“A emoção tem a necessidade de suscitar reações similares ou recíprocas em outrem e, inversamente, tem sobre o outro uma grande força de contágio” Henry Wallon As relações sociais são marcadamente determinadas pelas emoções e pelos sentimentos vividos pelas pessoas, quer ocorram em nível consciente ou inconsciente. Além disso, também existem as emoções e os sentimentos que são autorizados socialmente, ou seja, o momento em que é permitido sentir e expressar abertamente. Assim, consideramos que as influências emociossociais são resultado das emoções e dos sentimentos autorizados pelo paradigma social vigente, ou não.
A partir do momento em que se permitiu pensar sobre as emoções e os sentimentos, vendo a pessoa como um sujeito biopsicossocial também nas relações, constatam-se as trocas de influências nos mais diferentes tipos de convivência.
Ter consciência das influências emociossociais que se sofre e que faz sofrer o outro a partir de si, é, acima de tudo, estar em condição diferenciada nas
relações interpessoais significativas ou não, conforme seja considerada no momento, pois assim manteremos atenção sobre a quantidade e a qualidade das relações e suas ações recíprocas, isso porque nem sempre o sujeito compreende, no momento imediato, o quanto de influência emociossocial tal pessoa ou situação está exercendo sobre ele ou ela, pois uma série de fatores determina tal situação. Para se chegar à condição de identificar os elementos influenciadores nas relações interpessoais, acreditamos ter como fatores necessários a compreensão de:
• Saber quais os elementos internos que favorecem ou não a aceitação dos componentes emocionais ou cognitivos;
• Perceber o quanto de assimilação está existindo na vivência entre os participantes e a própria pessoa.
• Identificar a admiração que se tem para com as pessoas, para se estar atento à receptividade das influências.
A influência das emoções e dos sentimentos nas relações sociais – afetivas e cognitivas – é intensa e muitas das vezes ignorada, o que torna imprevisível as conseqüências da vivência em grupo.
Wallon (1995), que estudou sobre as emoções no comportamento humano e as expressões das emoções e seus fins sociais, salienta que: “a emoção tem a necessidade de suscitar reações similares ou recíprocas em outrem e, inversamente, tem sobre o outro uma grande força de contágio” (p.99).
O ambiente escolar é marcadamente um lugar de encontro, tanto de mesmo nível hierárquico – colegas da mesma turma ou mesma série, ou ainda
professores entre si; ou entre níveis hierárquicos diferentes – colegas de séries diferentes, professores e alunos e outros sujeitos da escola. Assim, este é um ambiente rico em vivências emocionais, apesar de nem sempre serem elas positivas.
Wallon (1995) ainda afirma que “é nas grandes afluências de pessoas, quando mais se apaga em cada um a noção de sua individualidade, que as emoções explodem com mais facilidade e intensidade” (p.99), do que se conclui que a escola é um lugar que propicia tais “explosões de emoções”, permitindo assim ricas e variadas experiências emocio-racionais.
Apesar de a escola buscar certa uniformidade, desde os uniformes, horários, tipos de tratamento etc, a variedade de emoções e sentimentos é múltipla, porque as pessoas são diferentes e a fluidez de emoções e sentimentos está profundamente vinculada aos estados internos das pessoas, constituídas pelas vivências escolares e extra-escolares, e emoções/sentimentos/vivências e conseqüentemente aprendizagens não ficam separados.
Assim, as expressões emocionais são manifestadas e influenciam mutuamente as pessoas da escola, quer como alunos, professores ou quaisquer outros sujeitos da escola.
Na escola se pode observar as tentativas de alguns professores de trabalhar o aspecto emocional dos alunos, porém, quase sempre, sem ter uma proposta fundamentada teoricamente, ficando apenas como algo empírico.
A escola, apesar de não ter explícita no seu currículo tal preocupação, de certa forma, tenta educar as emoções dos seus alunos; porém, como se tem observado, com deficiências sérias, pois jamais será isto possível com um
padrão universal que desconsidere as singularidades afetivas das pessoas. Segundo Goleman, “muitas vezes, nos primeiros estágios das inovações sociais, os pioneiros trabalham sozinhos, não percebendo que seu trabalho criativo faz parte de uma estrutura maior” (In SALOVEY e SLUYTER, 1999, p.9).
À medida que se busca apoiar as atividades pedagógicas nas pesquisas e teorias existentes sobre a questão emocional, o direcionamento de atividades na escola, levando em conta as emoções, permite esperar certas correspondências emocionais, como afirma Wallon (1995):
Fazer com que, nas mesmas circunstâncias e ao mesmo sinal, todos realizem simultaneamente os mesmos ritmos, gestos e atitudes, é evidentemente uniformizar, ao mesmo tempo que desenvolver, os efeitos da emoção; é fazer com que haja identidade de reações e comunhão de sensibilidade em todos. Assim, cada indivíduo se vê unido aos demais pelo gênero de manifestações que o revelam de imediato a si mesmo.(p. 99)
Quando encontramos na teoria walloniana esta perspectiva, não quer dizer que o ser humano deve se robotizar, mas apenas criar condições de manter comportamentos que favoreçam a sociabilidade, com demonstrações afetivas positivas, o que se confirma quando Wallon diz que: “a emoção serviu para essa forma de adaptação que consiste na ação em comum.”(p. 100); ou seja, a interação, que existe entre os sujeitos do processo, permite substancialmente a existência acentuada da influência entre eles.
Almeida (1999), nos seus estudos em Wallon sobre as emoções na sala de aula, escreve: “o desenvolvimento psíquico da criança é marcado pelo meio social, pelas relações que se estabelecem entre os indivíduos. A vida psíquica é resultado das influências do meio humano” (p. 63), o que vem a
confirmar a perspectiva da força das influências emociossociais na relação afetiva.
Jean Piaget, em sua teoria psicogenética, defende a importância das trocas entre o sujeito e o meio, pois a partir das interações existentes, a aprendizagem se define com eficiência. Logo, fica claro que a influência emociossocial, no processo tanto cognitivo quanto afetivo, é uma realidade.
Acreditamos que, por ser a maior missão da escola educar, e não só instruir ou informar, tratando dessa forma tão somente do aspecto cognitivo do aluno, é que defendemos a necessidade de educar o aluno, também, emocionalmente, pois segundo Saltini (1999):
Educar significa ajudar a acordar, ajudar a encontrar no próprio ser o ímpeto, a saudade, a vontade de agir, buscar e descobrir, de crescer e de progredir.
E continua:
Educar significa também, aprender e ensinar a lutar, aprender e ensinar a intensificar a existência e a cumpri-la com decisão e consciência.(p. 46).
Uma educação que busca trabalhar o indivíduo integral, busca oportunizar a vivência de experiências que sirvam tanto para as aquisições emocionais quanto para as racionais; ou seja, transforma a educação num ato afetivo, pois, para Saltini (1999), a educação deve ser um ato amoroso. Segundo Thums (1999), o amor é um sentimento que é “complexo porque dele fazem
parte uma complexidade de sentimentos” (p.70) e para Damásio (2000) o
neocórtex do indivíduo, área responsável pelas atividades cognitivas no ser humano, o que evidencia a estreita relação entre emoção/sentimento e razão.
Contudo, para esta tendência existir, é necessário que haja o cultivo das emoções e dos sentimentos positivos na dimensão escolar que, em especial, deve estar marcadamente presente na relação professor-aluno. Segundo Gurméndez:
Para amar temos que sentir previamente essa presença viva e unitária do nós. Sofrer uma emoção, apaixonar-se, é como exalar-se, uma participação com o sentir dos outros, porque todos deixamos de ser para criar esta realidade comum e originária que somos. Amamos pois, sobre a base ontológica desta estranha e contraditória conjunção do eu e de todos em comum (In THUMS, 1999, p. 71)
A experiência pedagógica demonstra que os alunos que se sentem amados desenvolvem também a capacidade de amar aqueles com quem convivem. Estudar num ambiente favorável emocionalmente é uma grande garantia para a existência de relações interpessoais facilitadoras na aprendizagem, pois os alunos envolvidos nessa situação se sentirão mais seguros por lidarem com pessoas que lhes compreendem.
Para Saltini (1999), transformar a educação em um ato amoroso, “consiste em se querer alguém que nos entenda, nos ouça, nos veja” (p.78), pois, desta forma, teremos mais condições para aprender e apreender as idéias, as emoções e os sentimentos trocados na experiência escolar, marcados pelas influências emociossociais recíprocas.