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4 Propri´ et´ es locales

4.2 Sauts des int´ egrales orbitales pond´ er´ ees stables

2b Tu discerniste meu pensamento de longe. 3b Acostumaste-te com todos os meus caminhos.

Ao contrário das polaridades ou gestos corporais - sentar-se, levantar-se, andar e

deitar-se (v. 2a.3a), o orante refere-se agora ao pensamento do homem. Passa-se do

conhecimento externo do homem ao conhecimento de sua interioridade.

A raiz verbal discernir,ָ perceber, considerar, compreender (

ןיב

) apresentada neste Salmo na ação verbal do perfeito, como segunda pessoa do singular no masculino (

ה ׇתְּנַבּ

). A referida raiz verbal tem vinte e seis presença no livro dos Salmos. Ao olhar para essas vinte e seis ocorrências do verbo discernir, é interessante fazer as seguintes perguntas: Quem está sendo discernido? O que está sendo discernido? Quais são as prováveis consequências do processo de alguém ou algo ser discernido?

Na maioria dos textos paralelos nos Salmos, é o SENHOR, que discerne algo em relação

ao homem, a fim de que a justiça e direito sejam estabelecidos. Também o justo e o sábio podem discernir algo. Ou seja: estes últimos desejam discernir os caminhos e os preceitos do SENHOR, para permanecerem fiéis à Aliança139. Ao contrário disso, os ímpios são incapazes de

discernir os mandamentos do SENHOR.

Neste sentido, o SENHOR discerne o agir dos habitantes da Terra (Sl 33,15). Mais

ainda: o justo pede que o SENHOR discirna o seu gemido a fim de salvá-lo (Sl 5,2). Surge a

139 Cf. WEISER, Artur. Os Salmos, p. 21.

ideia de que o SENHOR, ao discernir algo em relação à situação do homem, atua para fazer

prevalecer o direito. Em outros casos, o justo e o sábio sabem discernir os caminhos e os

preceitos do SENHOR (Sl 37,10; 50,22; 107,43; 119,27.34.73.95.100.104.125.130.144.169).

Além disso, o justo sabe discernir o caminho dos ímpios (Sl 73,17). Todavia, os ímpios não

sabem discernir a vontade e os mandamentos do SENHOR (Sl 28,5; 49,21; 82,5; 92,7; 94,7.8)

por isso, são semelhantes ao gado mudo.

Resumindo: percebe-se que o verbo discernir envolve a ideia de comportamento moral. Trata-se da postura e do comportamento prático do homem, ou seja, de suas ações e de seus

pensamentos em consonância ou não com o projeto de Deus. Com efeito, no contexto da religião do Antigo Israel, acontece que o comportamento moral do homem deve adequar-se à vontade de Deus.140 Por isso, o SENHOR é visto como quem melhor sabe discernir os

pensamentos do homem.

Voltando ao v. 2b, a expressão meu pensamento (

יִע ֵרְל

) é formada pela proposição (

ל

), seguida pelo substantivo masculino singular pensamento (

ַָע ֵר

), que por sua vez, é seguido pelo sufixo da primeira pessoa do singular (

י

). Na Bíblia Hebraica, têm somente duas presenças do referido substantivo: Sl 139,2b.17b. Ainda, estes dois casos respectivamente se referem ao orante (Sl 139, 2b) e a Deus (Sl 139,17b). O termo pensamento traduz uma noção antropológica e sugere algo de íntimo e de oculto.

A expressão de longe (

קוֹח רֵמ

) é formada pela preposição (

־ןמ

), seguida pelo adjetivo masculino singular longe, distante, longínquo (

קוֹח ר

). O referido adjetivo tem sete presenças no livro dos Salmos.

Em três dos textos paralelos, o adjetivo longe ou distante sugere a ideia de ausência ou de abandono. Por isso, o justo grita para o socorro do SENHOR que parece estar longe dele

no momento de angústia (Sl 10,1; 22,2). Semelhantemente, o justo perseguido afirma que os

seus parentes ficaram longe dele no momento da desgraça (Sl 38,12). Nos outros quatro casos, o adjetivo traz a noção de grande distância, no espaço e no tempo (Sl 56,1; 65,6; 119,155; 139,2b).

Enfim, v. 2b denota o profundo e perfeito conhecimento que o SENHORtem da vida do

orante. O adjetivo

ָ

distante ou longe reforça a ideia da extraordinária capacidade e supremacia do SENHOR em conhecer quem reza aqui. Tal conhecimento do SENHOR no que se refere ao

orante é profundo quanto verdadeiro. Por isso de longe o SENHOR o conhece, até no

pensamento. Afirma-se que o SENHOR conhece a gênese dos pensamentos do orante. Ou seja:

Deus conhece os pensamentos do homem antes que cheguem à mente.

É interessante ressaltar que não obstante as coordenadas de tempo e espaço, o SENHOR

conhece as intenções e os projetos do coração do homem (Sl 33,14-15). Neste sentido, ao contrário dos seres humanos que somente podem avaliar as intenções dos seus companheiros seres humanos pelas suas ações e palavras, Deus conhece e discerne o pensamento da pessoa antes desse ser concretizado (v. 2b).

Em relação ao pensamento, o homem não pode enganar a Deus como se engana outro homem (cf. Jó 38-40). Enquanto o homem avalia apenas olhando pela aparência, Deus, ao contrário, é capaz de ajuizar e discernir o pensamento do ser humano (cf. Jr 12,3; Ez 11,5; 1Cr 28,9; Sl 44,22; 94,11). Desta forma, o SENHOR desmascara a falsidade e/ou a verdade

presente no intimo do ser humano. Por isso, diante de Deus, o homem não tem como se esconder, surge o que está no seu interior. (Hb 4,12-13). Entrar em relação com o SENHOR

homem permanece descoberto e conhecido. O SENHOR conhece minuciosamente o

pensamento do ser humano.

No v. 3b faz uma descrição sóbria, mas programática da relação entre o SENHOR e o

orante. Menciona com poucas palavras a natureza e o teor da relação entre o SENHOR e quem

reza aqui.

O verbo acostumaste (

ה תְּנַכְּס ׅה

) aparece no perfeito Hifil, apresentando a segunda pessoa no masculino singular da raiz verbal acostumar (

ןכס

). O SENHOR é sujeito. É Ele quem pratica

aqui a ação de habituar-se ao cotidiano da vida do orante. A raiz verbal acostumar-se (

ןכס

) tem dez presenças em toda a Bíblia Hebraica. Ao pesquisar essas presenças, é interessante fazer as seguintes perguntas. Quem está acostumado? Com quem ou que? Quais são os significados desse verbo?

A raiz verbal pode expressar o costume da jumenta (Nm 22,30). Há casos onde a ela indica que algo é útil ou não a Deus ou ao homem (Jó 15,3; 22,2; 34,9). Além disso, o homem é chamado a acostumar-se e/ou familiarizar-se com Deus (Jó 22,21).

Em vista de v. 3b no Sl 139, pode se dizer que o SENHOR protagoniza uma relação

familiar com o orante. Imagina-se uma maior harmonia entre o SENHORe quem aqui reza. O

verbo acostumaste é enfático e traz o pensamento de Deus está familiarizado com o

comportamento correto ou errado do orante e isso há tempo. Ou seja: o SENHOR se apegou à

vida do orante e o conhece intimamente.

Resumindo: em v. 2a.3a é apresentado o conhecimento que o SENHOR tem das atitudes

exteriores, e com isso, do comportamento do orante. Em v. 2b.3b de forma mais genérica, insiste na questão que Deus conhece até as decisões morais do homem, assim como estas que

ocorrem no pensamento (v. 2b) e depois ganham visibilidade por meio do comportamento da pessoa (v. 3b). Quer dizer: estão sendo contempladas decisões e ações do homem.