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SAMENVATTING

Dans le document THEIR MELOIDOGYNE (Page 50-53)

Embora nosso foco não recaia sobre a análise de imagens, optamos por observar e discutir a imagem do logotipo do JE, constante da página do Programa no Facebook, como uma mostra de como outras formas de materialidade também operam entre os modos de agenciamento do Programa, em conjunto com a materialidade linguística. Além disso, trata-se de uma imagem que atrai a atenção de quem busca informações online e que, a nosso ver, é bastante coerente com a proposta da Embaixada. O logotipo que trazemos é o que foi utilizado na divulgação do processo seletivo de 2015, que selecionou jovens para a viagem de 2016. O gesto interpretativo que fazemos sobre essa imagem respalda-se na perspectiva de leitura preconizada por Coracini (2015) e na noção de “intericonicidade”, de Courtine (2013).

Segundo Coracini (2015, p. 123), “o gesto de leitura apela diretamente para o olhar, pois lê-se a partir de sinais – gráficos ou não, quer se trate de texto verbal ou não verbal”. Assim, a imagem que trazemos pode e deve ser lida como um texto que cumpre determinados propósitos no contexto em que se situa e que, portanto, produz efeitos de sentido que devem ser observados.

Courtine (2013, p. 42) relaciona imagens a um modelo de discurso, argumentando que “o discurso tanto pode ser um fragmento de imagem quanto uma centelha de linguagem”. O autor empresta da noção de memória discursiva (apresentada em 1.7) sua argumentação para a análise de imagens. Assim como, no caso da memória discursiva, “não existem discursos que não sejam interpretáveis sem referência a uma tal memória”, pois existe um “sempre já” do discurso, o autor também relaciona a memória discursiva à imagem, afirmando que

[...] toda imagem se inscreve em uma cultura visual, e esta cultura supõe a existência junto ao indivíduo de uma memória visual, de uma memória de

imagens onde toda imagem tem um eco. Existe um “sempre já” da imagem [...]. A noção de intericonicidade [...] supõe colocar em relação imagens externas, mas igualmente imagens internas, imagens da lembrança, imagens da rememorização, imagens das impressões visuais estocadas pelo indivíduo. Não existe imagem que não nos faça ressurgir outras imagens, tenham elas sido outrora vistas ou simplesmente imaginadas (COURTINE, 2013, p. 43).

Courtine estabelece um paralelo entre a relação enunciado-memória discursiva - interdiscurso e a relação imagem-memória visual-intericonicidade. Para o autor, nenhuma imagem seria totalmente inédita, no sentido em que teria um eco no sempre já das imagens. De acordo com essa linha de pensamento, uma imagem aparentemente nova para o sujeito sempre invocaria uma inscrição (na memória) de uma experiência visual vivida anteriormente, seja de impressões visuais internas, armazenadas consciente ou inconscientemente no psiquismo do sujeito, em algum nível de memória, ou de impressões vindas da exterioridade visual do sujeito. Sem essa noção, não haveria a possibilidade do emprego de imagens em campanhas publicitárias ou políticas, pois não haveria um referencial ao qual o sujeito pudesse se voltar, um referencial a servir como pressuposto de uma proposição imagética. Pensamos que a maioria das proposições imagéticas supõem não apenas imagens que a ela se relacionam, mas, também, enunciados linguísticos que se formam ou se movimentam para constituir discurso. É o que podemos observar no logo do JE.

Vejamos a maneira como o logotipo parece operar esse movimento de rememor(iz)ação e relação entre imagens, a nosso ver, fazendo parte de um movimento maior, na estratégia de captura de jovens em relação ao programa da Embaixada norte-americana.

A imagem do logotipo, que vem sendo reeditada com poucas alterações desde a primeira edição do programa, consiste de duas formas coloridas se tocando. As alterações de um ano para outro estão basicamente nos contornos da imagem e na imagem de fundo. A foto do fundo da imagem que trouxemos é exclusiva da edição de 2016, constante da página do Programa no Facebook e do site da Embaixada.

As cores e as estrelas das formas que compõem o logo remetem o jovem brasileiro – alvo da campanha publicitária – a, pelo menos, três outras imagens inscritas na memória coletiva brasileira/ocidental: a das bandeiras dos EUA e do Brasil, a do mapa dos continentes e uma imagem que se assemelha a uma chama, ao mesmo tempo em que os formatos das bandeiras foram desenhados de formas bem semelhantes, produzindo um efeito de apagamento de diferenças entre os dois países. Constrói-se um efeito de grandeza brasileira, comparável à americana e, talvez, até um efeito de parceria entre os dois países, provocado pelo contato entre uma bandeira e a outra – ambas parecem estar se tocando, com a bandeira

brasileira dando suporte à americana – ou uma chama acendendo a outra. O fato de as duas bandeiras estarem juntas também aponta para o sentido de que haveria algo em comum entre os países representados. Esse efeito é reiterado na evocação da presença de estrelas brancas em ambas as bandeiras, simbolizando os estados.

Tais efeitos de aproximação entre os países parecem operar como estratégia de captura, no processo de identificação imaginária por parte dos brasileiros. Além disso, as duas bandeiras têm formatos que se assemelham ao de chamas, sugerindo a imagem de piras olímpicas, uma se unindo à outra. Assim como no esporte praticado em equipe, ambas as chamas poderiam se unir num esforço conjunto, num evento conjunto, formando o que pareceria ser uma chama só, com a chama brasileira alimentando a chama americana. Ocorre que a chama olímpica remete não somente a jogos olímpicos, mas também à ideia de competição entre os “melhores” e de vitória. Pensa-se, então, numa espécie de ganho de ambos os países através do contato desses jovens; porém, a vitória dos EUA é sempre a maior, o que é representado pela chama norteamericana, maior do que a brasileira – e, além disso, sendo acesa ou alimentada pela chama brasileira.

Observando a imagem de fundo, vê-se uma estrada, o que sugere progressão, desenvolvimento em direção a algo que estaria num ponto mais avançado do caminho, produzindo o sentido de que o programa JE (representado pelo logo) seria o veículo no qual se progride rapidamente em direção a um objetivo. Esse efeito é reforçado pelas linhas presentes na imagem, todas convergindo para um mesmo ponto, ao qual se direciona o olhar do leitor: o logotipo, ou seja, o Programa JE. Quanto ao efeito de embaçamento empregado na foto (técnica fotográfica de zooming), este aponta para a ideia de movimento e velocidade, remetendo o leitor da imagem ao sentido de rapidez na viagem. A ideia de movimento rápido contribui para a captura do olhar do jovem brasileiro, que se encontra numa faixa etária em que se é normalmente mais inquieto e se desenvolvem tarefas com mais rapidez, sobretudo na atualidade, em que se acha inserido em um tempo-espaço em que tudo ocorre e muda com bastante rapidez. Relaciona-se a participação no Programa à ideia de rápido avanço e ascensão na vida do participante, já que uma estrada normalmente leva alguém adiante e uma chama olímpica evolui sempre para cima e remete à ideia de sucesso.

Essa imagem, que aqui trouxemos, foi selecionada entre outras imagens veiculadas no universo do Programa, como uma mostra dos modos como formas não- linguísticas de linguagem também operam intensamente na captura dos sujeitos.

Dans le document THEIR MELOIDOGYNE (Page 50-53)

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