Corrections to Documentation
2.4 RSX-11 M-PLUS MeR Operations Manual
―Depois existia o tal do eletrochoque, trabalhava nisso, né?‖ – contou a Alaíde e depois explicou um pouco mais como eram realizadas as sessões de eletrochoqueterapia. Duas vezes por semana, em jejum, ao amanhecer. Aquele que se encontrava muito ―agitado‖ ou ―agressivo‖ era, então, contido no leito: ―Porque na convulsão, é perigoso ele morder a língua‖. Um pano para segurar o queixo: ―Às vezes até deslocava o queixo, né? Aí a gente colocava no lugar‖. Sobre o que pensava do procedimento, ela respondeu com delicada indiferença: ―O choque faz melhorar, faz esquecer. Se o doente tem uma idéia de suicídio, faz esquecer‖.
Para o uso do eletrochoque, Djalma busca trazer uma explicação: ―Porque naquela época não tinha medicação que temos hoje, né? Haldol, haloperidol, na época usava Luminol. Então não era o suficiente para uma agressividade muito violenta.‖
De fato, se fazer esquecer e fazer acalmar eram os benefícios do eletrochoque, os psicofármacos – muitas vezes administrados em doses altas – são eficientes substitutos. Como bem lembra Moffat (1980), os medicamentos em grandes doses são chamados de ―camisas-de-força químicas‖. Se, por um lado, não mais deslocam o maxilar do paciente, por outro lado provocam
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rigidez corporal, movimentos involuntários, baba. Afirma Moffat (1980, p. 26) que: ―Isto produz uma angústia equivalente à provocada pela camisa-de-força e tem, para os funcionários, as mesmas vantagens: o internado fica tão preso como um salame.‖
As folhas de Eletrochoqueterapia aparecem em meio às tantas folhas dos prontuários de alguns pacientes. Não aparece, no entanto, o porquê do uso desses procedimentos. Acredito que é possível, no entanto, pensar no fundo moral desses tratamentos que incidem (violentamente) sobre o corpo. Em que consistia o tratamento no hospital? O que eram essas práticas, como o choque elétrico, que incidiam sobre os agitados, os indisciplinados, os que gritavam alto suas vontades e resistências? Hugo retruca sério, no momento em que pergunto acerca da ―eletrochoqueterapia‖: ―[...] não era terapia, era punição‖. Segue, então, afirmando:
Sempre a loucura provocou uma reação muito agressiva. [...] Tem ao artigo de Freud sobre o estranho. E isto é a loucura, uma coisa familiar e estranha. A loucura sempre foi difícil, sempre foi rejeitada, sempre provocou a necessidade de voltar à realidade ao louco, de obrigá-lo a voltar à realidade, de organizá-lo, que se discipline, que fique quietinho, que não faça nada demais.
Na história do Hospital Adauto Botelho, tanto as anotações nos prontuários como as falas dos depoentes explicitam essa forma de tratamento. Vejamos a história de João39. Filho de sergipanos, residia em Vitória quando foi internado, aos 26 anos, em 1954. Diagnosticado com esquizofrenia, foi um dos muitos pacientes que passaram por diversas sessões de eletrochoqueterapia. Não se trata, obviamente, de um caso único. Ainda assim, considero importante trazer a história de um – a singularidade. Uma vida que fala de muitas outras vidas. Uma vida no hospital.
O paciente está cuspindo pelo chão e pelas paredes, tornando desagradável ambiente, principalmente estando acompanhado de outro enfermo. Julgo conveniente a transferência do doente para seção adequada. (15/07/57)
Solicito a Sra. Enfermeira-chefe as providências para transferência do enfermo. (19/02/57)
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Documento microfilmado. Filme 0002. Prontuário nº 110. Nome da paciente alterado para preservar sua identidade.
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A sra. Chefe de Enfermagem continua se negando a tomar a providência solicitada. Não é justo nem recomendável que um paciente [...] coabite com um que tem cuidados higiênicos. A família do companheiro de quarto continua reclamando da providência e clamando contra a irregularidade. (12/03/57)
Moralização do corpo. João, agitado em ―sem cuidados higiênicos‖, incomodava. A cada incômodo relatado, uma página com anotações de datas e horários das sessões de eletrochoqueterapia. Moffat (1980) considera que certas manipulações com o corpo do paciente psiquiátrico podem ser consideradas muito próximas da tortura. Refere-se, então, à imobilização física total (camisa-de-força), aos ―abscessos de fixação‖ (aplicação de injeções de terebetina ou de leite nas nádegas, produzindo um abscesso fortemente doloroso), à má qualidade da alimentação, à impossibilidade de relações sexuais e, claro, ao choque elétrico.
Começamos por esta lista de situações de agressão corporal para poder definir o mais íntimo do sentimento de estar internado em um manicômio: é a sensação de ‗ter o corpo dentro‘, de não ter garantias com relação à própria segurança pessoal. Pois ao ser considerada ‗louca‘, a pessoa sequer tem consciência do que podem fazer com ela, o que conduz à sensação desesperante de que não consideram que ela existe. Como conseqüência, a pessoa não existe. É a ‗coisificação‘, a transformação da pessoa em ‗coisa‘, em objeto. (Moffat, 1980, p. 22)
Sustento, baseando-me em Moffat e nas falas dos entrevistados, que a moralização estava (quase) o tempo inteiro presente nas vidas de quem se encontrava no hospital: do caminho até lá – aqueles que eram ―pegos‖ nas ruas pela polícia – até as mais diversas formas de tratamento. E algumas delas doíam, doíam muito.
Muitas das vezes eles cortavam a ponta da língua. Tinha um rolinho de pano que era colocado. Elas tinham um rolinho de pano que colocavam pra não morder a língua. Que quando dava eletrochoque, a carga da eletricidade passava pra eles e eles davam convulsão, ali eles urinavam, evacuavam, e mordiam a língua... depois tinha o relaxamento. Primeiro vinha toda aquela contração, depois vinha o relaxamento... E muitos deles mordiam a língua e sangrava muito. Era muito doloroso. (Entrevista com Maria)
Além do choque elétrico, havia a insulinoterapia – que aparece nos documentos também em folhas nas quais foram anotadas datas e horários de
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diversas sessões. De acordo com os depoentes, esse tratamento consistia em: ―Tratamento através de insulina. O paciente entra quase em coma. Aí depois põe na glicose e vê se o paciente voltou ao normal. [...] Insulina no músculo. É pra acalmar também. Tratamento psiquiátrico.‖ (Entrevista com a Alaíde)
O cubículo, minúscula sala em que os agitados eram encarcerados, também aparece como recomendação médica. Mais uma forma de tratamento?
E tinha os cubículos, os pacientes agitados ficavam no cubículo. Era um quarto, pequeno [...] Cubículo mesmo. Tinha uma porta e não tinha janela. E o vaso era ali dentro mesmo, aqueles vaso baixinhos. Muitas das vezes lavavam a roupa ali dentro mesmo, dentro do vaso que fazia cocô, tampava o buraco, soltava água e lavava ali mesmo, soltava a água e servia de vaso e de pia... (Entrevista com Maria)
―Tipo uma cela, bem pequeno, só dava pra um. Só um colchão. Não podia colocar outras coisas porque podia se acidentar‖. – fala também a Alaíde. Pergunto a ela, então, por quanto tempo eles ficavam nos cubículos. ―Aí ficava lá até melhorar. Quando melhorava, saía.‖ – respondeu - ―Às vezes destruía o colchão.‖
Incidem-se diretamente sobre o corpo os tratamentos até então expostos. Tratamentos morais: modos de silenciar o corpo. Castigos, como a fala que transcrevo agora mostra muito bem:
Porque o paciente não podia quebrar nada aqui dentro. Ele ia pro cubículo de acordo com ato que ele fazia. Qualquer coisa ele ia pro cubículo. Hoje eles quebram uma cama toda e a cama fica quebrada, mas naquela época não podia, porque conforme você quebrava uma coisa, podia ficar 8 dias mofando no cubículo. (Entrevista com Maria)
Apaixonada, essa mesma depoente acredita que essa história deve ser contada. Se não havia como descumprir o que era prescrito – porque eram ordens médicas -, criava modos de escapar. Já tendo afirmado que participara do início da luta antimanicomial, contava também: ―[...] Nós fomos lutar contra os cubículos. A gente enfiava palito de fósforo pra entupir os cadeados. Dava café pros pacientes não tomar eletrochoque. Se tomasse café não podia tomar choque.‖
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Uma silenciosa luta pelos direitos humanos – uma voz que é a voz da enfermagem, mas que também ultrapassa o trabalho de enfermeira. Ela não aplicava eletrochoque. Mas já presenciou aplicações. Lembra dos pacientes com carinho. Com a mesma ternura, refere-se aos que ainda estão lá. Em meio a prescrições, pequenos escapes. Vida.