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6.4 Samba ADS Domain Membership

1. Imaginário jornalístico e a construção da realidade

Todo texto tem uma carga de intencionalidade e se faz necessário conhecer os mecanismos que as sustentam, para tanto a Teoria do Imaginário será uma das ferramentas que favorecerá essa descoberta, pautada por pensadores como o filósofo grego Cornelius Castoriadis e o professor de Sociologia na Sorbonne, em Paris, e diretor do Centro de Estudo sobre o Imaginário Michel Maffesoli, estudioso do pensamento do ser humano contemporâneo.

Grossi (1985, 384) define o profissional de jornalismo como um especialista na construção da realidade social com rotinas cognitivas, esquemas interpretativos e de significados. Esse profissional especializado detém relativa autonomia na produção de textos criando estilos, ideologias normativas, que o legitimam. Maffesoli (1996 apud BARROS, 2008), diz que o sujeito cede lugar à pessoa, pois, uma pessoa conforme a raiz etimológica da palavra, veste máscaras ou apresenta diversas facetas que, apesar de distintas, são incorporadas por uma mesma individualidade.

A ideologia constitui-se nessas facetas, num conjunto de idéias, que não se distanciam do imaginário. Porém, para compreender o imaginário, que agrega imagens, sentimentos, lembranças e experiências, que os indivíduos (jornalistas) e grupos sociais (comunidade discursiva) tem do mundo, dos seres que o compõem, da imagem que fazem de si mesmos e dos seus valores, depende de como “o outro” (leitor) aceita, admite e acredita na auto-imagem construída. Essa via de mão dupla, na construção da identidade, pode ser associada ao contrato de comunicação onde o leitor, “aceita” a produção do jornalista.

Compreender qual é o imaginário do jornalista, revela-se um desafio tanto quanto o de responder “Quem somos?”, “O que queremos”. Cornelius Castoriadis (CUNHA, 1997) diz que respostas a esses questionamentos identificam como os indivíduos e os grupos sociais são constituídos e quais as imagens que eles têm do mundo, das sociedades e a imagem que fazem de si mesmos e ao responder esses questionamentos é estabelecida a idéia de identidade.

É nesse contexto que um dos questionamentos dessa pesquisa busca resposta em como se dá a construção de sentidos sobre a identidade social dos evangélicos e se o imaginário desses jornalistas determina a construção desses sentidos. Castoriadis diz que a construção da identidade é compreendida e produzida com referência no “outro”, em como aceitam e acreditam na auto-imagem construída, bem como a imagem que os outros constroem sobre o indivíduo. (CUNHA, 1997)

Castoriadis diz que todo segmento social tem uma representação de si, ou seja, um imaginário. Os jornalistas tem uma imagem sobre si, seu papel social e sua identidade como formador de opinião, e é cercado de mitos acerca de sua profissão como: “Quarto Poder8”. Além disso, trazem consigo suas próprias concepções do outro

e do mundo que o cerca.

Michel Maffesoli afirma que o imaginário é uma realidade em entrevista concedida a uma revista acadêmica e afirma que “o imaginário é uma aura, uma atmosfera, um estado de espírito que caracteriza um povo, um grupo social, uma comunidade e só existe imaginário coletivo (como um inconsciente social)”. (SILVA, 2001)

Maffesoli afirma que imaginário de um indivíduo corresponde ao imaginário do grupo no qual está inserido, bem como o estado de espírito de um país etc. O sociólogo afirma que “a imagem não produz o imaginário, mas ao contrário, a existência de um imaginário é que determina um conjunto de imagens”. O imaginário é racional, mas pode ser potencializado por elementos lúdicos, afetivos, imaginativos, irracionais e por fantasias que constroem as imagens, trabalhando a argumentação, persuadindo e seduzindo. Portanto o imaginário imprime emoção por meio de mecanismos como recursos infográficos que ilustrem um fato noticioso, datas comemorativas, os heróis e mitos a serem noticiados e os ritos atualizados. (SILVA, 2001)

Em resumo, o imaginário pode ser identificado de forma abrangente, que vai além da afirmação de Maffesoli sobre um conjunto de imagens construídas a partir dele. O autor traça outras características do imaginário como:

8

Segundo Traquina (2005: 46) a expressão é empregada pela primeira vez em 1828 por um “deputado do Parlamento inglês, McCaulay, que um dia apontou para a galeria onde se sentavam os jornalistas e os apelidou o “Quarto Poder” (Tradução do termo inglês Fourth Estate).

Uma força social, uma construção mental perceptível, porém não quantificável; Um estado de espírito de um grupo, de um país, de um Estado-nação, de uma

comunidade;

Como promotor de vínculo, cimento social;

Como detentor de um elemento racional (assim como a ideologia), mas de também outros parâmetros como o onírico, o lúdico, fantasia, o imaginativo, o afetivo, o não-racional, os sonhos;

O imaginário não seria de direita nem de esquerda, pois estaria aquém ou além desta perspectiva moderna;

O imaginário atravessaria todos os domínios da vida e concilia o que aparentemente é inconciliável, por isso mesmo os campos mais racionais, como as esferas política, ideológica e econômica, seriam recortados pelo imaginário, que tudo contamina.

Alguns mitos cercam a Teoria do Jornalismo como objetividade, imparcialidade, neutralidade e caem por terra quando confrontadas com a Teoria do Imaginário que proporciona uma ampla análise sobre a subjetividade do jornalista. Gisele Silva (2010) afirma que as manifestações simbólicas, emocionais presentes no imaginário, contribuem para uma investigação mais aberta às coberturas jornalísticas.

Pensadores como Castoriadis e Mafessoli compartilham um olhar positivo sobre o imaginário, quebrando possíveis resistências quanto ao estudo deste aspecto, em investigações sobre fenômenos sociais, na ciência da comunicação.

Vale lembrar que essa pesquisa não objetiva julgar o direcionamento político das emoções a cerca do imaginário dos jornalistas, mas se faz necessário investigar a imprensa e descobrir marcas que identifiquem esse imaginário religioso dos jornalistas e como se dá a construção da realidade social sobre esse segmento religioso.

São duas as formas de interpretar a realidade dos evangélicos, que os jornalistas da revista Veja utilizam na construção das notícias que chegam ao público. O primeiro compreende que a mídia tende a construir uma realidade aparente, uma ilusão e o segundo é que a mídia manipula e distorce a realidade objetiva (DOELKER, 1982; ENZENSBERGER, 1972 apud RODRIGO ALSINA, 2009).

Segundo Baudrillard (1979 apud RODRIGO ALSINA, 2009) a imprensa produz uma simulação da realidade social e nessa perspectiva pode-se entender que a realidade transmitida pela mídia é uma construção, um produto de uma atividade especializada. Portanto a mídia é quem cria a realidade social.

Alsina alerta que a “construção social da realidade” se dá no quotidiano das práticas institucionais e essa construção legitima o jornalista como um porta-voz de realidades que determinam sua relevância.

PARTE III – TEORIA DA LINGUAGEM E A ANÁLISE DO