia. Seu tema central era a alienação - a busca pela natureza da loucura. No entanto, quando o médico discute sobre a mania com delírio, realiza uma descrição da região afetada pela enfermidade, a região epigástrica, e discute sobre os sintomas e sua terapêutica. É aí que Pinel se aproxima da descrição realizada sobre a catalepsia na Nosografia Filosófica.434

Nas duas obras, com mais ênfase no Tratado médico-filosófico..., Ph. Pinel defende que as doenças nervosas são desordens cerebrais de causas físicas e morais e que a terapêutica indicada deve ser baseada na reclusão do enfermo e no tratamento moral com vistas ao controle das paixões.

Doutor Gomide, procurando situar a enfermidade da nossa beata como catalepsia convulsiva, afirmou que a doença era fruto da irritação dos órgãos que, por influência simpática de uns sistemas sobre os outros, teriam afetado diversas regiões do corpo. A doença, segundo o médico, se caracterizava por vários sintomas, como espasmos, comas, êxtases periódicos e rigidez dos membros, que, durante o sono, se alterariam, promovendo convulsões. O médico ressaltou que os jejuns realizados em maior intensidade em determinados dias da semana, a princípio motivados por práticas devocionais, acabaram por contribuir para que a beata entrasse num estado de êxtase, causado por sua patologia.

Como ressaltamos anteriormente, sua argumentação não se volta apenas para uma suposta preocupação com a saúde da beata, mas, antes, busca chamar a atenção das autoridades para o risco de uma epidemia de catalepsia entre as pessoas que peregrinavam na Serra da Piedade. Era preciso controlar o aparecimento da doença, impedindo a circulação daquela gente para ver a doente porque “a visão repetida dos sintomas nervosos poderia gerar um ‘espetáculo imitável aos nervos e músculos de cada uma”. 435

Nas entrelinhas do discurso, é possível perceber que Gomide considerava os riscos da ociosidade das mulheres que circulavam pela Serra. Embora o médico não tenha se referido diretamente às solicitações de outras beatas para fundar, junto à irmã Germana, uma casa religiosa feminina, o médico certamente estava a par das admirações femininas acerca dos êxtases da beata. Era por isso que ele considerava que a possibilidade de um ajuntamento

432 PINEL, Philippe. Nosografia Filosófica..., 1798, tomo II, p.1-12.. 433 Ibidem, p. 150-69.

434 PINEL, Philippe. Nosografia Filosófica..., 1798, tomo II, p.

163 feminino em torno da beata, na busca de vida contemplativa, e ociosa, somente poderia resultar nos excessos de imaginação, em desregramentos morais, que, por sua vez, promoveriam os desarranjos do sistema nervosos e, enfim, a disseminação de catalépticas.

Como terapêutica moral, então, Gomide indica a proibição de circulação, em especial, das mulheres pelo local, visando ao controle das paixões e das “imaginações vivas” dessas mulheres, já que “a visão reiterada de sintomas nervosos” causaria a erupção da doença, o que poderia ocorrer “com facilidade entre mulheres delicadas”.436

Assim, admitindo os riscos de uma propagação generalizada de catalépticas na Serra da Piedade, doutor Gomide deixava claro sua percepção de que fatores comportamentais e socioculturais influenciavam a erupção da enfermidade, confirmando a dimensão histórica da doença. Além disso, acompanhando os diversos médicos por ele citados, indicava o tratamento físico do uso de quina, o ópio e outros curativos.

A abordagem do médico mostrando a necessidade de uma terapia físico-moral é bastante significativa para a historiografia, principalmente em função da maneira como ele colocou em prática seu propósito na Impugnação Analítica. Na postura de homem de ciência da Ilustração, ele adotou as regras e o método científico, atuando como um filósofo, que deveria “achar e promulgar a verdade”. Para isso, fez a opção de embasar suas declarações em Philippe Pinel, contribuindo assim para inserir as discussões acerca das doenças nervosas deste médico no Brasil no início do século XIX.

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