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: les autres risques de sinistres

O transculturalismo crítico – conceito construido e refletido criticamente nessa investigação como possibilidade de currículo em movimento multirreferenciado - intenciona a convivência e as interações implicadas nas tensões entre as diferenças emergidas nas dimensões culturais das comunidades aprendentes escolares.

A potência do conceito está na perspectiva de desnaturalizações de significados hegemônicos de cultura, descentrando e polinizando os olhares, de desvelamentos de sua simbologia, esculpindo criativamente a mestiçagem, e de desreificações de seus arautos, despindo-os de suas estéticas autoritárias.

Para o educador e estudioso da interculturalidade, Reinaldo Matias Fleuri (2003), analisando os conceitos de multiculturalismo e interculturalismo, o termo transcultural tem sido empregado com sentidos diversos, ora como “elemento transversal” pré-existente em culturas diferentes, os “universais culturais inscritos na estrutura humana”, ora como originalidade híbrida de substâncias culturalmente distintas (ibid.)

Prefaciando o livro Currículo Intertranscultural, de Padilha (2004), o mesmo autor retoma essa questão dos “universais culturais”, ressaltando que não estão postos numa perspectiva essencialista, mas, sim, como produto histórico e social das interações dos viventes de grupos sociais e povos diferentes.

Um contraponto interessante a tal idéia nos é posto por Viegas Fernandes (2001, p. 108), quando indica que multi e interculturalismo são abarcado pela transculturalidade aplicando potencialidades dos produtores de cultura “em presença” via “superação e construção de um patrimônio cultural comum”. Portanto, afirma a necessidade da interação, e não apenas a identificação de elementos comuns entre as culturas.

Para Duccio Demetrio, citado por Padilha (op. cit., p. 261), transculturalidade são os elementos culturais comuns entre as culturas, caracterizando as pessoas numa dimensão universal, desprendidas de suas origens. O sofrimento, o desejo, a angústia, a alegria, o sonho, são elementos que se dão no âmbito ontológico.

Em sua tese sobre “currículo intertranscultural”, o mesmo Padilha argumenta sobre a necessidade da acoplagem dessas dimensões (ibid.)

O pensamento do físico Basarab Nicolescu (2005) tem importância decisiva nessa articulação tensionada das concepções de transculturalismo, onde se insere a dinâmica do trans-sendo. Ao tratar da transculturalidade nosso epistemólogo chama-nos a atenção para aquilo que denomina “o esboço de um novo modo de ser da cultura”. Para ele o pluricultural e o intercultural configuram atualizações fundamentais para a comunicação transcultural. Na pluriculturalidade, o diálogo na diversidade é enriquecedor e proporciona visão de nossa face cultural no espelho de outra cultura. A interculturalidade, em função da comunicação em escala planetária e através das globalizações, promove interações entre as diferentes culturas, gerando explosões criativas nos movimentos das mesmas. A transculturalidade possibilita a abertura das culturas para aquilo que as atravessa e as ultrapassa (ibid., p. 116). Tal percepção é uma “experiência irredutível a qualquer teorização, sendo, entretanto, potenciais aprendizagens, desconstrutoras dos pódios privilegiados e naturalizados das culturas hegemônicas, que subjugam outras (ibid. p. 117). Nicolescu assegura que “cada cultura é a atualização de uma potencialidade

do ser humano” em lugar e tempo determinados da terra e da história. Esses lugares e tempos determinados atualizam potencialidades do ser humano e das diferentes culturas. (ibid., p. 117).

A linguagem transcultural torna possível o diálogo entre todas as culturas sem homogeneizá-las, pois é orgânica, forjada pelos sujeitos em suas diferenças. A percepção do transcultural é, antes de tudo, uma experiência, é o “silêncio” das diversas atualizações, entendidas aqui como seqüência dos acontecimentos do ser. Tais atualizações se dão num “lugar sem lugar”, um “sem-fundo” do conhecimento, em um dos níveis de silêncio das diferentes atualizações, como poetiza Michel Camus, “na luminosa ignorância” de cada um de nós. Esses núcleos de silêncio são nossas atualizações através da translinguagem como desdobramento das experiências de “totalidade de nosso ser”. E o transcultural dá-se no movimento das inúmeras culturas, na diversidade, lendo simultaneamente os nossos níveis de silêncio (ibid., p. 118).

Nicolescu afirma ainda que o tempo presente, o tempo vivido no acontecimento do ser, é o tempo vivo, onde nenhum detalhe do pensamento pode ser separado. É um “não-tempo” na relação entre o sujeito e o objeto. O instante presente contém o passado e o futuro (ibid., p. 119). O trans-sendo, aí inscrito, se dá nos não-lugares da escola, da educação, do cotidiano, das vivências. São não-lugares de formação continuada. Tal configuração pode vir a ser o transculturalismo crítico. O transcultural é a condição de ser das culturas possibilitando seu movimento e impedindo sua desintegração. É provocador de tensões e inquietações sobre como somos povoados pelos outros, sobre como podemos ser na mestiçagem, explodindo aprendências e saberes híbridos. É nesse movimento instituinte de fortes mobilizações para um currículo transreferenciado, que incorpore inclusive o instituído, que potencialize as tensões advindas dos níveis de silêncio, da diversidade, das atualizações, das reflexões críticas sobre “nossa iluminada ignorância” que podemos provocar o devir de um currículo que trans-seja.

A reflexão sobre os atos de currículo promove constantes atualizações que se configuram como dinâmica do trans-ser, possibilitando aquilo que Nicolescu propõe como trans-humanismo, isto é, não a homogeinização cultural, mas a procura daquilo que há entre, através e além das culturas, atualizando ao máximo “na unidade dentro da diversidade e da diversidade pela unidade” (ibid., p. 156).

O currículo, na dinâmica do trans-sendo como possibilidade de transculturalismo crítico, não quer educadores novos, mas educadores que renasçam a cada atualização em seus cotidianos através da reflexão crítica sobre seus atos de currículo, comprometidos com as questões, conflitos e emergências da diversidade, com o acolhimento do cosmo complexo, com a mobilização do individual para o coletivo, enfim, com o movimento de uma educação aberta, mobilizadora dos “coracérebros” para a mestiçagem, interconectada via diálogos culturais, tensionadores das políticas culturais

CAPÍTULO II

2.

ATRIBUINDO SENTIDO ÀS ITINERÂNCIAS COMO

FORMAÇÃO – MINHAS IMPLICAÇÕES NAS QUESTÕES

DA CULTURA

Minha implicação com as questões da cultura vêm se dando através de várias matrizes recorrentes em minha trajetória em movimento como ser-no-mundo: minhas histórias e hábitos familiares, minhas interações com diferentes atores, na educação, na História, na música, nas artes de maneira geral, na Cultura e no movimento do pensar sobre o pensar.

Para tratar do lugar de onde falo, numa proposta investigativa como essa, foi necessário lançar-me de coração aberto, olhar atento e profundo, numa atitude hipertextual, aos meus atos de currículo, refletindo criticamente sobre minhas itinerâncias multirreferenciadas e as matrizes fundantes de meu ser-sendo-no-

EU, UTOPIA

MINHA ALMA NERUDA

MEU DESEJO ITINERANTE GUEVARA MINHA PERSEVERANÇA SEM-TERRA MINHA PACIÊNCIA CORTANTE GHANDI NOSSA REVOLUÇÃO MARX

MEU EU PÓS-MODERNO ATOMIZADO MEU IMAGINÁRIO BORGES

MEU ESTAR RENASCENÇA

MINHA IMPRESSIONISTA LOUCURA VAN GOGH NOSSA VIAGEM ULTRAMARÍTIMA NAU SINGRADOURA

MEU SER PARA OUTRO LOYOLA MINHA LUTA E CONQUISTA LULA MINHA ÉTICA COVAS

NOSSA NAÇÃO AMERINDIAFRICAEUROPA NOSSO POVO LATINO-AMÉRICA

MINHAS PROFUNDEZAS COLLASSANTI MEU JARDIM DE ROSAS LUXEMBURGO MINHA OUSADIA BEIRIS

MINHA CORAGEM PAGU

NOSSA COLETIVIDADE DE INCONSCIENTE JUNG MEU CORPO REICH

MINHA BONITEZA FREIRE MEU DOCE SORRISO ZEZINHO MINHA INDEPENDÊNCIA ALICE

MINHA VIDA SILVANA MEU ENVELHECER PRESTES

MINHA POESIA DRUMMOND/PESSOA/SALOMÃO NOSSA COISA TROPICALIA GIL/VELOSO

MINHA CANÇÃO MOSKA MEU SOM POEMA LENINE NOSSO IMPROVISO COLTRANE

MEU ROCK ZEPPELLIN

MINHA MUSICALIDADE PROGRESSIVA YES/TULL NOSSO UNDERGROUD KEROUAC

MEU ESCÁRNIO BUKOWISK MINHA DOSE BEATINIK NOSSA MOBILIZAÇÃO CONSELHEIRO

MEU SUPER-HOMEM DEUS MORTO NIETSZCH MINHA IMPLICAÇÃO CRÍTICA MAcLAREN MEUS 15 MINUTOS HAROW

MEU OLHAR CÂMERA NA MÃO GLAUBER NOSSA CIÊNCIA POESIA BACHELARD

MEU CORACÉREBRO PENSASSENTIDOR MINHA PAIXÃO EL NIÑO

MEU AMOR CAJU MADURO MINHA REBELIÃO LAMPIÃO NOSSO COMPARTILHAMENTO POSSÍVEL

ZELÃO

mundo. Trabalhei com a questão da identidade na análise de minha história de vida, fazendo emergir suas mobilidades, fragilidades e pluralidades ao longo da existência como potencial de transculturalidade (JOSSO, 2007, p. 15-20). Vislumbro, nesse movimento, uma teoria da pessoa ou da pessoalidade, possibilitando maior compreensão do ser na ambivalência diversidade/singularidade, num esforço civilizatório para declarar e compreender os professores “na sua inteireza, como pessoas e como profissionais, como profissionais e como pessoas” (NÓVOA, 2005, p. 18), elaborando conhecimento pessoal no cerne do conhecimento profissional, atribuindo sentidos à docência, atividade que deve ser entendida como itinerâncias, que não podem ser analisadas apenas na perspectiva técnica ou científica (ibid., p. 22).

2.1. INQUIETAÇÕES COM O TEMA E OS NÃO-LUGARES DE

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