2. C ONTEXTUALIZATION , D ATA AND D ESCRIPTIVE A NALYSIS
2.3 C ROSS -S ECTIONAL A NALYSIS
Foi pedido às professoras para estabelecer as diferenças entre os termos Integração e Inclusão, e percebi que elas estabeleceram definições e não fizeram comparações (quadro 6 do APÊNDICE L).
Integração é somente fazer parte, estar dentro, [...]. (RUTH) Sem envolvimento nem participação na vida escolar. (DEBORAH)
Levar a pessoa incapaz até algum ponto para outro completar o trajeto. (JUDITH) As repostas acima, dadas pelas professoras, relacionadas à ideia de processo onde o aluno está dentro, mas não se envolve na vida escolar, mostram-se muito excludentes e fogem às propostas de integração, que durante bastante tempo foi mal interpretada. Como recorda Carvalho (2004, p. 67) “distanciam de seu verdadeiro significado e sentido, qual seja, o de processo de natureza psicossocial, implicando na reciprocidade das integrações humanas. Os movimentos escolares de integração das crianças com NEE visavam à interação entre as pessoas. Segundo Carvalho (2004, p. 67) “graças aos processos relacionais e integrativos, elas podem se sentir partícipes, aceitas como do grupo em vez de se sentirem como mais um no grupo”. A ideia transmitida pela professora Rebeca (“Acho que a palavra integração e inclusão é a mesma coisa. Acho que mudou um pouco só na maneira de como a criança é recebida hoje”) cai numa contradição, pois como podem ser idênticos se a maneira de receber o aluno na inclusão é diferente? Como bem recorda Carvalho (2004, p. 67), “no modelo organizacional que se constituiu sob a influência do princípio da integração, os alunos deveriam adaptar-se às exigências da escola e, no da inclusão, a escola é que deve se adaptar às necessidades dos alunos”.
Algumas professoras associam a ideia de integração das crianças à processos de participação, atendimento e integração do aluno e acolhimento da sua família na escola (quadro 6 do APÊNDICE L).
Integração - o aluno faz parte de comunidade escolar [...].
[...] é atendido e compreendido por todos os profissionais desde o porteiro até o profissional especializado, [...].
[...] está integrado com os colegas que o respeitam. [...] a família é acolhida e bem vinda. (MADALENA)
Elas percebem que todo contexto é afetado e Sage (1999, p. 129) afirma que as mudanças precisam ocorrer para a realização do ensino inclusivo: “As mudanças envolvem muitos níveis do sistema administrativo, incluindo a estrutura do setor central da educação, a organização de cada escola e a didática da sala de aula”. Esta proposta do autor condiz com os pensamentos das professoras quando associam inclusão a processo de participação e transformação do sujeito e do ambiente.
Já a inclusão é mais profundo, você faz parte, interage, se transforma. Inclusão é também transformar o ambiente para receber. (RUTH)
As professoras entendem que a Inclusão tem como finalidade a participação e desenvolvimento do aluno em todos os espaços escolares e envolve oferecer recursos e condições para a adaptação do aluno, como exemplo a preparação dos professores.
É inserir uma criança, adolescente ou adulto para conviver e desenvolver atividades conforme suas necessidades e capacidades no meio social, seja ele escolar ou trabalho (NOEMI)
Inclusão para mim é não deixar de lado a criança.
Fazer com que ele se sinta igual aos outros, trabalhando como tal. (REBECA) É fazer parte do processo, interagir, transformar e acrescentar. (RUTH)
Os entendimentos das professoras de que para haver a inclusão escolar implica em adaptações curriculares e busca de recursos, vão de encontro à afirmativa de Mittler (2003, p. 34) de que “A inclusão implica uma reforma radical nas escolas em termos de currículo, avaliação, pedagogia e reformas de agrupamento dos alunos nas atividades de sala de aula”. Uma escola inclusiva contempla, então, as solicitações das professoras. Elas reivindicam, por exemplo:
Oferecer recursos de LIBRAS, material didático para trabalhar com estes alunos. (SARAH)
[...] com condições de trabalho, para o professor (materiais, pessoal especializado. [...] adaptações físicas na escola. (MADALENA)
Nas propostas inclusivas o professor precisa ser preparado para receber o aluno com NEE e segundo Mittler (2003, p. 35) “implica que todos os professores têm direito de esperar receber preparação apropriada na formação inicial em educação e desenvolvimento profissional contínuo durante sua vida profissional”. As professoras reconhecem que o professor precisa receber preparação para incluir os alunos com NEE em suas classes.
Preparar o professor. (SARAH)
[...] formação continuada. (MADALENA)
Mas, para a professora Judith a ideia de inclusão toma direção oposta as propostas inclusivas quando declara que inclusão é “Colocar, admitir pessoas incapazes em escolas, trabalho, meio social”. A ideia de deficiência por muitas vezes esteve associada à ideia de incapacidade, barrando assim o desenvolvimento de todas as potencialidades do sujeito.
Concordo com Carvalho (2004, p. 67) quando coloca que “parece-me perverso centrar no aluno e apenas nele, a responsabilidade por seus êxitos e fracassos, como preconizado no modelo de déficit [...]”.
Deparamos na pesquisa com o silêncio de algumas professoras (quadro 6 do APÊNDICE L).
Até o presente momento não me sinto preparada para comentar algo que desconheço [...] (ESTER)
Não respondeu (NOEMI)
O silêncio e o ‘não saber’ revelam uma posição, destas professoras, diante da inclusão escolar. Ainda que pareça, o silêncio não é um discurso vazio, mas uma forma de dizer que não passa despercebida para quem se dispõe a ouvir. Não se pode recuar e não é aconselhável acuar a pessoa, pois se incorre no risco de calá-la por mais tempo. Como explica Freud (1976b, p. 91): “A cada tentativa de fazer chegar à consciência as causas recalcadas e inconscientes da doença, o componente pulsional em questão é necessariamente despertado para uma nova luta com as forças repressoras”. No caso das professoras, não se trata de doença, mas de um sintoma - se manter calada ou se posicionar como quem não está preparada para falar revela, minimamente, alguma dificuldade com a temática proposta. Isto significa que estas professoras precisam ter oportunidades para falar, como afirma Lacan (1999, p. 13): “É justamente porque alguma coisa foi atada a alguma coisa semelhante à fala que o discurso pode desatá-la”.