Bastian elaborou uma complexa arquitetura conceitual – baseada na filosofia grega, nas ciências naturais e também em Kant, Herder, Wilhelm e Alexander von Humboldt – para explicar “os processos de pensamento” do “espírito humano”.46 O fim último da sua obra de era compreender a essência da racionalidade humana e como esta se expressava em contextos culturais diversos.
Sua abordagem se assenta no método científico das ciências naturais de sua época. De acordo com a epistemologia vigente, o conhecimento dos dados consistia na tríade observar- classificar-descrever. Assim sendo, sua metodologia era empírica, pois consistia na coleta de dados durante suas expedições e na leitura de material primário; e era indutiva, por privilegiar um enorme número de dados (as premissas) dos quais as conclusões gerais partiam. Como resultado, dados observados em campo eram classificados dentro de um arranjo categorias sociais, de cujas descrição etnográfica e análise etnológica as explicações partiam. Enquanto
46 BASTIAN, Adolf. Der Mensch in der Geschichte. Zur Begründung einer psychologischen Weltanschuung.
cientista natural, ele considerava a obtenção de dados de campo o fundamento para estipular leis gerais e universais. Em Der Mensch in der Geschichte, por exemplo, o autor realizou uma descrição abrangente de fenômenos “psicológicos”, como pensamento lógico, matemática e linguagem, dentre os mais diversos povos, separados no tempo e no espaço, desde os antigos egípcios, aos povos budistas contemporâneos e os assim chamados “povos da natureza” (Naturvölker), isto é, os povos “primitivos”.
Não apenas seu o método era uma aplicação dos preceitos de Alexander von Humboldt, a quem ele dedicou Der Mensch in der Geschichte, mas também o seu fundamento metafísico-científico: há uma conexão entre todos os fenômenos físicos. A essa interconexão Bastian chamou de “cosmos harmônico”.47 Por compartilhar o mesmo espaço, todas as coisas reagem umas contra as outras, causando transformações mútuas. Em passagem fundamentada na filosofia de Kant, ele afirma que pela razão dos fenômenos serem apreendidos subjetivamente, postulou-se desde os tempos antigos haver uma contradição entre a consciência puramente psíquica e o corpo: “o mundo intelectual [Geisteswelt] e o mundo corporal unem-se equiparavelmente para formar a totalidade do humano”.48 Para ele, o Geist (espírito) é um produto da natureza e por isso precisa ser investigado pelas técnicas da ciência da natureza.49 O termo Geist, amplamente empregado por Herder como essência metafísica da natureza humana, parece assumir em Bastian uma conotação mais próxima à noção de Verstand (intelecto), como elaborada por Wilhelm von Humboldt. O que torna os humanos não é a essência metafísica de sua natureza, mas o funcionamento da mente, que é regida pelas mesmas leis universais alhures e expressa em diferenças culturais.
Em um ensaio sobre a “pré-história” da etnologia, ele afirmou que a antropologia se originou no século XVI e atribuiu o nascimento da etnologia a Herder no século XVIII. A história da etnologia propriamente dita se iniciaria com suas próprias pesquisas em 1859.50 Bastian, portanto, elegeu ao filósofo Herder como o fundador da etnologia, e a si mesmo como seu sucessor legítimo. Assim, ele posicionava-se como cientista, porém herdeiro de um filósofo, estava preocupado em responder questões metafísicas através de material etnográfico e assim desvendar as leis universais que regem o funcionamento da mente, tal como Claude Lévi-
47 BASTIAN, 1860, v. I, p. 1. 48 BASTIAN, 1860, v. I, p. XI. 49 BASTIAN, 1860, v. I, p. IX. 50 VERMEULEN, 2015, p. 11.
Strauss (1908-2009) o fez anos depois com Rousseau e sua abordagem estrutural da antropologia.51
Adolf Bastian transformou a ideia do logos spermatikoi (as sementes de pensamento) da filosofia grega em um dos seus conceitos mais importantes:
Elementargedanken (pensamentos elementares).52 Os pensamentos elementares são essências mentais abstratas, universais, atemporais e transculturais. São os pensamentos mais primários e simples, são imanentes à mente humana, por isso presentes em todas as culturas e em todas as eras. Por sua presença universal nas estruturas mentais humanas, haveria uma “unidade psíquica da humanidade”. A razão é um produto da criação da natureza e a essência da natureza humana é a razão. Nesse sentido, a unidade psíquica da humanidade – o mínimo de razão comum – não deixa de ser uma remodelagem teórica da harmonia cósmica de Alexander von Humboldt e do ideal de humanidade de Herder, que preconizava a ligação universal entre os humanos. 53
Os pensamentos elementares se desenvolvem em pensamentos “étnicos”,
Völkergedanken. Essa evolução ocorre de duas maneiras: por causa interna (de forma limitada),
ou por causa externa (pela história, isto é, contatos culturais e migrações, ou pela geografia, ou seja, em decorrência de isolamento ou por condições naturais). Os Elementargedanken se transformariam necessariamente em Völkergedanken quando em “províncias geográficas” (geographische Provinz), áreas culturais em que o arranjo social propiciaria a transformação do pensamento54. As províncias geográficas são locais geográfica- ou culturalmente isolados, em que haveria pouca ou nenhuma influência externa. O desenvolvimento relativamente isolado (seja por razões geográficas, seja por razões sociais) dos pensamentos elementares em pensamentos étnicos nas províncias geográficas explicaria por que razão há áreas culturalmente
51 LÉVI-STRAUSS, Claude (1962b). “Jean-Jacques Rousseau, fundador das ciências do homem”. In: LÉVI-
STRAUSS, Claude (1973). Antropologia Estrutural dois. Tradução de Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Cosac Naify, 2013.
52 BASTIAN, Adolf (1893-1894). “The folk Idea as Paradigm of Ethnology”. In: KÖPPING, Klaus-Peter (1983). Adolf Bastian and the psychic Unity of Mankind. The foundations of Anthropology in Nineteenth Century Germany. Münster: LIT Verlag, 2005, p. 171.
53 A hipótese que as estruturas mentais são universais é uma ideia poderosa por diversas razões. Pelo diálogo
explícito que essa conceptualização cria com afirmações pretéritas (como o Idealismo de Kant) ou futuras (as estruturas mentais de Lévi-Strauss (1908-2009). Por seu potencial de criação de conceitos: o arquétipo de Carl Gustav Jung (1875-1961) é uma adaptação psicanalítica dos Elementargedanken. E, por fim, por sua capacidade de dialogar com outras disciplinas afins, como a etnologia e a antropologia cognitiva.
54 BASTIAN, Adolf (1871). “On cultural Evolution”. In: KÖPPING, Klaus-Peter (1983). Adolf Bastian and the psychic Unity of Mankind. The foundations of Anthropology in Nineteenth Century Germany. Münster: LIT
distintas umas das outras. Os Elementargedanken e os Völkergedanken unem os domínios psíquico e físico da humanidade. Portanto, a tarefa da etnologia, para Bastian, seria o estudo dos Elementargedanken. Para isso, ele estimulava a reunião da totalidade dos
Elementargedanken – provenientes de todos os povos e de todas as épocas em uma Gedankenstatistik (“estatística dos pensamentos”).55
A etnografia fornecia o material empírico (os pensamentos elementares) que seria concentrado na Gedankenstatistik e que então seria passível de análise. Por se tratar de uma análise da mente humana, tal como impressa nas diferenças culturais, Bastian apregoou se tratar de ofício da psicologia. A psicologia científica era compreendia como um ramo das ciências naturais.56 Lembremos que para Herder a história cultural da humanidade pertence à história da natureza, em que as forças do Geist irrompem à aquisição de consciência. A psicologia de Bastian promoveria “o casamento entre a antropologia e filosofia”.57 Isso significa que a tarefa da etnologia seria o meio de obter o material empírico através da etnografia para análise psicológica que deveria solucionar problemas metafísicos: “onde se perdeu o apoio seguro, a filosofia precisa se transformar em psicologia”.58
Evidentemente é preciso situar a sua proposta em um campo mais amplo de disputas semânticas e de autoconstituição da ciência. As ciências se constituíram não apenas porque profissionais envolvidos compartilhavam especificidades, paradigmas, métodos e objetivos, enfim uma episteme, mas também em oposição a outros campos do saber. Isso foi pontuado pela filósofa da ciência Isabelle Stengers, para quem a medicina, por exemplo, se desenvolveu por evolução científica própria, e opondo-se a outras práticas de cura, então cunhadas sob a rubrica de charlatanismo.59 Até o século XIX a psicologia era um campo da filosofia. Christian Wolff, o filósofo iluminista de Göttingen, delimitou a psicologia como o estudo da mente.60 Ele dividiu a psicologia em empírica (coleta de dados) e racional (análise dos dados através da razão). O próprio Kant negou à psicologia a possibilidade de se tornar uma ciência autônoma algum dia, porque os fenômenos observados não poderiam ser
55 KÖPPING, 1983, p. 84-88. 56 BASTIAN, 1860, v. I, p. IX.
57BASTIAN, Adolf (1881). “Ethnology and Psychology”. In: KÖPPING, Klaus-Peter (1983). Adolf Bastian and the psychic Unity of Mankind. The foundations of Anthropology in Nineteenth Century Germany. Münster: LIT
Verlag, 2005, p. 163.
58 BASTIAN, 1860, v. I, p. X.
59 STENGERS, Isabelle. A invenção das ciências modernas. São Paulo: Editora 34, 2002, p. 33ss.
60 FUCHS, Alfred H., MILAR, Katharine S.. “Psychology as a Science”. In: FREEDHEIM, Donald K. (Org.). Handbook of Psychology. Volume I: History of Psychology. New Jersey: John Wiley & Sons, 2003, p. 1ss
cientificamente mensurados. A única possibilidade da ascensão científica da psicologia seria adotar o método da antropologia (física kantiana). Ao longo do século XIX a psicologia se constituiu como uma disciplina independente, a partir da psicologia sensorial de Johannes Müller (1801-58) e a psicologia experimental de Wilhelm Wundt (1832-1920), que criou o primeiro laboratório de psicologia em Leipzig. Além de sua atuação no campo da psicologia, Wundt foi uma figura central para a antropologia alemã no século XIX, com sua contribuição para a Völkerpsychologie (psicologia étnica), com sua teoria do desenvolvimento psicológico do Geist. Em todo caso, a assertiva de Bastian é notável por duas razões. Em primeiro lugar, por inverter a hierarquia com a filosofia, ao postular que para determinadas questões metafísicas a abordagem filosófica é insuficiente. Engana-se quem interpretar a sua determinação psicológica como mero estudo da mente humana nos moldes da filosofia, pois ele claramente sugere, em segundo lugar, que a psicologia é uma ciência, não oriunda da filosofia, mas das ciências da natureza. Então, ele propõe uma função para a etnologia: “O objetivo da etnologia moderna é encontrar uma metodologia adequada para a psicologia científica. A etnologia deve prover o material para uma tal psicologia através da coleção indutiva do caráter social do homem em todas as suas manifestações étnicas”.61
A etnologia percorreu um caminho sinuoso rumo ao seu estabelecimento. A etnografia nasceu da história com Müller, foi submetida à geografia por Gatterer e depois englobada pela etnologia por Kollár. No pensamento de Herder a etnografia se dissolveu em projetos literários e filosóficos; com Alexander von Humboldt ela se tornou subproduto das ciências da natureza e com Wilhelm von Humboldt foi relegada ao papel de ciência auxiliar da linguística. Na obra de Bastian, ao contrário do que parece, a etnologia não foi subjugada à psicologia. Ele transformou a psicologia em etnologia.
Bastian conciliou o holismo de Alexander von Humboldt ao Romantismo alemão, por unir “a busca por regularidades ao longo dos métodos das ciências naturais” com “busca pela essência interior do pensamento étnico [Völkergedanken]”.62 A sua concepção dos
Völkergedanken é uma atualização do Volksgeist de Herder e do Nationalcharakter de Wilhelm
von Humboldt. O estudo da relação entre Völkergedanken e Elementargedanken deveria
61 BASTIAN, Adolf (1893-1894). “The folk Idea as Paradigm of Ethnology”. In: KÖPPING, Klaus-Peter (1983). Adolf Bastian and the psychic Unity of Mankind. The foundations of Anthropology in Nineteenth Century Germany. Münster: LIT Verlag, 2005, p. 170.
ocorrer apenas através da razão indutiva, ao modo da cosmografia de Alexander von Humboldt. Em outras palavras, Bastian via na documentação empírica das diferenças culturais uma forma de construir indutivamente o ideal de humanidade, pois através de certos aspectos culturais os pensamentos elementares humanos poderiam ser acessados.
Portanto, na interpretação bastiniana de Wilhelm von Humboldt, a linguagem seria uma via de acesso privilegiada aos processos mentais subjacentes que a conduzem e seu estudo levaria aos pensamentos elementares. Para o linguista, a capacidade para a linguagem é inata e as línguas revelam as estruturas mentais subjacentes a ela e que possibilitam o seu uso. Assim ele favoreceu o estudo da relação entre mente e linguagem, e, em sentido mais amplo, entre a natureza humana e multiplicidade cultural. De Wilhelm von Humboldt Bastian acatou para a etnologia tanto a importância do estudo da língua para a etnologia, quanto o da razão. Para ele, apenas a psicologia poderia desvendar o mistério de que “a reflexão sobre a natureza cresce primeiramente para fora da natureza”.63
Ambas as asseverações de Humboldt se fundamentam em uma história conceitual de longa duração, que remete, por um lado, diretamente à razão kantiana, e de outro, ao programa histórico-linguístico de Leibniz. O estudo da língua, especialmente de línguas estrangeiras, teve no século XIX um desenvolvimento próprio e que, de certa maneira, endossou socialmente o projeto de Bastian. Wilhelm von Humboldt contribuiu enormemente para o campo da linguística comparada e da filologia. Além dele, três intelectuais advindos do romantismo alemão, Friedrich Schleiermacher (1768-1834) e os irmãos Schlegel, August Wilhelm (1767-1845) e Friedrich (1772-1829), instituíram na Alemanha um campo fértil de estudos da linguagem, que incluía desde uma nova metodologia para traduzir Platão (a hermenêutica) até o estudo das línguas indo-germânicas e do sânscrito. O estudo do sânscrito em especial teve papel fundamental no estabelecimento da linguística comparada na Alemanha – uma abordagem central nos estudos americanistas, como veremos a partir dos capítulos da segunda parte.
Além disso, é em Leibniz que Köpping reconhece uma das principais influências de Bastian.64 Segundo este autor, o mundo é constituído, para Leibniz, por uma “pluralidade infinita de formas singulares”, as mônadas. Elas são unidades simples e elementares, acessíveis
63 BASTIAN, 1860, v. I, p. IX 64 KÖPPING, 1983, p. 83.
por reconstrução mental. Elas possuem o potencial de autodesenvolvimento, sobretudo através da interação com outras mônadas. O universo é, assim, marcado por uma “harmonia pré- estabilizada” e as mônadas são passíveis de sofrer a influência de estímulos externos.65
De forma semelhante, Bastian ponderava que o processo de transformação dos pensamentos elementares em pensamentos étnicos ocorria quando “uma tribo selvagem entrava em contato com estímulo externo”, desenvolvendo “seu potencial interno através de um processo de crescimento em formas de desenvolvimento cultural”.66 Isso significa que “esses poucos pensamentos elementares existem em todas as condições selvagens naturais e também sob o véu artificial de toda civilização; estes são de fato pensamentos seminais das quais as civilizações se desenvolveram”.67
A escolha por povos não europeus (“selvagens”) se deve, portanto, a uma consequência metodológica: entre eles o acesso aos pensamentos elementares é mais fácil. Além disso, ele considerava que a civilização europeia tinha um efeito nocivo nas sociedades estudadas, não apenas demograficamente, mas também em relação às transformações culturais às quais essas sociedades eram submetidas. Portanto, os etnólogos incumbidos de formas a
Gedankenstatistik procuravam pelos povos mais isolados possíveis. Assim sendo, ele praticou
e estimulou intensivamente a etnografia de salvação.68 Ele mesmo realizou outras sete expedições, além daquela com oito anos de duração pela Oceania: entre 1861 e 1865 pela Ásia, em 1873 pela África Ocidental, entre 1873 e 1876 pelas Américas e entre 1978 e 1880 pela Índia, Oceania e América do Norte, entre 1889 e 1891 pela Ásia central, Índia e África oriental, entre 1896 e 1898 pelo sul e sudeste asiático, entre 1901 e 1903 pelo Ceilão e entre 1903 e 1905 pela Índia ocidental. Durante seus mais de 25 anos de vida em campo, ele acumulou um montante gigantesco de cultura material, que ele levou para Berlim.
A linguagem não seria o único acesso aos Elementargedanken.69 Bastian mesmo tinha interesse em mitologia e símbolos religiosos, e a interpretação deles também revelaria os pensamentos elementares subjacentes aos signos.70 O mesmo ocorria com números, categorias do entendimento humano (tempo e espaço) e cultura material.71 É notável que há um 65 KÖPPING, 1983, p. 83. 66 BASTIAN, 1893-94, p. 172. 67 BASTIAN, 1893-94, p. 176. 68 BOSSERT; VILLAR, 2013, p. 6. 69 BASTIAN, 1860, v. I, p. 1-2. 70 BASTIAN, 1860, v. II, p. 213-216. 71 BASTIAN, 1860, v. I, p. 348-361, 407-411.
distanciamento de Kant. Para este tempo e espaço se configuram a priori, ou seja, prescindem da experiência, são imanentes à mente humana e possibilitam que os fenômenos do mundo sensível sejam conhecidos pelo sujeito. Para Bastian, tempo e espaço têm dupla função mental: possibilitam a organização do sensível, mas são categorias a posteriori, e por isso, permitem o acesso à razão.
Dessa forma delinearam-se os parâmetros para a pesquisa etnológica sul- americanista: busca por povos sem contato para o estudo das línguas, da mitologia e da cultura material. Assim, a cultura material revelava-se importante para diversas facetas da atividade acadêmica. Ao lado dos vocabulários de línguas indígenas, a cultura material representava ao etnólogo o material empírico quando ele não estava em campo. Por fim, com o avanço destruidor da civilização europeia, futuramente o único meio de acesso aos pensamentos elementares seria de fato a cultura material. A cultura material terá papel preponderante na institucionalização da etnologia alemã.
5.
ANTROPOLOGIA FIN-DE-SIÈCLE
Além de Adolf Bastian, outros dois intelectuais foram fundamentais no estabelecimento da etnologia moderna: o geógrafo Friedrich Ratzel (1844-1904) e o antropólogo físico Rudolf Virchow (1821-1902). Ambos contribuíram substancialmente para suas respectivas disciplinas, e formaram um aparato conceitual e metodológico do qual a etnologia alemã moderna também se aproveitou.
Ratzel (imagem 2) estudou ciências naturais e filologia em Berlim, Jena e Heidelberg, onde doutorou-se em zoologia em 1868. Ele realizou diversas expedições dentro e fora de Europa, tornou-se membro de associações científicas e em 1886 obteve a cadeira de geografia na Universidade de Leipzig, onde trabalhou até seu falecimento precoce em 1904. A sua obra foi traduzida ao inglês por recomendação de Tylor, aumentando consideravelmente seu impacto sobre a antropologia.72
Antônio Carlos Robert Moraes aponta que o seu projeto intelectual está pautado pela relação entre sociedades e as condições ambientais em que elas florescem.73 Disso depreende-se um interesse pela difusão dos povos pela terra e a forma através das quais as populações adaptam-se aos condicionantes ambientais e como manejam a natureza. Ele considerava que a história humana se integra à história da terra e que o estudo de ambas não poderia ser separado, evidenciando a influência de Herder (para quem a história humana pertence à natureza) e da cosmografia de Alexander von Humboldt. Por isso, a geografia de Ratzel era ao mesmo tempo humana e física, estava ancorada em descrições e tinha o fim de prover uma explicação universal da humanidade.
72 KÖPPING, 1983, p. 60.
73 MORAES, Antonio Carlos Robert. “A antropogeografia de Ratzel: indicações”. In: MORAES, Antonio Carlos