ligação entre o sagrado, o divino e o profético entre os santos e os
humanos. É no momento do brincar que os brincantes repletos de
bem querença, depois de um dia de lida, aos céus agradece,
cumpre missão e se realiza como gente diante os olhos bondosos
da sua crença, mesmo que esta seja apenas na vida. Vida essa que
o processo histórico oferece cargas e pesos muitas vezes cruéis e
dolorosos de se carregar, e é no território da brincadeira que o
sujeito constrói com o sagrado, mapas para a festa.
(Diário de bordo, 2018)
Figura 56 – Carla Coreira no Tambor de Crioula, MA105
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3.3 TERRITÓRIOS BRINCANTES
É preciso buscar na fonte de origem e devolver ao povo em forma de arte.
(Solano Trindade) Ser brincante é um caminho complexo, que vai muito além de uma vivência isolada sobre determinada brincadeira. Lançamo-nos em uma pesquisa que se debruça sobre este universo popular e enfatiza a importância do brincar para além da infância, para todas as pessoas, pertencentes a uma comunidade tradicional ou não. O modo de vida brincante é o pensamento em outra esfera, divergente da lógica hegemônica, que rege a sociedade. O pensamento brincante como força criadora para a vida. Portanto, nesse contexto, munido de resistência e luta no seu atuar, no seu existir.
A brincadeira popular é ato festivo, educativo e político. Como vimos, a brincadeira trabalha principalmente a questão da coletividade. A coletividade é um ato político diante da lógica que impõe a competitividade, o individualismo e a falta de empatia nas relações. O festivo traz o campo do sagrado e do profano e o educativo, porque ensina modos de vida. Todos estão em trânsito no mesmo fazer, coexistem e se correlacionam.
Como já foi dito anteriormente, durante minha trajetória, deparei-me com comunidades tradicionais, com mestres e mestras e brincantes tradicionais, que nascem, vivem e morrem na comunidade, por exemplo, D. Raquel Trindade, que brincou por toda a vida e teve uma despedida brincante.
Eu ganhei um lenço branco pintado o abc Mas eu tô engatinhando E tô no tempo de aprender Se você vai no Rosário
Eu também vô Você é batizado
Eu também sô (Ponto de Candombe, Irmandade Nossa Senhora do Rosário de
Figura 57 – Criança no Congado, Rosário de Justinópolis, MG106
Em Sorocaba, cidade do interior do estado de São Paulo, lugar onde vivo, não temos reminiscências vivas das brincadeiras de matriz africana. As pessoas não convivem com a brincadeira, conforme vão crescendo, vão se enrijecendo.
Esse trabalho é para dizer que não! Que a gente não quer enrijecer, a gente não deve. Então, além da pesquisa acadêmica que aqui compartilho, vivencio uma experiência brincante, onde aprendi e aprendo a ser brincante da Cultura Popular.
Como uma tentativa de não enrijecer, tenho vivenciado uma experiência brincante, o Saramuná. Grupo criado em 2010, que intui a pesquisa e vivências na Cultura Popular, com propósito de compartilhar com as pessoas o poder que a brincadeira tem afetar nossas vidas. Bem como no fortalecimento dos processos subjetivos que a Cultura Popular propicia.
Existe um esforço comunitário comum, de quem admira, de quem foi afetado e se sente pertencente de algum modo à Cultura Popular, em manter viva a manifestação de um povo através da transmissão do saber popular.
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Fonte: Museu Guardas. Disponível em: http://museuguardas.blogspot.com/2007/11/. Acessado em: jan. 2019.
Trata-se de um trabalho de educação, com uma proposta pedagógica que repensa a realidade. As possibilidades educativas desenvolvidas neste espaço de vivência cultural propiciam a elaboração de novas concepções de realidade, a partir do desenvolvimento da consciência de si como produtor de cultura e na inserção no grupo como sujeitos da história. Um processo que garante sensibilidade na relação dos conteúdos que abrangem a feitura de uma brincadeira popular, das danças, das músicas, da estética, da história e contexto dos brinquedos, sobre os mestres e comunidades específicas.
Trabalhando os ensinamentos da cultura popular com menor formalidade, mais profundidade e maior envolvimento dos educandos, e com uma capacidade de acolhimento dos interessados em dela participar.
Sou Maria Fulô
Gosto mesmo é de dançar Venha cá minha gente Vem pra roda brincar Tocando tambor
Saudando os orixás É no giro da saia
Que a festa vai começar
(Cantiga de Coco, Grupo Saramuná, SP)
Temos o exercício constante de construir no Saramuná um espaço de prática e vivência social inspirado e fundamentado no modo de vida brincante. Temos um modus operandi que visa valorizar as brincadeiras e tudo o que as baseia. Ou seja, para além de reproduzir as brincadeiras distantes de seu contexto originário e tradicional, tentamos nos aprofundar tanto quanto nos é possível na sua história. Atuo como educadora no grupo conduzindo a pesquisa, num modo que compartilho as minhas experiências vividas na Cultura Popular, à pesquisa teórica e o contato com o mestres.
Os mestres estão presentes numa espécie de apadrinhamento do nosso fazer. Como se acontecesse um encontro de bênção sobre o nosso processo, mesmo quando não há contato direto. Mas quando um mestre vem realizar uma vivência no grupo, enxergo como a construção da fundição das
brincadeiras dentro da nossa realidade concreta, que se dá diferente de uma comunidade tradicional, mas respeitosa, cheia de afeto e responsabilidade.
Eu vou e você e vai ver Saramuná fazer tremer Saia de chita roda no salão Segura o Coco na palma da mão (Cantiga de Coco, Grupo Saramuná, SP)
Com isso, o grupo intui em suas práticas, fortalecer o contato com o coletivo, propiciado por essa proposta de transmissão de saberes. Esse feito se dá nos encontros semanais, nas festas e apresentações que denominamos como compartilhamento do nosso brincar pois, tentamos caminhar na contramão da espetacularização, para não reforçar o estereótipo negativo de grupos fora do contexto originário que reproduzem e esvaziam de sentido as brincadeiras.
Nos processos educativos do Saramuná, há o diálogo da cultura popular, da arte e da educação, em movimento, música e poesia dentro de um fundamento, uma estética que são, a nosso modo de ver, uma oportunidade palatável de transformação do mundo nas suas relações políticas, educativas e sociais. Isso só é possível, acredito muito, porque existe a dedicação efetiva dos envolvidos, que tem profundo respeito e admiração pela cultura tradicional, tudo o que ela representa e significa, amam o que fazem e construímos juntos outra perspectiva do mundo.
Este espaço educativo e artístico do Saramuná dentro do universo da cultura popular, possibilita a reflexão e a incorporação transformadora de visões de mundo, valores e hábitos através da experiência. Uma transformação que se faz necessária para o verdadeiro desenvolvimento social, pautada nas lutas dos diversos movimentos sociais, de combate ao racismo, ao machismo, a homofobia, a xenofobia e tantas outras formas discriminatórias. Uma revolução que caminha no subterrâneo e que luta pelo não apagamento e pasteurização de suas vidas, sua cultura e crenças.