Uma gama de classificações para os tipos de mapas cognitivos pode ser encontrada na literatura científica. Isso decorre, principalmente, do uso dos mapas cognitivos de modo generalizado, nas mais diversas áreas do conhecimento.
Contudo, no sentido de estreitar o entendimento quanto aos tipos de mapas cognitivos ao contexto em que se insere este trabalho, serão descritos neste tópico os aspectos atinentes à
classificação de mapas cognitivos contemplados na literatura organizacional, uma vez que, nela estão concentrados grande parte dos exemplos de aplicação do mapeamento cognitivo a processos decisórios.
Mesmo restringindo à amplitude dos estudos organizacionais, o número de abordagens ao mapeamento cognitivo é expressivo. Segundo Bastos (2002), o exame da literatura organizacional que utiliza mapas cognitivos revela uma pluralidade de formas de apresentação ou tratamento gráfico desses mapas. Essa diversidade se estende, também, aos caminhos envolvidos na sua construção, às fontes de dados recorridas e às estratégias de análise utilizadas.
Como afirmam Cossette e Audet (1992), ainda que haja um propósito em comum no que tange ao uso dos mapas cognitivos, os pesquisadores podem privilegiar diferentes níveis de intervenção, ou mesmo partir de distintas concepções do que é um mapa cognitivo, o que cria, inevitavelmente, grande diversidade nos seus conteúdos e processos de análise.
Na tentativa de promover uma compreensão ordenada sobre a variedade de mapas cognitivos relatados na bibliografia especializada, Fiol e Huff (1992) estabelecem uma tipologia em que dividem os mapas cognitivos mais aplicados na pesquisa organizacional em três diferentes grupos: mapas de identidade, mapas de categorização e mapas causais.
a) Mapas de identidade
De acordo com Fiol e Huff (1992), os mapas de identidade são o parâmetro elementar e ponto de partida para os demais tipos de mapas. Conforme Bastos (2002), os mapas de identidade permitem descrever o terreno cognitivo ao identificarem os conceitos que as pessoas recuperam para estruturar a sua compreensão de um problema ou domínio particular, por meio do reconhecimento da freqüência com que os conceitos são usados e dos agrupamentos temáticos desses conceitos.
Corrêa (1996) reforça essa idéia ao expor que os mapas de identidade estabelecem uma forma de identificar os elementos-chave da situação. Na visão de Corrêa (1996), esse tipo de mapa permite entender quais são os atores, eventos e processos que se deve levar em consideração em um determinado contexto.
Quanto ao aspecto gráfico, Bastos (2002) defende que os mapas de identidade não possuem um formato padrão ou dominante em sua apresentação gráfica, dependendo, em grande parte, da criatividade e capacidade do pesquisador de dispor no espaço os elementos que estruturam o mapa, de forma a comunicar pronta e efetivamente as informações mais significativas obtidas do sujeito.
b) Mapas de categorização
O segundo tipo de mapas cognitivos, postulados por Fiol e Huff (1992), são os mapas de categorização. Esse tipo de mapa descreve as categorias concebidas pelo indivíduo para estruturar e organizar seus conceitos. Conforme Fiol e Huff (1992), a categorização é operacionalizada por um processo de lógica de oposição, em que o pensamento categórico é usado para identificar similaridades e diferenças entre conceitos e grupos de conceitos. Segundo psicólogos cognitivos, é uma técnica comum para se enquadrar, estruturar e promover um entendimento do ambiente onde se está envolvido (CORRÊA, 1996).
No que se relaciona à forma gráfica, Bastos (2002) descreve os mapas de categorização como figuras tipo árvores, que se desdobram em ramos cada vez menores na hierarquia, à medida em que categorias e sub-categorias de conceitos são representadas no espaço.
c)Mapas causais
Um terceiro tipo de mapas descritos por Fiol e Huff (1992), diz respeito aos mapas causais, muitas vezes tomados como sinônimos de mapas cognitivos, por serem o tipo de mapas mais amplamente utilizados nos estudos organizacionais.
Para Bastos (2002), tal predominância se dá, em parte, pelo enfoque que permeia os mapas causais, voltados à busca pela compreensão das condições que geram decisões de sujeitos singulares, face à necessidade de compartilhamento de visões e coordenação de cursos de ações.
Fiol e Huff (1992) definem os mapas causais como um tipo de mapas que provê o entendimento de como são instituídos os links entre eventos individuais do tempo presente, tendo como base a experiência vivenciada em eventos que tenham acontecido em outros momentos. Essas relações entre eventos, expressas pelos links do mapa, são o resultado de um processo de julgamento do tipo causa-conseqüência que faz o sujeito.
Na concepção de Montibeller Neto (1996), os mapas causais são aqueles em que as ligações relacionais capturam o julgamento dos atores de que certas ações levarão a determinados resultados; tendo como base para esse julgamento, o posicionamento de auto- referência e o processo de comparação categórica.
Similarmente, Bastos (2002, p. 71) se refere aos mapas causais como sendo aqueles que podem ser visualizados como instrumentos que fornecem “uma compreensão dos vínculos que os indivíduos estabelecem entre ações e resultados ao longo do tempo, assim como os pressupostos subjacentes aos julgamentos de que uma ação levará a um resultado esperado”.
No tocante à sua forma de apresentação gráfica, de um modo geral, os mapas causais são, como relata Bastos (2002, p. 70), “redes de associação entre conceitos (nodos), com o uso de setas indicando o sentido de causalidade, e de sinais (+ ou -), a natureza da relação”.
Sob essa perspectiva, a tipologia para mapas cognitivos proposta por Fiol e Huff (1992) denota a classificação dos mapas em três grandes grupos, levando em conta diferentes aspectos dos processos cognitivos. Nos mapas de identidade, o foco é a identificação dos atores, eventos e processos do contexto; nos mapas de categorização, a ênfase é quanto ao
relacionamento entre os atores, eventos e processos; e, finalmente, nos mapas causais, o âmago é o raciocínio causal que liga os atores, eventos e processos ao longo do tempo, embasando suas decisões.
Um esclarecimento deve ser feito quanto ao nível de intervenção dos mapas cognitivos, classificados na literatura em individual ou organizacional. Segundo Cossette e Audet (1992), no nível individual, os mapas são construídos de forma singular para cada ator, sendo que o processo não almeja contribuir em possíveis decisões da organização. No nível organizacional, o pesquisador constrói um mapa coletivo, resultante da agregação dos mapas individuais, tendo como meta principal servir de instrumento para a ação organizacional.
Isso permite inferir que, embora a tipologia de Fiol e Huff (1992) reporte-se às pesquisas organizacionais, sua classificação de mapas é aplicável no nível de intervenção individual, uma vez que, os mapas coletivos organizacionais são oriundos da agregação de mapas individuais, diferenciando-se apenas em função de seus propósitos. Enquanto no nível organizacional espera-se colaborar para as decisões da organização, no nível individual a preocupação restringe-se aos objetivos do sujeito.
Ensslin, Montibeller Neto e Noronha (2001) assumem que os mapas do tipo causal são os que melhor se enquadram à metodologia MCDA-Construtivista, na medida em que viabilizam a representação de uma hierarquia de conceitos, relacionados por ligações de influência (links) entre meios (ações) e fins (resultados), fazendo com que o decisor explicite seus julgamentos de valor correspondentes ao problema em questão (por meio dos conceitos superiores na hierarquia), bem como forneça uma série de meios visando atingir os fins desejados (através dos conceitos subordinados na hierarquia).
Exposta a classificação em que os mapas empregados na metodologia MCDA- Construtivista se inserem, em função de suas características gráficas e de conteúdo, a seção
seguinte pretende apontar as técnicas de mapeamento cognitivo que, fundamentadas nos mapas causais, são aplicáveis ao apoio à decisão.