Em uma manhã de domingo, quando cheguei a uma das instituições, as crianças estavam brincando no pátio externo, próximas ao estacionamento e aos materiais de construção deixados pelos operários que trabalhavam durante a semana na construção de um anexo da instituição. Estavam dispersas, em pequenos grupos onde brincavam juntas ou sozinhas. Duas cuidadoras observavam de longe as crianças brincando e aproveitavam para falar de suas vidas. Logo que me aproximei das cuidadoras, me disseram que resolveram fazer algo diferente com as crianças, não às levaram para o parque interno da instituição (atividade comum nos finais de semana) onde estão os brinquedos, para que pudessem explorar outro espaço.
Eu retirei as máquinas de fotografar de minha bolsa, pois havia alguns meses tinha iniciado um trabalho de registro fotográfico com as crianças. Antes que elas pudessem me perceber, observei por alguns instantes. Senti como se estivessem soltas, corriam sem direção, dois andavam de bicicleta, outros pulavam sobre os montes de areias da construção, outras brincavam com brinquedos que trouxeram de dentro. Fazia frio, era inicio de inverno, estavam quase todas resfriadas, com o nariz escorrendo, mas saltitantes pelo grande pátio, ao qual quase não têm acesso.
Percebi que havia um grupo de quatro ou cinco crianças entretidas com algo entre alguns arbustos. Aproximei-me e foi quando
Ivan me viu e veio correndo me puxando pela mão, dizendo: Vem ver a cobra, tem uma cobra aqui. Tira uma foto dela!208
O grupo deixou que eu me aproximasse e falavam baixo para que a cobra não se espantasse: Olha! Ela tá ali! Agachei-me para acompanhá-los na observação da cobra. Eu suspeitava que estivessem criando uma história sobre cobra no pátio. Fui chegando perto e percebi que estava ali. O nascimento, a invenção de algo que só as crianças podiam ver e compartilhar. Entenderam que eu compartilhava da invenção e me pediram para fotografar a cobra.
Como sugere Walter Kohan (2010) nos deparamos com nossas infâncias ao nos permitir ser afetada pelas crianças, ao esvaziarmos a temporalidade da sucessão das coisas (khrónos), podemos nos re- inventar numa outra temporalidade (aión). Ao inventarem uma cobra no arbusto, me permitiam inventar a minha memória da criança que fui num espaço/tempo incapaz de ser representado.
... a invenção é produtora da verdade. O que significa que não há nada verdadeiro que não seja inventado, ou que só pode existir verdade quando há invenção. O que não significa que toda invenção seja verdadeira, mas significa que sem invenção não há verdade. (KOHAN, 2003, p.3) E uma vez registrada a imagem da cobra no arbusto, as crianças mostravam a foto para quem não estava junto.
- Olha a cobra!
Ivan mostrava a foto para uma das cuidadoras. - Aonde? Não estou vendo! - Tu não vê? Tá ali, óh!
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Me espantava um pouco a invisibilidade que as crianças davam às cuidadoras, que só eram requisitadas em situações muito pontuais. Nesse momento eu suspeitava de uma reciprocidade nessa forma de tratamento, as crianças também eram invisibilizadas pelas cuidadoras nos momentos em que estavam a falar de si, uma pra outra. Mas irei discorrer sobre isso mais adiante.
E espremendo os olhos em direção à foto, a cuidadora diz: - A tá! É essa aqui... - apontando para uma fita de plástico que aparece entre os arbustos.
- Não, isso é um saco! A cobra tá atrás... tu não vai conseguir ver...
E sai correndo para juntar-se às outras crianças.
Nesse momento, como num novo encontro e na re-invenção de minhas memórias, lembrei de um dos contos de minha infância: "A Roupa Nova do Rei" de Hans Christian Andersen. Trata-se de um conto onde um falso tecelão recebe muitas riquezas do Rei para confeccionar uma nova roupa, não sabendo tecer, o tecelão falso finge trabalhar no tear, até que o Rei pede para ver suas vestes. O tecelão então retira um pano de um manequim vazio, e o Rei diante de seus ministros, grita: "Seu trabalho é magnífico! Que bela roupa!" Numa atitude de submissão todos os ministros aplaudem e dão a entender que também estão vendo a nova roupa. E num pacto silencioso todos os aldeões assistem ao desfile do Rei Nu, como se ele estivesse coberto por um belo traje de sedas e pedrarias. Até que em meio ao desfile, uma criança irrompe o silencioso pacto com um grito: O Rei está nu!! O rei se encolhe, suspeita que a afirmação da criança seja verdadeira, mas dá continuidade ao desfile.
Lembro de ter assistido a essa peça quando contava uns oito ou nove anos, e durante muito tempo esse enigma da invisibilidade da roupa do rei me atormentou. Como era possível que todos afirmassem ver o que não viam. E lá estava eu, vendo uma cobra que não aparecia para outros. Fui um pouco ministra do Rei, mas ganhei a confiança das crianças que passaram a me contar histórias fantásticas sobre bichos que andam pelo pátio à noite e que se escondem quando amanhece.
Detive-me em uma das histórias de uma família de lagartixas. Era uma grande novidade, eu que sempre via lagartixas andando solitárias pelas paredes. E me chamava atenção a idéia de contarem que era uma família que morava dentro do abrigo à noite e quando amanhecia saia para procurar novos membros da família. Quem mais elaborava a história era Luis Felipe, fazia às vezes de âncora na narrativa e os outros colaboravam com detalhes. Eles iam me contando que numa noite no quarto dos meninos havia três lagartixas, duas grandes e uma muito pequena que era o filhote.
Não atribuíram gênero às lagartixas, até que Violeta, disse que no quarto das meninas também viram duas lagartixas e que eram da mesma família das do quarto dos meninos.
Perguntei como sabiam que não eram as mesmas. Luis Felipe respondeu que dá pra saber por que elas são diferentes.
- Umas são mais brancas, outras mais marrons e também são de vários tamanhos.
Não pareciam gostar que eu interferisse, então deixei que falassem mais sobre as lagartixas. Contaram que elas se reuniam a noite, porque o abrigo ficava em silêncio e então podiam conversar e planejar a busca de outros membros das famílias. Foi então que perguntei se imaginavam como elas encontrariam esses outros membros e quem eram eles. Disseram-me que eram outros irmãos e avós, avôs, tios e tias, e que estavam perdidos em outras casas.
- E como eles podem achá-los?
- Ahhhh! As lagartixas falam a língua delas e vão chamando pela rua até encontrar. Nenhum adulto escuta! - Me disse Déia.
Fiquei alguns minutos atônita com a resposta. Afirmar que nenhum adulto escuta as lagartixas seria o mesmo que dizer que só as crianças as ouviam?
- Sim, mas vocês conseguem escutá-las? - arrisquei.
- Eu escuto! - disse o Luis Felipe e foi seguido por outros que também afirmavam ouvir as lagartixas.
- Que fantástico! Eu realmente não as escuto, será que conseguiriam me ensinar a ouvir as lagartixas qualquer hora dessas? Gostaria de saber como é essa família, pelo que vocês me contam são muitas!
- Não sei se tu vai conseguir, mas se eu ver uma por aí eu te digo daí tu fica tentando escutar a conversa delas.
Nesse momento, algumas crianças já estavam dispersas, e Maria Rosa (1 ano), a mais nova dos pequenos estava comendo um punhado de areia oferecida por Ivan. Levantei, para ir ao encontro dos comedores de areia, confirmando que adoraria saber mais sobre as lagartixas.
Luis Felipe veio atrás de mim:
- Mi, tu acredita mesmo que as lagartixas vão encontrar os tios, avós...
- Luis, essa história é uma grande novidade para mim. Não conheço essas lagartixas, talvez elas nem queiram encontrar todo esse povo, talvez elas só estejam passeando por aqui. O que tu achas? - Eu acho que se eu fosse elas eu ia procurar, porque eu sei quem é a minha mãe, ela vem aqui me visitar, mas se ela não viesse eu ia atrás dela. Acho que as lagartixas pensam assim, como eu. - Hum! Pode ser. Mas, como são muitas lagartixas, cada uma pode pensar de uma forma, não é? Ou será que elas pensam iguais?
- Ah, isso eu não sei.
Fomos interrompidos pelo aviso de que estava na hora do almoço. Me despedi de todos por que não ficaria para o almoço. Já estavam sentados à mesa quando eu saí. Ouvi no fundo, na voz de Shirley, um: - Vai com Deus! e as cuidadoras comentando com orgulho que ela havia sido educada.
Sai refletindo como saio sempre que encontro com as crianças. A questão de Luis Felipe precisava ser revisitada, vi ali, uma pergunta- máquina, como demonstram Deleuze e Guattari (1997, p. 36): "As perguntas das crianças são mal compreendidas enquanto não se enxerga nelas perguntas-máquinas;...". Uma pergunta-máquina é algo que suscita acontecimentos, é capaz de dar vazão a um novo fluxo de idéias. A pergunta de Luis Felipe: tu acredita mesmo que as lagartixas vão
encontrar os tios, avós...? Colocava sob tensão não a minha crença, mas
as questões que ele mesmo se fazia sobre sua vida. Em seguida ele diz:
Eu acho que se eu fosse elas eu ia procurar, porque eu sei quem é a minha mãe, ela vem aqui me visitar, mas se ela não viesse eu ia atrás dela. Acho que as lagartixas pensam assim, como eu.
A partir da perspectiva de Deleuze e Guattari (1992), Luis Felipe estava filosofando, criando saber sobre si e sobre o mundo. Ele me falava de interrogações que ele se faz sobre si, sobre sua história. Se
a mãe não o visitasse ele iria atrás dela. Que outras certezas marcam suas dúvidas?
Ainda na tentativa de compreender o universo de detalhes quase infinitos que as crianças me trouxeram em poucas horas de pátio, eu me deparava com as ideias de Déia, a menina de 5 anos que aguardava para ser adotada por uma família italiana. Déia me falava de uma inumanidade que não pertence ao adulto, falava da habilidade das crianças de compreender a língua das lagartixas e nesse diálogo, me mostrava a possibilidade de outra lógica, outra forma de compreender o mundo. Compreender as lagartixas não é habilidade de quem se humanizou/se tornou adulto a partir de um código lingüístico que fornece poucos instrumentos para o entendimento da língua dos animais. As crianças compreendem bem a linguagem animal, fornecem seus sentidos ao movimento dos bichos e se relacionam com eles a partir da elaboração imaginativa da vida cotidiana.
Assim como na noção de devir-criança, a proposta rompe com uma relação direta entre criança e temporalidade cronológica, a descoberta de Déia de que adultos não entendem lagartixas, mais a possibilidade de que eu ao me esforçar poderia compreendê-las, também desloca o adulto de uma razão cronológica. O que está em jogo na história da lagartixa, além da possibilidade de re-invenção da história das crianças que a contam, pois reuniram elementos familiares com exóticos - características comuns da imaginação - é a transgressão de um modo de operar o conhecimento adultocêntrico, um modo de relação com o mundo que não pode ser considerado como animista, mas como perspectivista, uma vez que, na história, as lagartixas agenciam suas idas e vindas do abrigo, elaboram planos e os executam. As crianças demonstravam sua intimidade com as lagartixas, e ao mesmo tempo em que se diferenciavam delas mantinham uma relação de reciprocidade, com o ideal, com o devir-lagartixa que os impulsionava a agir, pensar sobre a família, por exemplo, ou à condição de abrigados.
A possibilidade de interação entre as crianças e as lagartixas, sobretudo no que se refere à compreensão da língua, revela que para as crianças - mesmo que sejam ensinados que as lagartixas são animais diferentes deles que são humanos - preserva-se certa inumanidade na infância ou mesmo, certa humanidade nos bichos.
Tal quais os etnólogos tem observado no pensamento ameríndio209, podemos estar diante de um pensamento onde humano e
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animal não são contrários, tampouco etapas de um processo evolutivo, mas seres que se complementam e a humanidade algo que corresponde à ordem da repetição. E a infância, como sugere Lyotard (1998) a diferença (differance para Derrida, 1972), "a diferença que é condição de toda e qualquer diferença" (Kohan, 2010), o que antecede transcende a humanidade que se personifica na adultez.
Também foi com Déia que vivi outra experiência transcendente, a de dialogar com bonecos. De permitir que a boneca que lhe acompanha nos sonhos, pudesse lhe realizar alguns desejos, entre eles o de se reunir às irmãs e encontrar uma família. Diferente dos animais, os bonecos, não são gente, não recebem o mesmo status que as pessoas/animais. A relação com os bonecos é da ordem do animismo, somos nós que damos vidas a eles. Pude observar isso, quando sugeri que ela me dissesse o que a boneca estava pensando e ela disse:
- A boneca fala o que eu disser pra ela falar, ela não é uma pessoa, é uma boneca, mas eu brinco com ela como se de ela fosse minha filha, às vezes minha irmã, minha aluna...
Foi então que pensei que, assim como fala Viveiros de Castro (2002) sobre uma heterogeneidade no perspectivismo ameríndio, com as crianças esse perspectivismo também não se estendia a todos os animais. Quando Déia fala que com boneca se brinca, me perguntei se existe algum animal, com o qual se brinca a quem se atribui status de amigo ou de parente - como tem sido comum observar na relação entre adultos e cachorros na nossa sociedade - será que as crianças, faziam essa distinção? Que animais poderiam ser pessoa para essas crianças? A boneca não pensa, mas as lagartixas pensam, sobretudo, agem. As lagartixas são lagartixas, mas se pensam como se pensam as crianças. E sob o ponto de vista das crianças, as lagartixas pensam que não se deve ficar na instituição, sob o ponto de vista da lagartixa, o ideal é sair em busca de seus parentes. E podemos inferir que as crianças se apropriam de uma linguagem figurada para falar delas mesmas.