Nesta medida, a abordagem aos dois casos de estudo integra três frentes de análise
complementares. Uma primeira dimensão de análise que centramos na realidade existente,
em termos da caracterização dos recursos, dos agentes (estruturas públicas e privadas) e das actividades culturais e artísticas mais significativas presentes nestes territórios municipais, a qual permite compreender o modo como, na situação actual, o sistema e as dinâmicas culturais se manifestam face ao conjunto de chaves de leitura conceptuais e de perspectivas teóricas enunciado.
Uma segunda frente de análise, que incide sobre a evolução da situação nos últimos anos (10 a 20 anos), e em especial, sobre o modo como evoluíram, durante esse período, algumas das principais estruturas artísticas e culturais locais e a política cultural da autarquia. Esta segunda dimensão de análise permite compreender alguns dos factores explicativos da situação presente, nomeadamente, em termos do modo como as políticas públicas assumidas por estes dois municípios contribuíram para a realidade do sector cultural nos seus territórios. Ela contribui para a compreensão da evolução da realidade cultural local e dos factores essenciais que estão na base da menor ou maior consubstanciação de processos de clustering ou de formação de distritos culturais e da evolução local das formas e práticas de governance.
Por fim, abordamos os dois casos segundo uma terceira dimensão, de natureza mais prospectiva, que integra uma reflexão sobre as perspectivas locais em termos das prioridades de estratégia e de acção futura para o sector cultural, quer no quadro de acção dos agentes artísticos e culturais ouvidos, quer no quadro da política municipal. Esta terceira vertente de análise contribui para compreender o modo como os responsáveis locais, seja ao nível da
autarquia, seja dos outros agentes culturais, visualizam o desenvolvimento futuro do sector cultural e o seu papel no processo de desenvolvimento local. Neste caso, a análise permite para além de perspectivar sinais de evolução futura, compreender de que forma é que os próprios responsáveis locais, públicos ou privados, se posicionam face às chaves de leitura conceptuais adoptadas neste trabalho de dissertação.
Essas três dimensões de análise são complementadas, a par e passo, por diversas questões de contextualização do sector cultural nos domínios social, económico, institucional e territorial, dentro do contexto administrativo municipal ou, sempre que justificado, dentro de contextos mais alargados (regionais ou nacionais).
As dimensões de análise propostas, que estruturam o guião das entrevistas (conforme exemplar no Anexo 1), são as seguintes:
a) Recursos, tecido institucional e dinâmicas culturais e criativas urbanas / locais
1. Recursos culturais e artísticos específicos;
2. Actividades culturais e artísticas, industrias culturais e industrias criativas – estruturas organizativas, actores, competências, bens e serviços culturais e criativos, mercado, financiamento / público e privado / presença e dinâmicas;
3. Processos de emergência e de fixação: factores explicativos;
4. Relações de estruturas e actores culturais com outros espaços exteriores 5. Formas de relacionamento, cooperação e organização, formal e informal, no sector cultural e criativo / criação, produção, mercado e fruição
c) Contexto urbano /local
1. Traços gerais das estruturas e das dinâmicas económicas, sociais e ambientais 2. Formas e domínios de relacionamento do sector cultural e criativo com outros sectores económicos, sociais e ambientais locais
d) Políticas públicas municipais para a cultura
1. Políticas municipais para a cultura nos últimos 10 a 20 anos: objectivos, programas, instrumentos, resultados
2. Dimensões de governação e governance no sector cultural: participação, networking, cooperação público - privada, etc.
3. Relações entre políticas culturais e outras políticas municipais de desenvolvimento urbano e local / de competitividade, de coesão e de sustentabilidade
e) Tendências de desenvolvimento prospectivo
1. Evolução do sector cultural e criativo: organização e relacionamento ao nível da criação e produção, da distribuição e do mercado, do consumo e fruição
2. Factores críticos de evolução do sector cultural e criativo
3. Novos instrumentos e abordagens das políticas municipais orientadas no sentido de valorizar a cultura e criatividade como factores de desenvolvimento local.
A realização do trabalho de campo, que se prolongou entre 24 de Novembro de 2009 e 4 de Janeiro de 2010, teve como base de partida duas conversas exploratórias com
interlocutores privilegiados locais no sentido de seleccionar o universo de pessoas a entrevistar. Desse modo, para além de responsáveis políticos e técnicos das duas autarquias abrangidas, identificámos um conjunto de agentes culturais mais relevante, sedeados nos dois concelhos, garantindo uma cobertura relativamente completa das diversas áreas de acção, desde as questões do património, à produção e difusão de actividades artísticas (artes performativas, música, artes visuais). Procurámos, igualmente, incluir no conjunto de entidades entrevistadas, a diversidade possível de formatos institucionais dos agentes, considerando que esta opção enriqueceria os resultados do estudo (a lista integral de entidades e pessoas entrevistas é apresentada no Anexo 2). No caso dos responsáveis políticos das autarquias tentou-se alargar as entrevistas outros membros do Executivo Municipal não exclusivamente centrados no domínio cultural, como aconteceu no caso da Câmara Municipal de Vila do Conde, beneficiando deste modo de uma informação plural e multifacetada sobre a integração da cultura nas estratégias e políticas de desenvolvimento local.
Algumas das entidades contactadas acabaram por não ser incluídas no trabalho de campo (por falta e dificuldade na disponibilidade de agenda), de qualquer modo, nestes casos, procurámos obter alguma informação documental sobre a sua actividade. Consideramos, no entanto, que o número e diversidade de pessoas entrevistadas representam o essencial das dinâmicas e das estruturas culturais e artísticas que intervêm e contribuem para a performance e o desenvolvimento cultural dos dois concelhos. As entrevistas foram realizadas segundo o guião elaborado (Anexo 1) e a informação recolhida foi, na maioria dos casos, completada por material documental fornecido pelas entidades (programas de actividades, folhetos ou flyers de actividades, publicações e catálogos, etc.).