• Aucun résultat trouvé

It’s on another map

Dans le document by Hugh Cameron & Roger Voight (Page 167-171)

Ao instalar-se no Campo de Santa Clara, o Instituto do Louriçal - com os Angejas, primeiro e, logo a seguir, com D. Maria Ana de Bragança -, não apenas reforçou o ideário espiritual em que assentava, como desagravou uma memória que, pelo menos no plano arquitectónico, à míngua se alimentava do empenho inconsistente da irmandade que para tal fim se compusera.

Se as imediações da igreja profanada se instituíram, pela sua carga simbólica, como argumento per se para uma nova fundação ou, pelo menos, como razão do sentimento da sua premência, outros factores houve para que esse mesmo terreno fosse efectivamente sentido como o mais propício ao advento daquela sui generis forma de caminhada evangélica.

Secularmente animado pelos festejos de Janeiro, a que a presença da família real dava o mais soberano tom, e pela impositiva e persistente (até porque sempre inconclusa) massa arquitectónica de Santa Engrácia, o Campo de Santa Clara contaria com uma valência social e urbanística não menos operativa no sentido de honrar, perpetuando, a liberalidade de D. Pedro II e de D. João V.

Assinalando, desde os seus primórdios, o limite oriental da urbe, o Campo de Santa Clara não abandonou, até meados de Setecentos, a feição arrabaldina, definida pela lembrança das velhas portas da cidade342, extra-muros da qual se foi desenvolvendo. A este largo centrípeto de contornos irregulares, limitava a norte o Arco Grande de S. Vicente e a fachada nascente do Convento de S. Vicente, a poente, a antiga Fundição de Cima343 e Arco Pequeno de S. Vicente, a sul, a rua do Paraíso e, a nascente, o velho Mosteiro de Santa Clara344.

Apesar de não reivindicar o estatuto de centro nevrálgico da cidade, representado então pela zona baixa, o Campo de Santa Clara não deixa de ser

342 Trata-se da Porta da Cruz, uma das mais importantes entradas da cidade. Damião de Góis refere esta porta na Descrição da cidade de Lisboa. A sua designação está associada à existência de uma imagem de Cristo crucificado na parte interior da muralha, junto ao local onde a porta se situava. Vd., a propósito, Eduardo Freire de OLIVEIRA, Elementos para a História do Município de Lisboa, Vol. VIII, p. 203. 343 Passaram a Direcção da Arma de Artilharia e, hoje em dia, em grande parte desocupados, pertencem ao Estado-Maior do Exército.

344 O espaço que ocupam tinha anteriormente servido de sede a uma antiga fundição, a de Santa Clara, também chamada Fábrica de Armas ou Parque de Artilharia. No Campo existiam, pois, dois importantes complexos fabris, ambos pertencentes ao extinto Arsenal do Exército: a Fundição de Cima e a Fundição de Santa Clara.

considerado como local que, pelo menos a partir de meados de Setecentos, “tipifica bem as potencialidades da cidade”345. Foi progressivo o seu processo de desenvolvimento e de nobilitação, sublinhado pela iniciativa da Infanta D. Maria, fundadora da paróquia de Santa Engrácia e, já antes disso, pela fundação medieval do Mosteiro de Santa Clara346, que daria o nome ao lugar. Seguindo a sua vocação de pólo estruturador da evolução urbana347, o mosteiro terá chamado ao seu redor não só algum casario popular como também a presença daquela infanta e, no seu encalço, de várias famílias da nobreza.

Até ao século XVIII, e sobretudo neste, o sítio registou um contínuo desenvolvimento a que a dimensão e projecção social das obras da paroquial acentuara o cunho de nobreza. Várias foram as construções que, entretanto, ratificariam tal carácter, instituindo-se em simultâneo como obras de incontestada valia arquitectónica: o Palácio Barbacena (nome do seu proprietário oitocentista), da autoria de Manuel da Costa Negreiros, o Palácio Lavradio (pertença do primeiro patriarca de Lisboa, D. Tomás de Almeida)348, o Palácio Resende, o Palácio Sinel de Cordes ou ainda, um pouco mais a sul, o dos Teles de Melo349.

Ao irromper do terramoto de 1755 e, ao invés de extensas áreas da cidade, parte do largo não sofreu danos significativos350, ficando inclusivamente intacta a problemática Igreja de Santa Engrácia, de cuja solidez tanto se duvidara em Novembro de 1712. O cataclismo terá mesmo beneficiado o desenvolvimento urbano do local, que acabaria por servir como refúgio a muita da população que ficara desprovida de habitação ou de meios e para quem a instalação provisória foi dando lugar à definitiva.

345 José Fernandes PEREIRA, “O barroco do século XVIII”, in PEREIRA, Paulo (dir.), História da arte

portuguesa, Vol. III, Lisboa, Temas e Debates, 1995, p. 151.

346 O mosteiro foi fundado em 1292 por D. Inês Fernandes na zona da Trindade, sendo transferido dois anos mais tarde para o Campo de Santa Clara, então um descampado designado “Campo da Forca”. Desde os seus primórdios, o mosteiro - de clarissas urbanistas ou da segunda regra de Santa Clara -, fora grandemente beneficiado pela coroa e papado, possuindo, ao mesmo tempo, inumeráveis riquezas. (Vd. Durval Pires de LIMA, História dos Mosteiros, Conventos e Casas Religiosas de Lisboa, Vol. II, Lisboa, Imprensa Municipal, 1972, pp. 231 - 258).

347 Cfr. Raquel Henriques da SILVA, “A extinção dos conventos e a elaboração da Lisboa burguesa”,

Olisipo, série 2, n.º 2, 1996, p. 45.

348 José Fernandes PEREIRA, “O barroco do século XVIII”, in PEREIRA, Paulo (dir.), História da arte

portuguesa, Vol. III, Lisboa, Temas e Debates, 1995, p. 151. O autor refere mesmo que estes dois

primeiros palácios, Barbacena e Lavradio, “consagravam definitivamente o Campo de Santa Clara como uma zona residencial da nobreza”.

349 Vd., a propósito, Irisalva MOITA, “Campo de Santa Clara” in ALMEIDA, Fernando (dir.),

Monumentos e edifícios notáveis do distrito de Lisboa, Vol. V, Tomo II, Lisboa, Junta Distrital de Lisboa,

1975, pp. 179-183.

350 Já o Mosteiro de Santa Clara ruiu quase por completo, vitimando centenas de pessoas, como descreve o Padre Baptista de Castro no Mappa de Portugal, Vol. III, p. 275. Diz, a respeito: “O seu famoso Templo, que era hum monte de ouro, e na grandeza excedia a todos os dos mais Mosteiros, ficou totalmente prostrado [...]. O Coro de cima, que era hum Paraiso na terra, tambem se abateo”.

Cumprida a profecia da Madre Maria Joana351, temia-se, logo após, o cumprimento de novo vaticínio segundo o qual o 1.º de Novembro de 1756 aportaria horrores semelhantes aos verificados no ano imediatamente anterior. Daí a recusa das pessoas acampadas em abandonar o espaço, atitude de que viria a resultar a intensificação da construção352.

Quando, em 1778, o Recolhimento do Desagravo se instalou em terrenos de Bartolomeu de Aranda, as ruínas do velho Mosteiro de Santa Clara tinham já dado lugar a instalações fabris de natureza militar, fundadas por Pombal, restando apenas parte de um arco da antiga igreja e a lembrança planimétrica do claustro, cujos eixos a estrutura usineira em parte respeitou. Em terrenos que lhes pertenciam foram também edificados, no extremo poente do Campo, a Fundição de Cima, no topo de cujo portal se exibe a data de 1762353.

A destruição de uma casa de culto com o peso que tivera Santa Clara leva a que o Conventinho, também de clarissas (ainda que de diferente regra), possa ser olhado como uma resposta supletiva ao vazio espiritual e arquitectónico originado por tal perda. Ainda que espacialmente, e contrariamente ao que vulgarmente se invoca, não tenha substituído o vetusto mosteiro, há que notar que, em consequência do terramoto, as casas religiosas da zona oriental da cidade ficaram seriamente afectadas, tal o caso do Mosteiro de Santa Apolónia e do da Madre de Deus, para só citar as casas de clarissas354, circunstância que permite aferir da necessidade da criação de um novo espaço cultual e litúrgico. Se a tal acrescermos que a Ermida de Nossa Senhora do Paraíso que, desde 1630, servia de paroquial à freguesia, sofreu danos com o terramoto, e que o templo inacabado em pouco beneficiava, pelo menos directamente, a prática religiosa, devemos reconhecer a existência de uma situação ou de um sentimento de carência que, nesse plano, o Conventinho tenha vindo ainda que tardiamente suprir.

351 Cfr. José CAETANO (Frei), Memórias da vida e virtudes da serva de Deus Soror Maria Joana, pp. 224-225.

352 Pinho LEAL, op. cit., p.169

353 Cfr. Irisalva MOITA, op. cit., pp. 179-183.

354 Cfr. Joaquim Moreira MENDONÇA, Historia universal dos terremotos que tem havido no mundo de

que ha noticia, desde a sua creação até o seculo presente..., Lisboa, Oficina de António Vicente da Silva,

Dans le document by Hugh Cameron & Roger Voight (Page 167-171)

Documents relatifs