Chapter 4: Does financial literacy reduce familiarity bias? Evidence from
5 Robustness Checks
A ponte Hercílio Luz, inaugurada em 1926, representou uma mudança de perspectiva da antiga área do cemitério em relação à cidade. Com o funcionamento da ponte esta área que era periférica em relação ao centro da cidade, mas visível na paisagem para os que chegavam por mar, tornou-se área de passagem e entrada principal da cidade. Assim, como conseqüência da construção da ponte, em 1925, o antigo cemitério do Estreito foi transferido (PELUSO 1991a, p. 318).
A construção da ponte representou um marco no processo de modernização de Florianópolis sendo uma das mais significativas ações públicas cujo objetivo era reorientar o desenvolvimento urbano da cidade e consolidar a cidade como capital do Estado de Santa Catarina.
Figura 37. Ponte Hercílio Luz em construção, 1922. Fonte: www.ufsc.br
Durante o segundo governo de Hercílio Luz (1918-1922) ressurgiram as discussões com relação à localização da capital catarinense em Florianópolis e a possibilidade da sua transferência para uma região mais central do Estado. “Argumentava-se que Florianópolis não tinha como se desenvolver, pois não produzia nada, tudo vinha de outras cidades” (ROSA, 2003, p. 80).
“Cidades como Blumenau e Joinville, fundadas em meados do século XIX, despontavam, no início do século XX, dentre os municípios mais prósperos do estado, ameaçando a posição privilegiada de Florianópolis”. O discurso daqueles que buscavam mudar a sede governamental catarinense reiterava, dentre outros tópicos, “a questão da inviabilidade geográfica” da cidade, tendo-se em vista o distanciamento da mesma, em relação às demais região do estado e a dificuldade
de acesso à ilha.73
No decorrer da Primeira República, as elites locais74 defendiam a
proposta sobre a necessidade de se promover uma remodelação urbana e social, com o objetivo de mudar a realidade de Florianópolis, constituindo uma prática que perpassou os vários momentos em que se processaram as tentativas de reformas na capital catarinense (ARAÚJO, 1989, p. 14).
Segundo Araújo (1989, p. 73), em 1920, o governo estadual determinou estudos visando à transferência da capital para a cidade de Lages. Mas, em função dos elevados custos, optou-se pela fixação definitiva da capital na ilha. A construção da ponte representou um instrumento utilizado por Hercílio Luz na luta política pela continuidade da capital catarinense em Florianópolis, conseguindo superar a crise de caráter político que ameaçava a cidade de perder a prerrogativa de sediar a
capital do estado.75
Para aquela vitória política, foi essencial o papel representado pela construção da ponte, cuja denominação, aliás, teria sido outra – “Ponte da Independência” -, não fosse o falecimento de seu idealizador, em memória
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Parecer Técnico 01/91 do processo de tombamento da Ponte Hercílio Luz, nº 1.137-T-85, IPHAN (RIBEIRO, 1991).
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As elites locais, na segunda metade do século XIX, se formaram a partir da “constituição de um setor privado e burguês (envolvendo fluxo de mercadorias e de trabalho social)...” (ARAÚJO,1989, p. 73) Nas primeiras décadas do século XX, consolidou-se uma pequena elite de comerciantes e funcionários do Estado. “Mesmo com seu pequeno crescimento, a capital catarinense apresentou neste período uma crescente diversificação social, advinda principalmente do comércio (em grande parte voltado para o abastecimento interno da cidade), de suas funções como sede administrativa e por toda uma camada de funcionários do Estado, bacharéis, profissionais autônomos, comerciantes, pequenos proprietários, etc., que passaram a gravitar em torno das novas elites que assumiram o controle do aparelho de Estado em Santa Catarina E estes segmentos, no seu conjunto, passaram também a se diferenciar cada vez mais das outras camadas menos privilegiadas” (ARAÚJO, 1989, p. 12).
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Parecer Técnico 01/91 do processo de tombamento da Ponte Hercílio Luz, nº 1.137-T-85, IPHAN (RIBEIRO, 1991).
do qual aquela obra de engenharia passaria a ser chamada: ‘Ponte Hercílio Luz’.76
Assim, a ponte Hercílio Luz fez parte de um conjunto de obras de reformas urbanas e sociais implantadas em Florianópolis, no período da Primeira República. Segundo Araújo (1989, p. 17), verificou-se “a emergência de uma série de práticas e discursos sobre questões relacionadas a algumas reformas sanitárias e urbanas que desde o final do século XIX lentamente se processavam na capital”.
As manifestações em torno da remodelação da cidade e também de seus habitantes, envolveram aspectos bastante amplos como demolições de habitações na época julgadas insalubres, construções de edifícios públicos, abertura e pavimentação de ruas e avenidas, ajardinamento de praças e, também, além de outras obras de serviços públicos, a instalação das primeiras redes de água encanada, energia elétrica e esgotos (ARAÚJO, 1989, p. 17).
A Ponte Hercílio Luz teve sua construção iniciada em 1922, pelo governo estadual de Hercílio Luz, em seu terceiro mandato e foi concluída e inaugurada em 1926, contribuindo para modificar a paisagem e a organização do espaço urbano de
Florianópolis77.
As duas principais ruas do centro da cidade que faziam a ligação com o Cemitério Municipal, Felipe Schmidt e Conselheiro Mafra, foram ligadas à cabeceira da ponte. A avenida Rio Branco passou a exercer parte da função até então desempenhada pela praça central próximo ao mar, referente à chegada e à saída da população da cidade e visitantes na Ilha (PELUSO, 1991a, p. 318).
Segundo Veiga (1993, p. 340-341), foi elaborado um projeto para a Avenida Rio Branco prevendo a sua ligação direta com a ponte Hercílio Luz, “cortando o terreno que era ocupado pelo cemitério alemão”. Tal ligação que seria denominada avenida Independência “não ocorreu devido às dificuldades em romper o maciço rochoso” sobre aquela área. Assim a ligação da avenida Rio Branco com a Ponte Hercílio Luz “se fez inicialmente por meio da rua Hoepcke e da alameda Adolfo Konder”. O trecho final da rua Felipe Schmidt foi aberto mais tarde facilitando o fluxo viário em direção à ponte.
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Parecer Técnico 01/91 do processo de tombamento da Ponte Hercílio Luz, nº 1.137-T-85, IPHAN (RIBEIRO, 1991).
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Sobre a história da construção da Ponte Hercílio Luz, do projeto à inauguração, conferir os trabalhos de: ANDRADE, Djanira. Hercílio Luz: uma ponte integrando Santa Catarina. Florianópolis, Ed. da UFSC, 1981; COELHO, Mário César. Moderna Ponte Velha: Imagem & memória da Ponte Hercílio Luz. Dissertação Mestrado em História, UFSC, Florianópolis, 1997.
Escavação no alto da rua Felipe Schmidt – 1940 Fonte: AMORA, 2006.
O recém-inaugurado edifício do DSP, à direita Rua Felipe Schmidt e à esquerda, Av. Rio Branco, 1939.
Fonte: AMORA, 2006.
Figura 38. Reformas urbanas das décadas de 30-40
Ainda na década de 1930, um importante edifício foi construído nas imediações da cabeceira da ponte Hercílio Luz. Trata-se do prédio do Departamento de Saúde Pública e Centro de Saúde de Florianópolis. Localizado no entroncamento da Rua Felipe Schmidt com a Avenida Rio Branco, teve sua obra concluída em 1939. Segundo Amora, este foi “implantado em local para onde se desenvolveu a área central da cidade em direção ao acesso viário do continente pela Ponte Hercílio Luz, conferindo aspecto de progresso a quem afluísse à cidade por essa via, e marcando simbolicamente o Estado Novo junto à principal obra da velha república” (AMORA, 2006, p. 290).
O edifício, localizado em um terreno triangular, possui uma implantação que valoriza e destaca sua entrada que está voltada para o acesso que leva à ponte Hercílio Luz. Portanto, para quem chegasse à cidade entrando pela Avenida Rio Branco, teria uma vista da cidade com o edifício do DSP – Departamento de Saúde
Pública em primeiro plano (AMORA, 2006, p. 290).78
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Segundo Amora (2006, p. 317), nos governos de Getúlio Vargas e de Nereu Ramos em Santa Catarina, foi dedicada especial atenção aos edifícios públicos de saúde, “atribuindo-lhes papel de destaque como obra de governo e como monumentos nas principais cidades. Esses edifícios — de forma intencional refletindo esse momento histórico e os princípios coletivos almejados — foram síntese da sua função social e pública, e do seu papel de representação de valores coletivos por meio de concepções estéticas e plásticas; por isso foram implantados estrategicamente no ambiente urbano de forma a serem visualizados e vivenciados pela população como a imagem de um portal que ao ser transposto permitiria o seu ingresso em um novo tempo”.
Figura 39. Eduardo Dias – Ponte Hercílio Luz (1930), óleo sobre tela, 109 x 152 cm. Fonte: Museu de Arte de Santa Catarina.
A ponte possibilitou a ocupação das áreas do continente próximo. Estimulados pelo novo acesso surgem, entre 1923 e 1924, os primeiros loteamentos do Estreito e entre 1924 e 1925, inicia-se a abertura das primeiras ruas. Em 1943,
esta áreafoi incorporada ao município da capital.
A construção da Ponte Hercílio Luz teve um caráter simbólico de integração da capital ao Estado de Santa Catarina. Na prática sua realização gerou mudanças mais locais, entre Florianópolis e sua região próxima, do que a esperada integração estadual.
Nas décadas seguintes, apesar dos esforços feitos no período da Primeira República, a cidade de Florianópolis viveu um período de declínio econômico, provocado principalmente pela decadência cada vez maior do seu porto em decorrência da substituição do transporte marítimo pelo transporte rodoviário. “Florianópolis foi uma cidade sonolenta”, afirmou-se. Em 1938, a área urbana da cidade ainda estava restrita a área central em torno da praça XV de Novembro. As atividades de sede do governo do Estado se constituíam na principal função econômica que ocupava seus habitantes. Ao mesmo tempo, continuavam as constantes ameaças de transferência da capital para o interior do Estado (O Estado, 1976, p. 31).
Figura 40. Florianópolis, centro da cidade, no canto superior direito pode ser visto a área da cabeceira insular da ponte Hercílio Luz - década de 1950.
Fonte: www.ufsc.br
A antiga área do cemitério passou a ser reconhecida cada vez mais como a área da cabeceira insular da ponte Hercílio Luz, uma grande área de terra que por décadas não teve um uso relevante no contexto urbano da cidade de Florianópolis. Isto não significa que não era objeto de interesse, os vazios urbanos na cidade quase sempre são áreas a espera de uma valorização no futuro.