un cas d’étude
Chapitre 3 Outils numériques
3.1.1.1 Sédimentation et processus sédimentaires
A formação do conceito do que se denomina intelectual está repleta de tomadas de posição, que muitas vezes se escondem na ilusão de um transcurso sem jogos de força e poder. O que não se verifica na leitura atenta de nossa história, uma vez que, no momento da construção da intelectualidade, “foram subestimadas as numerosas tradições orais das línguas vernaculares” (Burke, 1989, p. 60). Além de subestimadas, elas foram apropriadas. Um exemplo esclarecedor a este respeito é a figura do trovador medieval. Na Idade Média europeia, com o surgimento da tecnologia da escrita, os trovadores começaram a ditar seus versos a um escriba a fim de que estes os entregassem a damas. Importantes documentos a este respeito são as 16 iluminuras do Cancioneiro da ajuda28 que retratam como o fazer poético era produzido, fixado e divulgado. As iluminuras apresentam, de um lado, o trabalho do trovador, responsável por compor os versos, e de outro, o trabalho dos jograis, ou seja, de cantar, tocar instrumentos e dançar.
Não obstante, pesquisas recentes29 apontam para o fato de que o trovador,
homem nobre e de elite, como controlador da produção e da divulgação da palavra poética, apropriou-se da poesia feita pelos “mestres tradicionais da palavra”, os jograis, pessoas do povo, na medida em que dispunham dos meios para selecionar, ordenar e pagar os artistas para a execução das obras, ademais, para a registrarem na forma escrita. Dessa forma, como Slavoj Žižek afirma, “toda posição dentro do todo social é sobredeterminada, em última instância, pela luta de classes” (Žižek, 2007, p. 27). Mais ainda, os antigos poetas eram, em sua quase maioria, cavaleiros pobres que, por estarem na presença da nobreza, eram alçados a nobres, visto que “o refinamento e a cultura começam a transformar-se em agente nivelador na medida em que príncipes e outros nobres se orgulham de contar-se entre os trouvères” (Mannheim, 1974, p. 99).
28 O Cancioneiro da Ajuda, que recebe este nome por estar conservado na biblioteca do Palácio Nacional da Ajuda em Lisboa, é um dos três manuscritos de cancioneiros que conservam a poesia medieval portuguesa. Este cancioneiro, em especial, contém cantigas de amor em suas 16 iluminuras que retratam o funcionamento dessa poesia com seu canto, dança e declamação. A esse respeito, ver: Vasconcelos, 1990.
29 A medievalista Ria Lemaire, em sua tese de doutorado Passions et Positions: contribution pour une
sémiotique du sujet dans la poésie lyrique en langues romanes, debruça-se sobre a problemática entre
78 Como o exemplo dos trovadores revela, há um momento em que o povo é privado de seus instrumentos de produção (no caso, a voz é substituída, em certa medida, pela escrita) e uma elite, que não fazia este trabalho, passa a organizá-lo. Assim, nascem os trovadores e são esquecidos os jograis. Como foi mostrado, na história literária, desde a fixação da cultura escrita, o que nos chega como autores da Literatura são os nobres e ricos trovadores.
Eric Havelock, estudando a oralidade e a cultura escrita grega, em sua obra A musa aprende a escrever: reflexões sobre a oralidade e a literacia da Antiguidade ao presente, de 1988, defendeu a ideia de que o transcurso, que foi lento e gradual, da oralidade à cultura escrita, foi renegado em detrimento à concepção de uma substituição, a um só golpe, da oralidade pela escrita em grande parte dos estudos literários, o que ocasionou a depreciação da oralidade como suporte do discurso artístico e mesmo intelectual.
Antes dos estudos de Havelock, desde o século XVIII, sabia-se que os “poemas de Homero foram compostos e recitados sem a ajuda de letras” (Havelock, 1996, p. 69), como postula a obra do filólogo F. A. Wolf, Prolegomena ad Homerun ([1795] 1988). Mas é só em 1928, que o pesquisador americano Milman Parry, em L’epithète tradicionelle dans Homero, defendeu que Ilíada e Odisseia foram produzidas oralmente, sem a ajuda da escrita (Havelock, 1996).
As epopeias de Homero eram composições da oralidade primária, isto é, “a sua existência e forma textuais representavam uma restituição fidedigna de leis puramente acústicas da composição, na medida em que estas regulavam não só o estilo, como também conteúdo” (Havelock, 1996, p. 23). Assim, as obras inaugurais da tradição literária escrita e hegemônica nada mais são do que transcrições da oralidade primária, já que a escrita serviu, neste primeiro momento, apenas para fixar a própria oralidade. Como a substituição da oralidade pela escrita foi lenta e gradual, a tecnologia da escrita foi usada por muito tempo para transcrever a oralidade.
Na direção desses estudos sobre a poética de Homero, também são publicadas The bias of communication (1951), de Harold Innis; The Singer of tale (1960), de Albert Lord; A study of writing (1952), de Ignace J. Gelb; e Ramus: method and decay of dialogue (1958), de Walter J. Ong. Os estudos da oralidade, no entanto, consolidaram-se a partir de cinco importantes obras, publicadas entre os anos de 1962 e 1963, na Grã-Bretanha, França e Estados Unidos da América. São elas: La pensée sauvage (1962), de Claude Levi-Strauss; The Gutenberg galaxy (1962), de
79 Marshall McLuhan; “The consequences of literacy” (1963), de Jack Goddy e Ian Watt; Animal species and evolution (1963), de Ernst Mayr; e Preface to Plato (1963), do próprio Eric Havelock.
Esses estudos, juntamente com o pensamento do medievalista Paul Zumthor, foram os responsáveis pela desconstrução da concepção de uma tradição literária hegemônica como um fenômeno somente escrito, dando a ver que a sociedade torna- se letrada e que mesmo antes da instauração da cultura escrita como hegemônica, a oralidade era (e é) altamente desenvolvida, com seus próprios meios de composição, transmissão e publicação.
A literatura, em especial a poesia, que hoje é muitas vezes entendida como uma manifestação artística desprovida de fins práticos, é originalmente (na oralidade) a responsável pelo “armazenamento de informação cultural para a reutilização, ou, em termos mais familiares, o instrumento para o estabelecimento de uma tradição cultural” (Havelock, 1996, p. 90). Na oralidade primária, o especialista oral, ou seja, os bardos do povo, músicos, sacerdotes, videntes e profetas são os encarregados pela manutenção dessa memória e, transportando para a nossa atual organização social, os intelectuais da cultura oral.
Ao passo que na oralidade primária as pessoas tinham apenas sua memória como local de armazenamento do conhecimento – e a lembrança e a recordação são os alicerces do que se entende por civilização e intelectualidade –, com o desenvolvimento da cultura escrita ganha-se uma memória artificial por meio dos documentos. E quem podia produzir, ou mesmo acessar, esses documentos, os letrados, eram os intelectuais e, mais que isso, os cidadãos civilizados donos da palavra e, por isso, do poder.
Nos cem anos seguintes (à criação do alfabeto), a palavra escrita, crescentemente dominante à medida que a literacia (cultura escrita) europeia de massas avançava sob governos liberais ou democráticos, tornou-se o único contexto no interior do qual se consideravam os problemas da consciência e da comunicação. Quem não escrevesse nem lesse era, culturalmente falando, uma não pessoa (Havelock, 1996, p. 55). E assim há claramente a separação entre a oralidade e a escrita. E, consequentemente, a cultura escrita torna-se a formadora e responsável pelo conhecimento e pela intelectualidade, por meio de um claro e objetivo mecanismo de distinção, em que a representação estritamente negativa da oralidade e do popular
80 serve de contrapartida ao estabelecimento da cultura erudita e do escrito como superior e culto (Bourdieu, 2007, p. 35). Esse processo de distinção pode ser observado na mudança de significação da palavra logos:
O termo lógos, ricamente ambivalente, que se refere ao discurso, quer falado, quer escrito (argumento versus tratado), e também à operação mental (o poder de raciocinar) requerida para a sua produção, tomou posse de si próprio, simbolizando o novo discurso prosaico e literário (apesar de ainda gozar de uma parceria necessária com o dialecto falado). Esta distinção, lentamente formada, identificava o epos (poema épico, epopeia) proferido do discurso oralmente preservado como algo diferente do lógos e (para os filósofos) que lhe era inferior (Havelock, 1996, p. 132).
Com a substituição da oralidade como fonte e local de armazenamento do saber pela cultura escrita, começa-se a difundir entre as classes pobres e populares, detentoras apenas do saber oral, o sentimento de incultura quanto à sua produção artística e cultural que, em contrapartida à cultura erudita – de intelectuais –, passa a significar apenas o atrasado, o vulgar e o comum.