Nessa sentença, assim como as apresentadas de 9 a 12, anteriormente, a
leitura é singular, ou seja, os Nomes são lidos como termos singulares. Con- forme Ferreira Brito (1995), Quadros (1999) e Quadros & Karnopp (2004), a referência aos participantes no diálogo, em Libras, é feita por meio de dê-é feita por meio de dê-meio de dê- ixis com apontação. Ainda, conforme Quadros (1999), os pontos no espaço relacionam-se ao referente, e introduzem o NP. Esse ponto merece destaque porque pode indicar a necessidade de uma investigação diferente em relação à existência ou não de artigos em Libras. Para explicar essa ideia, vale a pena considerar, por exemplo, a situação descrita por Amaral, Coutinho & Martins (1994) para a Língua de Sinais Portuguesa. Esses pesquisadores perceberam, nessa língua, a existência de um sinal – que não é de localização – curto e rápido, realizado em frente ao corpo, com o dedo indicador, o qual pode ocorrer antes, depois ou simultaneamente com o nome e, conforme os au- tores, é diferente do sinal empregado para pronomes. Para eles, esse sinal é o artigo na LSP, embora indiquem a necessidade de estudos mais aprofundados para confirmar a hipótese. Talvez análises nesse sentido também em Libras indiquem para uma diferenciação na apontação, já observada por Quadros (1999), no sentido de averiguar se há nessa sinalização a intenção de denotar diferença entre referenciação genérica e singular.
Há ocorrências diferentes de apontação, nos casos 8 e 13 é a presença
de um demonstrativo dêitico que singulariza o SN, mas há apontação ana- fórica, em Libras, para realizar retomada do SN que foi marcado no espaço gramatical. Esse tipo de sinal não é dêitico e pode ser uma marcação próxima à proposta para a Língua de Sinais Portuguesa. Observe-se, em 14, que a sen-
tença começa com a marcação, no espaço de sinalização, do sinal PESSOA/ INDIVÍDUO (que parece ser também um recurso para singularizar N), que se completa com o sinal classificador para GORDO, mas antes da sinalização para ANDAR, o informante realiza um apontamento “LOCI” rápido para a posição que foi marcada com PESSOA/INDIVÍDUO. Esse sinal não é dêitico, parece ter a função definir o nome:
‘LOCI’
14.PESSOA GORDA – CL ‘LOCI’ ANDAR SONHARimperfectivo “O gordo andando triste, sonhando...”
Então, em síntese, até o momento, há indicações de que as ocorrências de Nomes Nus, em Libras, preferencialmente, têm uma leitura de termo sin- gular. Essa leitura também é produzida pela restrição realizada com o uso de demonstrativos (dêiticos), pelo emprego do sinal de PESSOA/INDIVÍ- DUO, pelo uso de “LOCI” referencial apontado para a posição de sinalização de N. Esse apontamento merece ser mais avaliado por ter comportamento próximo a um artigo definido. Além disso, é possível dizer que há um arran- jo de DP em Libras, uma vez que, além dos possessivos analisados por Chan-Vianna (2003), ocorre emprego de NumPs para denotar cardinalidade com ou sem incorporação aos Nomes. Vale à pena, também, investigar a in- corporação de numeral ao “LOCI” com características de artigo, pois quando não há incorporação, a cardinalidade é indicada antes desse sinal de aponta- mento, então, é possível haver aí uma pista para a ordem do sistema DP da Libras. Ou seja, a afirmação de que Libras não tem determinantes, portanto, parece equivocada, pois expressões com NumPs, demonstrativos e “LOCI”, nas situações mostradas, dão conta da codificação da propriedade de referen-
ciação singularizada, mesmo em contextos em que o argumento é realizado sem presença de artigo expresso fonologicamente, o que pode corroborar a hipótese de Abney (1987) e Longobardi (1994), a qual prediz a projeção do DP com os núcleos sintáticos capazes de codificar propriedades semânticas de definitude e dêixis.
Quantificação-D em Libras
Embora existam vários trabalhos sobre o sistema quantificacional das línguas, não há uma definição absoluta que abranja todos os quantificado- res contidos na linguagem natural e a maioria dos estudos se concentram em alguns quantificadores, principalmente os lógicos: o universal, ‘Todos’, ", (indica a atribuição de um predicado a todos os objetos de uma classe) e exis- tencial, ‘Alguns’, $, (indica a existência de, pelo menos, uma coisa). Simplifi- cadamente, quantificadores são palavras que denotam quantificação e a língua comum admite diferentes tipos dessas expressões, entre elas, por exemplo, na língua portuguesa, todos, alguns, vários, cada, nenhum.
Expressões quantificadoras podem ser vistas como relações binárias, sintática e semanticamente, isso porque estabelecem relações entre conjuntos de indivíduos e não entre indivíduos, ou seja, de segunda ordem. Se tomadas como quantificadores generalizados, tais expressões denotam uma função D que atribui, para um determinado universo, alguma relação binária entre seus subconjuntos. Um exemplo desse funcionamento pode ser dado com a expressão ‘nenhum’, analisada como a intersecção vazia entre dois conjun- tos: ‘Nenhum’AB (Det(N,VP)) denota a sentença A∩B=Ø- . Outro exemplo é a expressão ‘Todo’, que pode significar a relação de inclusão: ‘Todo’AB (Det(N,VP)) denota A
f
B.Essa proposta está de acordo com o panorama teórico que desenha- mos, no início deste trabalho, a partir da proposta de Partee (1995) e Chier- chia (2003), ressaltando, então, que a quantificação é uma operação que se dá sobre a sentença, em uma perspectiva de estrutura tripartida. A esse tipo de quantificação, que ocorre em posição de Det, Partee (1995) denomina Quantificação-D.
Sobre a ocorrência de quantificação-D nas línguas de sinais Americana e Catalã, Quer (2011) observa que existe uma forte tendência para dividir o nome e o quantificador, podendo o restritor nominal ocorrer tanto na po- sição de argumento quanto na posição periférica à esquerda e, nesse último caso, o autor observou que o nome passa a receber uma marca com movi- mento de sobrancelha, do mesmo modo que acontece em Libras para o uso de Wh. Seguem os exemplos da ASL dados pelo autor:
_____br
a. BOOK I WANT ALL/SOME/THREE _______________br
Assim como essas línguas, a Libras também tem realizações de expres- sões quantificadoras, mas elas têm sido descritas, na literatura em geral, como pronomes ou intensificadores, e a preocupação tem sido muito mais a de ano- tar a existência desses sinais em lista de vocabulário do que analisar o valor semântico deles. É óbvio que em um trabalho com objetivo seminal como este, não é possível avaliar todas as ocorrências que denotam quantificação em Libras, ainda assim, a proposta aqui é de já mostrar que existem organiza- ções para Quantificação-A e Quantificação-D nessa língua. Para essa última, alguns sinais se destacam, são eles: TODO (e suas variações), QUALQUER, NENHUM/NADA, CADA e ALGUM (sinal de quanto). O primeiro a ser considerado é o TODO.
Quantificador TODO
O quantificador TODO denota uma relação de inclusão, para Chierchia (2003) “ser um subconjunto de”, como visto anteriormente, em que todos os objetos de uma classe têm o mesmo predicado: "x (A(x) → B(x)). Em Libras, há diferentes sinais usados com essa interpretação de quantificação universal. Aqui, não se analisará se a ocorrência deles se dá por diferenças na relação com o tipo de nomes (contáveis x não contáveis, por exemplo) ou predicados (diferença na aspectualidades), mas em trabalhos futuros seria interessante que pesquisas averiguassem essas situações. Por ora, eles serão apenas apre- sentados de forma geral.
a. Realização do sinal 1: mão direita em 1, palma para dentro, é movida em arco horizontal do ombro direito para o esquerdo.
15.ALUNO TODO RECLAMAR PROFESSOR@ “Todos os alunos reclamaram da professora”
"x (Aluno(x) → Reclamar professora(x)).
Para todo x, se x é aluno, então x reclamou da professora. A
f
BA = Conjunto dos reclamantes B = Conjunto dos alunos
b. Realização do sinal 2: mão direita aberta para baixo com dedos curva- dos, punho gira rapidamente duas vezes em circulo horizontal pequeno.
Reclamantes Alunos
16. MENINO-GORDO COMPRAR DOCE TODO