2.2 Intensidade e diálogo
Atenta à fama guerreira kadiwéu tantas vezes evocada na bibliograa sobre o grupo assim como às inúmeras diculdades registradas por outros antropólogos que haviam estado na aldeia Bodoquena, decidi que seria importante conversar com o grupo sobre seu interesse e disposição em participar de uma pesquisa desta natureza, antes de escrever propriamente o projeto.
Todos esses cuidados e ponderações não foram sucientes, e nossa experiência de campo acabou acontecendo num contexto de tensão política interna latente que adquiriu, como vimos, contornos ainda mais denidos com nossa chegada.
Não podemos reclamar, entretanto, da grande oportunidade que tivemos, no nal das contas, de vivenciar um conito político em sua plena atividade. Colocados na posição de pivôs deste conito, posso dizer que tratou-se de uma experiência bastante particular que adquiriu, em vários momentos, contornos realmente dramáticos, no pleno sentido turneriano.
Passado o susto e a perplexidade dos primeiros momentos, aos poucos com as idéias sendo recolocadas no lugar e a experiência repensada pude perceber que, apesar (e por causa) da intensidade vertiginosa da experiência, havia acumulado uma série de informações ainda não digeridas, sobre um espectro amplo e inesperado de temas, que poderiam compensar as frustrações causadas pelo retorno forçado e pela aparente falta de dados que tanto me assombrara de início.
Depois de horas debruçada sobre o diário de campo e audições atentas às gravações de conversas que tinha podido fazer, relembrando situações e momentos, percebi que contava com uma quantidade considerável de dados interessantes que poderiam ser cotejados com o rico material bibliográco existente sobre o grupo.
Conforme ia escrevendo e elaborando a experiência vivida, percebi, para minha sur- presa, que fatos aparentemente irrelevantes acontecidos durante o trabalho de campo remetiam diretamente a temas que eram de interesse no início da pesquisa e poderiam ser, de fato, importantes para pensar não apenas as concepções de maternidade e pater- nidade correntes, mas em especial o lugar das crianças, nessa sociedade que lhes dedicava uma atenção tão especial O fascínio que a presença de meu lho exerceu no imaginário kadiwéu, por exemplo, foi fundamental no entendimento das suas concepções em torno das crianças e do papel político a elas reservado nessa sociedade.
2.2 Intensidade e diálogo 26
Se a memória já é seletiva em condições normais, pode-se imaginar a névoa e seleção daquelas elaboradas num clima de constante tensão. O registro sistemático de tudo que acontecia no diário de campo foi crucial.
Este recurso metodológico, fundamental na antropologia, foi especialmente precioso e exercitei-o a cada minuto, pois sabia que bem poderia ser o último. Não somente procurava estender ao máximo o olhar e a escuta, atentando para cada detalhe expresso em diferentes ações e discursos, por mais banal que pudesse parecer à primeira vista, mas esforçava-me para registrar rigorosamente no diário de campo estas observações, impressões e mesmo sensações, pedindo sistematicamente relatos minuciosos de meu marido e de meu lho sobre suas experiências nas diversas relações que travavam na aldeia, instigando-os e, de certa forma, instruindo, para que procurassem lembrar exatamente quais foram as frases ditas, as palavras usadas em cada ocasião, enm, uma colaboração preciosa à qual sou eternamente grata.
Embora tenha chegado a ter alguns informantes mais regulares, sobretudo na família que me hospedava, cada Kadiwéu que encontrava era fonte de conhecimento, o que dotou algumas informações de um caráter bastante fragmentado. O convívio intensivo, dia e noite, dentro de uma casa e com uma família kadiwéu permitiu-me, entretanto, um contato e um conhecimento mais íntimo da dinâmica do grupo, seus dilemas e preocupações, divertimentos e certezas. A vida cotidiana, com suas repetições e redundâncias, oferecia, quando menos esperava, momentos inéditos e signicativos que iluminavam o emaranhado de signicados que buscamos entender.
Embora continuasse interessada nos temas originais, tornou-se imperativo incorporar à pesquisa tanto a força demonstrada pela política kadiwéu, quanto a experiência apa- vorante, mas de qualquer forma inédita, de vivenciar o estranhamento não apenas na rotina da vida cotidiana como no caso dos fartos cafés da manhã, sempre regados a feijão, arroz, carne e mandioca mas de forma radical, nas ameaças de membros do grupo que se opunham à nossa permanência na aldeia, gerando momentos em que nos sentíamos como que jogados no olho do furacão. Também o teor e o tipo de dados obti- dos sofreu, obviamente, inuência do contexto que se nos apresentava. Embora algumas pessoas que diziam nos apoiar insistissem no fato de que deveríamos aproveitar o tempo, me encorajando a ir fazendo a pesquisa e arranjando visitas informais para entrevis- tar seus parentes, grande parte do tempo foi gasto tentando consertar a compreensível repercussão negativa que o agravo à autoridade constituída representou para o grupo no poder.
2.2 Intensidade e diálogo 27
A história contada aqui não é, portanto, uma história alheia, uma vez que esta an- tropóloga faz parte desta história. Embora tenha grande simpatia pelas propostas que sugerem o estabelecimento de uma relação dialógica com os grupos estudados, a dialogia foi, neste caso, praticamente imposta pelos Kadiwéu. Tal visibilidade, proposta como mé- todo fundamental pela crítica pós-moderna, se deu mais como uma condição da pesquisa do que, propriamente, por uma opção metodológica pré-estabelecida. Para ser sincera, até gostaria que o encontro fosse um pouco menos dialógico do que foi.
O problema do poder exercido pelo pesquisador sobre o pesquisado, tanto em campo quanto no próprio processo de escritura, tornou-se evidente nos últimos anos, sobretudo com a crítica pós-moderna4. Isso não quer dizer, porém, que os nativos também não
tenham interesses e estratégias de poder. Por isso, penso que devemos relativizar também algumas posições às vezes extremas, que percebem as relações de poder como exercidas apenas por um dos pólos ou apenas numa direção5. Em campo, imerso num mundo
completamente diferente, com outras normas sociais (morais e jurais), buscando inces- santemente interagir com pessoas relativamente desconhecidas, que se conhecem entre si, tendo que superar diversas diculdades materiais e simbólicas, o antropólogo se torna, muitas vezes, um personagem extremamente vulnerável6
A noção de diálogo como algo imprescindível nas relações entre etnógrafos e nativos foi objeto de estudo de diversos autores7. Focalizando na intersubjetividade humana,
Dennis Tedlock (1983) argumenta que esta dimensão adquire um caráter de interobje- tividade, quando compartilhada numa interação consciente, onde universos cognitivos potencialmente distintos se encontram.
4Não caberia aqui detalhar este debate já bem conhecido, intensicado na década de 80, sobretudo
por teóricos norte-americanos. Sobre o tema ver James Cliord & George Marcus (1996), Teresa Caldeira (1988), Marisa Peirano (1991), entre outros.
5É claro que não ignoro que existem níveis de inuência e poder, e que, muitas vezes, um dos pólos
pode atuar com uma força impositiva ou mesmo coerciva maior, como nos famosos casos de trabalhos antropológicos encomendados por órgãos governamentais colonialistas. O que não impede que, mesmo assim, existam negociações. .
6Um exemplo aparentemente banal, mas decisivo quando se pensa na natureza dos dados que obtemos
em campo, me foi revelado pelos próprios Kadiwéu. Embora falem o português uentemente, em várias ocasiões falavam no idioma na nossa presença. Como diziam, brincando, assim podiam falar mal de nós, sem que entendêssemos; mas também obviamente uma forma de nos privar das informações que consideravam impróprias aos meus ouvidos. .
7Em A tradição analógica e a antropologia dialógica, por exemplo, D.Tedlock destaca a idéia do
respeito ao outro como sujeito, mostrando como a tradição analógica clássica, centrada nas análises e explicações totalizantes e universais, impõe um olhar determinado que tende a esconder um aspecto elementar das ciências sociais que é fato de não sermos observadores silenciosos, esta especicidade das ciências humanas, onde o pesquisador é da mesma natureza que seu objeto, como já observara Lévi-Strauss. .