FABRICO DE INSTRUMENTOS
IDEIAS / PRÁTICAS QUE DÃO OBJECTOS / NEGÓCIOS
MÚSICA À MESA
ENVOLVIMENTO NA PRODUÇÃO DE OBJECTOS E INFRAESTRUTURAS ALARGAMENTO DO SABER FAZER AO CONTEXTO DOMÉSTICO
Fig 10
Primeira organização gráfica do projecto, articu- lando no tempo, tipologias de espaços, temas, formatos, missões.
como coordenador artístico do projecto na sua globalidade.* Os coordenadores da acção cedo se focaram no carácter de continuidade processual com
consequência directa no território, inscrito na candidatura, relegando para segundo plano a imagem estereotipada de “grande evento”. Era aí, aliás, que viam a sua contribuição, enquanto projectistas que assumiam desenhar uma circunstância de prática a partir de um programa inicial – concretizado no compromisso formal da candidatura submetida – que não tinha expressão- -modelo e deveria obrigatoriamente resolver um tal programa inicial integrando uma pré-existência pouco estudada de pessoas, lugares e tempos, mas também de heranças, de problemas, de saberes, de expressões, de desafios, de trincheiras. O desenho visou, desde o início, misturar-se no quotidiano do CHP em
continuidade, enquanto componente extraordinário mas síncrone com o ordinário, lúdico mas não desprovido de alcance, destinado a espevitar e reconhecer nos cidadãos e nas suas interacções a capacidade para inventar e definir o seu viver.
Assim, mais do que objectos estáticos, ou momentos formais, configurar‑ ‑se‑ão instalações, engenhos, residências, oficinas, organizações, caminhos, enquadramentos, sabores transitórios, narrativas, experiências. Serão ainda estruturais ao projecto espaços de encontro entre parceiros criadores e entre estes e o centro histórico, que proporcionem o estabelecimento espontâneo de cumplicidades e parcerias. (Canha, Fernandes, Pedrosa, 2010)
Não obstante, o processo previa um momento de projecção mediática e maior efeverscência: 10 dias de programação intensa anunciada à cidade que responderiam de forma mais clara e formal à classificação “grande evento”. Esta programação deveria emergir naturalmente das actividades continuadas, uma vez desafiadas pelo calendário e pelos objectivos da acção no seu todo. Podemos dizer, num registo algo idílico mas correspondente à esperança que em 2010 se levantava, que se sonhavam peças de teatro operando como debates de bairro, palestras como performances, poemas como decretos, decisões políticas enquanto actos artísticos, refeições enquanto assembleias, ocupações de edifícios devolutos enquanto acções produtivas; cidadãos como decisores, artistas como ministros, pensadores como activistas, crianças como líderes; as trincheiras do CHP e deste com a cidade temporariamente levantadas, acolhendo todos na mesma prospecção. E, podemos também dizê-lo, estas mesclas de papéis, vocações, saberes, heranças, convicções, aconteceram a espaços, cumprindo o objectivo inicial de retirar todos, mesmo que temporariamente, dos seus territórios expressivos tradicionais para que pudessem confrontar-se e oferecer-se a outras visões e frutos possíveis no
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Foi esta a função que este investigador acabou por assumir formalmente, em equipa com a arquitecta Ana Pedrosa que tinha estado, dentro da Opium, no desenho original da candidatura. Passaremos a definir esta função com as expressões “coorde- nação da acção” e “coordenadores da acção”, porque interpretámos a tarefa, de facto, como a incumbência de integrar missão, actores, processo e conteúdos, estes nem todos de índole artística.
território do CHP. Na verdade, não se tratava apenas de reconhecer o papel da actividade criativa enquanto agente de transformação do território, mas também de perguntar se não haveria uma perda dessa capacidade e também de finalidade por via do entrincheiramento das competências e dos papéis. Neste sentido, o projecto secundarizou os impactos económicos e de notoriedade a curto prazo, em favor do desdobramento deste tipo de questões, através da sua experimentação em directo, como forma de chegar a uma prosperidade mais intangível mas mais duradoura enquanto potencial. Os primeiros passos dos coordenadores incluiram visitas assíduas de
reconhecimento ao centro histórico do Porto, a reunião de um Conselho Consultivo maioritariamente académico, o levantamento e auscultação da capacidade contributiva dos vários actores desejados – cidadãos, pensadores, criadores, empreendedores, governantes – e o detalhe das linhas mestras do processo que pudessem concretizar a sua exequibilidade e a sua comunicabilidade.
Das visitas ao CHP, cedo se percebeu que os seus habitantes tinham desenvolvido resistência e desconfiança em relação a propostas de índole institucional, trazendo com prontidão à conversa, por exemplo, iniciativas municipais nas áreas da habitação social e da recuperação física do centro histórico, ou até as campanhas políticas que, em tempos de eleições autárquicas, distribuem boas intenções pela cidade. Sobre todas elas manifestavam frustração e sensação de abandono. Claramente, o emissor – a tutela municipal do projecto – condicionava a mensagem. Não obstante, sentiu-se nos habitantes quer um desejo de participar em algo que se dirigisse aos seus anseios mais profundos mesmo que corriqueiros, quer a réstia de uma capacidade organizativa e propositiva disponível para a cidade, cuja
Fig 11
Mesa de trabalho com articulação de acções em curso e trabalhos de limpeza de um espaço tem- porariamente ocupado durante o projecto.
manifestação já vaga se reduzira às participações nas festas do São João e, mesmo neste caso, condicionada e escondida pela imposição sonante e paternal da organização camarária. Neste trabalho de campo – feito com Associações, grupos e líderes informais, negócios centralizadores de encontros entre habitantes, espaços preferidos para o passar do tempo ou esquecidos no seu potencial discreto – foi possível discernir uma geometria possível de relação, ancorada em espaços que prometiam ser simultanea ou complementarmente pontos de reunião e estímulo ‘micro’ – como a sede de uma Associação – e de relação com o ‘macro’, como um miradouro ou uma praça. O compromisso com os habitantes estabeleceu-se em termos que podemos classificar como indefinidos e exploratórios. Mas, na medida em que o projecto se adaptou aos ritmos e vontades do habitante, o habitante respondeu generosamente expondo-se e disponibilizando a sua capacidade para cooperar e participar. Em sentido contrário, sempre que o projecto interferiu nas relações de poder ou nas rotinas instaladas, foi rechaçado, em gestos alternados de sarcasmo, diplomacia, ameaça velada, humor, ou simples silêncio e indiferença.
Do contacto do MnP com o universo académico, percebeu-se como uma acção deste tipo – assente na incerteza do envolvimento e da conciliação de contributos – é estranha à sua prática, ao seu ritmo e às suas prioridades.* A academia denunciou o seu peso institucional e a sua parca agilidade, incapaz e talvez por isso desinteressada de aderir à fusão processual no território de forma espontânea. As explicações são plausíveis. Podemos dizer, resumidamente, que os planos de estudos em curso e o calendário académico não encontraram compatibilidade com os objectivos e o calendário da acção. Apenas individualmente e a espaços alguns investigadores, professores e alunos conseguiram modos de participar ou convocar outros à participação, denotando sempre algum desvio mais ou menos latente com o campo, metodologias, formalidades e calendário institucionais. Os trabalhos dos investigadores Jaime Sarró sobre a profissão do amolador32, de Daniel Brandão
colocando a hipótese de um museu virtual participado33 ou da socióloga Liliana
Pinto que disponibilizou a sua posição em campo para facilitar contactos e contribuir para a interpretação do contexto, são excepções tornadas viáveis pela iniciativa dos implicados, que adaptaram os seus enquadramento institucionais em favor das suas investigações e motivações para o projecto. A convocação ao desenho de acções captou artistas, companhias de teatro, designers, arquitectos, empreendedores, grupos informais dedicados ao projecto,
32 http://rebolocao.blogspot.pt/ 33 http://www.museudoresgate.org/
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A mesma estranheza se observou na generalidade dos actores, quando convidados a agir sob “coer- ção” do colectivo, formal ou informal.
O indivíduo comportou-se, comprometeu-se e passou mensagens diferentes – e muitas vezes contraditórias – em função da personagem que encarnou. Quando se sentiu representante de um colectivo, fosse ele o dos habitantes de uma rua, o de uma faculdade, ou o de um domínio profissional, a sua visão pessoal moldou-se a essa personificação, apagando o que no indivíduo urgia dizer. Em sentido contrário, o falar como indivíduo era necessariamente evocado em afastamento que se desvinculava do colectivo.
instituições. À semelhança do que se observou com o mundo académico, foi nos grupos e artistas mais estabilizados e reconhecidos publicamente que observámos maior dificuldade em interpretar a circunstância “Manobras no Porto” em direcção à concepção de novas estratégias e concretizações. Por parte destes, a pergunta tendeu a ser mais “Como é que o Manobras serve as minhas necessidades?” do que “Como é que os meus propósitos se podem desenvolver com os do Manobras?”. Em sentido contrário, os grupos mais recentes ou até criados para o efeito partiram para o projecto aceitando-o como matriz e estímulo para esgrimir as suas capacidades e motivações. Sem nada a perder por não terem nem historial nem reputação a defender, lançaram mãos à obra colocando as suas competências e convicções na liça incerta do processo. Não obstante, todas as tentativas de formação não espontânea de novas equipas resultaram em fracasso. Aparentemente, estas apenas florescem por via de uma adesão não forçada. Um terceiro grupo mais restrito de agentes apresentava já experiência em trabalhos de continuidade entrosados em comunidade e constituiram exemplo metodológico para o todo. Não obstante, podemos dizer que, no geral, observámos um défice no entendimento de componentes basilares de uma proposta como o MnP: em primeiro lugar, quanto ao trabalho de estudo, presença, envolvimento e comunicação prévia de intenções no terreno, que os autores tenderam a não saber interpretar e até tentaram descartar das suas funções; em segundo lugar, quanto à indeterminação do processo de criação e dos seus possíveis resultados, tendencialmente condicionados à partida por tipologias formais ou estéticas de risco controlado*; em terceiro lugar, quanto aos trabalhos de documentação, comunicação e interpretação dos processos, desvalorizados ou tidos frequentemente como perdas de tempo sem contributo relevante a aportar à experiência e às suas possíveis sequências.
O entendimento da acção por parte dos responsáveis autárquicos – os da PortoLazer e os da vereação responsável – necessitou de negociação constante no sentido de aproximar visões em geral antagónicas. Se essa aproximação foi conseguida em termos gerais ao longo dos dois anos que durou oprojecto – e podemos dizer que, hoje, a PortoLazer tem o Manobras no Porto como referência para algumas das suas actividades – foi à custa de um esforço contínuo que, em termos práticos e de terreno se revelou amiúde obstáculo. Nas cúpulas, o antagonismo diz respeito ao tipo de expectativas e fins do projecto. Apesar de a candidatura apresentar com clareza a sua natureza processual vocacionada para dar voz ao cidadão e às suas partilhas, a categoria de “grande evento” enquanto aparato impressionante e ancorado em nomes seguros do mercado do entertenimento** não se desfez no imaginário dos decisores. Por
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Neste aspecto, devemos referir que o facto de existir um compromisso de apresentação de um resultado medido em números – primeiro com a autarquia, depois com o financiador – obriga os actores a precaverem-se quanto à abertura a dar ao processo sentida como risco face à obrigação de apresentar um produto/resultado esperado.
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Este é, como vimos já em outras circunstâncias, o estratagema que permite cumprir os números e fazer promessas de sucesso e prosperidade.
outro lado, o carácter incerto e processual do projecto, aliado ao facto de este estar a ser coordenado por uma equipa externa, fê-lo escapar à então usual obsessão de controlo, por parte do promotor municipal,* sobre os actores, os conteúdos e os produtos, ao mesmo tempo que protagonismos, picardias de opinião e interesses externos tendiam a interferir no processo. Todas estas frentes necessitaram de debate e esclerecimento no sentido de manter o projecto e o seu perfil. Não obstante reconhecermos um êxito comedido desta longa negociação, o trabalho quotidiano com a Câmara – legal, financeiro, de apoio em meios e infra-estruturas – foi sempre difícil, em grande parte porque, pensamos, a acção, ao fugir ao controlo da edilidade, gerou desconfiança, e também porque a mesma edilidade e o pessoal camarário não tinham como se identificar ou reconhecer numa acção ausente do portfólio de imagens – seguras, prédefinidas, do ponto de vista estético, de costumes e de relação – do que pode ser um evento, uma animação cultural, a prestação artística e até o entretenimento. Mas, como já evocámos, esta imagem abriu-se no final.
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Lembramos que, nesta altura, com o Dr Rui Rio na liderança da Câmara Municipal, os artistas con- tratados pela edilidade chegaram a ser intimados com uma cláusula contratual que os impedia de emitir opinião contrária às políticas camarárias. Fig 12
Uma sala preparada para um conferência de imprensa e um ensaio para uma acção de rua a realizar no dia de encerramento do Manobras no Porto.
O MnP levou a cabo, em suma, o desbravar de um modelo de agitação da cidade dedicado a captar e tornar expressiva a sua circunstância densa e diversa, promovendo a equivalência propositiva dos seus diferentes habitantes e intérpretes, revelando e usufruindo de novos espaços físicos e de convivialidade, combinando a efemeridade festiva com o trabalho discreto e paciente da imersão no território para nele entender os seus assuntos e com ele fabricar as suas expressões. O resultado foram dois ciclos organizados em três fases – Fainar, Cismar e Cismar – destinadas a organizar e comunicar tempos específicos de desenvolvimento e concretização: imergir no terreno e trabalhar expressões durante a Primavera e o Verão; partilhá-las festivamente no Outono; pensar sobre elas e rever processos no Inverno. Durante o Fainar promoveu-se a limpeza e ocupação de espaços com novas actividades, desenvolveram-se oficinas de música que produziram repertórios e treinaram novos executantes, fez-se etnografia e debate sobre comunidades que resultaram em exposições, transformaram-se histórias de vida em
dramaturgias. O Laurear consistiu na animação articulada de espaços, que permitiu circular pelo centro histórico do Porto entre salas de uma Associações e miradoros esquecidos, entre palcos rasos em praças escondidas e ruínas ocupadas, participando aqui numa conversa, ali numa peças de teatro, acolá num concerto ou num baile. O Cismar consistiu, no primeiro ano, em fazer balanços e rever processos com os principais actores, depois revertidos pela coordenação para uma revisão metodológica no 2º ciclo; findo o segundo ano, foi promovido um encontro de dois dias entre todos os participantes no qual se debateu o acontecido, se auscultaram vontades de continuidade e se celebrou, em suma, o trabalho feito. A matéria resultante completou o conteúdo de um livro documental (Alvelos et al., 2013b).
Em 2012, o segundo e último ano do MnP, surgiu no Porto uma nova iniciativa de entretenimento, o festival Debandada, promovido pela marca de telemóveis Optimus (actual NOS). Foi usada uma estratégia análoga de dispersão
geográfica na baixa e centro histórico, ocupando espaços não visíveis ou inusitados e convidando à deambulação entre acções. Mas as semelhanças ficam por aqui. Nesses palcos inusitados vimos os mesmos conteúdos que povoavam bares e festivais de Verão do momento. No fim deste último ciclo final do MnP, num plenário final de balanço – no qual todos os “manobreiros” foram convidados a participar – alguém perguntou “E agora?” O responsável da edilidade presente articulou algumas considerações sobre a propriedade da marca “Manobras no Porto”, enquanto parecia responder em silêncio, por trás da articulação evasiva “Agora? Agora Debandada”.
O que os coordenadores da acção escreveram em forma de balanço no livro documental do projecto mantém-se válido como súmula dos aspectos que o caso traz a esta investigação. Dissemos:
Nos pressupostos iniciais do Manobras no Porto esteve a constatação de uma cidade algo entrincheirada, carente de encontro e de prática colectiva como nutrientes da sua efervescência e fertilidade. Ele propôs‑se então a ultrapassar fronteiras e a promover condições para aquela prática. Ao tornar‑se acção, ou seja, perante o impacto das suas circunstâncias reais, o projecto colocou à prova a elasticidade das suas definições iniciais e, no fundo, as suas qualidades. Este processo de ajuste traz dados relevantes agora (…). Em primeiro lugar, sugere‑se agora que é mais operativo ler as fronteiras não como separações formais, distâncias entre classes, estatutos ou epítetos, mas antes enquanto atributos mais subtis e entranhados no território. A fronteira física é menos a freguesia e mais a casa, a esquina, a escada, o muro, o pátio. A fronteira do comportamento é menos a sua especificidade e mais a sua inércia. A fronteira da competência é menos o seu grau e mais a sua estanquicidade.
Em segundo lugar, podemos testemunhar efeitos daquela prática colectiva e constatar que, de facto, ela é produtiva: produziram‑se conhecimentos, artefactos; abriram‑se espaços; foram criadas novas redes e circunstâncias de produção. Mas também foram libertadas energias, promovidas ligações e inter‑reconhecimentos, criadas expectativas. Ou seja, para além dos resultados práticos directos e tangíveis, sobressaem subjectividades e percepções que se insinuam como determinantes na definição das condições desta prática colectiva. Também aqui se produz.
Neste momento de desenlace, no qual o carácter excepcional do momento Manobras é questionado insistentemente pela expectativa de continuidade daquilo que libertou, uns e outros tipos de incidência terão que ser ponderados, ao tentar enquadrar este abalo temporário como etapa de um percurso mais longo e consequente. E é possível, a partir daqui, afinar estratégia, definir política. (…) (Canha, Pedrosa, 2013)
O texto fez o exercício de esboçar a ideia de “Laboratório Colectivo de Quotidianos” a partir da experiência MnP e da sua produção de facto. Face ao carácter efémero do evento, intuiu-se que os caminhos abertos pela sua excepcionalidade tenderiam a esmorecer a partir do momento do seu desaparecimento. Não o desaparecimento da acção em si, como actividade, produto, nova associação de pessoas, novo processo produtivo, mas o esvaziamento ou desactivação de um tempo/acção que se define pela possibilidade de sair do fazer, fazendo. Dissemos:
Poderá então um espaço de manobras ser laboratório de invenção de quotidianos, em que estes são testados, sujeitos à condição de erro, à fragilidade e à ilegibilidade característica do que é ensaio? E não deveríamos então preservar a especificidade deste laboratório, relegando para um outro plano a derivação para acções regulares de reprodução? E não deveríamos acalentar a persistência deste espaço na cidade? Laboratório quotidiano de invenção de quotidianos? (Canha, Pedrosa, 2013)
O desafio é o de conciliar um quotidiano dirigido ao sustento tangível – à luta singela do comer, do decidir, do produzir, do sobreviver – com um sustento de outro tipo, que dá sentido ao primeiro antes de mais por dele se afastar e poder então contemplar, e também porque se abre ou liberta face aos seus constrangimentos, superando-os ou dando-lhes um sentido vivido. Quotidiano e laboratório; fábrica e atelier; sobrevivência e sustento; fome de boi e nutrição (Agamben, 2010). Tocar um tal desafio também mostrou quão distante dele está a circunstância que se vai vivendo. Mas acresce que este laboratório que vislumbrámos é colectivo. Sem pertender excluir ou desmerecer o espaço laboratorial íntimo de cada ente, do que falámos aqui foi de um encontro mesmo que aleatório desses reportórios íntimos, disponíveis a errar em conjunto, pois foi e é das condições de um quotidiano e de uma nutrição colectivos que estávamos e estamos à procura. É o terreno de todos, o território-cultura como matéria-prima para contemplação e a reafirmação ou reactivação de sentido, em comum, que está em causa.
Por outro lado, parece aqui determinante o facto de o território ter sido eleito como matéria, já que esta opção tem reflexos no entendimento daquilo que é o colectivo. Todos são, mesmo que temporariamente, pertença desse território. Todos são simultaneamente observadores e observados, e portanto membros de igual direito na negociação de papéis e de um regime justo de troca. (…)
Laboratório colectivo de quotidianos
Prospecção do quotidiano no espaço imprevisto que há entre agentes, afectos, lugares, éticas, realidades.
» Opera com a paisagem corrente da cidade, com os quotidianos, com a circunstância próxima onde está presente.
» Descola de configurações pré‑existentes, estanques e reconhecíveis. » Motiva‑se na observação atenta e prospecção livre, sem concretização
final à vista.
» Estabelece novos afectos algures entre a personagem e a intimidade.