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Sélection de charges de travail multiprogrammées

10 A cultura familiar tem sido expressa no terreno do trabalho terapêutico com famílias (Bucher, 1986;

Boszormenyi-Nagy & Spark, 1994) como códigos de lealdade, aliança familiares, carta de legados referindo-se a um conjunto de obrigações e dívidas, construídas ao longo do tempo e que necessitam ser cumpridas por algum dos membros do grupo familiar.

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No campo do significado histórico-contextual atual dos processos migratórios, a pesquisa proveu reflexões a respeito dos seguintes pontos

1) Das evidências cultural-ideológicas a partir de aspectos sócio-afetivos – em que foram discutidos elementos afetivos, sociais e culturais da família migrante como base de compreensão sobre sua condição relacional e ideológica.

2) Da natureza dos processos, das atitudes e das concepções do pertencimento – em que foram descritos processos de reorganizações sócio-afetivas e de (re)construção de atitudes sócio-culturais da família migrante.

3) Dos processos constituídos afetivamente e o papel das dinâmicas compensatórias – em que se discutiu o papel das dinâmicas relacionais compensatórias geradas em contexto de migração em relação aos processos constituídos pelas relações afetivas.

4) Da relação entre pertencimento social e noções de transculturalidade – em que se discutiram processos de reformulações nas concepções de homem, de família e de mundo engendrados na migração em família.

Tal como o relacionamento com pessoas, a vinculação aos lugares (“o lugar que me acolheu”, como menciona Valter) desperta ambivalências, demanda investimento e convergência afetivos, pode ser télica ou transferencial, ganhando significado a partir de um eixo histórico de adoção. Neste parâmetro, os aspectos cultural-ideológicos evidenciam-se pelos aspectos afetivo-sociais, na medida em que os processos que subsidiam as vinculações são esclarecidos como processos de filiação e, portanto, processos históricos. Assim, também ficam evidentes as dinâmicas relacionais compensatórias geradas em contexto de migração que descaracterizam os processos constituídos pelas relações afetivas, a saber, a adoção de lugar, o duplo pertencimento, o pertencimento estendido, etc. Estas considerações, igualmente, oferecem explicação a respeito da natureza dos processos de inclusão em que se deram as

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reorganizações sócio-afetivas das famílias dos estudos, bem como a construção de atitudes de inclusão e de noções de pertencimento à família e ao lugar social.

A contemporaneidade trouxe um confronto entre possibilidades da vida psicossocial como: a expansão sócio-afetiva versus a estabilidade pessoal, a unidade familiar/comunitária versus o fortalecimento da identidade pessoal, a fusão interpessoal versus a autonomia dos indivíduos. Geralmente, a busca de segurança e liberdade são marcos das relações familiares e sociais hoje (Bauman, 2003), os quais Singly (2007) caracteriza como o aumento no “(...) grau de liberdade na escolha das modalidades dessa segurança” (p. 177), ou seja, do pertencimento social, e não como a negação do desejo de pertencer.

Além disso, a migração também evidenciou paradoxos do processo de familidade, apontados por Singly (2007) como características em transição da família contemporânea. Primeiramente, foi constatada a diminuição dos laços de dependência entre as gerações (e entre os sexos) e a busca por uma qualidade melhor das relações como um todo. Segundo, evidenciou-se a personalização das relações entre cônjuges e entre pais e filhos, ao lado de uma maior socialização da vida privada. O que se observou é que a desterritorialidade e reterritorialização favoreceram a reunião, no mesmo palco (da família), de experiências previstas por Singly (2007) como modos típicos do sentido de família hoje. Desta forma, os casais da pesquisa demonstraram parceria na produção da individualidade e da coletividade, investindo na compatibilidade entre forças individuais e coletivas, entre processos afetivos e de independência, entre a descontinuidade entre as gerações e a busca pela continuidade histórica da própria família, com uma consciência emergente sobre o valor da dimensão afetiva e do contexto social mais amplo na construção de suas histórias.

A pesquisa apontou ainda (conforme Quadro 3) que as escolhas sociométricas de lugar associaram-se a um padrão de continuidade relacional e histórica, a nível pessoal, familiar e social, promovendo a noção de geratividade e de identidade familiar, processo em que valores relacionais, sociais e de família são descobertos, assumidos e transmitidos. A família-verde protagonizou esta relação, em que se observaram filhos mantendo o valor de família, e, ao mesmo tempo, avançando para os seus projetos pessoais (suas histórias, suas outras famílias).

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Observou-se também que estes aspectos foram acessados na intervenção dramática, ou seja, em contexto de percepção télica, recíproca, quando se pôde fechar o paradoxo de responsabilizar-se pelo acolhimento de outros, ao mesmo tempo em que se percebe a si mesmo como estrangeiro (ser “anfitrião mesmo não estando na sua terra”), promovendo, assim, a aceitação de diferenças em uma amplitude ao mesmo tempo fortemente afetiva e intercultural. Neste sentido, segundo Dinicola (1994), “(...) a minha responsabilidade com os outros é o que me mantém humano” (p. 61).

O que se percebe é que o Sociodrama põe em ação tanto os afetos como as histórias, e ambas se interpenetram (como Moreno prevê em sua tricotomia social). É nesta síntese que a vinculação ao lugar e às pessoas se integra, demarcando os processos identitários dos protagonistas. Assim, como no caso da “mãe dividida” na pesquisa, a relação afetiva pode favorecer a percepção do eixo histórico em três histórias: a sua própria, a dos filhos e a do seu casamento, possibilitando, no núcleo materno (referente ao ego-auxiliar primeiro), a proliferação de vários protagonistas ao mesmo tempo.

A ênfase nos processos inter e intra-grupais (familiares) no contexto em questão foi evidenciada considerando-se as motivações paradoxais emergentes dos tempos pós- modernos reveladas na concomitância entre o individualismo extremo e a busca intensa por novos modos de pertencimento, com todas as possíveis conseqüências para os processos interacionais, afetivos e identitários em jogo (Bauman, 2003).

Assim, a hipótese de que “há uma nova compreensão de homem, de família e de mundo mobilizada pelas experiências de migração em família” se confirma.

Em relação ao significado histórico e contextual do processo migratório, convém lembrar que o contexto da migração evidenciado na pesquisa foi a experiência de nordestinos/cearenses que migraram em família para a multiculturalizada cidade de Brasília. No entanto, as famílias do estudo parecem só terem se dado conta do reflexo afetivo deste fato, nos atos dramáticos da investigação. Então, a pesquisa indicou que as famílias designam Brasília como lugar “de crescimento”, “expectativa”, “descoberta”, “oportunidade”, e, Fortaleza, como “passado”, “núcleo de resolução”, “lugar dos parentes”, “lugar que sempre vai “carregar” consigo” (na memória).

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Como lembra Santos (1996), a noção do lugar de origem do migrante não se esvai. Todavia, é como se sua memória se tornasse inútil, pois é na inserção social ativa/ consciente e mais vinculada à descoberta do que à experiência prévia (ou seja, mais ligada à tele do que à transferência), que o estranhamento ao lugar pode ser desfeito e a relação estabelecida.

Percebe-se o processo constitutivo da relação com o lugar, pelo caráter resolutivo e até conflituoso destas designações atribuídas pelas famílias, implicando-as na construção das relações em jogo. Neste contexto, o argumento (por parte da família que teve sua identidade dividida, dualizada) de que mais idas e vindas a Fortaleza desenvolveriam um duplo pertencimento, encontra fundamento. No entanto, Santos (1996) lembra que a memória é coletiva, enquanto o esquecimento é individual. Neste sentido, as vivências com o lugar só fornecem identidade se forem pautadas em relações interpessoais também, e não somente com o lugar (ou amistosas, ou massificadas), mas aquelas em que seus atores protagonizem cenas de vida, escrevendo suas histórias coletiva e dramaticamente. Em outras palavras, é a contigüidade relacional que “(...) funda a escala do cotidiano e seus parâmetros de co- presença, vizinhança, intimidade, emoção, cooperação e socialização” (Santos, 1996, p. 272).

Os sociodramas, enquanto fomento à dramaticidade relacional, promoveram a percepção/compreensão de aspectos vivenciados na migração sobre os quais as famílias ainda não tinham se dado conta, pelo menos, não coletivamente. Uma destas foi a noção de transculturalidade considerada enquanto aceitação daqueles a quem se considera “muito diferentes”. Observou-se que tal noção pode alterar as formas e o significado do pertencimento social, e vice-versa.

Sobre o significado das novas condições multiculturais na retomada do vínculo social por parte do migrante, deve-se ressaltar, a partir da presente pesquisa, que, se o significado ao qual a questão se refere é uma noção intelectual de multiculturalidade esta não imprime uma realidade multicultural, mas antes, uma condição etnocêntrica, “(...) um sentimento suspeito (que) (...) determina uma linha divisória sutil entre os que estão de fora e os que são de dentro” (Dinicola, 1994, p. 59), uma “curiosidade da diferença” como base de familiaridade com os estranhos.

Sobre o significado histórico e contextual da migração de nordestinos, especificamente, emergiram aspectos que podem ser associados ao ideário da migração de resistência. Por

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exemplo, imaginou-se que os comentários que se fariam aos dados coletados seriam que eles (os migrantes) “têm coragem de sair da sua terra e buscar o melhor pra família”, lembrando a noção do “retirante nordestino”, lutando contra as más condições de vida em seu estado, o que não corresponde ao perfil econômico dos pesquisandos.

Uma outra observação diz respeito à “migração de retorno”, à condição de “eternos peregrinos” e aos “rompimentos familiares” (com a família de origem, a qual continuaria residindo no lugar de origem), mencionados anteriormente como aspectos culturais das migrações nordestinas (Carvalho & Almeida, 2003), os quais foram evidenciados entre os dados coletados. Pode-se compreender, aqui, uma associação entre a influência da cultura de migração nordestina e as experiências afetivas vivenciadas no desenvolvimento do pertencimento estendido, tal como a pesquisa indicou.

Das características previstas à migração global (relativa à era da Globalização), a saber, intenso movimento de diversidade e sincretismo cultural, “cidadania internacional”, “mundo sem fronteiras”, “migração por escolha e desejo” (sujeito de seu próprio destino, protagonista), bem como o fim da migração forçada, emergiu principalmente a idéia de se “ser dono de seu próprio destino”. As noções de “mundo sem fronteiras” e de sincretismo cultural acompanham uma consciência inicial em relação à aceitação de povos diferentes, no contexto de se ver um membro da família entre eles. Pode-se concluir que estas características da migração global não foram incorporadas aos migrantes da pesquisa.

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