suaves, lembrando, em muito, as cantigas de Oxum.
3.5 – Ìyàmi: criadora ou destruidora
O significado da identidade de Ìyàmi fica, na maioria das vezes, deteriorado pelo trabalho de alguns pesquisadores, transformando Ìyàmi, mãe
primordial dos iorubanos e seus descendentes, sustentadora do mundo, em bruxa e em feiticeira. Segundo Augras34, as Ìyàmi até chegam a ser uma pomba-gira.
Despojada de sua função primordial de geradora da vida, é reduzida à condição de força destrutiva.
Em A feitiçaria entre os nagô yoruba, Cunha afirma: “ìyàmi não se incorporam nos seus fiéis, durante festival guelede não há possessão” 35. Para o estudioso, a
feitiçaria apóia-se na noção de Axé. Por outro lado, a feitiçaria encontra-se nos mitos de origem de Ìyàmi Oxoronga, feiticeira terrível, que é ao mesmo tempo a mãe ancestral da humanidade.
Como a senhora vê essa imagem de Ìyàmi que é passada a comunidade candomblé? Ela é passada de uma forma diabólica. E ela não é tão diabólica a ponto do jeito que eles imaginam. Você entendeu? As Ìyàmi são diabólicas e não são diabólicas. Depende do ponto de vista como você a invoca. Você entendeu? Elas não são do jeito que o povo fala, elas não se assemelham a esse negócio de pomba gira e os escambal que o povo fala ai no Brasil. Que isso? Elas não são isso. Elas são outras coisas. E isso que é o problema. O povo do Brasil, eles criam uma imagem e dão ilusão a essa imagem. Na realidade as Ìyàmi não é isso. 36
Na visão de Ribeiro: “... do ponto de vista do código moral iorubá a magia pode ser boa ou má, lícita ou ilícita. Bruxaria e feitiçaria são, via de regra, expressões de magia ilícita porque visam a destruição de um indivíduo ou de um grupo”37.
34 Cf. Monique AUGRAS, De Iyá Mi a Pomba-gira, In: Carlos Eugênio Marcondes MOURA (org.), Candomblé: religião do corpo e da alma.
35 Mariano Carneiro da CUNHA, A Feitiçaria entre os Nagô-Yorubá, Revista Dédalo, p. 4.
36 Ialorixá Raquel, entrevista realizada pela autora, gravação em fita de áudio, Santo André, 08/03/2004,
fita no 01. Ver apêndice p. 94.
Novamente observamos que determinada força não é boa nem má em si, mas esta valoração é dada pelo uso que é feito dela.
Muitos historiadores, antropólogos e até etnólogos relacionam a magia à religião e à ciência, como, por exemplo, Malinowski38 e Geertz39. Para a maioria dos
pesquisadores a magia é considerada o primeiro relatório das ciências astronômicas físicas naturais por intermédio dela as escrituras e fórmulas representam uma espécie de manual sagrado a ser seguido. A magia é de ordem particular é secreta não oficializada tem duplo objetivo o benefício e o malefício é ilícito e sobrevive no oculto. A magia mostra coisas da ordem do proibido e da transgressão. A magia é a grande reserva de força humana contra a fraqueza, a frustração, a derrota, o pensamento mágico está ligado às características mais profundas do ser humano esse pensamento também esta próximo à religião. 40
É preciso esclarecer que Ìyàmi não têm nada haver com as bruxas. Ela não é bruxa. O conceito ocidental de bruxa é um conceito do branco europeu, que está baseado em valores diferentes dos valores africanos. Dentro da cultura africana, o conceito de bruxa não existe.
Porém, o que observamos é que muitos conceitos africanos foram interpretados de forma cristã e produziram traduções carregadas de ambigüidade. No mundo literário, é possível ver que muitos autores escreveram, sem perceber, que
Ìyàmi está intimamente ligada ao mito ioruba da criação do mundo antigo no
continente negro, não a associando ao culto dos orixás.
Compreendemos que através das pesquisas, Ìyàmi, de alguma forma, participa da vida dos humanos, ajuda na cura e na infertilidade. Portanto, mulheres que desejam conceber e engravidar, e homens que desejam procriar procuram as Ìyàmi para ativar sua fertilidade e assim realizar o sonho humano de procriação. Ìyàmi, no
38 Segundo Bronislaw MALINOWSKI, Magia, ciência e religião, p. 145: “Tanto a magia como a religião
surgem e resultam de situações de tensão emocional: crises da vida, lacunas em objetivos importantes, morte e iniciação nos mistérios tribais, infelicidade no amor e ódio não mitigado.Tanto a magia como a religião permitem escapes para tais situações e impasses, e só proporcionam o domínio do sobrenatural”. p. 90 “A magia é, pois, semelhante à ciência pelo facto de ter um objectivo definido intimamente associado aos instintos, necessidades e actividades do homem”. p. 145
39 Para Clifford GEERTZ, Interpretação de Culturas, p. 148: “Tanto o que um povo preza como o que ele
teme e odeia são retratados em sua visão de mundo simbolizados em sua religião. (...) A força de uma religião ao apoiar os valores sociais repousa, pois na capacidade dos seus símbolos de formularem o mundo no qual esses valores, bem como as forças que se opõem à sua compreensão, são ingredientes fundamentais”.
contexto religioso, são consideradas mães ancestrais, energia que dá o poder de procriação. As Ìyàmi também proporcionam prosperidade, porque elas se relacionam com a noção da riqueza, do ponto de vista da construção, e do progresso.
O que temos visto é que Ìyàmi aparece na literatura com diversas roupagens, com evocações diferentes, inclusive, com muitas formas de reverenciá-las. Em termos mitológicos, ela aparece associada aos pássaros e entre seus nomes encontramos
Eleyé (o poder do pássaro). Ela também está simbolizada e associada à coruja como,
esclarece a Mãe Beata de Yemonjá:
Existia, antigamente, uma mulher de uma idade já avançada que teve um menino e, no ato de parir, morreu, indo para junto das mães ancestrais. Lá chegando a mulher ficou muito triste por ter deixado o filho recém-nascido, precisando mamar. Contam muitos casos de Iyá Mi como má, mas em tudo existe o mal e o bem. Um tem cumplicidade com o outro e, às vezes, o bem vence o mal. Foi o que aconteceu com Iyá Mi naquele dia. Ela chamou a mulher e disse. Olha, nós aqui, quando saímos do mundo, chegamos aqui e temos de esquecer tudo. Mas como você está assim, triste com o seu filho, eu vou lhe fazer virar uma coruja e você vai assentar na cumeeira da casa que foi sua e ficar esperando. Quando não tiver ninguém no quarto, você se vira em uma mulher e amamenta seu filho. Isto acontecerá todos os dias até que ele fique forte e mais criado. Assim a mulher fez, até que o menino não quis mais pegar no peito. Todos diziam: Engraçado esta coruja todo dia ela senta em cima desta casa. Parece até agoro. Mas nunca desconfiaram de que ela era uma mãe ancestral. Assim, ela se foi para o orun, para o céu, para nunca mais voltar. Só em casos de grandes necessidades é que elas vêm aqui.41
Podemos observar que a Ìyàmi não se materializa, ela existe como poder sobrenatural. Por se tratarem de elementos simbólicos de contexto religioso sabemos que sua existência não é verificável. Pode-se perceber, que os diversos nomes inclinam-se, às vezes, para significados positivos (o bem), Ìyàmi-agbá, e outras vezes para o negativo (o mal), Iyá Àgbà Àjé. No conjunto, os nomes que Ìyàmi recebe, expressam a natureza transformadora para o bem, como Mãe Ancestral.
Na entrevista realizada com a Ialorixá Raquel, quando indagamos qual a visão e quais as expectativas relacionadas à Ìyàmi, ela nos disse:
Olha, as Ìyàmi , elas são uma força junto com Exu que controla os Ajogun. Tanto elas como Exu ambos têm o poder de controlar os Ajogun e através dos dois que eles podem fazer com que esses Ajogun trabalhem contra a pessoa ou eles podem barrar que esses Ajogun ataque uma pessoa, ou seja, eu digo para você que Iku é um Ajogun. Você entendeu? Por exemplo, Exu pode fazer com que a morte chegue mais rápido para você, ou pode fazer com que essa morte atrase para você. Então, os dois controlam os Ajogun, ou seja, controla a morte, controla a perda, controla a inveja, controla todos esses fenômenos que pejorativos de uma forma geral, a doença assim por diante. 42
As forças malévolas de Ajogun: doença, inveja, a morte, Iku, insucesso no destino humano, são combatidas por Ìyàmi e por Exu. Entre os iorubas, a força vital recebe o nome de axé, toda e qualquer realização depende do axé. Quando bem administrado pode aumentar com passar do tempo, aumentando, com isso, o axé, a fertilidade, a prosperidade e a longevidade, pelo fato da pessoa adquirir gradualmente e obter o conhecimento a respeito de como adquiri-lo sem desperdício. Diferentes elementos possuem diferentes qualidades de axé. Segundo Beniste:
Axé como palavra, representa o que assim seja, definindo o conceito de que é Deus, O Ser Supremo,somente ele, que permite a realização de um pedido ou da outorga de algum poder. Ao dizer axé ao final de uma oração ou um pedido, a idéia é a de que Deus é quem irá decidir se o pedido será aceito ou não.43
O fato de que a palavra axé possui também o significado de assim seja, ocorrerá, acontecerá, assim será representa, para os iorubá, o tempo e a profecia de futuro que supõe que uma ocorrência pode ocorrer de imediato. Segundo Maupoil: “...
axé é força invisível, a força mágico sagrada de toda divindade de todo ser animado,
de toda coisa” 44. Ronilda Ribeiro chama atenção para o fato que o axé:
Não se dá espontaneamente, é preciso ser transmitido. Para realizar qualquer situação na existência depende do axé que enquanto força segue algumas leis: é absorvível, desgastável, elaborável e acumulável. É transmissível através de certos elementos materiais, de certas substâncias. Uma vez transferido por essas substâncias a seres e objetos, neles mantém e renova o poder de realização. Pode ser aplicado a diversas finalidades. Sua qualidade varia segundo a combinação de elementos que o constituem e que são, por
42 Ialorixá Raquel, entrevista realizada pela autora, gravação em fita de áudio, Santo André, 08/03/2004,
fita no. 01. Ver apêndice p. 94.
43 José BENISTE, Orun, Àiyé, p. 274.
sua vez portadores de uma determinada carga de uma particular energia e de um particular poder de realização45.
O axé dos orixás é realimentado através de oferendas e de ação ritual, transmitido por intermédio da iniciação e ativado pela conduta individual e ritual, pode aumentar ou diminuir.
No diagrama estão listadas as principais forças que influenciam o ser humano e os empenhos espirituais. Axé, o poder requintado; Ajé, os seres poderosos; Oso46,
poder transformativo; e os Ajogun, as forças puramente malévolas, como a morte, as maldições e a doença, seres destruidores. Observamos o diagrama a respeito destas forças atuantes:
DIAGRAMA E OUTRAS FORÇAS
AXÉ
O poder requintado que Olodumaré criou todas as coisa, espiritual