• Aucun résultat trouvé

A terceira e última parte do presente capítulo, sendo a segunda do corrente item, se dedica ao apontamento dos investimentos chineses que chegaram ao Brasil através da instalação de empresas estatais (sendo a partir deste ponto mencionadas, quando necessário, por SOEs, sigla em inglês para state owned enterprises) ou semi-estatais do país asiático (constituindo projetos do tipo joint ventures e greenfield, em sua maioria, e alguns caracterizados como brownfield) e como se dá a sua distribuição por setores da economia, tendo havido um claro redirecionamento dos esforços a partir de 2010 para a garantia do fornecimento de serviços, principalmente energia elétrica, transportes e comunicação (AVENDANO et. al., 2017), e de commodities agrícolas para a China. A respeito destas últimas, ressalta-se que a priorização do abastecimento chinês com produtos agropecuários não necessariamente implica em um movimento crescente de compra de terras por empresas ou pessoas jurídicas chinesas ou, ainda, no maior ingresso de empresas do agronegócio no espaço nacional. Como veremos, a preocupação dos investidores e, por conseguinte, do Estado chinês, é a compensação do que Myers (2018b) chamou de “gritante déficit de infraestrutura” que é inerente ao país asiático, mas que, ao ser transposto para o Brasil e outros países da América Latina, aumenta a eficiência dos envios de produtos primários ao país, notadamente a soja e os minérios de ferro – igualmente visados pela China, mas cuja resposta à demanda atinge em maior grau o envio do produtos, analisado no item anterior. Ademais, algumas das empresas instaladas e o tipo de serviço que elas proveem podem representar o incremento produtivo das principais lavouras que são de interesse chinês, não envolvendo a aquisição de lotes de terras. Voltaremos a essa temática na última parte de nosso trabalho.

Mencionada algumas vezes no presente trabalho, o que incita o maior ingresso das empresas chinesas em outros contextos nacionais – e regionais, se se considera a América Latina e a coerência ou homogeneidade dos investimentos em relação aos setores preteridos nos países – é o estimulo dado pelo Estado da RPC à internacionalização de suas empresas nos primeiros anos do século XXI, reunidos em um conjunto de medidas que ficou conhecido como estratégia Going Out ou Going Global, podendo ser encontradas outras variações na literatura. Essa política se desdobra em duas diferentes etapas, sendo a última estendida, mais recentemente, à Iniciativa Belt and Road (BRI, na sigla em inglês que adotaremos a partir

deste momento ou ainda One Belt, One Road – Um Cinturão, Uma Rodovia) (figura 3.1), que tem como abrangência espacial os mesmos países por onde se estabeleceu a antiga Rota da Seda e se interconecta com outros espaços nacionais nas quais a China possui investimentos em andamento, especialmente nos países latino-americanos. Em matéria sobre o projeto, o jornal Le Monde Diplomatique descreve a nova investida do país asiático como sendo um processo de “globalização à Chinesa”, visto que: “Longe de ser uma simples plataforma de cooperação econômica transregional, é um ambicioso projeto geopolítico; caso venha a ser colocado em prática, terá efeito cascata em todo o mundo.” (ABDENUR; MUGGAH, 2017).

Tratando em um pouco mais de detalhes cada uma das etapas da Política Going Global, fica clara a maneira como se processam as fases de ingresso do capital chinês no território brasileiro, seja ele através da aquisição de commodities, as quais se concentram no setor agropecuário, seja por meio da transferência de SOEs chinesas para outros países. O excerto traduzido abaixo descreve o objetivo principal da primeira etapa da estratégia de internacionalização da China, acontecendo no intervalo de tempo que compreende o ingresso no país na Organização Mundial do Comércio, em 2001, e o ano de 2012:

“Os primeiros anos da Going Global coincidiram com a admissão da China na OMC. Atinge maior velocidade sob a liderança Hu-Wen (2002-2012). A crise financeira global (2008-10) viu picos de aspiração: o Partido mudou de pensar o país como um estrangeiro atrasado, para detentor de soluções culturais únicas para os problemas da nação. A Going Global 1.0 proveu a estrutura para guiar firmas à procura por recursos e mercados offshore. Para os players domésticos, isso significou a exportação de práticas bem sucedidas dentro do mundo dos negócios da RPC. Os resultados foram mistos.” (CHINA POLICY, 2017, p. 3, tradução livre)63

63 Do original: “The first years of Going Global coincided with China’s 2001 admission to the WTO. It hit high gear under the Hu–Wen leadership (2002–12). The global financial crisis (2008–10) saw aspirations peak: the Party moved from thinking of the country as a late-starting outlier, to possessing unique cultural solutions for other nations’ problems. Going Global 1.0 provided a framework for guiding firms to find resources and markets offshore. To domestic players, this meant exporting practices that worked within the PRC business world. Results have been mixed.” (CHINA POLICY, 2017, p. 3)

Figura 3.1. – Mapa simplificado com os principais corredores que compõem o projeto chinês

One Belt, One Road

Fonte: CHINA’S BRITAIN Business Conceil; FOREIGN & Common Wealth Office. One Belt One Road – A role for UK companies in developing China’s new initiative. Disponível em:

<http://www.cbbc.org/cbbc/media/cbbc_media/One-Belt-One-Road-main-body.pdf>.

Em quadro comparativo das duas etapas da Going Global, o documento referenciado acima indica que enquanto a primeira tinha como foco a resolução das fontes de matérias-primas escassas na China contemporânea, a fase 2.0 como é chamada busca por retornos dos investimentos que foram realizados anteriormente. Para além disso, procura: estimular a demanda global, alterar portfólios de investimento, evitar a divisão das elites políticas chinesas e fazer a fusão dos empreendimentos chineses com os locais, diferente da primeira etapa que promovia a propagação do modelo chinês (CHINA POLICY, 2017, quadro da p. 4). A BRI se insere dentro desse quadro, sendo descrita como uma “expressão geopolítica” da Going Global 2.0, “procurando construir conexões em infraestrutura, comércio, investimentos e humanas ao longo da Eurásia” (CHINA POLICY, 2017, p. 6, tradução livre). Não somente os continentes Europeu e Asiático passam a integrar o seleto grupo de localidades a serem afetados pelos projetos de expansão chineses, mas alguns dos mais significativos empreendimentos realizados por firmas oriundas da China em infraestrutura ferroviária, rodoviária e de eletricidade na América do Sul, principalmente, são anunciados como parte da BRI a partir de 2017. Este feito, descreve Myers (2018b), gera

Documents relatifs