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A negociação dos elementos dramatúrgicos de que falamos, entre os criadores das cenas, poderá ser feita num nível mais aprofundado. Apresentaremos o projeto prático como um protótipo de execução de nossa proposta. Nesse protótipo, a princípio, será desenvolvido um estágio inicial que podemos chamar de criação coletiva. Num estágio mais adiantado vamos provocar uma interação mais elaborada entre os participantes, que podemos qualificar como processo colaborativo. Esse estágio ainda não será efetivamente construído colaborativamente nessa primeira etapa, mas será exemplificado no site do projeto, por meio da simulação escrita de uma rede de cenas com elementos compartilhados (disponível em: <https://vimeo.com/groups/labirintodecenas/forum>). Ainda que não tenhamos ainda esse desenvolvimento na prática, vamos descrever suas potencialidades por julgar sua manifestação imprescindível para a concretização do plano total do projeto. Esse estágio de negociação mais aprofundada depende de uma troca mais acentuada entre os participantes, possibilitando a construção de sequências audiovisuais mais bem trabalhadas. Para esse intento vamos mencionar a emergência da inteligência coletiva.

De acordo com Pierre Lévy, devemos “reinventar o laço social em torno do aprendizado recíproco, da sinergia das competências, da imaginação e da inteligência coletivas. [...] Um processo de crescimento, de diferenciação e de florescimento mútuo das singularidades. [...] É o conjunto do coletivo humano que deve [...] se adaptar, aprender e inventar para viver melhor no universo complexo e caótico em que passamos a viver” (LÉVY, 1998, p.25).

Lévy diz que é impossível reservar o conhecimento e seus movimentos a classes de especialistas. “[...] A base e o objetivo da inteligência coletiva são o reconhecimento e o reconhecimento mútuo das pessoas, e não o culto de comunidades fetichizadas ou hipostasiadas” (LÉVY, 1998, p.29).

O conceito da inteligência coletiva do autor baseia-se em alguns axiomas:

. A inteligência está distribuída por toda parte. Ninguém sabe tudo, todos sabem alguma coisa.

todos juntos deve ser valorizada. Todo saber é ativo, é preciso o reconhecimento além dos saberes oficialmente validados. A valorização do leque de saberes, subjetividades e competências do outro contribui para mobilizá-lo.

. A coordenação das inteligências em tempo real. Devem haver meios e ferramentas para coordenar as interações, um espaço móvel (o ciberespaço) de interações entre conhecimentos e conhecedores, de coletivos inteligentes desterritorializados.

. Atingir uma mobilização efetiva das competências. Identificá-las e reconhecê-las em toda a sua diversidade.

O ideal da inteligência coletiva implica a valorização técnica, econômica, jurídica e humana de uma inteligência distribuída por toda parte, a fim de desencadear uma dinâmica positiva de reconhecimento e mobilização das competências. (LÉVY, 1998, p.30)

Lévy ressalta a singularidade móvel dos indivíduos no coletivo, afirmando que não se trata de comparar irrestritamente a inteligência coletiva com o trabalho conjunto e coordenado em formigueiros e cupinzeiros:

Interagindo com diversas comunidades, [os indivíduos] longe de ser os membros intercambiáveis de castas imutáveis, são ao mesmo tempo singulares, múltiplos, nômades e em vias de metamorfose (ou de aprendizado) permanente. (LÉVY, 1998, p.31)

Veremos adiante neste trabalho que essa metamorfose, singularidade e multiplicidade caracterizada nos indivíduos que agem por uma inteligência coletiva é transferida para seus modos de criação coletiva, as quais também manifestam-se pelas mesmas qualidades, pois são reflexo dos agenciamentos desses indivíduos que já vêm desenvolvendo em si os valores dessa cultura de troca entre saberes descentralizada.

O escritor também deixa claro que a inteligência coletiva só progride quando há cooperação e competição ao mesmo tempo. Para exemplificar, cita a comunidade científica, capaz de trocar idéias porque tem a liberdade de confrontar pensamentos opostos e assim gerar conhecimento. A cooperação não significa necessariamente um trabalho conjunto para um objetivo afim. O sentido aludido do termo remete a co-operar, operar em conjunto, com os conflitos também engendrando a operação. Em todo caso trata-se de uma coordenação e mobilização mútua.

O reconhecimento coletivo de que fazemos operações conjuntas “[...] convoca um novo humanismo que inclui e amplia o „conhece-te a ti mesmo‟ para um „aprendamos a nos

conhecer para pensar juntos‟, e que generaliza o „penso, logo existo‟ em um „formamos uma inteligência coletiva, logo existimos eminentemente como comunidade‟.” (LÉVY, 1998, p.32). Tomando um sentido lógico inverso, é preciso haver as comunidades para existir uma inteligência coletiva. Por meio de agrupamentos coordenados mutuamente com ferramentas de cooperação no ciberespaço formam-se as comunidades virtuais.

Henry Jenkins (2008) cita algumas manifestações de inteligência coletiva mobilizadas por meio da internet, como a investigação coletiva organizada para descobrir as locações do programa de televisão Survivor (2004), quando os internautas fãs do programa investigavam e compartilhavam as informações que conseguiam; o jogo promovido pela Microsoft apelidado de A Besta (The Beast, 2001), que requeria diferentes conhecimentos para ser solucionado, só podendo ser decifrado pelo compartilhamento dessas expertises.

Nos inspiramos nesses casos para aprimorar esse projeto, enfocando a manifestação dessa inteligência coletiva para a criação coletiva: a inteligência dos participantes dirigida a uma invenção dramatúrgica compartilhada, juntando idéias, esforços e vontades para a composição de sequências dramatúrgicas aprimoradas coletivamente, pela força e amplitude criativa de personalidades distintas. As energias dirigidas à investigação, ao jogo, à mobilização, aqui concentram-se diretamente na criação.

Pela ação múltipla, negociada, forma-se um potente instrumento de criação, com o qual pode-se gerar enredos diversos que aos poucos vão formando fortes conexões pela proposição e interfêrencia de sugestões criativas múltiplas, provindas de diferentes conhecimentos e expressões particulares. Cria-se de certa maneira uma forma de evolução criativa orgânica, em constante evolução. Queremos promover um ciberdrama a ser construído com esse potencial criativo, proveniente da inteligência coletiva, não de todo previsível, vivo, e verdadeiramente representativo das expressões dos participantes.

No modelo que propomos, incentivamos a manifestação da inteligência coletiva principalmente na etapa de formação de enredos entre as cenas, na negociação e intercâmbio de idéias e de elementos dramatúrgicos entre os participantes, fazendo com que as idéias originais das cenas extrapolem seus módulos, manifestando-se em outras cenas por símbolos e acontecimentos. Objetivamos assim promover as qualidades criativas da inteligência coletiva, manifesta de forma descentralizada, com os próprios participantes governando as significações formadas. Dessa forma pretendemos também estimular que a criação participativa produza enredos originais, inéditos.

Atualmente as ações desenvolvidas com o uso da inteligência coletiva na internet, relacionadas à criação de narrativas ou jogos, ainda nascem em grande parte vinculadas a

produções protegidas por corporações e direitos autorais. É o caso das recriações feitas pelos fãs de StarWars e Harry Potter. Queremos propiciar uma criação livre, em que não haja fronteiras ou limites para a evolução de novas fantasias e seja possível a livre divulgação e compartilhamento. Uma criação do zero, de todos, feitas por nós, para nós mesmos. Nesse sentido a participação deixa de ser uma criação coadjuvante paralela a uma obra comercial, para ser uma manifestação feita prioritariamente para nos representar, acima de qualquer cerceamento à evolução de novos rumos, e sem ter de atender a um criador único. Ao invés de diferentes indivíduos se juntarem para decifrar o jogo A Besta, podem se juntar também para criar o jogo.

Essa postura de criação favorece o que Manovich chama de individualização, conceito contrário a conformação:

[...] a lógica das novas mídias se encaixa à lógica da sociedade pós-industrial que valoriza a individualização ao invés da conformação. Na sociedade industrial de massa supõe-se que todos têm os mesmos gostos – e as mesmas crenças. Essa era também a lógica das tecnologias midiáticas. Um objeto midiático era montado numa indústria (como um estúdio de Hollywood). Milhões de cópias idênticas eram produzidas de uma matriz e distribuídas para todos os cidadãos. Televisão, cinema, mídia impressa, todas seguiam essa lógica. [...] Na sociedade pós-industrial, cada cidadão pode construir a própria customização de seu estilo de vida e „selecionar‟ sua ideologia de um extenso (mas não infinito) número de escolhas. (MANOVICH, 2001, p.60)

Com o objetivo de propiciar criações originais, incentivamos a criação desde a invenção de uma cena até a recriação das cenas, assumindo nesse ponto uma dimensão exterior às cenas, inter-cenas, tornando a ação de vincular as diferentes criações necessariamente fruto da criação compartilhada, aprimorada pela inteligência coletiva coordenada virtualmente, fundando narrativas múltiplas mas interconectadas pela interpenetração de seus elementos nas diversas cenas, resultado de originais negociações de suas significações.

Pode-se alcançar ainda mais um estágio no uso da inteligência coletiva. Passamos dela para uma criação coletiva e desta podemos evoluir para um aprendizado coletivo. Por exemplo, em alguns dos sites que reúnem fãs de Harry Potter para fantasiar novas estórias, existem instrutores, participantes que já possuem mais experiência na composição das estórias e passam a orientar novos escritores (JENKINS, 2008).

Entramos dessa forma num nível avançado de criação dramatúrgica audiovisual, em que um aprendizado compartilhado pode crescer para buscar melhores estratégias de construção narrativa ou discursiva, trazendo para a criação compartilhada técnicas de

produção do cinema, dos games, das telenovelas, e também técnicas novas, nascidas com a própria hipermídia, como a interligação semântica mutante entre dados de um banco de dados (esse assunto será detalhado no último capítulo).

Vale repetir que em tudo isso temos uma volta à economia de troca, feita por um esforço conjunto voluntário para fundar o próprio lazer e fortalecer a própria cultura e expressão artística, fundada na criação de narrativas, composições e representações teatrais próprias.

2 O MODELO PROPOSTO E SUAS INFLUÊNCIAS

Apresentamos a seguir uma síntese do modelo que estamos propondo de criação dramatúrgica participativa, juntamente com o detalhamento da aplicação prática desse modelo. (Esse detalhamento do projeto prático será feito nesse momento para facilitar o entendimento de uma análise teórica posterior e a justificação das padronizações escolhidas para essa ilustração do modelo). Vamos proceder a essas descrições para depois evidenciar as facilidades trazidas a essa proposta pelo fenômeno da convergência de mídias que vivemos atualmente.

Um protótipo do projeto prático está disponível no site: <https://vimeo.com/groups/labirintodecenas>.