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III.2 Admissions via concours sur titres

III.2.2 Série Divers

O ano é 1974. Tempos difíceis para a nação, diante de uma ditadura que não sustentou o crescimento econômico brasileiro, iniciado a partir de 1968, o que faz o país entrar em recessão em face de uma crise mundial (CAMPOS, 2015). A Seleção Brasileira, que em 1970 havia conquistado tricampeonato no México, foi eliminada pela Seleção Holandesa e teve de se contentar com um quarto lugar, após perder para a Polônia por um placar de 1x0. Na final, a Alemanha Ocidental203, de Franz Beckenbauer e Gerd Müller, que disputava a Copa do

201 Zezé da Veiga não foi um desportista.

202Domingos Prudêncio, cujo apelido era Dezoito. Trabalhou no Goiânia Esporte Clube nas décadas de 1950 e 1960.

203 “O mundo dividido em leste e oeste. A Alemanha foi dividida, oficialmente, em quatro partes: zonas de ocupação soviética, americana, francesa e inglesa. Mas, praticamente, todos sabem no que resultou aquela divisão: duas partes, dois estados. Por um lado, a zona de ocupação soviética (Alemanha Oriental); por outro, as

Mundo em seu próprio país, enfrentaria a poderosa Seleção da Holanda, na qual se destacava Johan Cruyff, saindo da disputa vitoriosa pelo placar de 2x1.

Em Goiânia, Capital, sob a supervisão e direção do engenheiro coordenador Lamartine Reginaldo da Silva Júnior, iniciava-se a construção do estádio Serra Dourada. Lamartine, que é figura importante não só na história do GEC, mas também na história do esporte goiano, nos concedeu uma entrevista que nos permitiu fazer alguns questionamentos sobre a construção do estádio Serra Dourada:

Djalma Oliveira: Eu tive contato com o nome do senhor através de um livro em

que conta a história do estádio Serra Dourada. Como foi essa história?

Lamartine Rodrigues: É. Eu fui convidado para ser coordenador da obra porque,

na época, eu era presidente da Fundação Estadual de Esportes do governo de Leonino Caiado, e ele tinha a promessa de construir o estádio e o autódromo.(muda de assunto) Nós tocamos as duas obras paralelas.Foi barra.Não foi fácil, mas a gente conseguiu formar uma equipe muito boa, não só pela equipe goiana, que era a nossa turminha, como também tivemos muita sorte nas licitações.

Djalma Oliveira: O senhor já havia feito algo assim? Estádio?

Lamartine: Nada (risos). O único estádio meu era o Olímpico204. O Serra Dourada, a gente fez aquilo ali com muito carinho e muito amor.

Sobre o GEC Lamartine acentuou a seguinte proposição:

Djalma Oliveira: Como podemos descrever a história do senhor no Goiânia?

Lamartine Reginaldo: A minha história com o Goiânia é muito bonita. Eu tinha 11

anos de idade. Eu mudei pra Goiânia em 1950 e não precisa dizer (pausa), naquela época o Goiânia tinha um timão. O Goiás era um time mediano, ainda tava começando, não tinha nenhuma projeção maior, nenhum título. E tinha o Atlético que trazia Campinas, que era o bairro que batia de frente com o Galo. E era chamado o choque rei, que era [a disputa entre] o Goiânia e o Atlético. O Goiânia, na era do Olímpico, dominou. (muda de assunto) E eu acho que o Goiânia começou a entrar em decadência depois do período em que profissionalizou o futebol em Goiás.

Djalma Oliveira: por quê?

Lamartine Reginaldo: Naquela época, todos eram amadores e o Goiânia tinha muito

isso de jogar mais pelo coração. Arrumava um empreguinho aqui [para os atletas] e tal e jogava bola. Não era uma coisa como hoje, em que os jogadores profissionais vivem daquilo. Eu vivi essa era romântica. O Vila Nova não existia. Ele veio depois e a gente ficava restrito (sic) ao Goiás, ao Atlético e ao Goiânia.

outras três, compondo a Alemanha Ocidental.” (GALVAN, ...E a Guerra fez a Geografia. Aula inaugural do

Curso de Mestrado em Geografia da Universidade Federal de Santa Catarina. p. 4,1990)

IMAGEM 28: Reprodução fotográfica de Djalma Oliveira de Souza, Foto P/B. 15X21. Arquivo pessoal, Lamartine Reginaldo. Foto 15x21. P/B. (1974), autor desconhecido.

Enquanto o Estádio Serra Dourada começava a ser erguido, saindo do papel a caminho de uma estrutura de cimento e aço, com capacidade para receber até 75 mil torcedores, o time do Goiânia Esporte Clube fazia suas preparações para disputar o 13º Campeonato Estadual na era profissional205. O campeonato de 1974, iniciado no segundo semestre, precisamente no mês de agosto, contava com as seguintes equipes para a disputa que se estendeu até o mês de novembro: Santa Helena, Goiânia, Independente206, Anápolis, Atlético, Vila Nova, Goiatuba,

Goiás e Itumbiara. O modo de disputa do campeonato dera-se da seguinte maneira: jogos de ida e volta (todos contra todos) em dois turnos, conhecido também como jogo “em casa” e jogo “fora de casa207”. Os times campeões de cada turno seguiriam para a disputa final em

dois jogos, seguindo o critério de dois mandos de campo, salvo nos casos em que o mesmo time sagrasse vitorioso nos dois turnos da campanha, o que o faria campeão direto do campeonato.

O GEC foi o campeão invicto do primeiro turno, ao passo que o Goiás, do segundo, de forma que a Final dera-se entre o Galo e o Periquito. A campanha do GEC foi de 17 jogos, com oito vitórias, sete empates e duas derrotas. Com 21 gols, saiu do campeonato com saldo positivo de sete. O time base do GEC contava em seu elenco com Nilson, Eulálio, Dema, Lula, Tasso, Benê, Mauricio, Marco Antônio, Rogério, Marcelo, Sinomar e Curió. O técnico

205O primeiro campeonato Goiano na era profissional foi realizado em 1962. 206Time da Cidade de Goiás, antiga capital goiana.

207Essas expressões, “dentro de casa” e “fora de casa” tem o significado de quando um time joga na sua cidade natal e o seu inverso respectivamente.

era o professor de Educação Física Tomaz de Aquino, vulgo Tomazinho, irmão do treinador Paulo Gonçalves, que havia treinado o GEC ao iniciar a década de 1970.

A primeira partida entre o Goiás e o Galo Carijó pelas finais de 1974 aconteceu no dia 20 de novembro, em um jogo onde prevaleceu à tática e a estratégia de seus treinadores. O GEC ganhou o jogo pelo placar de 1x0 com gol de Marcelo. O Árbitro daquele jogo foi o reconhecido juiz de futebol, Arnaldo Cesar Coelho.

O GEC, depois de fazer o primeiro e único gol no segundo tempo, adotou, por ordem do seu técnico, a estratégia de dar uma “segurada na bola” para evitar um possível empate, ou até mesmo uma reviravolta do oponente, e pediu que os seus jogadores guardassem forças para o segundo jogo que estava marcado para o dia 24 de novembro.

24 de novembro de 1974 foi um dia de domingo. O relógio marcava 17 horas quando, sob um sol escaldante,208 o Árbitro Oscar Escolfado apita o início do jogo209. O Galo, que já tinha saído vitorioso no primeiro jogo, não colocou o regulamento debaixo do braço210 e, da mesma forma que demonstrou no decorrer do campeonato, saiu para o jogo.

A este respeito, entrevistamos o ex-jogador e goleiro Nilson que, diante do tema abordado, descreveu particularidades do embate da seguinte forma:

Djalma Oliveira: Os times respeitavam o Goiânia?

Nilson: Todo mundo tinha medo do Goiânia por conta de sua aplicação tática,que o

time tinha.

Djalma Oliveira: Como foram os dias que antecederam o jogo final?

Nilson: Seu Tomaz (técnico) foi muito inteligente. Ficou todo mundo concentrado.

Ficamos na Estância Real, hoje Real Privê, um lugar fantástico.

Djalma Oliveira: E a população, a imprensa falava muito de futebol na época? Nilson: Falava muito. O repórter que cobria o Goiânia era o Edson Costa, que

depois virou repórter policial. O jornal O Popular mandava o fotógrafo Jacaré. Tinha também o Manoel de Oliveira, Ledes Gonçalves, Jurandir Santos e Amir Sabbag. (muda de assunto) Tínhamos dois bons zagueiros reservas, o Tininho e o Diogo. Os titulares eram o Dema e o Lula.

Djalma Oliveira: Vocês jogaram bem desde o início do campeonato?

Nilson: Bem, desde o início sempre jogando bem, nós fizemos um mês de pré-

temporada e quando eu entrei no time, eu e o Tasso, o time já estava praticamente formado.

208Afirmação elaborada a partir das informações do site https://pt.weatherspark.com/y/29979/Clima- caracter%C3%ADstico-em-Goi%C3%A2nia-Brasil-durante-o-ano. Acrescidas ainda dos depoimentos dos jogadores Nilson e Dema.

209O público pagante foi de 15 mil 681 pagantes. Renda de $127 mil. Fonte: jornal O Popular dia 10/07/1988. 210Termo usado para caracterizar que o time usou o regulamento do campeonato em sua defesa, ou seja, o time deixa de jogar ou de arriscar por conta de saber que não se lançando à frente o resultado seria eficaz. O time abdica de jogar.

Djalma Oliveira: Havia muitas discussões entre os jogadores? Se um falhasse,

como era reação de vocês?

Nilson: Não havia brigas e, caso alguém falhasse, tudo era compreendido. A gente

superava a deficiência técnica com muita vontade, vontade de ganhar.

Djalma Oliveira: O senhor se lembra de detalhes do segundo jogo?

Nilson: Lembro. O estádio estava lotado. A torcida do Goiânia, bem maior que a

torcida de todos os times. Eu me lembro que o nosso time, quando ia jogar contra o Vila, nós já planejava a feira no outro dia. A gente não perdia para o Vila nunca.

Djalma Oliveira: Vocês chegaram a que horas ao estádio?

Nilson: Era umas 3horas. Fomos para o vestiário. OTomazinho deu a preleção.

Saímos da concentração de ônibus e não tinha nenhuma briga [...] Eu sei que começou o jogo, daí o Tuíra chutou, aí eu espalmei e a bola sobrou para o Paguete, que era muito técnico. Ele tirou de lado e gol.

Djalma Oliveira: Como foi a reação de vocês após o gol?

Nilson: Fomos pra cima. Do mesmo jeito que sempre fizemos. (descrição do gol) Eu

me lembro que eu fiz uma defesa. Peguei a bola e fiz uma ligada. O que na época (inaudível), isso que os goleiros fazem hoje (dá um tapa na palma da mão), dobradiça ou quebrada, eu fazia isso há muito tempo. Defendi e liguei a bola na ponta que alcançou o Sinomar, ou o Mauricio, se não me engano. Não me lembro. Só sei que a bola foi cruzada e o baixinho Marco Antônio abaixou a cabeça e fez o gol.

Djalma Oliveira: No gol da Paranaíba? Nilson: Não, do outro lado.

Djalma Oliveira: Quantos minutos?

Nilson: Trinta, trinta e cinco minutos. Eu me lembro que o Goiás tinha uma jogada

que talvez tenha sido a defesa mais importante do campeonato e a defesa mais importante que eu já fiz. Eu estudava os adversários. O Goiás tinha uma jogada onde eles transavam a bola de um lado para o outro. Reinaldo, Ulisses e Raimundinho. A bola não ia no Lincão. Eles ficavam jogando a bola de um lado para o outro. De repente um jogador entrava na diagonal. Aí eles lançaram uma bola entre a marca do

penalty e a pequena área. Daí essa bola sobrou para o Rinaldo. Foi quando eu

percebi que eu teria que encurtar a minha distância entre a bola e o jogador. Aprendi isso com o Andrada. A bola foi cruzada, saí de uma forma que impedisse a aproximação do atacante. Raimundinho, do jeito que a bola caiu, ele pegou de primeira. (pausa)

Djalma Oliveira:E aí?

Nilson: Aí, do jeito que ele bateu de primeira, eu peguei e não soltei. Caí com ela

encaixada. Houve até a dúvida de alguns porque realmente a bola sumiu. Eles só viram a bola quando eu levantei e mostrei a bola. Daí a torcida gritou.

A festa em campo estendeu-se noite afora para os jogadores, dirigentes e familiares. A comemoração do título, feita no Jóquei clube de Goiás, premiou o time do GEC com muita comida e bebida.

O simbolismo do título de 1974 caracteriza-se em partes pela sua carga emocional, devido às dificuldades em que se encontrava o clube naquele momento. O ano anterior ao título (campeonato de 1973) foi muito difícil para o Goiânia e as perspectivas daquele ano não

eram as melhores. Prevaleceu naquele momento à união e a técnica dos jogadores, aliadas à estratégia do técnico Tomazinho.

Existe também a questão política. Naquele momento, sob as armas e olhos da ditadura, as movimentações dos clubes estavam monitoradas pelos agentes públicos. O Galo, que sempre foi um aliado do grupo ligado a Pedro Ludovico Teixeira, deposto pelo regime ditatorial, preferiu não se comprometer com os militares, assim que estes subiram ao poder. Dessa forma, o time resistiu contra o poder político, passando também a sofrer com a falta de organização do clube o que, consequentemente, gerava falta de recursos para manter o time, isso, diante de um cenário de crescimento de outros clubes da Capital, com destaque para o Goiás Esporte Clube. O clube não tinha um grande craque. Dessa feita, o coletivo superou a individualidade e ofereceu aos torcedores do GEC a possibilidade de voltar a sonhar como nos anos em que o clube conquistara seus 14 títulos estaduais.

QUADRO 37- CAMPEONATO GOIANO 1974

Primeiro turno 1974 Segundo turno 1974

Santa Helena 0x2 Goiânia (Marcelo e Sinomar)

Independente 0x1 Goiânia (Marcelo) Independente 0x1 Goiânia (Maurício)

Anápolis 0x1 Goiânia (Bené) Anápolis 2x2 Goiânia (Rogério e Marcelo)

Atlético 1x1 Goiânia (Marco Antônio) Atlético 1x1 Goiânia (?)

Vila Nova 1x1 Goiânia (Marco Antônio) Vila Nova 1x2 Goiânia (Maurício e Palmi)

Goiatuba 2x3 Goiânia (Marco Antônio, Curió e Rogério)

Goiatuba 2x1 Goiânia (Sinomar)

Goiás 1x1 Goiânia (Sinomar) Goiás 1x0 Goiânia

Itumbiara 0x1 Goiânia (Sinomar) Itumbiara 1x1 Goiânia ( Curió)

Final (Primeiro Jogo) Final (Segundo Jogo)

Goiás 0x1 Goiânia (Marcelo) Goiás 1x1 Goiânia (Marco Antônio)

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