1.7 LOADING AND RUNNING LOGIC TESTS AND SIT
1.7.7 Running the Logic Tests
Sendo um ato diretivo, o ato de conselho tem como objetivo ilocutório a tentativa de levar o interlocutor a praticar uma ação e tem como condição de sinceridade o facto de o locutor acreditar que o ato Q beneficiará o alocutário. Neste ato,“[a] proposição expressa refere-se sempre à acção solicitada, que é uma acção futura do interlocutor. A
acção solicitada pode sê-lo com maior ou menor veemência…” (Pinto de Lima, 2007: 47).
Foram identificadas duas sequências com atos de conselho. Atente-se no primeiro exemplo:
(1) INTERAÇÃO 3
Tema: Tatuagem
“(…)
L8: Força nisso, mas cuidado com a tatuagem, não te vas arrepender mais tarde
(…)”
Nesta sua participação, o locutor do sexo feminino (L8), recorre ao ato de conselho “… mas cuidado com a tatuagem,…” para restabelecer o equilíbrio entre as faces das participantes. Utiliza aquilo que Searle [1979] (2002: 21) considerou como ato ilocutório diretivo para tentar levar o locutor a fazer algo. Os atos diretivos têm a seguinte característica:
“(…) o querer do locutor é…determinante na configuração destes actos, que, contudo, se diferenciam em função do modo como as forças ilocutórias são reguladas pelo objectivo ilocutório, podendo ir desde a ordem à sugestão, desde o pedido ao conselho…” (Gouveia, 1996: 394).
De facto, no conjunto dos atos ilocutórios diretivos, o conselho é uma das formas da realização de uma sugestão personalizada. No entanto, trata-se de um “(…) acto directivo não sancionável (desejo), cuja direcção de interesses aponta para o alocutário (sugestão), revelando um empenhamento expresso do locutor” (Casanova, 1996: 434)99
. É ainda importante analisar toda a sequência para se compreender o papel do marcador mas. O primeiro segmento “força nisso…” expressa um apoio firme logo seguido do segundo “…mas cuidado com a tatuagem, não te vas arrepender mais tarde” que apresenta o argumento do possível arrependimento devido ao tipo de tatuagem. Ou seja, mas introduz um segundo membro do discurso antiorientado, como explica Portolés na seguinte afirmação:
99
“(…) si el primer miembro encamina hacia una conclusión determinada, el segundo miembro presenta: o bien directamente una conclusión contraria – contraargumentación directa -, o bien un argumento que orienta hacia esta conclusión contraria – contraargumentación indirecta…” (Portolés, 2001: 98).
Quanto ao segmento justificativo “…não te vás arrepender mais tarde”, embora constitua uma estratégia de mitigação, também pretende avisar100 para a eventualidade do arrependimento. Estando na forma negativa mostra que “(…) l‟affirmation est présente dans la négation d‟une façon plus fondamentale que ne l‟est la négation dans l‟affirmation” (Ducrot, 1984: 216). Quando os atos de conselho ocorrem na fase do fecho das interações, Carla Aurélia de Almeida (2007: 69) acrescenta que “(…) estes segmentos evitam (estratégias de delicadeza negativa) a ameaça de um fecho inesperado e demasiado rápido, contribuem para o „abrandamento do fluxo interaccional‟ e são uma tentativa de entrar na fase de fecho”.
Assim, pode-se concluir que todos estes factores contribuem para a inferência conversacional, pois segundo John Gumperz (1989: 56) é esta inferência que permite a o cálculo e avaliação da intenção comunicativa:
“(…) tout locuteur indique, de façon directe ou implicite, la manière dont un énoncé doit être interprété et montre par ses réponses, verbales et non verbales, comment il a interprété l‟énoncé d‟un autre locuteur: c‟est la nature de ses réponses plutôt que le sens en tant que tel ou la valeur de vérité des énoncés particuliers qui oriente l‟évaluation de l‟intention.”
Observemos, agora, o segundo exemplo:
(2) INTERAÇÃO 19
Tema: Elogio físico e psicológico
“(…)
L4: N. não procures mais pois a A. é isso tudo e olha que não conheço muitas assim e
que estejam solteiras.
Sexta-feira às 23:39 · Gosto · 1
100 Searle (1984: 89) estabelece as especificidades do ato de aviso e de ameaça em confronto com o ato de conselho. Nos dois primeiros, a condição essencial vale como assumir que o ato Q não é do interesse do alocutário. No conselho, a sua condição essencial vale como assumir que o ato Q é do grande interesse do alocutário.
L1: pois é, tenho de ir às c. ao ginásio onde ela anda ;)
Sexta-feira às 23:42 · Gosto · 1
L4: É isso mesmo tens de te fazer a estrada e não te atrases...
Sexta-feira às 23:44 · Gosto · 3
L1: será q nao estou já atrasado...
Sexta-feira às 23:46 · Gosto · 1 (…)”
L4, através das frases negativas101 com um traço injuntivo“…não procures mais…” e “…não te atrases…”, recorre ao ato de conselho. David Rodrigues (2003: 180) considera que “(…) o acto directivo da ordem directa só recebe uma realização verdadeiramente cortês, quando é atenuado, isto é, realizado como conselho, sugestão ou desejo. Numa palavra, como acto indirecto”.
Neste ato de conselho é importante relevar que, na proposição “…pois a A. é isso tudo e olha que não conheço muitas assim e que estejam solteiras”, o locutor põe o seu saber (forma de poder) ao serviço do alocutário (L1). Para tal recorre ao marcador pois apresentando um comentário novo e informativamente valioso sobre o segmento que o precede102, à justificação e à asserção avaliativa. Segundo Carla Aurélia de Almeida (2007: 69) os segmentos justificativos “(…) possibilitam a mitigação dos valores ilocutórios mais ameaçadores das faces dos interlocutores”. Na asserção avaliativa iniciada pelo marcador olha103também reside a informação que faz parte “(…) del conjunto de supuestos, de conocimientos y creencias implícitas que comparte una comunidad lingüística” (Montolío, 2001: 33).Ou seja, no segmento “… olha que não conheço muitas assim…” verifica-se a existência da insinuação104
de que há poucas mulheres com aquelas qualidades. Além disso, a articulação de todos os segmentos é
101Oswald Ducrot (1984: 217-224) inseriu na sua conceção polifónica três tipos de negação: metalinguística, polémica e descritiva.
102
Este facto corrobora a seguinte afirmação: “(…) they function like a two-place relation, one argument lying in the segment they introduce, the other lying in the prior discourse” (Fraser, 1999: 938).
103Segundo Delmira Maçãs, “olha” constitui uma das "fórmulas interlocutórias do diálogo”.
104Kerbrat-Orecchioni (1986b: 43-44) definiu a insinuação “(…) comme étant en général un sous-entendu malveillant”.
estabelecida pelo conector aditivo105 e que contribui para a organização da informação discursiva.
Na última participação de L1 “será que não estou já atrasado…”, este locutor do sexo masculino manifesta preocupação ao recorrer à litote e alusão106 de que a locutora do sexo feminino pode já ter um namorado.
Finalmente é de destacar que L1, através dos segmentos de concordância “pois é…” e “será que não estou já atrasado…” reforça “(…) la solidarité existant entre les interlocuteurs, et (…) euphoriquement leur communauté de goûts et d‟intérêts” (Kerbrat-Orecchioni,1998: 214).
Outro dos atos que, ao longo destas interações, se verifica existir é o de ameaça.