Chapitre 2: Matériel et méthodes
7. RT-PCR
A situação de competição entre as empresas jornalísticas possui impactos no produto noticioso, devido ao seu peso na seleção das notícias, e se refletem sobre outros critérios noticiosos, reforçando-os. A concorrência torna remota a probabilidade de dar um furo no concorrente, pois as empresas jornalísticas cobrem estrategicamente os mesmos espaços. Nesse contexto, os meios de comunicação de massa lutam para conseguir entrevistas exclusivas, e pequenos furos sobre detalhes de um fato maior (GANS, 1980, p.177).
A competição é tão presente no campo jornalístico, que muitas vezes, um furo é pensado não apenas como uma conquista pessoal ou da equipe, mas como uma vitória sobre os rivais dentro do campo. Um detalhe da cobertura do caso Watergate contado por Schudson expressa esse sentimento de competição alimentado no campo jornalístico. Para Schudson (1995: p.146), Ben Bradlee, chefe de redação do
Washington Post durante o caso, estava caçando o New York Times, e não Richard
Ben Bradley na época do caso Watergate, gritava “Eat your Heart out, Abe!”13, se referindo a Abe Rosenthal que ocupava um cargo equivalente ao de Bradlee no New York Times, e com quem este teria forte rivalidade.
A rivalidade é expressa no ato dos jornalistas lerem o jornal concorrente todas as manhãs. O valor da competitividade é expresso com maior ênfase após a constatação de um editor ou chefe de redação de que o adversário publicou uma notícia ou detalhe que passou despercebido na sua redação, fazendo surgir o questionamento: “por que a gente não deu isso?”. A obrigação competitiva é publicar tudo aquilo que o rival publicou, e um pouco mais.
Outra tendência consiste no fato de a competição gerar expectativas mútuas, fazendo com que uma notícia seja selecionada porque é esperado que os concorrentes publiquem o acontecimento (GANS, 1980, p.177). Contudo, no caso pesquisado, a cobertura difere de forma substancial entre as duas publicações com uma cobertura mais marcante pelo Jornal do Commercio, evidenciada pelo destaque que o jornal deu ao acontecimento no dia do escândalo, colocando-o na primeira página (FIG. 5), gesto não repetido pelo Diário de Pernambuco (FIG. 6). Tendo em consideração a dimensão do fato e de suas possíveis conseqüências, acreditamos que a ausência foi motivada por decisões que escapam aos padrões da profissão jornalística.
FIG 5 – Capa do Jornal do Commercio de 17/04/2004 FONTE – www.jc.com.br
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Essa expressão pode ser traduzida para o português como “Coloque seu coração para fora pela boca”, pode ser comparada à frase dita quando alguém relata um susto: “Quase que meu coração saiu pela boa”.
FIG 6 – Capa do Diário de Pernambuco de 17/04/2004 FONTE – www.pernambuco.com
Responder quais foram as razões que levaram a essa tomada de decisão foge às possibilidades do estudo empreendido neste trabalho. Uma primeira impressão pode levar o observador a avaliar que a decisão pode ter sido fruto de pressão externa ou auto-censura, já que dentro dos padrões procedimentais da profissão, colocar a perseguição na capa parece ser uma decisão indiscutível. Contudo, é impossível pensar o campo jornalístico sem pensar sua posição no campo do poder dentro de um determinado contexto sócio-cultural, e nas suas relações com o campo econômico, do qual a empresa jornalística faz parte, já que busca lucro financeiro, e o campo político. Problemas como pressão, que é um modo de estabelecer o clima de auto-censura, ou seja, a antecipação consciente de possíveis pressões de não-jornalistas; ou pior ainda de censura, que é a morte ou a alteração de uma estória como resultado de pressão externa (GANS, 1980, p.251), podem acontecer. O principal problema do fenômeno da pressão externa sob os jornalistas é que ela é “vista como um ato de covardia e um sinal de falta de poder, e aqueles que têm de se render são pouco inclinados a discutir isso” (GANS, 1980, p.251). Além disso, a pressão dificilmente chega aos repórteres, ficando retida entre os cargos de chefia sejam aqueles responsáveis pelo funcionamento da redação ou pela estrutura administrativa da empresa jornalística (GANS, 1980, p.251).
A decisão polêmica de não colocar a notícia da perseguição na capa do jornal foi justificada pelo editor de política na época, o Editor 2, como fruto de uma decisão editorial tomada antes das eleições de 2004. Com a chegada do novo editor de política que passou a ocupar o cargo a partir de maio daquele ano, uma série de medidas teriam
sido tomadas. Entre elas não partir para o confronto político aberto com nenhum grupo político e não dar capa para nenhuma notícia da editoria de política, a não ser para as pesquisas de opinião, que eram realizadas pelo instituto de pesquisa Em Data, que pertence aos Diários Associados. De acordo com o editor 2, “o departamento de vendas do jornal faz questão de que as pesquisas estejam na capa dos jornais, pois elas aumentam as vendas”. Outra medida que teria sido colocada em vigor foi a decisão de manter um equilíbrio de espaço na cobertura das três principais candidaturas, através um revezamento entre os três candidatos na primeira página do caderno de política, a não ser em acontecimentos excepcionais, em que os critérios jornalísticos tornassem o fato merecedor de alta exposição.
O então editor do caderno de política do DP alega que se houvesse uma manchete de capa sobre um determinado fato, aquele candidato que se sentisse ofendido se sentiria no direito de ter sua réplica publicada na capa do jornal, causando uma reação em cadeia com as tréplicas e réplicas dos candidatos. O jornal de acordo com a avaliação do editor decidiu não fazer parte do “jogo político”. A posição de não confrontar abertamente nenhum grupo é visto de forma positiva pelo editor 1 que considera que às vezes os jornalistas se precipitam e “acabam lutando do lado errado”.
O jornalista enfatiza que a equipe do Diário, além da pressão editorial, temia colocar uma armação na capa. “A gente refletiu e se perguntou: ‘Isso é uma armação ou não é? ’. A gente vai colocar a manchete de uma armação?”. Para o editor 2, a tese de que o Diário possa ter se envolvido em uma conspiração política ou sofrido uma intervenção de forças externas é equivocada. “Em comparação com os outros jornais, a única coisa que a gente ficou devendo foi não ter dado as manchetes. A gente deixou de ser usado em alguns momentos, em outros a gente deixou de avançar pouca coisa”, avalia o jornalista.
...não houve uma ação política para não ter manchete ou uma intervenção, o que pode ter acontecido foi um erro de avaliação. No geral, e objetivamente falando, não houve nenhum prejuízo para a sociedade. Em alguns momentos que pareceram que a gente estava fugindo, em que tomamos alguns cuidados que a gente teve de não ser usado, eu acho que a gente estava correto. Muitas coisas ali foram usadas politicamente. A gente errou menos do que os outros, e a gente ao mesmo tempo errou mais do que os outros nos momentos em que a gente precisava ser mais incisivo. Erramos junto com todos por não termos feito uma investigação a fundo sobre um fato que poderia ter mudado drasticamente a política de Pernambuco. Instrumentos para isso todos os três jornais tiveram. Infelizmente faltou um pouco de coragem.
Na opinião do jornalista, além de o Diário de Pernambuco talvez ter pecado por não ter sido tão incisivo com os políticos durante o caso Maria do Socorro, o jornal
cometeu o deslize de não ter tratado o fato de forma política, dando ênfase na sua dimensão policial. Para corroborar seu argumento, o editor 2 ressalta que os dois profissionais escalados para ter um primeiro contato com o fato são oriundos do caderno Vida Urbana (equivalente no Diário de Pernambuco aos cadernos de Cotidiano ou cidades de outros jornais) que conheciam fontes policiais.
A análise empreendida neste capítulo tentou explicar por que razão o caso Maria do Socorro se transformou em notícia nos jornais pernambucanos, suplantando notícias sobre os debates das propostas dos candidatos e suas biografias. De certa forma, o alto grau de noticiabilidade do caso estudado acabou também restringindo o grau de visibilidade dos candidatos não-envolvidos no caso, que para ganhar exposição muitas vezes recorriam ao ato de comentar o caso. O escândalo foi amplamente agendado pelo campo jornalístico, mas nunca teve um desfecho, uma vez que não houve um esclarecimento de quem foi o responsável pela perseguição do advogado da artesã, pelo seu seqüestro ou pelo seu aliciamento. Sabendo que apenas uma análise qualitativa é insuficiente para responder certas questões, empreendemos, no próximo capítulo, uma análise quantitativa e qualitativa da cobertura jornalística do caso, permitindo uma compreensão melhor do objeto estudado aqui.