No início desse capítulo dois, traçamos um histórico sobre os antecedentes da criação mundial do videoclipe, no que se refere as tentativas de sincronizar imagens com música. Até chegarmos na criação da emissora MTV, o canal responsável mundialmente por popularizar a exibição, bem como a necessidade de produção do videoclipe. Contudo, é necessário que nesse panorama histórico tenhamos um olhar específico sobre a produção de videoclipes no Brasil, que apesar de ter seguido a tendência mundial teve suas particularidades. Dessa forma, começamos pelo o que outros pesquisadores consideram a primeira fase do videoclipe brasileiro, a fase exibições no Fantástico. Essa fase ocorre entre os anos de 1975 até 1980. Vale ressaltar que as primeiras experiências com música na televisão brasileira estão relacionadas a programas de auditório com atrações musicais, programas de calouros e Festivais Musicais.
O programa Fantástico, exibido pela emissora Rede Globo, é uma revista eletrônica, que vai ao ar aos domingos à noite, desde agosto de 1973 até o presente momento. É, portanto, um dos programas de maior longevidade da televisão brasileira. Por ser uma revista eletrônica seu conteúdo é variado, pois, mistura atrações musicais e artísticas, com jornalismo e esporte. Por esse formato dinâmico, as primeiras experiências com produções de videoclipes no Brasil foram realizadas por ele. Uma primeira tentativa de realizar um audiovisual próximo ao formato videoclipe pelo Fantástico, denominado Musical do Fantástico, foi da canção Gita, do cantor Raul Seixas, produzido em 1974. Nele Raul Seixas aparecia “(...) com vários figurinos, como um traje típico da Renascença e uma roupa cor-de-rosa parecendo flutuar diante da projeção em choma-key de obras de artistas plásticos como catalão surrealista Salvador Dalí, o suíço Paul Klee” (BRYAN, 2011, p. 110). Apesar desse vídeo seguir muito o modelo do gênero videoclipe, e seu diretor Cyro Del Nero reivindicá-lo como o primeiro videoclipe brasileiro, no transcorrer da história do audiovisual brasileiro ele foi classificado como número musical.
Dessa forma, a história da produção do videoclipe no Brasil tem como marco fundante o videoclipe América do Sul, do cantor Ney Mato Grosso, realizado em 1975,
ou seja, de maneira contemporânea ao cenário internacional da criação e do estabelecimento do formato do videoclipe. Ele foi dirigido por Nilton Travesso, e claro foi produzido pelo Fantástico. Tem duração de três minutos e trinta e oito segundos, nele Ney Mato Grosso aparece cantando a música com performances num:
(...) matagal em Mangaratiba, no interior do Rio de Janeiro. A câmera flagra o artista de frente e de cima, dançando sobre a pedra ou se misturando com a plantação, como uma espécie ambígua de homem-mulher, selvagem-civilizado, numa “América desabitada”, como na época do Descobrimento do Brasil” (BRYAN, 2011, p. 112).
Com este videoclipe estava inaugurado a utilização de videoclipes no Brasil pela indústria fonográfica através do “padrão Rede Globo de produções”. Podemos perceber que mesmo dentro do padrão da emissora o caráter transgressor do videoclipe já estava delineado. Isso porque se pensarmos que a própria figura performática do cantor Ney Matogrosso é andrógina, como destaca Bryan, num contexto no qual os valores do “tradicional” modelo para o feminino e o masculino, fortemente difundidos pelo regime militar, que implacavelmente censurava todas a obras artísticas que demostrassem qualquer possibilidade de ruptura com esse modelo. A linguagem visual desse primeiro videoclipe foi transgressora, ainda que nem todas as características do formato videoclipe estivessem presentes.
Os primeiros videoclipes brasileiros produzidos pela emissora, eram gravados durante a semana que antecedia sua exibição. Eram dirigidos por diretores que trabalhavam nela, com quase nenhuma participação dos cantores e das bandas, ou da gravadoras no roteiro, e nas escolhas de locação. Não poderiam ser exibidos por outros canais, e precisam ser aprovados pelo diretor-geral do programa José Itamar de Freitas. A cada domingo, cerca de quatro novos videoclipes eram exibidos no transcorrer da revista-eletrônica, com a intenção de misturar o entretenimento com as informações jornalísticas. Os videoclipes eram produzidos dentro do padrão do gênero “(...) fornecendo uma cara mais gráfica e plástica, com montagem dinâmica”. Que seguisse: “(...) uma linguagem que se adequasse à de todas as outras atrações apresentadas e também ao que foi denominado “padrão Globo de qualidade” e que significava bom acabamento, tecnologia de ponta e visualidade agradável” (BRYAN, 2011, p. 113). Entre as características dos videoclipes “padrão Fantástico” podemos destacar: “(...) traziam o
contento de ambientes internos, com luzes coloridas e, em geral, uso de gelo seco, remetendo imageticamente, a uma espécie de extensão de uma cultura visual oriunda da era do disco music” (SOARES, 2013, p. 228). Neles os cantores apareciam “(...) dublando a canção e narrativa externa sintética do universo da canção, com referências a uma certa imagética clichê do Brasil tropical” (SOARES, 2013, p. 228). A exibição de um videoclipe no Fantástico, era acompanhada a lançamentos dos LPs e das trilhas sonoras das telenovelas, com um caráter de divulgação fonográfica para televisão, a partir da exibição do videoclipe no domingo à noite o single também era lançado nas rádios.
Se por um lado a Rede Globo possibilitou a utilização do videoclipe no Brasil, ela engessou o gênero, pois, a liberdade de criação e de possibilidades diferenciadas que as transgressões audiovisuais permitem eram barradas. Vale lembrar que esses primeiros videoclipes brasileiros foram produzidos em meio aos anos da Ditadura Militar no país, o que de certa forma também criava uma barreira para algumas experimentações da linguagem visual, que poderiam ser censuradas pelos órgãos de repressão do regime.
Porém nem só de divulgação no Fantástico viveram os primeiros videoclipes brasileiros, em 1984 a própria emissora criou o programa Clip Clip. Ele ia para o ar nas tardes de sábado: “A atração contava com produções próprias, geralmente gravadas ao vivo no estúdio da emissora e exibidos num quadro chamado “Clipe Pirata”, e apresentava videoclipes das novas produtoras de vídeo, com financiamento das gravadoras” (BRYAN, 2011, p. 122). Através desse modelo mais aberto e diferenciado da proposta do Clip Clip foi possível uma liberdade um pouco maior para as produções, especialmente porque poderiam ser feitas pelas gravadoras, contudo, para serem exibidos ainda precisam manter o “selo Rede Globo de qualidade”. O programa Clip Clip ficou no ar até 1987.
Vale ressaltar que durante a década de 1980 e o início da década de 1990 outras emissoras também tiveram seus programas de videoclipes, que em muitos casos tinha uma grade de exibição baseada em videoclipes internacionais, especialmente de cantores e bandas estadunidenses e britânicos. Já que no cenário internacional a produção de videoclipes era maior por causa das MTV Americana e da MTV Europa (1987). Os programas tinham em média a duração entre 30 minutos e uma hora, possuíam um apresentador. Eles eram: o Clip Trip, (1989 a 1994) na TV Gazeta; o Som Pop (1989 a 1993) na TV Cultura; o FM-TV (1983-1986), na extinta TV Manchete e o Videorama (sem informação de duração) na TV Record (DUARTE, 2011).