Considerando, inicialmente, que o objeto estudado no presente trabalho está relacionado às atitudes das equipes gestoras das escolas da CREDE 14 para apropriação de dados disponibilizados nos Sistemas de Informação para as tomadas de decisão e que esse objeto, baseando-se nas reflexões propostas por Yin (2014), configura-se como um fenômeno social complexo que está inserido em seu contexto do mundo real, assim, reside no estudo de caso o método mais adequado para a construção de conhecimento sobre determinado objeto.
Marli André (2013, p. 97), ao discorrer sobre essa forma de pesquisa, argumenta que “o conhecimento gerado pelo estudo de caso é diferente do de outros tipos de pesquisa porque é mais concreto, mais contextualizado e mais voltado para a interpretação do leitor”. Esse conhecimento, ainda de acordo com a autora, é percebido “como um processo socialmente construído pelos sujeitos nas suas interações cotidianas, enquanto atuam na realidade, transformando-a e sendo por ela transformados” (ANDRÉ, 2013, p. 97). Para que esse conhecimento construído fuja da repetição, da imitação e da não apreensão criativa, Gatti (1999, p. 72) orienta que a vivência do pesquisador com o pesquisado seja marcada pela “apropriação transformadora, personalizada das regras, formas de trabalho e orientações já formalizadas”.
Nesse intuito, o estudo de caso favorece essa vivência ao possibilitar o trabalho com uma multiplicidade de dimensões. Yin (2014, p. 12) informa que “a habilidade de lidar com uma ampla variedade de evidências – documentos, artefatos, entrevistas e observações – é a força incomparável do estudo de caso” (tradução nossa). André (2013) complementa esse posicionamento ensinando ao pesquisador que, ao ser utilizada uma ampla variedade de fontes de dados, diversos métodos de coleta e distintos instrumentos e procedimentos, o conhecimento produzido sobre aquele fenômeno contemplará as suas múltiplas dimensões, evitando análises unilaterais ou superficiais.
Frente à multidimensionalidade dessa abordagem qualitativa de pesquisa, o presente estudo de caso, até o presente momento, valeu-se da análise de dados, do trabalho com
documentos oficiais e da revisão bibliográfica. As evidências apreendidas por meio dos documentos oficiais (Legislação Estadual, Projetos Políticos Pedagógicos das Escolas, registros das visitas da Superintendência Escolar às escolas, livretos, notícias, etc.) e dos dados disponibilizados pela SEDUC e CREDE 14 foram fundamentais para uma ampla compreensão do fenômeno social objeto deste estudo.
Nesse sentido, André (2013), ao fundamentar-se nos estudos de Robert Stake (1995), reflete sobre a importância dos documentos nesse formato de pesquisa. De acordo com o mesmo, “Documentos são muito úteis nos estudos de caso porque complementam informações obtidas por outras fontes e fornecem base para triangulação dos dados” (ANDRÉ, 2013, p. 100). Como demostrado no decorrer deste trabalho, tanto as informações disponibilizadas como os documentos utilizados permitiram estabelecer análises multidimensionais e com profundidade.
Uma ampla revisão bibliográfica focada, em sua maior parte, no uso das TIC e dos Sistemas de Informação pela gestão escolar e sobre a apropriação de dados para tomada de decisão foi empregada com o intuito de aprofundar teoricamente aquela vivência do pesquisador com o pesquisado. O fato de incluir nesta revisão outros estudos de caso produzido no âmago desse programa de pós-graduação foi fundamental para uma melhor compreensão do fenômeno em estudo, com base nos conhecimentos produzidos sobre fenômenos aproximados vivenciados pelos pesquisadores, estabelecendo um diálogo entre os objetivos estudados.
Apesar desse esforço metodológico em explorar dados, documentos oficiais e a revisão bibliográfica, para que fosse possível analisar as atitudes dos membros das equipes gestoras de 14 escolas da CREDE 14 em relação à apropriação de dados – por meio dos sistemas de gestão – para a tomada de decisão, foi necessário contar com outra ferramenta metodológica: os grupos focais. Essa escolha permitiu alcançar grande parte dos gestores e coordenadores escolares envolvidos no presente estudo de caso, possibilitando a exposição de diversos pontos de vista, experiências e contribuições por meio da interação entre os participantes dentro dos grupos.
Bloor et al. (2001), ao realizar um estudo sobre grupos focais nas pesquisas sociais, apresentam quatro considerações iniciais relevantes sobre essa metodologia de pesquisa. De acordo com os autores:
Grupos focais podem ser usados para mais do que, digamos, a geração de informações sobre visões coletivas[...]. Grupos focais podem produzir dados sobre os significados que estão por trás das avaliações dos grupos [...]. Similarmente, os grupos focais podem produzir dados sobre as incertezas, ambiguidades e processos de grupo que levam e fundamentam as suas avaliações [...]. Da mesma forma, os grupos focais também podem esclarecer os entendimentos normativos que os grupos utilizam para alcançar seus julgamentos coletivos. (BLOOR et al. 2001, p. 4, tradução nossa)
Na mesma linha de raciocínio, Ana Maria Vieira e Ricardo Vieira (2007) – baseando- se em Souza (2004), Josso (2002), Vieira (2003) e Vieira (2006) – argumentam que, para além da produção de dados, essa metodologia possibilita uma ampliação dos contrates, ou seja, o choque de diferentes pontos de vistas em relação à mesma situação, o que contribui para a “redescoberta de si e dos outros, quer da (trans)formação pessoal e profissional que o confronto de ideias proporciona e promove” (VIEIRA; VIEIRA, 2007, p. 39). Nesse contexto, é imperioso destacar que, além dos conhecimentos que são produzidos para a pesquisa, essa ferramenta possibilita novas aprendizagens para os participantes.
Gatti (2012, p. 10) afirma que, com emprego dessa técnica,
comparado à entrevista individual, ganha-se em relação à captação de processos e conteúdos cognitivos, emocionais, ideológicos, representacionais, mais coletivos, portanto, e menos idiossincráticos e individualizados.
Acredita-se que essa visão menos personalista das atitudes dos membros das equipes gestoras das escolas regionais possibilita, de acordo com a estudiosa,
compreender processos de construção da realidade por determinados grupos sociais, compreender práticas cotidianas, ações e reações a fatos e eventos, comportamentos e atitudes, constituindo-se uma técnica importante para o conhecimento das representações, percepções, crenças, hábitos, valores, restrições, preconceitos, linguagens e simbologias prevalentes no trato de uma dada questão por pessoas que partilham alguns traços em comum. (GATTI, 2012, p. 11)
Refletindo sobre essa oportunidade de conhecer as múltiplas percepções das equipes gestoras das escolas da CREDE 14 sobre a problemática disparadora deste estudo, foram organizados quatro grupos focais, conforme o quadro 5. Para tanto, foram levados em consideração critérios relacionados à logística de deslocamento do pesquisador e dos participantes dentro da regional para realização dos grupos, tendo em vista a distância entre os sete municípios que compõem a CREDE 14 e a dificuldade de concentrar todo o público-alvo em um único momento, situação que poderia dificultar a coleta de dados.
Quadro 5 – Organização dos Grupos Focais Realizados Ordem Data da realização Local de realização Função desempenhada pelos participantes Quantidade de participantes Identificação dos participantes 1º 11/04/2019 Sala de Reunião da CREDE 14 Diretores e Coordenadores Escolares das escolas dos municípios de Senador Pompeu e Piquet Carneiro. 05 Diretor 01 Diretor 02 Diretor 03 Coordenador 01 Coordenador 02 2º 22/04/2019 Laboratório de Informática da EEM Francisco Vieira Cavalcante Diretores e Coordenadores Escolares das escolas do município de Pedra Branca 06 Diretor 04 Diretor 05 Diretor 06 Coordenador 03 Coordenador 04 Coordenador 05 3º 25/04/2019 Sala do Diretor da EEM Euclides Pinheiro de Andrade Diretores e Coordenadores Escolares das escolas dos municípios de Milhã, Solonópole e Deputado Irapuan Pinheiro 05 Diretor 07 Diretor 08 Coordenador 06 Coordenador 07 Coordenador 08 4º 04/05/2019 Laboratório de Informática da EEM Pedro Jaime. Diretores e Coordenadores das escolas do município de Mombaça 03 Diretor 09 Coordenador 09 Coordenador 10 Fonte: Elaboração própria.
É mister destacar que, ao considerar a participação dos profissionais das equipes gestoras das escolas da CREDE 14 nas discussões dos grupos focais, cumpre-se uma das funções principais dessa ferramenta metodológica: a democratização do processo de pesquisa, que se configura como um fórum para a participação pública (BLOOR et al. 2001).
Entretanto, no processo de organização e condução dos grupos, o pesquisador se deparou com algumas situações que limitaram essa participação, não permitindo a participação integral de todos os membros das equipes gestoras das 14 escolas da CREDE. Essas situações, em sua maioria, estavam relacionadas: à dificuldade relatada por alguns diretores e coordenadores escolares de se ausentarem das escolas que atuam para participar do grupo focal; à quantidade de demandas que a escola necessitava acompanhar naquele período; à dificuldade de deslocamento de alguns para participar dos grupos focais, mesmo com a flexibilização da divisão do cronograma, algumas escolas estão situadas em locais afastados do espaço onde o
grupo focal foi realizado; alguns problemas de saúde do próprio membro ou de algum familiar; e ainda à não adesão, de alguns poucos, à pesquisa.
Apesar dessas situações limitadoras, participaram dos grupos focais pelo menos um representante de 13 das 14 escolas previstas, resultando em uma adesão voluntária de aproximadamente 43% dos agentes envolvidos no caso de gestão aqui estudado. Assim como preanunciado por Ana Maria Vieira e Ricardo Vieira (2007), os grupos focais possibilitaram aos participantes novas aprendizagens por meio das interações, fato percebido em alguns momentos durante e depois do grupo focal, tais como: a vívida atitude dos gestores em tomarem notas das práticas compartilhadas; no questionamento sobre detalhes de como determinada ação era desenvolvida; em falas sobre a importância daquele espaço de compartilhamento de práticas de gestão, com a proposição, inclusive, da realização de novos encontros com os gestores de todas as escolas existentes no município; e as conversas entre os gestores, ao final dos grupos focais, para coletar mais ideias e materiais.
Para o estabelecimento da discussão, o roteiro dos grupos focais, constante no Apêndice A, teve dupla intencionalidade. A primeira dizia respeito à identificação de atitudes e estratégias das equipes gestoras para a apropriação de dados para a tomada de decisão – principalmente aqueles relacionados à infrequência e ao rendimento escolar – mediante a proposição da reflexão sobre situações observáveis na Sala de Situação. A segunda dizia respeito à avaliação de um protótipo de roteiro básico de ações reflexivas (Apêndice B) para auxiliar as equipes gestoras das escolas na tomada de decisão baseada em dados. De modo a garantir o cumprimento dos padrões profissionais de sigilo, os participantes dos grupos focais firmaram Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – TCLE (Apêndice D) e, no decorrer do trabalho, as identificações deles foram suprimidas.
Assim, quando as considerações e contribuições dos mesmos forem utilizadas no decorrer do texto, eles serão identificados, somente, como a nomenclatura “Diretor” ou “Coordenador Escolar”, também sem fazer referência ao gênero, e de um número de ordem de acordo com a realização dos grupos focais, conforme o quadro 5. Optou-se por não citar o nome da escola, uma vez que essa informação poderia ferir os padrões de sigilo acordados no TCLE. Considerando a especificidade da técnica escolhida, como também as intencionalidades a ela atribuídas, deve-se ressaltar que o roteiro não foi encarado como uma orientação engessada, o mesmo considerou a flexibilidade das interações, adaptando-se ao desenrolar das mesmas. Entretanto, essa abertura não implicou na passividade do moderador dos grupos. Gatti (2012) explica que o moderador deve estimular o debate naqueles pontos em que os participantes já consideravam concluído, desafiando-os naquelas questões que os participantes
davam como certas e encorajando-os a discutir sobre os argumentos apresentados pelos participantes.
Morgan (1997) argumenta que essa dependência de interação no grupo para produzir informações é uma das potencialidades dos grupos focais. De acordo com o autor, que é considerado o pai dessa metodologia, “as comparações feitas pelos participantes entre as experiências e opiniões dos demais são uma fonte valiosa de compreensão sobre comportamentos e motivações complexos” (MORGAN, 1997, p. 15, tradução nossa). Desse modo, uma efetiva e eficaz condução dos grupos focais é, conforme o estudioso, “uma oportunidade para coletar dados dos tópicos de discussão em grupo de interesse do pesquisador” (MORGAN, 1997, p. 16, tradução nossa).
Sobre essa habilidade de produzir dados significativos por meio da condução das interações, Gatti (2009, p. 76) alerta que:
necessário escolher instrumentos para acessar a questão, vislumbrar e escolher trilhas a seguir e modos de se comportar nessas trilhas, criar alternativas de ação para eventuais surpresas, criar armadilhas para capturar respostas significativas.
Nesse sentido, após a conclusão dos grupos focais, o material de áudio produzido foi transcrito e organizado considerando os três principais eixos que norteiam esta pesquisa: o uso de tecnologias pela gestão escolar, os sistemas de informação para a gestão educacional e a apropriação de dados para tomada de decisão, teoricamente explorados na seção anterior.
Tendo em vista a opção de direcionar o grupo focal para a identificação de atitudes e estratégias das equipes gestoras e para a avaliação do roteiro básico para auxiliar as escolas na apropriação de dados para a tomada de decisão, esse trabalho também lançou mão de outra ferramenta para coleta de dados: um questionário eletrônico (Apêndice C) disponibilizado para os Gestores e Coordenadores Escolares participantes dos grupos focais.
Esse empenho partiu da necessidade de se conhecer os agentes das equipes gestoras das escolas da CREDE 14 participantes do grupo focal e informações sobre como eles utilizam as TIC e os sistemas de gestão para promover a apropriação dos dados para a tomada de decisão. Além de garantir ao grupo focal uma abordagem mais direcionada para as suas intencionalidades acima apresentadas, o emprego dos formulários permitiu obter outras informações que complementaram as contribuições e avaliações apresentadas nos grupos focais.
Compreendendo que o questionário (do inglês survey) “é uma abordagem estruturada para coleta e análise de dados e que ela se baseia em uma lógica particular de análise” (DE-
VAUS, 2002, p. 7, tradução nossa), optou-se por essa ferramenta de coleta com o intuito de maximizar as análises possíveis neste estudo, para além de pensá-la como um método quantitativo ou qualitativo de pesquisa. Gil (2008, p. 121) argumenta que um questionário pode ser compreendido como uma técnica de pesquisa em que uma série de questões são lançadas às pessoas “com o propósito de obter informações sobre conhecimentos, crenças, sentimentos, valores, interesses, expectativas, aspirações, temores, comportamento presente ou passado, etc.”. Diante dessas duas considerações, é evidente que a triangulação dos dados obtidos por meio dos documentos e fontes oficiais, as interações dos integrantes das equipes gestoras durante os grupos focais e os dados coletados por meio do questionário eletrônico favoreceram uma compreensão mais ampla da problemática aqui abordada, como também subsídios essenciais para a elaboração de um Plano de Ação Educacional que se encaixe nos contextos e atenda aos interesses das equipes gestoras.
O instrumento foi disponibilizado aos respondentes por meio de e-mail e aplicativo de mensagens instantâneas, e, diferentemente do que ocorreu nos grupos focas, houve uma participação de 100% dos 44 respondentes esperados. No entanto, também se perceberam em relação a essa metodologia alguns limites para a efetivação de todas as respostas. Dentre elas, destacam-se: as menções feitas pelos gestores sobre a quantidade de demandas que eles tinham; problemas com acesso à internet nas escolas; e, também, uma baixa adesão de alguns para responderem o questionário, tanto que, para o cumprimento do prazo, foram necessários frequentes contatos com os convidados a responder o questionário.
Composto por 50 questões fechadas, o questionário buscava, dentre outros objetivos, coletar informações sobre o perfil dos membros das equipes gestoras da CREDE 14, uma percepção sobre os usos das TIC e dos sistemas de informação para gestão educacional pelos gestores escolares e um entendimento sobre a apropriação de dados para tomadas de decisão, usando para tanto questões para levantamentos de dados objetivos e subjetivos.