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Le Cameroun dans les rencontres préparatoires de la CNUED

Dans le document LE CAMEROUN ET LA DIPLOMATIE CLIMATIQUE, (Page 90-96)

CHAPITRE IV : AU-DELÀ DE LA « BONNE VOLONTÉ AFFIRMÉE » : COMMENT

C. Planche photographie

X. DIFFICULTÉS RENCONTRÉES

1. Le Cameroun dans les rencontres préparatoires de la CNUED

entre as elites políticas, o alto clero e os herdeiros da oligarquia mineira, que garantia estabilidade e legitimidade ao sistema político. Numa releitura de Lucia Luppi Oliveira, Michel dos Santos Silva conclui que “as elites brasileiras se responsabilizaram por uma nova estruturação da política e cultura brasileira”, objetivando a criação de “uma ideologia que

165“[...] Dom Sebastião argumentava que o Brasil era uma nação católica e que a Igreja deveria tirar proveito

desse fato e marcar uma presença muito mais forte na sociedade. A Igreja precisava cristianizar as principais instituições sociais, desenvolver um quadro de intelectuais católicos e alinhar as práticas religiosas populares aos procedimentos ortodoxos”. Idem, p. 41.

166 Correspondência de Gustavo Capanema a Alceu Amoroso Lima. Rio de Janeiro, 21 de julho de 1939. CAAL -

Centro Alceu Amoroso Lima pela Liberdade. Disponível em <http://www.alceuamorosolima. com.br/>. Acesso em 02 de novembro de 2018.

167 Em episódio que será abordado adiante, o chefe de gabinete colocou seu cargo à disposição no momento em

fosse capaz de interpretar [...] a articulação entre políticos e intelectuais”168. Na articulação

estatal que objetivava a consolidação de um Estado forte, a presença desses pensadores atribuía às decisões políticas o caráter técnico e, portanto, incontestável. O indivíduo comum suprimia-se diante de um corpo de funcionários que, dotados de alto capital cultural, não encontravam contestação à altura, numa ação típica da traição intelectual de Benda 169.

Habilidoso politicamente e com bom trânsito entre diferentes lideranças, Gustavo Capanema era simpático à proposta política varguista e às ambições eclesiásticas. Ao longo do período ministerial e durante seu subsequente mandato de deputado na Assembleia Constituinte, o pitanguense manteve-se fiel ao compromisso assumido em função do patrocínio religioso simbólico que o alçou e o manteve na chefia da pasta.

Uma das preocupações coincidentes entre Igreja e Estado era na composição da família brasileira. Cynthia Pereira de Sousa Vilhena aponta a “concepção (rebatida por alguns setores, é verdade) de que o aumento quantitativo da taxa populacional seria um meio eficaz de engrandecimento e fortalecimento da nação”, pois esse aumento numérico “garantiria ao Brasil o poder político e militar, o respeito e o reconhecimento das outras nações” 170. O esforço de aumento da taxa de natalidade recebeu a benção católica, pois

tendo em vista “o caráter de instabilidade da família moderna”, essa “desestabilização da instituição familiar repercute em toda a sociedade colocando em risco a continuidade do exercício de poder e influência, característicos da Igreja há séculos” 171.

A proposta de um estatuto de proteção a família assinado por Capanema em sete de setembro de 1939 sintetizou os objetivos religiosos e políticos de interferência no planejamento familiar. Desentendimentos entre Capanema e os assessores do presidente da República dificultaram a concretização da proposta, que acabou sancionada pelo Ministério da Justiça, então chefiado por Francisco Campos, através do decreto-lei número 3.200 de 19 de abril de 1941. O decreto baseava-se em propostas patriarcais de censura moral, fortalecimento do casamento e clara divisão entre os sexos. No contexto católico, as recomendações do padre Leonel Franca representam o ideário ao qual a família deveria estar comprometida, os quais estavam em grande medida traduzidos no decreto:

168 SILVA, Michel dos Santos. Os intelectuais e o Governo Vargas - As correspondências trocadas entre Mario de

Andrade e Carlos Drummond de Andrade. Trabalho de conclusão de curso (Licenciatura), Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, 2013, p 18.

169“[...] é certo que suprimir os direitos do indivíduo torna o Estado muito mais forte. Resta saber se a função do

intelectual é tornar os Estados fortes” (BENDA, p.61)

170 VILHENA, Cynthia Pereira de Sousa. A família na doutrina social da Igreja e na política social do Estado

Novo. Psicologia-USP, São Paulo, 3 (1/2), 1992, p. 52.

- Redução progressiva do trabalho feminino fora do lar (a mulher que trabalha fora, funcionária ou operária, ou não é mãe, ou não é boa mãe, ou não é boa funcionária). O salário familiar permite a volta da mulher à casa, com mentalidade renovada.

- Luta contra o urbanismo. Os grandes centros são hostis às famílias numerosas. Rumo à terra! Rumo ao campo!

- Proibição de instrumentos e drogas destinadas a práticas anticoncepcionais (veja anexa a lei francesa, de 31 de julho de 1920) - Proibição de livros, folhetos, cartazes, filmes, peças de teatro e de qual quer propaganda anticoncepcional.

- Proibição legal eficiente do aborto.

- Conservar o clima espiritual e cristão em que respiram as famílias brasileiras e lutar contra o materialismo que alimenta a concepção egoísta da vida estéril 172.

Na política pública educacional, o Ministério de Capanema foi responsável por levar adiante o projeto pedagógico que mantinha fortes vínculos com o modelo católico. O resultado dessa posição apareceu na aprovação de duas “emendas religiosas” pela Constituinte. Luiz Antonio Cunha analisa cronologicamente as diferentes propostas apresentadas ao longo das discussões sobre o ensino, explicitando como elas se movimentavam entre dois polos: o Ensino Religioso (ER) – sob influência católica – e a Educação Moral e Cívica (EMC) – de caráter militarizado e patriótico. Na Constituição de 1934, “a vitória alcançada pela Igreja Católica com a promulgação do Decreto n.19.941/31 veio a ser potencializada” 173. Portanto, o período ministerial de Capanema coincide com o

fortalecimento do ER.

Art 153 - O ensino religioso será de frequência facultativa e ministrado de acordo com os princípios da confissão religiosa do aluno manifestada pelos pais ou responsáveis e constituirá matéria dos horários nas escolas públicas primárias, secundárias, profissionais e normais.

O Ministério assegurava a disseminação da ideologia religiosa ensino público brasileiro, propiciando a expansão da moral católica como modelo que extrapolava o campo religioso e tornava-se norma social de conduta do cidadão moderno, ou seja, do indivíduo

172 SCHWARTZMAN et. al., op. cit., p. 129.

173 CUNHA, op. cit., p. 288. O referido decreto de 1931 “facultou o oferecimento, nos estabelecimentos públicos

de ensino primário, secundário e normal, da instrução religiosa. Não obrigava, mas “facultava” a oferta desse ensino. Para que ele fosse oferecido nos estabelecimentos oficiais de ensino, seria necessário que pelo menos 20 alunos se propusessem a recebê-lo. Se ministrada, a instrução religiosa não deveria prejudicar o horário das aulas das demais matérias, condição que desapareceu da legislação posterior”. Idem.

adequado ao projeto de “modernização conservadora” que caracterizou o governo varguista e no qual a pasta chefiada por Capanema teve participação importante. A Igreja foi atuante na legitimação do regime, chamando para si a missão de difundir os valores morais que se adequassem à formação do cidadão ideal, especialmente no que diz respeito ao espírito patriótico. Cardeal Agnelo Rossi, eclesiástico brasileiro que mais alto chegou na hierarquia clerical, declarou em seu artigo “Religião e nacionalidade”, de 1942: “A contribuição benéfica da Igreja Católica na formação de nossa nacionalidade é uma verdade histórica de valor insofismável”174.

O quadro de colaboradores do MESP é emblemático por simbolizar a coexistência de frentes de pensamento opostas que trabalharam em conjunto, mesmo que os respectivos personagens não tenham se dado conta dessa parceria. Embora a ascensão política de Capanema tenha sido parte de um acordo, sua habilidade para mobilizar grupos que digladiavam entre si com vistas a um projeto mais amplo para a nação, mesmo quando ele pessoalmente não subscrevia algumas dessas ideologias, confirmou que o antigo Secretário de Interior e Justiça foi a escolha ideal para o momento político e para as pretensões varguistas.

Comum ao Estado e à Igreja, o combate ao comunismo foi igualmente incorporado ao plano de ação de Capanema. Na concepção católica, os comunistas “tinham como meta básica a subversão da ordem social” 175 e, portanto, era necessário contê-los.

Segundo Azzi, a ação deu-se em duas frentes. A primeira diz respeito a um trabalho entre os operários, “para preservá-los da influência daqueles que proclamavam a necessidade de mudanças socioeconômicas no país”. A segunda, e principal, é um combate direto ao comunismo por meio de publicações católicas, frente que coloca a Igreja como “solidária com o governo em sua ação para eliminar do país os possíveis focos de subversão social”

176. Padre Estevão José Oliveira foi um dos que alarmou aos perigos do avanço comunista

diante dos valores católicos:

Os inimigos de toda cultura humana, os bárbaros modernos, aí estão às portas da civilização cristã, armados de foice e martelo, munidos de todos os instrumentos de destruição e de morte, dispostos a acabar para sempre com tudo aquilo que mais estremecemos na terra, o lar, a crença e a Pátria, e erguer sobre as suas ruínas uma nova civilização traçada nos moldes do

174 AZZI, Riolando. A Igreja Católica no Brasil durante o Estado Novo (1937-1945). Síntese: Revista de Filosofia,

v. 7, n. 19, 2013, p. 56.

175 Idem, p. 67.

terrorismo russo, feita no estilo da barbárie marxista e composta de corpo e espírito totalmente desumano e anticristão. 177

Por outro lado, o Ministério era um espaço ocupado por diversos simpatizantes do comunismo. O caso mais flagrante é Drummond, chefe de gabinete do ministro e que, embora jamais tenha se filiado ao Partido Comunista, assumia uma postura claramente contrária à direita, sobretudo nas obras literárias. Em determinado momento, chegou a defender que uma “ditadura do proletariado era o caminho para um estágio mais alto da sociedade” 178. Diante de um combate ideológico que podia causar fissuras dentro de seu

quadro de funcionários, Capanema teve de assumir um lado. As alianças políticas e com as elites eclesiásticas prevaleceu, e o ministro orquestrou ações de caça ao comunismo. Dentre essas ações, destaca-se o episódio da conferência “Educação e Comunismo”, proferida por Alceu Amoroso Lima em 1936 após solicitação do chefe da pasta.

O que desejo que faça é o seguinte:

1) Uma conferência, na primeira quinzena de fevereiro. Assumpto: educação e comunismo.

[...]

3) Uma bibliografia do comunismo: obras de oposição, obras de combate, obras de propagando. Inclusive jornais e revistas.179

A solicitação é explícita: Capanema apoiava-se no seu bom relacionamento com Lima para expor, em linhas religiosas, um plano de ação com motivações políticas. Ao inserir o tema da educação na conferência, o pitanguense valia-se da preocupação exponencial com esse campo para atribuir à “caça ao comunismo” um aspecto social. Além disso, o episódio é demonstrativo de que o acordo entre Igreja e Ministério era uma via de mão dupla: a convocação de líder católico para a referida conferência visava aproveitar-se da legitimação social de que este dispunha, fruto de sua liderança na Restauração Católica, para colocar a Igreja como porta-voz de uma proposta política. Ademais, é possível concluir que os acordos dos eclesiásticos com o governo varguista nutriram-se de um capital político historicamente construído e reconhecido pelo Estado e cuja força era nitidamente mais sólida no trato com o recém-criado Ministério da Educação e Saúde Pública do que aquela de que dispunham as vanguardas.

177 Idem.

178 CANÇADO, José Maria. Os sapatos de Orfeu: biografia de Carlos Drummond de Andrade. Globo Livros,

2006, p. 179.

179 Correspondência de Gustavo Capanema a Alceu Amoroso Lima. S/d. CAAL - Centro Alceu Amoroso Lima

A documentação pessoal do ministro não demonstra traços de religiosidade que justifiquem uma aproximação tão intensa com as lideranças católicas. No entanto, o reconhecimento do fortalecimento institucional resultante da adoção da moral clerical em um país onde o Catolicismo já fornecia um padrão de moralidade religiosa predominante parece ser a causa da ação que durante todo período ministerial defendeu a manutenção dos interesses eclesiásticos. Defender as bandeiras religiosas no estatuto da família, na disputa pela proposta pedagógica e na luta contra o comunismo foi o preço do apoio de que Capanema se valeu em sua ascensão política. A Igreja, por sua vez, não hesitava em fazer valer seu poder de legitimação sobre as decisões do regime, afinal “após a revolução de 1930, o catolicismo não podia mais se manter numa conduta despolitizada” 180.

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