Todas as incompatibilidades aqui levantadas entre Foucault e a teorização da pós- modernidade possivelmente resultam da forma como o francês desenvolve sua reflexão e como escolhe lidar com a visualização das questões sociais no tempo. Disso não se depreende que não possa a genealogia foucaultiana lidar com os temas tratados e reunidos sob a alcunha de pós-modernos – que já não o faça, não obstante não os tome sob essa divisa – nem que a pós-modernidade, enquanto questão definida, não possa ser objeto de elucubrações a partir do pensamento foucaultiano.
Se a tomarmos como período histórico, esbarramos inicialmente no trato específico que Michel Foucault dispensa aos parâmetros de periodização, com os quais procura delimitar o conjunto de fenômenos que quer medir, e a partir dos quais extrai os critérios de seu raciocínio, pois que diretamente aferrados ao campo de investigações. Nisto está, igualmente, a divergência que Foucault toma frente à História propriamente dita, enquanto saber típico da modernidade.100 Desde Hegel e Marx, tornou-se clara a vinculação entre filosofia e história, ou da história como eixo de reflexão, campo de objetivação do pensamento filosófico. Refletindo a partir da modernidade, Michel Foucault assume esse vínculo, sem tomar, no entanto, o campo histórico como foco de aplicações de estruturas ontológicas ou postulados racionais, mas inversamente, fazendo do campo histórico o ambiente de surgimento de práticas filosóficas, e de questões fundamentais. Duas conhecidas formas de operar as demarcações no tempo histórico acorrem ao trabalho do historiador, por assim dizer, clássico, efetivamente: a que privilegia os grandes processos (como o capitalismo), que atravessam as eras e consubstanciam, pelo acúmulo, as grandes transformações, somente percebidas com o ponto de vista superior do olhar abstrato, panorâmico; e a forma que dá atenção aos grandes eventos, aos grandes marcos da história (como a Revolução francesa), que deflagram as alterações profundas. Dentro dessas duas
100 A História é reconhecida por Foucault, com efeito, como a episteme particular à Idade Moderna, ou seja, como o espaço ordenador dos saberes constituídos na modernidade (a modernidade de Hegel, retrospectivamente autocompreendida), configurando-se-lhes como a trama histórica que condiciona a possibilidade de seu surgimento e coordena sua interação. Nesta conceituação um tanto que estrutural, a
episteme própria da modernidade estabelece-se a partir da consideração das relações funcionais entre os
elementos admitidos em sua gênese interior e sua espessura opaca, organizadas pelos princípios da Analogia e da Sucessão, em contraste com as similitudes do Renascimento e com a ordenação do classicismo. Pela observância de séries temporais advindas do tempo das ações e da duração dos elementos, que se substituem num padrão reconhecível, toma-se o fluxo das sucessões como diretriz geral de interpretação dos fatos. É, com efeito, em oposição a essa História como a priori do pensamento moderno que Foucault elabora suas análises, buscando dela desprender-se. Cf. As palavras e as coisas, 2002, pp. 298-300 e 329.
opções, tem-se a relevância das grandes medidas: as grandes continuidades e as grandes mudanças.
Ora, Foucault reconhece, em especial nos seus primeiros trabalhos, uma forma de periodização ampla e algo bem demarcada, ou pelo menos recorrente, dentro da qual situa os temas que pretende abordar e, em suas reflexões, cuida de operar com os parâmetros que estão reunidos e localizados em cada um destes períodos, estabelecendo entre eles uma análise em termos de comparação. Estes grandes períodos são, não por acaso, relativamente correspondentes às épocas marcadas pelos grandes movimentos em que se procura identificar o começo da modernidade: o Renascimento, consistente do século XVI, porém com recuos no século XV e estendido a meados do século XVII; uma Idade Clássica, abrangendo meados do século XVII até o fim do século XVIII, ou ainda o começo do século XIX; e afinal uma Idade propriamente Moderna, principiando nesta última cesura e chegando ao tempo corrente que constitui a vivência do filósofo francês.101 Neste esquema de segmentação histórica, Foucault fora com freqüência questionado seja pela totalização continuadora que atropela as especificidades, seja pela ruptura brusca que destaca blocos isolados de compreensão. No limite, é igualmente censurado por afirmar desmerecer o reconhecimento dessas épocas históricas, quando não abdica de utilizá-las em todas as suas pesquisas.102 Seus recortes temporais, em todo caso, são criticados pela falta de correspondência com as fronteiras oficialmente reconhecidas, ou pela relevância concedida a processos, fenômenos e mudanças marginais, ou seja, a domínios de objetos
101 A configuração desses períodos abrangentes se expressa inicialmente em História da loucura, e parece acompanhar todas as incursões históricas de Foucault definidas em seus livros, até o primeiro volume de
História da sexualidade. Tais períodos têm uma caracterização mais determinante, contudo, apenas em As palavras e as coisas, no instante em que, no propósito de estabelecer a implicação sistemática dos discursos
de um mesmo solo epistêmico surgido historicamente, termina por referir a estes segmentos históricos a composição regular que qualifica as suas respectivas epistemes. Sua nomeação, todavia, emprestada à histórica cultural, se induz a assunção de suas divisões e de sua caracterização global, não deve levar a este entendimento, uma vez que a preocupação de Foucault é, em cada pesquisa, direcionada a um domínio específico de análise, seja ele a constituição dos saberes, ou ainda, a elaboração da loucura ou da sexualidade. Conforme varie, portanto, o objeto de investigação, alteram-se as demarcações temporais, o que vem a desmentir sua fixação definitiva e também sua universalidade. Cf. História da loucura, 2004; O nascimento da clínica, 2004; As palavras e as coisas, 2002; Vigiar e punir, 2003; História da sexualidade, 2003.
102 Jean-Paul Sartre, respondendo às indiretas objeções reconhecidas em As palavras e as coisas, contra-ataca acusando Foucault de “recusar a história”, ao fazer análises estruturais que encobrem a práxis, e por isso, não podem explicar a formação dos saberes a partir das condições epistêmicas, nem demonstrar a passagem de uma episteme a outra, de maneira que seriam mais da ordem da “geologia” que da arqueologia, pela mera descrição sucessiva de “solos” discursivos. Cf. “Jean-Paul Sartre répond”, in: SMART, B. (org.) Michel Foucault: critical assessments, vol. I, 1994, p. 67-68. Resenhando Vigiar e punir, o historiador Jacques Léornard avalia o perfil de historiador de Foucault, e lhe objeta a generalidade da tese da normalização sobre os detalhes históricos de cada período visado. Cf. “L’historien et le philosophe”, in: PERROT, M. L’impossible prison, 1980, pp. 09-28. Habermas, a seu turno, enfatiza o presentismo do pensamento foucaultiano, cristalizado nas aporias de sua situação hermenêutica, que o força a repetir as divisões históricas a partir de sua inevitável referência. HABERMAS, J. O discurso filosófico da modernidade, 2002, pp. 340-341, 353-355 e 389. Vide infra, nota 114.
igualmente dissidentes ao pensamento histórico hegemônico. O que aparenta, contudo, ser um grande deslocamento em relação às balizas oficiais da periodização histórica estabelecida resulta, entretanto, de cortes pontuais que apenas por aproximação se emparelham aos grandes momentos de passagem, e que, o mais das vezes, apenas por sincronia (tão cara à episteme moderna) se vinculam a objetos históricos típicos.
Neste sentido, para estabelecer a sua diferença em relação à prática histórica tanto quanto à tradicional mentalidade histórico-filosófica, Foucault decide operar com outras demarcações, e conceber arbitrárias e provisórias descontinuidades. Introduzindo como que uma “metodologia complexa”,103 Foucault se põe ao lado de uma prática histórica
contemporânea que toma a descontinuidade sob um novo prisma, deixando de considerá-la um obstáculo, um acidente a ser recoberto pela trama contínua do discurso histórico, para admiti-la simultaneamente enquanto instrumento, operado pelo historiador deliberadamente de modo a marcar as hipóteses iniciais de sua pesquisa; enquanto
resultado de sua descrição, destacado e não mais suprimido em seu discurso; e enquanto conceito, constantemente redefinido em vista das variações que a complexidade do
trabalho empírico acarreta.104 Foucault explica essa utilização da descontinuidade na história contemporânea:
Poderíamos dizer, de modo esquemático, que a história e, de uma maneira geral, as disciplinas históricas deixaram de ser a reconstituição dos encadeamentos para além das sucessões aparentes; elas praticam desde então a sistemática introdução do descontínuo. A grande mutação que as caracteriza em nossa época não é a expansão de seu domínio até os mecanismos econômicos que elas há muito tempo conheciam; tampouco é a integração de fenômenos ideológicos, de formas de pensamento, dos tipos de mentalidade: o século XIX já os havia analisado. É, antes, a transformação do descontínuo: sua passagem de obstáculo à prática; essa interiorização no discurso do orientador que permitiu que ele fosse não mais fatalidade exterior que é preciso reduzir, mas o conceito operatório que se utiliza; essa inversão de sinais, graças a qual ele não é mais o negativo da leitura histórica [...], mas o elemento positivo que determina seu objeto e valida sua análise. É preciso aceitar e compreender em que se transformou o trabalho real dos historiadores: um certo uso regrado da descontinuidade para a análise das séries temporais.105
103 FOUCAULT, M. “Sobre as maneiras de escrever a história”, in: Ditos e escritos, vol. II, 2000, p. 63. 104 FOUCAULT, M. “Sobre a arqueologia das ciências: resposta ao Círculo de Epistemologia”, in: Ditos e
escritos, vol. II, 2000, pp. 84 e 85.
105 Ibidem, p. 85. De se ver aqui, a clara disparidade com que tais parâmetros foram recebidos pela historiografia oficial. De início, Foucault acusara a “sacralização” da História no meio intelectual, colocando- se ao lado de uma nova prática histórica, dita “profissional”, que estaria mais atenta ao trabalho historiográfico e aos deslocamentos que este exigiria em face das contribuições epistemológicas das demais ciências correlatas, mais recentes, como a etnologia, a sociologia, a lingüística. Cf. “Sobre as maneiras de escrever a História” e “Sobre a arqueologia das ciências: resposta ao Círculo de Epistemologia”, in: Ditos e escritos, vol. II, 2000, pp. 61-77 e 82-118. Interpelado, no entanto, pelos próprios historiadores, o pensador francês é compelido a marcar sua diferença também em relação a estes, visto que suas incursões não prezam pela extenuação, pelo esgotamento de uma análise histórica com relação a um período admitido, mas mergulham na historicidade de temas específicos, como base para questionamentos pontuais de ordem
A prática metodológica da descontinuidade dispõe, pois, de pontos de inserção na materialidade histórica, a partir dos quais instauram-se as requeridas periodizações: são, de fato, os acontecimentos, comuns ao trabalho historiográfico usual, porém, com distinta incidência e função. Livres de toda cadeia temporal predeterminada, não mais figuram como o sinal anunciador ou a apoteose de um ciclo, reduzindo em si a significação inteira do que lhe resulta ou sobrevém. Não são mais tidos como os momentos-chave, os extremos eqüidistantes do tracejar de um movimento histórico, como a “origem”, o “clímax” ou o “ocaso” de uma jornada evolutiva. Os acontecimentos, doravante, são tomados em sua casualidade, em sua excentricidade, em sua ocorrência discreta ou mesmo despercebida, prezando, por assim dizer, de um aparecimento não previamente definido: são, ao contrário, escolhidos pelo observador a partir da constatação de sua ocorrência, e dotados de uma importância explicativa em vista dos desdobramentos que lhe são atribuídos e que se quer decifrar. Destarte, isolar acontecimentos aparentemente marginais e acusá-los em sua ocorrência efetiva faz com que estes representem uma quebra, uma abertura em vista de processos contínuos; numa palavra, focam-se acontecimentos na medida de sua
singularidade. Nesta irrupção singular, por sua vez, visa-se encontrar o desdobramento
difuso de outros processos, cuja tangência ou intercorrência se permitem identificar a partir da ruptura. Há, portanto, no balizamento das descontinuidades, toda uma valorização do acontecimento na efetividade de sua ocorrência, de sua positividade, assumida em primeiro plano, para com ela seguir uma cadeia de efeitos descritíveis. Em virtude destes marcos efetivos, esta operação, Foucault a chama, em algumas passagens, de
acontecimentalização: provocar ou ressaltar uma ruptura, assumida como evidente, pelo
manifesto surgir de um acontecimento. E esta ruptura evidente tem por função justamente romper com o que, na linearidade monocórdia da história, mostra-se como evidência, como constante histórica, característica antropológica ou categoria metafísica, para, num segundo movimento, restabelecer o itinerário dos processos que, em seu bojo, cristalizam sua aparência tomada como una, ontológica, necessária.106
A peculiaridade desse procedimento tem um alvo específico: o princípio de causalidade que coloniza o discurso histórico. Este é o motor da grande narrativa, o fundamento explicativo do devir, que organiza os acontecimentos e distribui sua significação, recobrindo suas singularidades. É o “ponto de vista supra-histórico” em que
filosófica. Cf. “A poeira e a nuvem” e “Mesa-redonda de 20 de maio de 1978”, in: Ditos e escritos, vol. IV, 2003, pp. 321-334 e 335-351.
106 Cf. Ibidem, pp. 87 a 97; Idem.“Mesa-redonda em 20 de maio de 1978”, in: Ditos e escritos, vol. IV: estratégia, poder-saber, 2003, 339 e 340.
se apóia a história totalizante, por meio da qual a abstração da metafísica encampa e domina a materialidade do curso temporal. A partir dele, toda pesquisa histórica revolve-se na verificação, na recuperação, na realização do encadeamento racional da causa primeira. Denunciando, pois, essa ingerência da razão transcendental no campo histórico, Foucault retoma a chamada história “efetiva” patrocinada por Nietzsche:
Essa história dos historiadores constrói para si um ponto de apoio fora do tempo; ela pretende tudo julgar de acordo com uma vontade apocalíptica; isso porque ela supôs uma verdade eterna, uma alma que não morre, uma consciência sempre idêntica a si mesma. Se o sentido histórico se deixa dominar pelo ponto de vista supra-histórico, a metafísica pode então retomá-lo por sua própria conta e, fixando-o sob as formas de uma ciência objetiva, impor-lhe o seu próprio “egipcianismo”. Em contrapartida o sentido histórico escapará da metafísica para se tornar o instrumento privilegiado da genealogia se ele não se apóia em nenhum absoluto. Ele deve ter apenas essa acuidade de um olhar que distingue, reparte, dispersa, deixa agir as separações e as margens – uma espécie de olhar que dissocia, capaz de se dissociar dele mesmo e apagar a unidade desse ser humano que, supostamente, o conduz soberanamente na direção do seu passado. O sentido histórico, e é nisto que ele pratica a wirkliche Historie, reintroduz no devir tudo aquilo que se havia acreditado imortal no homem.107
A incidência do pensar transcendental se vê, desta feita, tanto na corrente causal que conduz a vaga do tempo, quanto na flutuação dos elementos que navegam na história. O arrimo empírico desta redução abstrata está na objetivação presente e constante dos caracteres que figuram como peças dessa inteligibilidade do real, seja enquanto objetos admitidos em sua unidade intrínseca e perene, seja enquanto condições imutáveis de apreensão dessas unidades ontológicas idealmente perpétuas, seja ainda enquanto preservação essencial (ou no máximo, atualização teleológica) dos atores que promovem essa apreensão do mundo e, ao fazê-lo, simultanea e completamente, movem a roda dos acontecimentos, na execução de um trajeto inexorável. Esse “egipcianismo” imposto à vida e às suas mudanças ilustra a submissão do pensamento histórico a uma gnoseologia que paradoxalmente afasta do devir a sua característica mais marcante, qual seja, a variabilidade. O universalismo necessário dos objetos, dos conceitos e, sobretudo, do sujeito de conhecimento ratificaria a “natureza comum” dos homens, que lhes permitiria compreender de antemão os fatos históricos e costurar seu entendimento tanto quanto a resolução de seus conflitos, concebidos em sua parcialidade momentânea. A imutabilidade dos instintos, a perenidade dos sentimentos, as sujeições fisiológicas seriam a correspondência material que atestaria a presença categorial da consciência108 na intelecção
107 Idem. “Nietzsche, a genealogia e a história”, in: Ditos e escritos, vol. II, 2000, p. 271.
108 A correlação entre o tipo tradicional de história e a consciência é explicitada nesta passagem:
Compreende-se que muitos tenham permanecido cegos a este fato que nos é contemporâneo [a
descontinuidade], e do qual, no entanto, o saber histórico nos dá testemunho há quase meio século. Se a
do processo histórico, constituindo seu duplo unitário, o corpo. Ora, sua evidência natural, sua certeza biológica, na medida em que se pretende ser o aval da teleologia, deve ser combatida:
[...] nada no homem, nem seu próprio corpo, é bastante fixo para compreender os outros homens e neles se reconhecer. Tudo aquilo em que o homem se apóia para se voltar na direção da história e apreendê-la em sua totalidade, tudo aquilo que permite retraçá-la como um paciente movimento contínuo, trata-se de sistematicamente destruir tudo isso. É preciso destruir tudo aquilo que o jogo apaziguante dos reconhecimentos permitia. A história será “efetiva” à medida que reintroduzir o descontínuo em nosso próprio ser. Ela dividirá nossos sentimentos; dramatizará nossos instintos; multiplicará nosso corpo e o oporá a ele mesmo. Ela não deixará debaixo de si nada que tivesse a estabilidade asseguradora da vida ou da natureza; não se deixará levar por nenhuma obstinação muda na direção de um fim milenar.109
Por trás da unidade transcendente de todos e cada um dos elementos em jogo, abre- se com a acontecimentalização o curso de suas próprias historicidades, e se percebe que, dentro destas historicidades específicas, a constituição dos ditos elementos se altera (e só se identifica) conforme suas interações entre si, que se superpõem e se implicam, sem hierarquia, numa cadeia complexa. O olhar redutor da consciência universal, duplo da soberania do sujeito de conhecimento, deve então ceder lugar ao olhar oblíquo que opera separações, que aceita a dispersão e pontua as singularidades, e a partir do qual, a causalidade necessária, em seu simplismo generalizante, não tem guarida.
Contra, pois, esse critério unidirecional de inteligibilidade, o pensador francês propõe descrever a ramificação das relações de implicação que os acontecimentos guardam entre si, independente de determinações de toda ordem, seja dos elementos considerados, seja dos tipos de relação encetados, que não são uniformes nem permanecem homogêneos em sua interpenetração. Na “miríade de acontecimentos perdidos”, uma correspondente multiplicidade de relações possíveis e conexas impede a primazia de qualquer elemento ou relação, de qualquer direção prévia de causalidade, instaurando, assim, como que um
poliedro de inteligibilidade, uma rede de encadeamentos causais não fechada em si mesma,
não tendente a uma saturação explicativa, mas indefinidamente aberta à análise.110 Por certo, a escolha do direcionamento investigativo impera, neste ponto, revelando um
homens, de suas palavras e seus gestos obscuras sínteses sempre prontas a se reconstituírem, ela seria então um abrigo privilegiado para a consciência: o que ela lhe retira, evidenciando as determinações materiais, as práticas inertes, os processos inconscientes, as intenções esquecidas no mutismo das instituições e das coisas, ela lhe restituiria sob a forma de uma síntese espontânea; ou antes, ela permitiria recuperá-la, apoderar-se novamente de todos os fios que lhe haviam escapado, reanimar todas essas atividades mortas e voltar a ser, em uma ótica nova ou restaurada, o sujeito soberano. A história contínua é o correlato da consciência. Idem. “Sobre a arqueologia das ciências”, in: Ditos e escritos, vol. II, 2000, p. 85-86.
109 Idem. “Nietzsche, a genealogia e a história”, in: Ditos e escritos, vol. II, 2000, p. 272.
110 Idem. “Mesa-redonda de 20 de maio de 1978”, in: Ditos e escritos, vol. IV, 2003, pp. 340-341; “Qu’est- ce que la critique?”, in: Bulletin de la Sóciété Française de Philosophie, avril-juin 1990, p. 51.
perspectivismo inevitável, e que é, por força das condições de análise e da conjuração à abstração da consciência onisciente, mesmo desejável.111 O observador, destarte, escolhe a rota investigativa, o nível de análise, o conjunto de relações a serem descritas, e estabelece enfim, os parâmetros de sua periodização.
Ora, a aplicação de tais critérios na delimitação de um período já de per si polêmico, como a pós-modernidade, conquanto venha ao encontro de sua flutuação