A temática acerca da hospitalização infantil tem sido objeto de muitos estudos no âmbito da enfermagem. Desde 1950, a literatura a respeito da hospitalização infantil indica que esta área está trilhando rumo à humanização e passando por modificações. Até 1980, os estudos exploravam os efeitos da hospitalização na saúde física e mental da criança; após esse período, os estudos têm visado à percepção das interações família-equipe, tanto na perspectiva da família como na dos profissionais. O objetivo é ampliar o conhecimento sobre esta relação, propondo medidas que facilitem a interação. Há ainda uma preocupação em compreender o significado da hospitalização para a criança e família, a fim de ajudá-las a enfrentar a situação (PETTENGILL; ANGELO, 2006; PINTO; RIBEIRO; SILVA, 2005). Em se tratando das pesquisas dedicadas a investigar a experiência das famílias que enfrentam a hospitalização de um de seus membros, demonstram que alguns dos problemas gerados por essa situação atingem não apenas a criança e a mãe, mas, também, o grupo familiar (MOLINA et al., 2007; LIMA; ROCHA; SCOCHI, 1999).
A partir da década de 1990, outros estudos surgiram na busca do aperfeiçoamento do cuidado à criança hospitalizada e no desenvolvimento de modelos teóricos acerca da experiência de
hospitalização, tendo como foco a famíliae a criança (PETTENGILL; ANGELO, 2006; PINTO; RIBEIRO; SILVA, 2005)
No contexto prático, historicamente o hospital era o local onde os pobres, moribundos, doentes e inválidos ficavam. No final do século XVIII, foi tido como instrumento terapêutico, e com a introdução da tecnologia e cientificidade médica, o hospital começa a ser visto como dispositivo do cuidado médico (COLLET; ROCHA, 2004).
A história do cuidado à criança nos países ocidentais aponta que esta vem sofrendo várias e significativas transformações, principalmente a partir do fim do século XIX, decorrentes de mudanças na atenção à saúde, no valor e significado que a criança tem para a sociedade e na preocupação com questões relacionadas à humanização do cuidado. Até 1930, a assistência de enfermagem à criança hospitalizada tinha a finalidade de prevenir infecções e a transmissão de doenças contagiosas por meio do isolamento rigoroso, privando a mãe e os familiares do contato com a criança e com os profissionais de saúde (MOLINA et al., 2007; LIMA; ROCHA; SCOCHI, 1999).
A introdução de terapias antimicrobianas e os avanços tecnológicos possibilitaram a revisão da relação custo-benefício do afastamento dos pais e familiares durante a hospitalização de seus filhos. Concorreram para isto as transformações nos conceitos de criança, compreendida agora como um ser em desenvolvimento não só físico, mas também social, emocional e psicológico (LIMA; ROCHA; SCOCHI, 1999; MOLINA et al., 2007).
Os avanços com relação à humanização do cuidado à criança foram efetivamente trazidos para o hospital a partir da publicação do Relatório de Platt (COLLET; ROCHA, 2004). No cenário brasileiro, a família começou a participar do cuidado à criança hospitalizada a partir do final da década de 1980. São Paulo, através da Resolução SS-165, de 1988, foi o primeiro Estado brasileiro a assegurar o direito aos pais de acompanhar seus filhos durante toda a internação. Posteriormente à publicação da Lei N° 8.069, em 1990, que regulamentou o Estatuto da Criança e do Adolescente, sendo preconizado que os estabelecimentos de saúde devem proporcionar condições para a permanência de um dos pais ou responsável em tempo integral, garantindo a entrada da família no meio hospitalar (MOLINA et al., 2007; LIMA; ROCHA; SCOCHI, 1999).
A necessidade de hospitalização produz na criança, quase sempre, um duplo traumatismo, pois concomitantemente à separação do ambiente familiar, acolhedor e que imprime um sentimento de proteção, ela é levada ao hospital, frio, impessoal, hostil, com rotinas e normas
rígidas e com profissionais que executam ações desconfortáveis, ruins e que causam dor. Isso pode refletir de forma negativa, levando a pessoa a experimentar sentimentos como o medo e a carência (RISSO; BRAGA, 2010; MORAIS; COSTA, 2009).
A participação da família durante a internação hospitalar é um fator fundamental de apoio à criança hospitalizada, por fornecer segurança, conforto e manter vínculo familiar (LIMA et al., 2010). Ademais, conforme o Ministério da Saúde, a presença do familiar na instituição hospitalar é necessária para promover melhor captação de dados do paciente e de seu momento existencial; contribuir para o conhecimento dos profissionais acerca dos principais problemas e necessidades por eles requerido, mediando assim a relação equipe- criança (SANTOS et al., 2011).
A criança e a sua família, interagindo tão intensa e intimamente, formam uma única unidade de cuidado, diferente e muito maior, que ultrapassa as barreiras impostas pela hospitalização. A mãe é a maior conhecedora de seu filho, ela consegue perceber a evolução no estado de saúde da criança (QUIRINO; COLLET; NEVES, 2010), colaborando com o próprio tratamento, podendo minimizar o custo e o tempo de hospitalização do filho (LIMA et al., 2010; SANTOS et al., 2011).
Por outro lado, a realidade de ter um filho hospitalizado, em sua condição de enfermo, desestrutura todo o cotidiano familiar, a começar por suas rotinas, pela ampliação de suas responsabilidades e pelo sofrimento gerado devido à convivência limitada, tanto pelas próprias condições da família quanto pelas impostas pelo hospital ou mesmo a patologia da criança (PINTO; RIBEIRO; SILVA, 2005).
No Brasil, a maioria das crianças é hospitalizada por doenças respiratórias, que correspondem à primeira causa das internações de crianças menores de cinco anos e à segunda causa de óbito na mesma faixa etária. Geralmente, quando estas patologias são identificadas e tratadas adequadamente, apresentam bom prognóstico (PINTO; RIBEIRO; SILVA, 2005).
Mesmo nas crianças acometidas por enfermidades de causa aguda, as quais experimentam um período relativamente curto, porém intenso, em que a doença atua incisivamente em sua vida, a família também é afetada e tenha necessidades geradas pela situação (PINTO; RIBEIRO; SILVA, 2005).
Vislumbrando-se a cura e o retorno “à vida normal”, a criança acaba sendo eleita como prioridade entre os demais afazeres e obrigações dos familiares (SANTOS et al., 2011). São gerados sentimentos ambíguos resultantes da perda de controle no
funcionamento da família, das inseguranças quanto à capacidade de retomar o equilíbrio e das dúvidas relacionadas à situação vivenciada (MORAIS, COSTA, 2009). Os familiares abandonam suas atividades diárias e disponibilizam-se integralmente a permanecer junto ao filho hospitalizado, o que desestrutura principalmente o ambiente doméstico (SANTOS et al., 2011; MOLINA et al., 2009).
Como forma de reestruturar a dinâmica familiar, as mães buscam alternativas para o enfrentamento desta situação e encontram nos familiares a fonte de apoio necessária (SANTOS et al., 2011). A família começa a se organizar, o que exige revisão e reavaliação periódica dos diversos papéis exercidos, alguns membros desta unidade familiar assumem determinadas tarefas para que um membro específico, comumente a mãe, assuma o acompanhamento do filho doente (MOLINA et al., 2009; NASCIMENTO et al., 2006). Em contrapartida, as dificuldades e o sofrimento demostrados, o tempo durante o qual o filho fica internado podem caracterizar aspecto positivo, uma vez que promove a chance de maior aproximação familiar (SANTOS et al., 2011).
Para amenizar o sofrimento psíquico, surge também a necessidade, por parte dos acompanhantes, de um suporte, representado não apenas pelos familiares e equipe de enfermagem, mas através da fé, do apego à espiritualidade. Afinal, é preciso acreditar que há esperança para a melhora do quadro do filho (SANTOS et al., 2011).
No entanto, no contexto hospitalar, o acompanhante também passa por período de inadequação ao ambiente (SANTOS et al., 2011). O receio que a genitora experimenta deve-se ao universo desconhecido do hospital, no qual ainda não confia, cujas normas e rotinas, muitas vezes rígidas, sobrepõem-se ao cotidiano familiar (PINTO; RIBEIRO; SILVA, 2005; MORAIS; COSTA, 2009).
Durante o processo de internação, os familiares podem mostrar-se vulneráveis, cansados física e psicologicamente. Muitas vezes, a mãe não identifica em seu círculo uma pessoa em que ela confie, e que considere como sendo tão dedicada e capaz quanto ela. Desta forma, mobiliza-se a favor da criança, procurando atender as necessidades do filho em detrimento das suas (MONTEFUSCO; BACHION; NAKATAMI, 2008; MORAIS, COSTA, 2009).
O cansaço físico é decorrente, sobretudo da falta de infraestrutura do serviço, pois o hospital, em sua maioria, não dispõe de recursos físicos e funcionais que contribuam para a permanência do familiar neste ambiente.
pelo adoecimento e hospitalização, ao isolamento do convívio social e familiar, à ansiedade e medo pelo desconhecido, e às dúvidas a respeito da situação de saúde da criança (MORAIS, COSTA, 2009). Neste contexto, a falta de informação coerente e precisa é um dos aspectos que mais preocupa e provoca ansiedade nos pais, além de limitar a participação destes no cuidado à criança hospitalizada (LIMA et al., 2010). Contudo, apesar dos sentimentos que a mãe experiencia acompanhando o sofrimento do filho internado, o estar com a criança permite-lhe apreciar adequadamente a situação vivida (MORAIS; COSTA, 2009).
Dessa forma, a inserção da família no ambiente hospitalar, considerando-se seus direitos e deveres, tem demandado novas formas de organização na dinâmica do cuidado de enfermagem (LIMA et al., 2010). A abordagem do cuidado, que antes era centrada na doença, passou a ser na criança e em sua família (MORAIS; COSTA, 2009). Portanto, para promover famílias saudáveis, é preciso entender e enfocar no seu cotidiano, o qual pode ser compreendido como “a maneira de viver dos seres humanos que se mostra no dia a dia, onde podem estar presentes as interações, saudáveis ou não, ações de cuidado e desvelo, ou ainda, ações de não cuidado. É onde as pessoas mostram suas crenças, valores, significados, cultura, símbolos, com base nas experiências que viveram e nas tribos as quais pertencem, determinando suas próprias regras e rotinas e que vai delineando seu processo de viver. É o universo que, muitas vezes, pode ser esquecido, banalizado, mas, que, sobretudo, expressa o relevante viver diário que se manifesta construindo a vida de cada ser ao longo de sua existência” (NITSCHKE, 2006; SOUZA, 2008 apud NITSCHKE; SOUZA, 2011).
Portanto, no cotidiano do trabalho do hospital torna-se necessário que a família, seja percebida em suas características e necessidades particulares (MORAIS, COSTA, 2009). Todavia, os profissionais de saúde expressam a todo tempo uma incoerência entre seu discurso e a sua prática; por não terem tempo de ouvir, de conversar, de olhar as pessoas que cuidamos, por não acolherem efetiva e afetivamente, em suas instituições de trabalho. (NITSCHKE; SOUZA, 2011). Dessa forma, a convivência entre a família e os profissionais de enfermagem tem evidenciado a presença de conflitos que vêm a ser desencadeados, em grande parte, pelo despreparo em compreender a família como uma unidade básica de cuidado à saúde da criança (LIMA et al., 2010).
A mãe tem sido percebida como receptáculo e provedora de informações, e em contrapartida, não tem participado ativamente no processo terapêutico (QUIRINO; COLLET; NEVES, 2010). A
presença da família no hospital é compreendida também como recursos humanos auxiliares, sendo um agente facilitador do trabalho da equipe de enfermagem (QUIRINO; COLLET; NEVES, 2010; LIMA et al., 2010). O cuidado, que antes era prestado apenas pela equipe de enfermagem, tem sido compartilhado com a família ou, muitas vezes, delegado a esta, caracterizando um processo de desresponsabilização da equipe (LIMA et al., 2010).
Ainda é muito comum a existência de uma relação de dominação- subordinação (QUIRINO; COLLET; NEVES, 2010). Aparentemente, a divisão das tarefas é previamente determinada pela instituição e pelos profissionais, cabendo à mãe, a princípio, cumprir o que lhe é determinado, pois está inserida num território que foge ao seu controle, ficando à mercê das decisões tomadas por outros (VERNIER; DALL’AGNOLL, 2004).
A participação das mães no cuidado está mais relacionada àqueles cuidados realizados em casa, como tarefas básicas da mãe, parecendo uma continuação e/ou extensão para o hospital de sua prática diária no lar (COLLET; ROCHA, 2004).
Ao designar cuidados considerados de menor complexidade técnica às mães, a enfermagem reproduz a divisão social e técnica do trabalho nas relações com a família, uma vez que usa do autoritarismo na delegação de cuidados que a ela compete no ambiente hospitalar (VERNIER; DALL’AGNOLL, 2004). Tal comportamento dos profissionais, algumas vezes impositivo, delineia a versão política que permeia as instituições de saúde, nas quais os profissionais reproduzem relações de poder sob as quais se encontram (QUIRINO; COLLET; NEVES, 2010).
Essa visão utilitarista sobre a família compromete o processo de cuidar, pois passa a ser considerada como ferramenta no cuidado e não como sujeito que precisa ser atendido em suas necessidades. Além disso, os profissionais tendem a transformar o direito da família em permanecer junto à criança em um dever, dever de acompanhá-la e prestar cuidados que competem aos profissionais do serviço (QUIRINO; COLLET; NEVES, 2010).
Muitas vezes, além da relação tensa e conflituosa entre famílias e equipe de trabalho, as situações de conflitos são reforçadas pelas normas hospitalares, as quais não contemplam as necessidades da família (PINTO; RIBEIRO; SILVA, 2005; NASCIMENTO et al., 2006). Apesar das limitações e sofrimentos, a família mantém a iniciativa de resolução de seus problemas, acionando os profissionais e buscando satisfazer suas necessidades (PINTO; RIBEIRO; SILVA, 2005).
Portanto, a equipe de enfermagem tem papel fundamental durante a hospitalização, visto ser a categoria profissional que passa a maior parte do tempo com o paciente e o acompanhante (QUIRINO; COLLET; NEVES, 2010).
No entanto, passados vinte anos do ECA e do ingresso formal da família no hospital, ainda não avançou-se efetivamente na construção de um projeto terapêutico centrado na criança e sua família no hospital (LIMA et al., 2010). Embora haja uma concepção ampliada da extensão do cuidado à família, na prática assistencial esse cuidado continua centrado nas ações técnicas, configurando-se em um processo de trabalho procedimento-centrado (QUIRINO; COLLET; NEVES, 2010). Torna-se fundamental a compreensão da dinâmica das relações entre os agentes que prestam o cuidado, pois aparecem questões não bem- definidas na assistência à criança hospitalizada, o que muitas vezes dificulta o acolhimento da família dentro das unidades pediátricas (MOLINA et al., 2009; COLLET; ROCHA, 2004).
Pais e enfermagem têm pelo menos um objetivo em comum, o restabelecimento da saúde da criança (COLLET; ROCHA, 2004). A produção de um diálogo interativo, que permita a coparticipação e coresponsabilização da enfermeira e da família pelo cuidado, se faz importante no cotidiano da assistência em enfermagem (LIMA et al., 2010).
A equipe de enfermagem deve estar atenta não somente às necessidades da genitora em relação ao seu papel de mãe, mas a todas aquelas que insurgem no âmbito familiar a partir do processo de adoecimento e hospitalização da criança (MORAIS; COSTA, 2009). Os profissionais não estão capacitados para compreender as mudanças que ocorrem na dinâmica da família que vivencia este tipo de situação.
Assim, considera-se essencial que o enfermeiro busque se capacitar para o atendimento das necessidades psico-sociais de pacientes e familiares a fim de melhorar seu desempenho profissional. É preciso lançar mão de técnicas que possibilitem mudanças e que tenham sua base no fortalecimento das relações humanas, criar novas estratégias para o trabalho em saúde, que permitam o desenvolvimento de ações mais efetivas e eficazes em relação ao(s) objetivo(s) a que se propõem (ANDRAUS et al., 2004).
Então, torna-se necessário não somente “cumprir a lei”, mas também ter uma mudança de atitude (VERNIER; DALL’AGNOLL, 2004). Faz-se necessário, portanto, centrar o foco da assistência na humanização (SANTOS et al., 2011), envolvendo a família-criança- enfermagem no cuidado, como uma tríade comprometida com o ser
saudável. Além disso, compreender que saúde-doença é um processo que envolve indivíduo e coletividade (família/ cuidadores, comunidade/ambiente de convivência) e os diversos fatores determinantes, dentre eles também a falta de cuidado familiar para a promoção da saúde da criança.