Em finais do século XIX, Otlet apresenta a proposta da Documentação aliando as técnicas biblioteconômicas para promover e facilitar o acesso à informação de grupos específicos ligados ao desenvolvimento da ciência. Quase vinte anos antes da CI, Shera (1952) lança um novo conceito de socialização do conhecimento através da proposta disciplinar da Epistemologia Social. A partir da década de 60, com as iniciativas de Borko (1968), Mikhailov, Chernyl e Gilyarevsky (1980), entre outros, a CI toma forma de ciência, influenciada pelos conceitos da Documentação, Comunicação e Cibernética para a transmissão de mensagens.
As divergências das definições para a CI variam entre a ênfase no objeto de pesquisa, suas propriedades, e transmissão para atender às necessidades de comunidades científicas especializadas, ou de contexto geral.
Percebe-se que as mudanças de paradigmas promovem impacto na organização, acessibilidade e comunicação da informação produzida, independentemente de sua natureza.
Arquivística testemunha a preocupação com as regras e métodos de organização da informação. Nesse sentido, a partir do século XIX a mudança para o paradigma técnico e custodial tem origens na profissionalização de arquivistas e bibliotecários que alegam possuir métodos próprios e distintos para organizar a documentação. A Documentação, com a acessibilidade ao conteúdo de arquivo e biblioteca, empenha- se em organizar e qualificar documentos de natureza científica e especializada, dando ênfase ao conteúdo e estimulando seu acesso, independentemente de pertencer ao arquivo ou biblioteca.
No século XX, a TI, a Cibernética, e a CI se desenvolvem com objetivos e funções similares para viabilizar e promover o acesso à informação. A TI pronuncia- se na transmissão de mensagens; a Cibernética na comunicação entre homem e máquina e a CI, com conceitos BAD, incorpora a interdisciplinaridade para o estudo das propriedades da informação, com uma proposta social.
Os anos que se seguem à eclosão das tecnologias da informação, no último quartel do século passado, são palco da emergência da CI, com a gestão, organização e uso da informação Essa mudança está associada ao avanço das empresas corporativas e produtoras de informação, que notaram a importância de preservar e garantir a sua acessibilidade; à utilização frequente de instrumentos eletrônicos; e à socialização da internet, com os repositórios eletrônicos de livre acesso (open access). Assim, a CI vai além da informação científica.
Ao analisar as evoluções dos paradigmas científicos entende-se que as mudanças ocorreram quando,
O Simples facto do caracter indirecto das determinações do real científico já nos coloca no reino epistemológico novo. Por exemplo, enquanto se tratava no espírito positivista, de determinar os pesos atômicos, a técnica, sem dúvida muito precisa da balança, bastava. Mas, quando no século XX se separam e pesam os isótopos, é necessária uma técnica indireta. Os espectroscópios de massa, indispensável para essa técnica, fundamenta-se na acção dos campos elétricos e magnéticos. É um instrumento que podemos perfeitamente qualificar de indireto se o comparar com a balança (BACHELARD, 1971, p. 18)
Para o campo de BAD, quando os estudiosos se antecipam em substituir os métodos e eleger um objeto científico, ocorre uma transição paradigmática. A informação como objeto científico, e propriedades definidas e conceituadas com
perspectiva fenomênica e comunicacional, dá-se uma ruptura com o conhecimento comum e com o essencialismo positivista.
Com a evolução tecnológica e criação da TI para aumentar a transmissão de mensagens, a CI é obrigada a rever as suas atividades, outrora herdadas do Paradigma Técnico e Custodial para organização e armazenamento da informação, e assim se estabeleceram conceitos perante o novo modelo e as exigências da Sociedade da Informação.
Figura 5: Evolução do campo de Informação
A Estrutura das Revoluções Científicas de Khun (1962) marca a fase de estudos sobre os paradigmas nas ciências, com a introdução dos conceitos de paradigma, ciência normal, anomalias, crises e revoluções científicas. Segundo Pombo (1998), a percepção de paradigmas simultâneos, ambíguos e antagônicos assume importância no contexto da estrutura de ciências, e que não é possível nem sequer importante saber se um dado paradigma é mais verdadeiro que os outros. Interessa, então, saber que esse paradigma é outra maneira de pensar o mundo e o seu campo de aplicação. É possível ter vários paradigmas coabitando uma área do conhecimento. A possibilidade de haver um paradigma e depois outro não significa que um seja mais verdadeiro. Em paradigmas antigos consideram-se fenômenos
Biblioteconomia: Técnicas de bibliografia; ocupa-se da organização de livros Arquivo: Formação própria; centrado na tipologia documental Documentação: aprimoramento das técnicas ; bibliografias especializadas Informação: Novo termo;
Teoria da informação; tecnologias CI: Investiga as propriedades da informação; relação inter
que os atuais não conseguem explicar.
As revoluções científicas têm como base as mudanças radicais como as crises e rupturas que ocorrem na ciência, ao contrário de uma visão continuísta e cumulativa. Uma revolução científica é uma mudança de visão de mundo, em que os cientistas defendem o velho e o novo paradigma com concepções diferentes do que é a disciplina científica que se ocupam, ou, pelo menos, dos problemas que ela deve enfrentar. Em discussões paradigmáticas, utilizam conceitos teóricos distintos, de tal maneira que, ainda que os termos usados sejam os mesmos, há uma mudança de significado que acompanha a inserção desse termo num ou noutro paradigma (ECHEVERRIA, 2003).
Na década de 1980, o cientista da informação tenta romper com o modelo custodial, que vigora na Biblioteconomia e Documentação, conforme representa a ilustração cinco. O rompimento é propiciado pelos questionamentos sobre a função da CI, seu objeto de investigação e sua posição perante BAD. Assim, a ideia de tornar a CI uma disciplina científica com identidade própria é apresentada.
Nessa condição, as crises, rupturas, erros, mal entendidos, equívocos, analogias, dados empíricos, conceitos, hipóteses, dúvidas, retrocessos e buscas sem saída, assim como as instituições, os instrumentos, as visões, as paixões, que suportam, por assim dizer, os processos cognitivos, constituem o cerne mesmo, em parte latente em parte explícito, de todo campo científico. Pois o êxito ou o predomínio de um paradigma científico está sempre em parte condicionado às estruturas sociais e aos fatores sinergéticos, incluindo eventos fora do mundo científico, cujo efeito multicausal não só é difícil de prever, como também de analisar a posteriori (CAPURRO, 2007).
Capurro (2003) afirma ainda que “[...] a CI tem por assim dizer, duas raízes: uma é a Biblioteconomia clássica, ou em termos mais gerais, o estudo dos problemas relacionados com a transmissão de mensagens, e a outra, a computação digital”. Os estudos dos problemas relacionados à transmissão de mensagens aparecem como um tipo de revolução científica que alcança seu auge entre 1945 e 1960, momento do Paradigma Técnico e Custodial. A partir de 1980, evolui para o Paradigma Pós-custodial com a popularização das tecnologias e a atualização do objeto Informação Científica para Informação Social.
As diferenças entre paradigmas podem ser de ordem epistemológica, de definições, regras heurísticas, métodos aceitáveis; e perceptuais. Mas a teoria de um paradigma deve ser refutada por outras teorias rivais e nunca pela observação nem por uma experiência decisiva.
[...] convém assinalar em primeiro lugar, que a filosofia empirista do conhecimento científico e a filosofia analítica da ciência não deixaram de existir após a viragem historicista, apesar de terem perdido a sua hegemonia. O programa estrutural em filosofia da ciência é, provavelmente, a tendência mais vigorosa neste sentido. Mas até mesmo em tais casos, as antigas teses do empirismo são tidas por superadas, ao mesmo tempo em que se tentam incorporar algumas das contribuições de Khun mantendo a rigor analítico e a defesa da racionalidade que caracterizam a concepção herdada. Todavia o programa estrutural coincide em muitos aspectos básicos com a concepção semântica das teorias científicas e por isso ocupar-nos- emos em primeiro lugar desta tendência [...] (ECHEVERRIA, 2003, p.166-167)
3 FUNDAMENTOS DA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO
O Pólo Teórico de Método Quadripolar encerra as questões relacionadas à teoria da CI, a qual tem a função de indicar os conceitos para a idealização de um instrumento capaz de articular a etapa de estruturação de informação com a de comportamento e produção de informação. Como parte desse propósito, o nível teórico está dividido em dois capítulos, a saber: o presente capítulo que reflete sobre a estrutura inter e transdisciplinar, e a natureza do objeto informação; e o capítulo seguinte que reflete sobre os sistemas de informação no contexto da CI.
O instrumento lógico, que nomeamos de Modelo Semântico para Estruturar Informação (MSEI), tem por objetivo reforçar a localização da informação (findability) em sistemas de informação eletrônicos. Para isso, apoiamo-nos de Intencionalidade da Informação.
Dessa forma, tomando o referencial discutido no Polo Epistemológico, essencial para a questão do paradigma da CI, inferimos que a problematização de uma ciência requer um conhecimento prévio do seu status. Assim, contemplando o caráter do Paradigma Pós Custodial, construimos um instrumento com base na problemática da CI, como a sua estrutura disciplinar e o objeto Informação. A estratégia tem por função identificar as disciplinas que fazem interface direta com a CI e alcançar um entendimento teórico sobre o objeto informação, fornecendo assim as noções fundamentais para construção de instrumentos para estruturar informação. O entendimento sobre a estrutura disciplinar indica os conceitos e elementos relevantes nessa atividade, definindo as fronteiras e mostrando se elas existem. O entendimento sobre a informação indica os objetivos e missões do domínio da CI.
Então, de acordo com os parâmetros de uma CI autônoma, aquela que fornece teorias para idealização de um recurso em particular, apresentamos um instrumento válido, lógico e condizente com a natureza da área.
O capítulo está dividido em duas subseções. A subseção 3.1 revisita os fundamentos dos tipos de estrutura disciplinar e acompanha os fundamentos abordados em autores como, p.e., Pombo (1993, 2006), Piaget (2006), Delattre e Gusdorf (2006). Em seguida, são explicados os tipos de estrutura disciplinar, para
identificar o que está associado às origens da CI. São revisitadas as abordagens e investigações contemporâneas a respeito da estrutura transdisciplinar, que infere sobre a transversalidade do campo de BAD e CI. Essa última análise tem como parâmetros as abordagens de Silva e Ribeiro (2002) e Silva ( 2006, 2006).