Para entender o corpo que pratica a errância dançada na cidade, bem como a dança que surge desse processo de encontro com o imprevisto no espaço urbano, me propus dar a permissão a toda e qualquer sensação que surgisse, de ser aceita e vivenciada. Nessa caminhada, esbarrei em alguns desafios.
Inicialmente, desafios que resultaram em alguns escritos que acoplei ao texto dissertativo, também como uma forma de incitar o leitor a vivenciar a imprevisibilidade. Lidar com o transtorno de ansiedade (TAG) é um desses, que me acompanha desde muito nova, mas que se mostrou de outras formas durante a produção desta pesquisa e, devido a ele, precisei modificar o formato que planejava pôr em prática.
As deambulações pelas ruas de Natal, que estavam pensadas para serem realizadas em grupo, com voluntários e convidados da área das artes cênicas, tomaram um rumo diferente, ainda no primeiro ano de mestrado, quando passei a ter fortes momentos de instabilidade emocional. Em respeito aos colegas e ao meu próprio ritmo, optei por estar só – mesmo que, na prática, não estivesse, afinal a relação com a cidade é, também, uma relação de troca com pessoas e suas rotinas, com a cidade e sua história percebida.
Em virtude desses momentos de instabilidade, passei a duvidar da área que escolhi para minha formação acadêmica. Questionei a natureza deste trabalho e a minha capacidade de levá-lo para frente, por se tratar de uma pesquisa em dança. Apenas ao entender as mais variadas formas de ver e produzir a dança, percebi que estava certa ao questionar, pois minhas inquietações estavam ligadas a compreensão de uma dança que se faz para o espetáculo, todavia, notei que a dança surgida da vivência com a cidade não, necessariamente, é essa que se volta a criar um resultado ligado à apreciação estética, somente, mas a possibilidade de vivenciar as potências do sentir – que pode, também, virar espetáculo, se for o objetivo de quem a praticar.
Outra adversidade encontrada não demorou muito a aparecer. Assumir a vulnerabilidade de estar na cidade, em uma posição que gera estranhamento aos demais que também a habitam e que, por consequência, acaba por deslocar a atenção dos transeuntes de seus afazeres, para aquela situação não-convencional. Permiti me colocar a vista, algumas vezes sem proteção, e senti medo, mas precisei percebê-lo, acolhê-lo e transformá-lo também, em movimento dançado.
E a esse movimento de dança devo a possibilidade de conhecer novamente a cidade onde nasci, cresci e me criei enquanto sujeito das minhas próprias ações. Pude, devido a ela, redescobrir não apenas os caminhos ainda não percebidos, dentro de Natal,
mas entrar em contato com a mais sincera manifestação do meu ser. Encontrei a permissividade de deixar vir à tona as angústias e felicidades de percorrer as ruas dos bairros que mais me tocaram, neste trajeto, como também a de abrir meus processos pessoais de autorrespeito, autocuidado, minhas dúvidas e inquietações surgidas durante a pesquisa executada.
À dança, dedico todos os agradecimentos, pelas crises profissionais, pelos encontros, pelas descobertas pessoais, mas principalmente, por me fazer entender que essa errância caminhante, dançante, perdida na cidade, só se fez presente como tema desta pesquisa, por estar tão intimamente ligada ao que trago dentro de mim. O sentimento é o de buscar na cidade, nas ruas, uma nova forma de aproveitamento dos espaços, mas, ainda maior que isso, o de buscar em mim, a possibilidade de só ser e abrir mão dos julgamentos, cobranças.
Então, ao questionar sobre quais significações são criadas ou atualizadas ao usar de movimentos improvisados nos espaços da cidade pela errância, afirmo serem aquelas que, ao ser o corpo que percebe atentamente os espaços, capta as sensações que a relação com a própria cidade proporciona (a tristeza, o desconforto, a alegria, o pertencimento) e comunica-as por meio do gesto dançado – efêmero, pois se atualiza em cada momento que se sente – oferece de volta à cidade, à sua própria maneira, o que sentiu vir dela. Ou seja, as significações criadas ou atualizadas na cidade, são as próprias sensações e sentimentos que surgem na troca com as ruas. As sensações e sentimentos de ser corpo que dança e de ser cidade.
Também, ao pensar em como a cidade afeta a dança e a dança afeta a cidade, compreendo que cidade e dança afetam-se mutuamente, a medida que se sente e se produz a partir do que se sentiu. Ao sentir medo, a cidade afeta a dança em movimentos controlados, introspectivos. Ao dançar o medo sentido, a dança afeta a cidade com as qualidades de movimento que surgem e comunicam a insatisfação e o incômodo de estar neste lugar. Se é o medo, se dança o medo.
Entendo que para cada errância, de cada ser, cada pessoa que se propuser a realizar uma prática – mesmo que muito similar à descrita neste trabalho – envolvendo o perder-se voluntariamente na cidade, haverá uma percepção distinta das reações do corpo na cidade e da dança ou linguagem que aparecer como expressão desse sentir.
Por isso, reitero o que disse no início deste escrito quando elenquei o que considero ser um não-objetivo: não pretendo entregar uma obra finalizada, que marque uma verdade a ser seguida, todavia desejo que este texto dissertativo possa ser a abertura
de possibilidades de conhecer a cidade para além do cotidiano. Que as discussões levantadas aqui sejam inquietadoras para quem as lê e façam surgir a vontade de perder- se em meio as sensações que a cidade pode proporcionar.
Entretanto, deixo abertas as possibilidades de continuação desta pesquisa. Durante o processo de leitura e escrita, me surgiram temas que me motivaram a aprofundar o estudo nos campos da estesiologia, do método fenomenológico e das artes – ampliando para outras linguagens artísticas. Senti a demanda de ir mais fundo nos estudos estesiológicos e me aprofundar na ontologia da dança, porém, o tempo para produzir sobre esses assuntos, não foi o suficiente.
Dessa forma, compreendo que, durante o processo de pesquisa e escrita dessa dissertação, poder iniciar o estudo das práticas que trabalhem com a sensibilidade e suas potências para criação em diversas linguagens artísticas, desencadeou em mim, o desejo de conhecer mais sobre essa maneira de composição e produzir, academicamente e artisticamente, sobre esses temas. Notei a necessidade de abrir novos horizontes para outras formas de criação em arte com as quais me identifico, como a fotografia, e estabelecer relações entre elas e práticas corporais que envolvam o sentir, as manifestações do ser.
Em resumo, defino esta pesquisa em uma única palavra: ser. Quando se é, se sente, se dança, percebe e vive. Eu sou a cidade, eu sou a dança, eu sou o corpo que sente, eu sou o que se sente no corpo. Eu sou o que está lá, assim como Leminski (2013, p.45) escreveu:
A árvore é um poema Não está ali Para que valha a pena Está lá Ao vento porque trema Ao sol porque crema À lua porque diadema Está apenas Estar e apenas ser, sentir e expressar. Poetizar pelo simples ato de se fazer presença. Na cidade eu fui. Nas ruas eu sou. Eu serei e continuarei sendo e me atualizando, a cada nova forma que decidir ser e, novamente trago Leminski no poema Curitibas e afirmo que “Ser, eu sei. Quem sabe, essa cidade me significa” (LEMINSKI, 2013, p.250).