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Com o intuito de observarem o eclipse deslocaram-se a Espanha mais de trinta expedi¸c˜oes ci- ent´ıficas (tabela 3.7).184 Inevitavelmente a grande quantidade de observadores e as condi¸c˜oes atmosf´ericas favor´aveis na maior parte das localiza¸c˜oes produziu um n´umero acentuado de artigos, de que a figura 3.7 da p´agina 92 n˜ao ´e mais do que um reflexo.

O resultado hist´orico obtido neste eclipse foi, no entanto, a atribui¸c˜ao inequ´ıvoca de uma origem solar `as protuberˆancias, atrav´es da an´alise das fotografias conseguidas por De la Rue e pelo professor Monserrat185 em Rivabellosa e no Desierto de las Palmas, respectivamente.

Observa¸c˜oes visuais de eclipses anteriores efectuadas, por exemplo, por Liais em Setembro de 1858, indicavam que, durante o eclipse, a Lua encobria as protuberˆancias no sentido do seu movimento e descobria-as no sentido oposto, o que constitu´ıa uma indica¸c˜ao de que perten- ciam ao Sol. Uma s´erie de fotografias convenientemente expostas e obtidas no mesmo local de observa¸c˜ao, em tempos diferentes, permitiria determinar o movimento da Lua relativamente `as protuberˆancias, supondo que estas estruturas n˜ao se alteravam significativamente durante o breve per´ıodo de totalidade. As fotografias obtidas por De la Rue e Monserrat mostraram precisamente esse efeito. De tal modo que De la Rue escreveu,

It would be extremely difficult to obtain more convincing proofs that the luminous prominences belong to the sun186

e Secchi

La prima e principale si ´e che le protuberanze non sono n`e effetto di illusione ottica, n`e montagne lunari, n`e cosa dell’atmosfera terrestre, ma che sono veramente proprie del Sole. Il loro coprirsi e scoprirsi a seconda del moto lunare, come non solo la vista, ma come lo mostrano perfino le impronte fotografiche, tolgono ogni dubbiezza.187

A obten¸c˜ao de dois conjuntos de fotografias em duas esta¸c˜oes suficientemente separadas permitiu um outro teste `a hip´otese de uma origem solar das protuberˆancias. Em diferentes

181

Ranyard, Arthur Cowper; Editor. : Memoirs of the Royal Astronomical Society. Volume 41, London: Published by the Society. 1879.

182

Fernandes, Olympio Nicolau Ruy: Carta de 19 de Julho. 1861.

183

Ibidem

184

Real Observatorio de Madrid: Anuario - Ano II - 1861 . Madrid: Imprenta Nacional. 1860.

185

Jos´e Monserrat y Riutort, usualmente referido como Monserrat, catedr´atico de Qu´ımica da Universidade de Valˆencia.

186

Rue, Warren de la: The Bakerian Lecture - On the Total Solar Eclipse of July 18th, 1860. Philosophical Transactions of the Royal Society of London 152 1862.

187

Secchi, Angelo: Relazione delle osservazioni fatte in Spagna durante l’eclisse totale del 18 Juglio 1860 . Tip- pografia delle belle arte. 1860.

Figura 3.11: Fotografias do eclipse obtidas por Jos´e Monserrat y Riutort (Real Observatorio de Madrid, 1860)

Pa´ıs N◦ Observadores

R´ussia 6 Otto Struve, Winnecke, M¨adler, Bar˜ao de Rennenkampff, Pratzmuski, Rechnieuski

Su´ecia 1 Axel Moluv Dinamarca 2 D’Arrest, Weyer

Pr´ussia 3 Bar˜ao de Feilitzch, Bremiker, Arnd Baviera 1 Lamond

Alemanha 7 Brhuns, Auerbach, Rumker, G. Schulz, C. Chuttz, Haase, Klinkerfues

It´alia 4 Angelo Secchi, Carlini, Donati, Simonelli Su´ı¸ca 2 Plantamour, Coronel Gautier

Inglaterra 39 Airy, Wilfred Airy, Warren De la Rue, Edward Beck, Robert Bekley, George Downes, J. Raynolds, Joseph Bonomi, Joseph Beck, Walter Beck, J. Perrowne, H. Goodwin, O. Vignoles, John George Perry, William Poli, Francis Galton, Henry Atwood, Charles Gray, Capit˜ao Jacon, Professor Grant, M. Taggart, Charles Pritchard, Russell Scott, Van Fasel, Arthur Wright, J. Buckingham, W. Vray, H. Ellis, Professor Fearnley, H. A. Goodwin, R. Health, J. Turner, M. Lindel¨of, R. J. Hoobbes, W. Lassell, Prof. Lindhagen, E. J. Lowe, R. Almond, S. Morley, doutor M¨oller, J. Stanistreet, Professor Swan, Richarda Airy, Hilda Airy, senhora Vignolles, menina Struve

Fran¸ca 17 Le Verrier, Villarceau, Charconac, Foucault, Ismail Effendi, Tissot, Cutant, Petit, D’Abbadie, Lespiaut, Bural Main, Goldschmit, Bianchi, Ricque de Monchy, Wolf, Legrand Portugal 5 Rodrigo Ribeiro de Sousa Pinto, Jacintho Antonio de Sousa,

Jo˜ao Carlos de Brito, Francisco Jos´e Miranda, Oom (*)

Tabela 3.7: Observadores estrangeiros que informaram o Observat´orio de Madrid do seu intuito de observar o eclipse. (*) Frederico Augusto Oom deslocou-se com a expedi¸c˜ao Russa

localiza¸c˜oes, a Lua encobriria uma mesma protuberˆancia solar de forma diferente devido ao efeito da paralaxe lunar. Ou seja, uma protuberˆancia teria uma altura, medida a partir do limbo da Lua, diferente nas duas esta¸c˜oes, supondo de novo que a protuberˆancia n˜ao sofria uma altera¸c˜ao significativa no intervalo de tempo decorrido entre as duas observa¸c˜oes. De la Rue comparou as suas fotografias com as de Monserrat e verificou que duas proeminˆencias tinham diferen¸cas de altura de 8′′ e 16′′ entre as esta¸c˜oes de Rivabellosa e Desierto de las

Palmas. O resultado m´edio, de 12′′, era igual `a paralaxe lunar entre os dois locais. As

diferen¸cas observadas tinham, ainda, o sinal correcto tendo em conta as posi¸c˜oes da Lua e do Sol e a localiza¸c˜ao geogr´afica das duas esta¸c˜oes. Por ´ultimo,

the two totality-pictures No. 25 and No. 26, when reduced to a suitable size and placed in the stereoscope, No. 25 on the left and No. 26 on the right, afford a very beautiful view of the phenomena of totality, and one which could not be enjoyed by mortal eyes in looking at the real eclipse. Not only does the stereoscope render evident the fact of the moon being an object intervening between the observer and the sun, but it also shows it as a sphere.188

188

Rue, Warren de la: The Bakerian Lecture - On the Total Solar Eclipse of July 18th, 1860. Philosophical Transactions of the Royal Society of London 152 1862.

Consultando os relatos publicados na altura nas revistas da especialidade, verific´amos que v´arios observadores no terreno propuseram diferentes hip´oteses para explicar os fen´omenos vistos. Paula Marqu`ez n˜ao estava, nesse sentido, isolado. Ap´os a an´alise das fotografias obtidas, a associa¸c˜ao das protuberˆancias ao Sol foi unanimemente aceite.

Os dados obtidos sobre a corona n˜ao foram conclusivos. A observa¸c˜ao visual e o desenho n˜ao eram os mecanismos mais adequados `a obten¸c˜ao de dados objectivos sobre esta complexa estrutura. Hale189 chegou a afirmar que

The experience of previous eclipses has shown that drawings of the corona for the most part serve no useful purpose unless it be to illustrate the personal peculiarities of the draftsman.190

.

A figura 3.12, na qual se representam as imagens da corona elaboradas por dois observadores, Secchi e Temple, que se encontravam a uns escassos quil´ometros um do outro ilustra perfei- tamente esta situa¸c˜ao. Em 1974, Eddy191 efectua uma an´alise das descri¸c˜oes em primeira

Figura 3.12: Registo da corona observada por Secchi (`a esquerda) e Temple (`a direita) no eclipse de 18 de Julho de 1860. Na imagem de Temple, o raio curvo quase fechado representa, segundo Eddy, um coronal transient (Young, 1881)

m˜ao, publicadas por Ranyard em 1879, com vista a decidir se um coronal transient tinha sido observado durante o eclipse de 1860. Das 46 descri¸c˜oes apenas metade descrevem a estrutura do coronal transient (figura 3.12). Percentagem que sobe para aproximadamente 67% se a amostra for reduzida aos observadores localizados no fim do eclipse.192

Ap´os a an´alise de todos os dados, v´arias quest˜oes importantes continuavam em aberto ap´os o eclipse, em particular

• a corona seria uma estrutura solar;

• qual a rela¸c˜ao entre as proeminˆencias e as manchas solares.

189

George Ellery Hale (1868–1938).

190

Citado em Eddy, J. A.: A Nineteenth-century Coronal Transient. Astronomy and Astrophysics, 34 Agosto 1974

191

John Allen Eddy (1931).

192

O interesse pela observa¸c˜ao de eclipses totais manteve-se, assim, elevado. Por outro lado, ap´os a explica¸c˜ao do processo de forma¸c˜ao das riscas escuras observadas no espectro do Sol por Kirchhoff e Bunsen, em 1859, o recurso a esta nova t´ecnica para a observa¸c˜ao de eclipses prometia resultados interessantes.

3.2.3 Observa¸c˜oes realizadas em Portugal

Em Portugal, o eclipse foi parcial e, por isso, sem grande interesse. Os observat´orios nacionais aproveitaram, contudo, tal como no eclipse de Mar¸co de 1858, para medirem os tempos dos contactos.

Observat´orio Astron´omico de Coimbra

Apesar das vagas no quadro de pessoal do Observat´orio da Universidade, pelo menos duas pessoas efectuaram, segundo Sousa Pinto

a observa¸c˜ao dos contactos com todo o escrupulo, que ella merece, pela sua importancia, quer para a determina¸c˜ao da longitude, quer para a correc¸c˜ao das taboas astronomicas.193

Em Coimbra mediram-se, para al´em dos instantes dos contactos, a press˜ao atmosf´erica, e as temperaturas `a sombra e ao sol, em intervalos de 15 minutos. Notou-se, ainda, o estado da atmosfera. Os resultados dos instantes dos contactos “segundo as duas observa¸c˜oes reputadas as melhores” apresentam-se na tabela 3.8.194 N˜ao encontr´amos qualquer publica¸c˜ao posterior

Contactos Observado Previsto Diferen¸ca 1 1h 04m 28s 1h 02m 27s +121s 2 3h 31m 22s 3h 31m 39s −17s

Tabela 3.8: Instantes dos dois contactos pass´ıveis de ser medidos num eclipse parcial, t1 e t2, obtidos

pelos observadores localizados no observat´orio astron´omico da Universidade de Coimbra

que referenciasse estes resultados. Duvidamos at´e que tenham sido utilizados, em conjun¸c˜ao com os dados obtidos no Cabo de Oropesa, para tirar conclus˜oes sobre os parˆametros utili- zados no c´alculo das efem´erides de Coimbra.

Observat´orio da Marinha de Lisboa

No dia do eclipse encontrava-se a “atmosphera muito clara”, o que permitiu uma observa¸c˜ao bem sucedida dos instantes dos contactos (tabela 3.9).195 Os instrumentos utilizados foram v´arios ´oculos pequenos (tabela 3.10).

Imprensa

A imprensa n˜ao deixou de assinalar o evento, dando coloridas descri¸c˜oes das observa¸c˜oes populares.

193

Pinto, Rodrigo Ribeiro de Sousa: O dia 18 de Julho de 1860. O Instituto, Jornal Scientifico e Litterario, 9 1860 [Artigo n˜ao assinado mas atribu´ıdo a Sousa Pinto].

194

Ibidem

195

Observador 1h 05m + t1 (s) M´erito da Obs. 3h 32m + t2 (s) M´erito da Obs.

Folque 54 B 45 B

Matheus 44 B 30 B

Diniz 40 B 30 B

Reis 49 B 43 S

Tabela 3.9: Instantes dos dois contactos pass´ıveis de ser medidos num eclipse parcial, t1e t2, segundo os

v´arios observadores localizados no Observat´orio da Marinha. As letras B e S qualificam a observa¸c˜ao como boa ou suficiente, respectivamente

N◦ Oculos´ Distˆancia Focal (m) Diˆametro Objectiva (cm)

1 Steinheil 1,04 7,5

2 Dollond 1,05 6,7

3 Adams 1,09 7,3

4 Ramsden 1,09 6,7

5 Dollond 1,04 6,8

Tabela 3.10: ´Oculos utilizados no Observat´orio da Marinha para a observa¸c˜ao do eclipse

Ignoramos se em Portugal se fizeram algumas observa¸c˜oes scientificas; o que sabemos ´e que todos os que tinham vista, ou n˜ao estavam doentes de cama, vieram ´as suas janellas, ou se espalharam pelas pra¸cas e imminencias para verem a occulta¸c˜ao quasi total do astro do dia, que chegou a estar mettido no escuro at´e ao decimo digito do seu diametro. Mas ninguem exclamou, misericordia! como de outras eras se conta.196

Interessante ´e a expectativa existente face aos resultados que se esperavam do estrangeiro, como se depreende das transcri¸c˜oes seguintes do Jornal do Commercio

Saberemos as noticias que ao mundo h˜ao de dar os astronomos que hoje estiveram de ob- serva¸c˜ao ao phenomeno mais curioso, e mais innocente da natureza197

e do Archivo Pittoresco,

Esperamos que a photographia nos dˆe a vera effigie do sol eclipsado, para a communicarmos pela gravura aos nossos leitores.198

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