• Aucun résultat trouvé

Conforme explanado ao longo do texto, a motivação é um processo psicológico dinâmico e complexo que é influenciado por fatores sociais e cognitivos, existindo muitas teorias que tentam explicar este construto (Roberts, 2001), por essa razão, as abordagens mais recentes começaram a integrar diferentes teorias para tentar compreender melhor o comportamento humano

(Wang & Biddle, 2007). A integração de modelos teóricos é uma tentativa de analisar a congruência entre as teorias, tomando em consideração a convergência conceitual e a sobreposição entre os seus construtos para eliminar a redundância e aumentar a parcimônia (Hagger & Chatzisarantis, 2008; Hagger & Chatzisarantis, 2009), ou seja, os investigadores integram teorias com o objetivo geral de suprimir lacunas entre elas e procurar complementaridade que permita uma explicação mais alargada do comportamento (Hagger & Chatzisarantis, 2009). Só assim é possível verificar se as teorias podem ser combinadas num modelo integrado que possibilite a compreensão do comportamento, para que se possa ajudar as pessoas a manter a motivação e o compromisso com a atividade física por longos períodos de tempo (Wang & Biddle, 2007).

Os dois modelos teóricos interagem entre si e as similaridades e as diferenças são encontradas na base de sustentação das duas teorias em questão, uma vez que logo na fase inicial de desenvolvimento da TAD os investigadores reconheceram paralelos com a TOR (Hagger & Chatzisarantis, 2008). De fato, segundo Nicholls (1984, 1989) a orientação para a tarefa envolve a motivação intrínseca para a realização da atividade porque quando as pessoas assumem um compromisso com uma atividade e a vivenciam como um fim em si mesmo, a ênfase é colocada no desenvolvimento da competência, que conduzirá a processos adaptativos que aumentam a motivação intrínseca.

Ao contrário, a orientação para o ego tem uma relação negativa com a motivação intrínseca porque o compromisso com a atividade é assumido como um meio para atingir um fim (instrumentalização da ação) e é dada ênfase na demonstração de competência, que conduz a processos desajustados, os quais são corroborados por Deci e Ryan (1985), já que para estes autores o conceito de orientação para o ego representa um estado controlador interno, no qual a auto-estima do sujeito está dependente de determinados resultados, pelo que este estado pode ser muito motivador (extrinsecamente), mas é provável que enfraqueça a motivação intrínseca, pois ao invés de se envolverem na atividade com uma orientação para a tarefa, as pessoas tendem

a fazer depender a sua auto-estima do resultado da realização (orientação para o ego).

Segundo Deci e Ryan (2000), o envolvimento para a tarefa tem uma relação considerável com a motivação intrínseca num contexto de realização, assim como, o envolvimento para o ego a enfraquece. No entanto, segundo estes autores, apesar do conceito de orientação para a tarefa estar aparentemente bem alinhado com o conceito de motivação intrínseca, o mesmo já não se passa com o conceito de orientação para o ego e o conceito de motivação extrínseca subjacente à TAD, uma vez que existem vários tipos de motivação extrínseca, com graus diferentes de autodeterminação e que têm consequências distintas. De acordo com a TAD, o envolvimento para o ego é apenas um dos tipos de motivação extrínseca (regulação introjetada) (Deci & Ryan, 2000), pois esta é baseada nas contingências relacionadas com a auto- estima e o comportamento é realizado para poder aumentar o ego (e.g. através de sentimentos tais como o orgulho), ou seja, representa uma forma controladora de motivação na qual o self é regulado por pressões internas (Ryan & Deci, 2007b). Mas seja como for, os objetivos de comparação social (que estão inerentes ao envolvimento para o ego), também podem ser associados ao propósito de obter recompensas externas (regulação externa) ou serem regidos por um desejo de desenvolvimento do comportamento (regulação identificada), pelo qual a orientação para o ego pode variar consideravelmente no nível de autodeterminação (Deci & Ryan, 2000), ou seja, pode estar associado quer às formas mais controladoras de regulação da motivação extrínseca (menos autodeterminadas), assim como às formas mais autônomas (mais autodeterminadas). De qualquer forma, segundo Wang e Biddle (2007) a TAD adiciona uma dimensão extra à análise da motivação, além daquela que é proporcionada pela TOR. Por outro lado, se tomarmos em consideração que o contexto social afeta os níveis de autodeterminação do sujeito por facilitar/inibir a satisfação das necessidades psicológicas básicas (Deci & Ryan, 2000, 2008; Ryan & Deci, 2000b, 2002, 2007a), então o clima motivacional percepcionado pode ter um efeito importante na motivação autodeterminada dos praticantes de atividade física (Sarrazin et al., 2007). De

fato, o ambiente social pode fornecer, ou não, as condições necessárias para a motivação autônoma, pois os climas controladores normalmente estão associados à regulações externa e introjetada e os climas que dão suporte à autonomia estão agregados à regulações identificadas, integradas e intrínsecas (Ryan & Deci, 2007a). Em outras palavras, os contextos onde a prática ocorre podem conduzir a uma motivação mais controladora, se for dado mais importância às recompensas, aos castigos e à realização referenciada, ou conduzir a uma motivação mais autônoma se promoverem o suporte/apoio para o desenvolvimento do comportamento autodeterminado.

Após fazerem uma breve reflexão sobre as ligações entre a TAD e a TOR, Deci e Ryan (2000) consideraram que existe uma convergência geral entre os dois modelos, uma vez que ao nível das condições ambientais ambas as teorias sugerem que os ambientes menos avaliativos dão mais apoio ao desejo intrínseco de aprender e promovem a base para aumentar a realização e o bem-estar. Os climas motivacionais orientados para a mestria (tarefa) são promotores de padrões motivacionais adaptativos e estão associados ao aumento do bem-estar psicológico e à persistência no comportamento (Duda, 2001; Duda & Balaguer, 2007; Hagger & Chatzisarantis, 2008; Ntoumanis & Biddle, 1999).

Segundo Ntoumanis e Biddle (1999) e Hagger e Chatzisarantis (2008) um clima motivacional orientado para a mestria é compatível com a motivação autônoma porque contextos desta natureza promovem critérios de sucesso mais intrínsecos e estão associados ao aumento da motivação intrínseca. Em contraste, um clima orientado para o desempenho, que opera numa base onde o critério de sucesso é mais normativo, pode diminuir a motivação intrínseca porque coloca a ênfase nas contingências externas.

De acordo com Kingston et al. (2006) e Wang e Biddle (2007), quando falamos de diferenças individuais na orientação dos objetivos de realização, podemos dizer que a orientação para a tarefa parece estar mais associada a maiores níveis de autonomia (mais autodeterminação) e consequentemente a padrões comportamentais mais adaptativos (e.g. mais divertimento, menos

aborrecimento, mais persistência) e a orientação para o ego aparentemente está mais ligada a menores níveis de autonomia (menos autodeterminação) e consequentemente a padrões mal adaptativos (e.g. menos divertimento, mais aborrecimento, menos persistência). Alguns estudos realizados nos mais diversos contextos da atividade física têm demonstrado empiricamente a ligação entre as duas teorias nesse sentido, principalmente no contexto do desporto (Ntoumanis, 2001; Petherick & Weigand, 2002; Spray, Wang, Biddle, & Chatzisarantis, 2006), educação física (Hein & Hagger, 2007; Murcia, Coll, & Garzón, 2009; Murcia, Hellín, Hellín, Cervelló, & Sicilia, 2008; Wang, Chatzisarantis, Spray, & Biddle, 2002) e exercício físico (Georgiadis, Biddle, & Chatzisarantis, 2001; Murcia, Blanco, Galindo, Villodre, & Coll, 2007; Murcia & Coll, 2006; Petherick & Markland, 2008).

Por outro lado, quando se focaliza a atenção nos objetivos de realização em termos situacionais (clima motivacional), os estudos no contexto da educação física (Cox & Williams, 2008; Fernandes, Vasconcelos-Raposo, Lázaro, & Dosil, 2004; Ntoumanis, 2001, 2005), do desporto (Ntoumanis & Standage, 2009; Pelletier et al., 2001; Sarrazin, Vallerand, Guillet, Pelletier, & Cury, 2002) e do exercício (Murcia, Roman, Galindo, Alonso, & Gonzalez- Cutre, 2008), têm demonstrado empiricamente as relações positivas entre o clima motivacional orientado para a mestria (ou os contextos que dão suporte à autonomia) e as necessidades psicológicas básicas, o que pode sustentar as ligações entre a TOR e a TAD também ao nível situacional, pois o clima motivacional orientado para a mestria é o melhor preditor das necessidades psicológicas básicas, que por sua vez predizem positivamente as formas mais autodeterminadas da motivação.

Em suma, na última década em especial, diversos estudos aplicados aos mais variados contextos da atividade física, têm vindo a demonstrar que as variações dos objetivos de realização (tanto a nível disposicional como situacional) estão associadas a diferentes graus de autodeterminação. Segundo Chatzisarantis e Hagger (2007), parece evidente de que existe uma relação (teórica e empírica) entre os construtos subjacentes à TOR (clima e orientação motivacional) e à TAD (necessidades psicológicas básicas e

regulação comportamental), cujo efeito sobre as mais diversas variáveis é inegável: abandono da atividade (Sarrazin et al., 2002), persistência na atividade (Pelletier et al., 2001), intensidade de prática (Gillison, Standage, & Skevington, 2006), frequência da Atividade Física (Murcia & Coll, 2006; Wang et al., 2002), intenções de prática de Atividade Física (Biddle, Soos, & Chatzisarantis, 1999; Fernandes et al., 2004; Ntoumanis, 2005; Sarrazin et al., 2002), auto-estima (Georgiadis et al., 2001; Hein & Hagger, 2007), percepção de competência (Murcia et al., 2008; Wang et al., 2002), qualidade de vida (Gillison et al., 2006).

As perspectivas objetivadas neste estudo ficam evidenciadas de forma individualizada nas pesquisas citadas acima. Através da junção das variáveis amplamente discutidas neste capítulo (motivação e motivos para prática de exercício físico, necessidades psicológicas básicas, suporte da autonomia, clima motivacional, orientação motivacional e adesão à academia e ao personal

training), procuramos desenvolver esse tema de maneira a buscar soluções

para proporcionar a adesão e a motivação para à prática de exercício físico, seja em razão da organização de programas mais adequados e/ou aprimoramento dos profissionais e do ambiente, para suprir as expectativas e as exigências dos sujeitos avaliados neste estudo.