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3. DECOMMISSIONING PLAN DETAILS

3.9. Safety assessment

Ferrari (2010) caracteriza o estilo dos homens Calons (de São Paulo, que izeram parte de sua pesquisa de campo) como country ou sertanejo. As roupas são compradas prontas e o traje é composto por calça jeans; cinto de couro com grandes ivelas metálicas; camisa social lisa em cores fortes ou estampada, nas quais é comum aparecerem motivos relacionados desse universo como cavalos; botas de couro; chapéu e cordões de ouro no pescoço, braceletes e grandes relógios.

O estilo country masculino parece estar de acordo com a hipótese de Moonen (2013) de que os homens ciganos teriam assumido a indumentária dos não-ciganos mais facilmente do que as mulheres. Florencia Ferrari (2010) recorda que o estilo country é muito comum no interior do estado de São Paulo - em especial na cidade de Barretos cujo rodeio tornou-se amplamente conhecido em especial a partir da década de 1990 – no entanto a irma que os Calons não o utilizam da mesma forma que o brasileiro, pois além das roupas existe a performance da calonidade.

permitiu – antes da utilização dos automóveis – os deslocamentos e a vida “nômade” dos ciganos, além disso os animais também foram mercadorias para os rolos47 no passado, e permanecem marcantes no

imaginário Calon. Os Calons vivem na esfera urbana, mas o universo sertanejo continua presente, e a indumentária funciona como um elo entre o presente e a memória.

A conversa dos homens gira em torno de cavalos e vacas, rodeios, negócios. Há uma a inidade entre esse brasileiro vaqueiro e estes Calon, que costumavam ‘no tempo dos antigos’ viajar a cavalo. Eram tropeiros. Hoje não são mais tropeiros, viajam de carro (FERRARI, 2010, p. 105)

47 Rolo é como os os Calons se referem a atividade comercial de compra, venda e troca de mercadorias.

[F2.41] Calons e seu estilo country Fonte: Ferrari (2010)

[F2.42-43] Calons e seu estilo country Fontes: Acima, Ferrari (2010) ; e abaixo, fotografi a de Luciana

Para Torvald Faegre (1979) o nomadismo está diretamente relacionado à domesticação ou domínio de algum animal. No início foram eles que permitiram ao homem percorrer grandes distâncias, levando o essencial para a sobrevivência.

O nomadismo começou no Oriente Médio e na Ásia Central, com a domesticação da ovelha e da cabra [...] O nomadismo só foi possível graças ao burro, ao dromedário, ao camelo bactriano e ao cavalo. O pastor agora podia mover seus rebanhos longe dos assentamentos e no coração do deserto e da estepe [...] Em outras áreas do mundo, o nomadismo se desenvolveu a partir de animais diferentes - a rena ou caribu no norte, o iaque no Tibet e o bisão [F2.44] Calons e seu estilo country Fonte: Fotografi a de Luciana Sampaio; Jardim

e cavalo nas planícies americanas. Estes animais parecem diferentes um do outro, mas todos têm uma coisa em comum - eles sobrevivem e se desenvolvem em áreas secas48 (FAEGRE, 1979, p. 5)

Para Spicakova, o vestuário masculino Vlax Roma sofreu muitas transformações, na República Checa elas ocorreram ao longo dos últimos quarenta anos. A camisa masculina tradicional, gad, tinha a forma de “A” (corte oblongo-poncho), feita de tecidos bordados ela era larga e com mangas compridas. A cor da camisa normalmente contrastava com a cor do colete que era utilizado sobre ela, esse tinha cores fortes ou estampas e nele eram aplicadas as joias da família. As calças, bugod’a ou judhpurs, eram colocadas por dentro das botas de couro. Um chapéu preto de abas largas, kolopo¸ era utilizado como símbolo de status.

Atualmente os Vlax Roma utilizam camisas de manga curta e com corte reto, nas quais aparecem estampas lorais, assim como nas roupas femininas. Os tecidos mais utilizados são viscose, poliéster e poliamida. Enquanto a indumentária utilizada pelas mulheres marca de forma expressiva as diferenças entre ciganas e não ciganas, facilitando a identi icação de uma Calin na cidade, a indumentária dos homens já exerce uma lógica de invisibilidade ou mimetismo. Um Calon pode passar despercebido para alguém que desconhece as outras dimensões da performance cigana além do vestuário, como o jeito “cantado de falar” e os dentes de ouro.

48 “The earliest nomadism began in the Midle East and Central Asia with the

domestication of the sheep and the goat […] It was the use of the donkey, the dromedary, the Bactrian camel, and the horse that made the nomadism possible. The herdsman could now move his locks away from the settled regions and into the heart of the desert and the steppe […] In other areas of the world, nomadism developed from different animal complexes – the reindeer or caribou in the north, the yak in Tibet, and the bison and the horse on the American plains. These animals seem different from one another, but all have one thing in common – they thrive in dry areas”

Para Ferrari (2010), os Calons vestem as mesmas roupas dos brasileiros, mas de outra maneira, pois a performance Calon é única e nela entram em ação o jeito de falar peculiar, o gestual e o chibi49. Mas não podemos

negar que é possível para um homem Calon manipular essas fronteiras mais facilmente do que uma Calin, ao menos no campo visual.

Percebemos o sentido dessas diferenças quando investigamos que tipo de relações os ciganos estabelecem com os não-ciganos. Os homens seriam os responsáveis, dentro dos acampamentos, pelas negociações e rolos realizados com os gadjes. Para a realização destas atividades não é necessário que eles sejam reconhecidos enquanto Calons, pode ser que muitas vezes seja mais vantajoso que não o sejam. Fonseca (1996) faz observações muito semelhantes com os grupos Rom de sua pesquisa, para ela a não obrigatoriedade do uso de “trajes típicos” para os homens, “facilita os negócios” (1996, p. 82).

49 Chibi é o repertório lexical dos Calons brasileiros, construído por palavras derivadas do romani, do dialeto caló - falado por ciganos na Península Ibérica – e pelo português brasileiro (FERRARI, 2010).

[F2.45-46] Vestuário masculino Vlax Roma Fonte: Spicakova (2008)

Por outro lado uma das interações comuns entre Calins e brasileiros é na leitura de mãos (quiromancia), quando é interessante que elas sejam reconhecidas enquanto ciganas. A aura de misticismo que permeia o imaginário brasileiro50 atua como validação para que as pessoas

procurem uma cigana, e não outra pessoa, que “leia o seu destino”. Entram em ação outros fatores além dos citados acima, até mesmo por que em algumas turmas as mulheres podem não praticar a quiromancia (como no acampamento do Itaquaquecetuba-SP) e usam os vestuários Calon da mesma forma. As Calins são verdadeiros símbolos ou marcos na paisagem Calon, seus corpos carregam as marcas da diferenciação entre Calons e gadjes e são elas que garantem a continuidade da família e do grupo.

Para Sant’ana (1983) e Fonseca (1996)51 a indumentária utilizada

pelas mulheres funcionaria como mecanismo de “proteção” e “defesa” dos grupos, com a hipótese de que estes vestuários inibem o interesse de homens gadje por mulheres ciganas. Além de ser uma ideia sexista ela não nos parece efetiva uma vez que existe no imaginário popular a ideia da cigana sensual e sedutora, que usa o que se acredita ser uma indumentária típica. E, além disso, esses vestidos que comentamos não são peças que escondem as formas do corpo feminino, as blusas mesmo as mais cobertas são justas e destacam a região do ventre, os seios e o decote.

Não podemos esquecer também que existe um apelo pelo exótico, uma atração pelo que é diferente, caso contrário fantasias de ciganas não

50 Como na música “O Amanhã” de João Sérgio, interpretado por Simone. “A cigana leu o meu destino, eu sonhei. Bola de cristal, jogo de búzios, cartomante. Eu sempre perguntei, como será o amanhã, como vai ser o meu destino”

51 Ambas realizaram as suas pesquisas em contextos Rom, mas nos parece bastante apropriado trazer essas discussões.

seriam tão populares. Podemos citar outros exemplos que nos parecem se relacionar mais com tentativas de “proteger” ou esconder a mulher do olhar público – especialmente o masculino – como os véus e as burcas.