As sociabilidades intelectuais e os espaços destinados à divulgação do saber e às discussões políticas redimensionaram a opinião pública e tornaram-se importantes locais de debate para os que, na maioria das vezes, estavam aquém do debate político. O movimento revolucionário francês, por exemplo, foi fator essencial no contexto de criação de espaços públicos de divulgação do saber e da prática da leitura. É necessário ressaltar que, neste período, as bibliotecas particulares eram consideradas “inimigas da república”, fazendo com que a revolução transferisse a todos os cidadãos o direito de instrução, abolindo a ideia de que o passado, cristalizado nas bibliotecas particulares, deixasse de ser um privilégio da classe burguesa.255
Diversos autores256 indicam que, apesar da existência das bibliotecas na Antiguidade e no Medievo, as bibliotecas públicas surgiram apenas na segunda metade do século XIX nos Estados Unidos e na Inglaterra. Para Almeida Junior257, essas bibliotecas se diferenciavam por três fatores: eram integralmente mantidas pelo Estado, possuíam funções específicas e
255 ARRUDA, Guilhermina Melo. As práticas da biblioteca pública a partir das suas quatro funções básicas. In CONGRESSO BRASILEIRO DE BIBLIOTECONOMIA E DOCUMENTAÇÃO, 19., 2000, Porto Alegre. Anais... Porto Alegre: Associação Rio-Grandense de Bibliotecários, 2000. Disponível em: http://dici.ibict.br/archive/00000734/01/T079.pdf. Acesso em: 23/11/2013. p.7.
256 As bibliotecas públicas, contraditoriamente, eram locais de acesso restrito, e, além disso, o acervo era proveniente de bibliotecas particulares, o que não agradava ao gosto do leitor. Somente na segunda metade do Oitocentos pode-se falar verdadeiramente em bibliotecas públicas, com acervos provenientes da necessidade e gosto popular. ARRUDA, Guilhermina Melo. História e memória da Biblioteca Pública do Amazonas (1870 a 1910). Manaus: Universidade do Amazonas, 2000.Dissertação de Mestrado. Disponível em <http://www.scribd.com/doc/16826748/MELO2000Historia-e-Memoria-da-Biblioteca-Publica-do-Amazonas- 18901910> Acesso em 20/07/2014.
257 ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco de. Biblioteca Pública: avaliação de serviços. Londrina, PR: EDUEL, 2003. p. 66
108 objetivavam atender a sociedade. Na Inglaterra, os espaços de leitura tiveram seu maior desenvolvimento por volta de 1850, em meio ao contexto da revolução industrial, propiciado pelos movimentos de contestação, que indicavam a necessidade de espaços de discussão cultural e local de aperfeiçoamento.258
Diversos fatores levaram as bibliotecas públicas e os acervos particulares do século XIX a se tornarem objetos de estudo da historiografia brasileira. A análise dos acervos, das práticas de leituras e do público leitor permite caracterizar o que era lido nas províncias, a interferência das leituras na formação dos indivíduos e nos movimentos de contestação, e, além disso, possibilita descrever a recepção e a circulação das ideias políticas. As investigações desta natureza auxiliam, sobretudo, a mapear o mercado livreiro e as transações que ocorriam entre o Brasil e outros países como, por exemplo, a França.259
No Brasil, como afirma Rubens Borba de Moraes260, as primeiras bibliotecas foram organizadas pelos jesuítas, entretanto, resguardados à ordem religiosa, tais acervos não eram considerados públicos. Com a chegada da Corte, diversas instituições culturais foram criadas no Rio de Janeiro, como, por exemplo, a Real Biblioteca261, configurada em 1810. Após a Independência, essa instituição passou a se chamar Biblioteca Imperial Pública, contando ainda com o acervo posterior. Da mesma forma, as províncias passaram a projetar suas bibliotecas locais, atribuindo a estes espaços ideias de civilização e modernidade.
A criação de bibliotecas como espaços de difusão de conhecimento a partir da iniciativa e necessidade das elites intelectuais locais foi uma prática recorrente em diversas regiões. Na Bahia, por exemplo, onde ocorreu a criação da primeira biblioteca pública, a necessidade de um espaço de leitura foi requerida pelo intelectual Pedro Gomes Ferrão Castello Branco. Em 1811, ele apresentou ao governador da capitania da Bahia um documento que constituía um
258 WADA, Madalena Sofia Mitoko. Democratização da cultura nas bibliotecas infanto-juvenis. Belo Horizonte: UFMG, 1985. p. 16
259 Sobre o mercado editorial e circulação de livros, ver: MOLLIER, Jean-Yves. O Dinheiro e as letras. História do capitalismo editorial. São Paulo: Edusp, 2010; JURATIC, Sabine. Da prosopografia dos livreiros ao estudo das redes do livro. Balanço e perspectivas da pesquisa. Livro. Revista do Núcleo de Estudos do livro e da edição. n. 1, maio, 2011. São Paulo: USP/ Ateliê Editorial.
260 MORAES, Rubens Borba de. Livros e bibliotecas no Brasil colonial. 2. ed. Brasília: Briquet de Lemos, 2006. 261 CARVALHO, Gilberto Vilar de. Biografia da Biblioteca Nacional (1807 a 1990). Rio de Janeiro: Irradiação Cultural, 1994.
plano para o estabelecimento de uma biblioteca Pública em Salvador. A urgência de um estabelecimento como aquele foi denunciada por Castello Branco:
Padece o Brazil, e particularmente esta Capital a mais absoluta falta de meios para entrarmos em relação de idéas com os Escritores da Europa, e para se nos patentearem os tesouros do saber espalhados nas suas obras, sem as quais nem se poderão conservar as ideias adquiridas, e muito menos promovê-las a beneficio da Sociedade.262
A partir de então a capital passou a contar com um espaço para leitura, onde a maioria de seus livros era escrita em língua francesa, composta por doações de outros intelectuais da região. Nos anos de 1880 a biblioteca pública da Bahia já havia se consolidado, contando com um acervo de quase vinte mil livros.
Por outro lado, a província do Amazonas só passou a vivenciar a experiência de uma sala de leitura em meados de 1870, acompanhando a modernização e as modificações urbanas de Manaus. De acordo com os estudos de Guilhermina Arruda, a iniciativa de se criar uma biblioteca pública em Manaus objetivou satisfazer a elite intelectual manauara, na tentativa de fazer da cidade uma referência intelectual. Após a criação da sala de leitura agregada à biblioteca, o local passou por alguns anos de abandono, tanto por parte dos leitores, como também das autoridades públicas. Foi somente na década de 1880 que a nova biblioteca voltou a ser uma preocupação governamental, ganhando novo acervo.263
Acompanhando o mesmo processo, a primeira biblioteca pública do Pará também foi requerida por parte da elite intelectual. A biblioteca iniciou seu funcionamento por volta de 1839 e visava ao desenvolvimento intelectual da província. O acervo foi realocado por diversas vezes, fazendo com que as obras facilmente se desorganizassem e sofressem abandono por parte dos usuários. Somente em 1871 o espaço passou por uma renovação, iniciada pelo presidente de província Joaquim Pires Machado Portella, que renovou o acervo, agregou obras diferenciadas aos volumes já existes, e instituiu-a como departamento público.264
262 Plano para o estabelecimento de huma bibliotheca pública na Cidade de S. Salvador - Bahia de Todos os Santos, offerecido á Approvação do Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Conde dos Arcos, Governador, e Capitão General desta Capitania. In: SOARES, Francisco Sério Mota,,, [ et al.] História da Biblioteca Pública da Bahia.
Salvador: Fundação Pedro Calmon, 2011. Disponível em:
<http://200.187.16.144:8080/jspui/bitstream/bv2julho/356/1/Historia%20da%20biblioteca%20publica%20na%2 0bahia.pdf>. Acesso em: 12/02/2013.
263 MELO, 2007.
110 De acordo com Tânia Bessone265, em 1880, a Corte abrigava grande número de bibliotecas, entre as quais se destacava a Biblioteca Nacional, as bibliotecas da faculdade de Medicina, Escola da Marinha, do Mosteiro de São Bento, da Academia de Belas Artes, do Gabinete Português de Leitura, do IHGB, entre outros acervos. As pesquisas da autora indicam que as bibliotecas públicas eram locais bastante frequentados por leitores com objetivos diversos. As bibliotecas, por sua vez, preocupavam-se em ampliar o público, publicando informativos nos jornais e zelando pelo conforto do leitor com iluminação adequada e expediente que suprisse a demanda dos frequentadores.266
Na província de São Paulo, o número de bibliotecas também era bastante significativo nas últimas décadas do Império. De acordo com Marisa Deaecto267, a primeira biblioteca pública dessa província foi criada em 1825, tornando-se mais tarde Biblioteca da Faculdade de Direito. Por volta de 1890, a instituição já contava com mais de 10.000 exemplares. Na década de 1870, criou-se a Biblioteca Popular e a Biblioteca da Sociedade Germânia. Outra importante biblioteca de estudos foi fundada pelo College Mackenzie, em 1886, e, em 1894, São Paulo contava também com o acervo da Escola Politécnica.
Tomando por base a literatura referente ao estudo das bibliotecas em outras províncias, e a circulação de ideias nos espaços de leitura, é necessário inserir a província do Espírito Santo no mapeamento das bibliotecas públicas do Império. Tal investigação possibilita caracterizar a utilização dos espaços de leitura local como elemento indispensável para a discussão e conhecimento de diversas teorias científicas e correntes políticas divulgadas no fim do século XIX. As novas práticas de leitura e assiduidade às bibliotecas consolidaram a existência de uma elite intelectual atuante nos anos finais do Império, ampliando, neste sentido, o espaço público de discussão e crítica.
265 FERREIRA, Tânia Maria Bessone. Livros de História: bibliotecas e mercado editorial no século XIX. Anais
da anpuh – XXIII Simpósio Nacional de História – Londrina, 2005. p. 4.
266 FERREIRA, Tania Maria T. Bessone da Cruz. Palácios de destinos cruzados: bibliotecas, homens e livros no Rio de Janeiro (1870-1920). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1999.
267 DEAECTO, Marisa Midori. O Império dos Livros: Instituições e práticas de leitura na São Paulo oitocentista. São Paulo: Edusp, 2011.