Kant apontava a via do esclarecimento como pressuposto básico para o homem sair de seu estado de menoridade. No texto O que é esclarecimento Kant (2010) ressalta que é possível que um público se esclareça se lhe for dada a liberdade, liberdade esta pensada no exercício e na possibilidade dos seres humanos fazerem uso “público de sua razão” em todas as questões (KANT, 2010, p.65).
Uso público da razão se configura como a forma de esclarecimento no qual os seres humanos podem raciocinar e se posicionar como cidadãos do mundo. Entretanto, quando a liberdade dos seres humanos for limitada ou cerceada, eles poderão fazer uso “privado da razão” (KANT, 2010, p.65). Uso privado da razão significa o uso limitado e doméstico da mesma como, por exemplo, uma pessoa o faz no exercício de uma determinada função que lhe foi confiada no trabalho na qual, para exercê-lo, deve obedecer a certas determinações da instituição e acatar regras. Entretanto, nada lhe impede de, na posição de cidadão do mundo, desenvolver uma consciência sobre as questões sociais e políticas que afligem sua realidade, e ao mesmo tempo, se posicionar diante das contradições ali produzidas.
Para Kant, fazer uso público da razão é o mesmo que buscar o esclarecimento, entendido como a manifestação política dos seres humanos para assegurarem a sua maioridade. Segundo o autor, seria um crime contra a natureza humana renunciar uma época ao esclarecimento, pois isto significaria “ferir e calcar aos pés os sagrados direitos da humanidade” (Kant, 2010, p.69).
Segundo Pucci (1995), Kant não propõe uma mudança radical da ordem estabelecida com a busca do esclarecimento, mas uma “revolução dentro da ordem” (PUCCI, 1995, p.21). O uso privado conjuntamente com o uso público da razão representam, portanto, essa forma de transformar o mundo de uma forma não
radical, uma vez que Kant entende que o esclarecimento dos seres humanos se dá de forma lenta e gradativa.
A dimensão emancipatória da razão Kantiana desenvolveu-se dentro de um contexto mundial em que os ideais da revolução francesa efervesciam. A busca de liberdade e igualdade era defendida pela burguesia francesa, e disseminava o gérmen emancipatório por toda a Europa, do qual Kant tomou partido favorável.
Dessa forma, Kant via nos ideais do iluminismo as potencialidades dos seres humanos fazerem uso público de sua razão em direção ao esclarecimento, e isso era justificado principalmente por seu país, a Alemanha, ser extremamente dividido e governado por déspotas (PUCCI, 1995).
2.1.2. O enfraquecimento da Razão emancipatória
No texto Conceito de Iluminismo, Horkheimer e Adorno (1975) mostram como a razão iluminista burguesa, em sua versão primeira, continha, de forma vinculada, as dimensões emancipatória e instrumental. Para os autores, a razão emancipatória se relacionava com os processos que conduziriam os seres humanos ao esclarecimento, enquanto que a razão instrumental era vista como preponderante para instrumentalizá-los em direção ao desenvolvimento da ciência, cujos benefícios se estenderiam a todos. Dessa forma, a razão instrumental estaria a serviço da razão emancipatória.
Porém, historicamente, a burguesia priorizou a razão instrumental para o desenvolvimento da ciência em prol do fortalecimento do capitalismo. A razão instrumental e o enfraquecimento da razão emancipatória serviriam, desta forma, como um meio para consolidar o poder político, econômico e social da classe burguesa.
Horkheimer e Adorno (1975) demonstraram que o programa iluminista se descaracterizou na era do capitalismo moderno, uma vez que o saber proporcionado pelo desenvolvimento da ciência estava a serviço da economia política burguesa, a qual impunha seu domínio e poder sobre as demais classes sociais. É importante destacar que os teóricos da Escola de Frankfurt expressavam uma forte crítica na “fé inabalável do modernismo na promessa de racionalidade iluminista para salvar o mundo” (GIROUX, 1986, p.26). Diante dessas considerações, os autores do texto
Conceito de Iluminismo deixam claro que o potencial libertador ligado à razão emancipatória foi ofuscado pelo processo histórico do fortalecimento da instrumentalização da razão.
Segundo Giroux (1986), os teóricos da Escola de Frankfurt, como Adorno, Horkheimer e Marcuse, acreditavam que essa forma de racionalização instrumental infiltrava fortemente em todas as esferas da vida cotidiana, seja por meio dos meios de comunicação de massa, como rádio e televisão, ou de organizações sociais que envolviam a educação e o trabalho.
Horkheimer e Adorno (1975) denunciam este processo que culminou com a ciência sendo utilizada para dominar não somente a natureza, mas também os próprios seres humanos.
A técnica é a essência desse saber. Seu objetivo não são os conceitos ou a imagem nem a felicidade da contemplação, mas o método, a exploração do trabalho dos outros, o capital. (...) O que os homens querem saber da natureza é como aplicá-la para dominar completamente os homens. (HORKHEIMER; ADORNO, 1975, p. 98).
Para Horkheimer e Adorno (1975), os seres humanos passaram a interpretar a vida de uma forma linear e positivista, na qual a “verdade” se transformou em sinônimo de lógica matemática. A vida matematizada substituiu o “conceito pela fórmula, a causa pela regra da probabilidade” (p. 98). Segundo Zuin et al. (2008), a lógica matemática positivista assume a dimensão absoluta, dentro da qual uma interpretação uniforme e linear da vida é valorizada, com a dimensão poética e subjetivista de interpretação da vida sendo desqualificada.
Essa forma tradicional e positivista de tratar tudo e todos como sendo um número, como “coisa” visando à multiplicação do poder dos seres humanos sobre si mesmos teve, segundo Horkheimer e Adorno (1975), um preço muito alto que foi a alienação do próprio ser humano, uma vez que a redução da força da razão emancipatória de Kant estava no cerne desse processo. Assim, a instrumentalização da razão por meio da ciência e da tecnologia neste processo foi usada para “coagir os homens à conformidade com o real” (HORKHEIMER; ADORNO, 1975, p.104).
Desta forma, a denúncia ao positivismo pelos autores foi no sentido de ele ocupar, com a razão instrumentalizada, o lugar da razão esclarecida Kantiana, e assim reduzir o pensar dos seres humanos e dificultar o pretenso processo de esclarecimento dos mesmos, uma vez que sua consciência foi domesticada,
coisificada. Para os autores, o ser humano deixou de lado o projeto inicial iluminista da exigência de “pensar o pensamento”.
O pensamento, para os teóricos da Escola de Frankfurt, deveria ser construído de forma dialética, no sentido de auxiliar a busca das verdades dos fatos e da realidade na qual o ser humano se insere. O pensar dialético requer a procura dos desdobramentos históricos e sociais imbricados com a realidade dos homens e mulheres. Segundo Giroux (1986, p.34), um dos elementos constitutivos da Teoria Crítica da Escola de Frankfurt se inspira “no dito de Nietzsche de que uma verdade deve ser criticada e não idolatrada.” Essa função desmascaradora da verdade incondicional representa o espírito crítico da Teoria Crítica e deve ser articulada ao pensamento dialético.
O pensamento dialético refere-se tanto à crítica quanto à reconstrução teórica. Enquanto modo de crítica, revela valores que são frequentemente negados pelo objeto social que analisa. A noção de dialética é crucial porque revela “a insuficiência e a imperfeição dos sistemas acabados de pensamento... Ela revela a incompletude onde se alega a completude. Ela abarca aquilo que é em termos daquilo que não é, e aquilo que é real em termos das potencialidades ainda não realizadas.” (HELD, 1980, apud GIROUX, 1986).
Dessa forma, a busca pela razão emancipatória dos seres humanos, de fazerem uso público de sua razão, é uma das utopias dos teóricos críticos de Frankfurt. As formas históricas e sociais com que homens e mulheres, sob o domínio dos próprios seres humanos, foram extirpados da sua consciência devem ser entendidas para que se inicie uma nova busca pelo fortalecimento da razão emancipatória e libertatória dos mesmos. (PUCCI, 1995).
Diante disso, podemos perceber como a própria valorização da razão instrumental conduziu os seres humanos para o seu processo de alienação, amparada pela uniformização de suas funções intelectuais, que os impedem de pensar sobre si mesmos, uma vez que suas ações sempre estão de forma implícita e explícita tuteladas por outrem, fazendo-os permanecer na menoridade destacada por Kant.
Para os teóricos de Frankfurt, o resgate da luta pelo esclarecimento é uma exigência política a ser perseguida, e será objeto de suas reflexões e contribuições visando o processo de emancipação dos seres humanos.