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■ Reversing a Symbol String: An Example

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Nos dias 31 de outubro e 7 de novembro (duas quintas-feiras), trabalhamos em cima dessas e de algumas outras demandas a fim de amarrar cada vez mais a dramaturgia. Estava claro até ali que queríamos trabalhar com a desconstrução do tempo: “Parar com o tempo para dar tempo para nós mesmos”. “Cuidado conosco!”. E mais... Como diretor, eu queria trazer para a encenação um subtexto que dialogasse com os momentos vividos em nosso cotidiano sócio-político. À época, sentíamos (e ainda sentimos) muito receio a respeito do que estávamos vivendo no Brasil. Pós-impeachment de Dilma Rousseff, o vice Michel Temer assumia a presidência adotando posturas altamente neoliberais que cerceavam direitos adquiridos da população, como os trabalhistas, previdenciários etc. Além disso, víamos, ao final de 2018, o Brasil elegendo como presidente um ex-militar, Jair Bolsonaro, um candidato sem propostas claras de plano de governo, com declarações abertamente discriminatórias a pobres, pretos, LGBTQIA+, e ao movimento de esquerda. Eleito com 57% dos votos ele assumiu a presidência no dia 1º de janeiro de 2019.

Em meio a esse caos político, havia e ainda há o medo de uma volta à ditadura, o medo de cessar nossas liberdades, de perdermos nossos direitos e conquistas, por conta de

32 uma bancada evangélica que se fortalecia junto a um presidente que faz declarações afrontosas de apologia aos tempos da ditadura no Brasil, sem falar na diversa precarização em vários setores de nosso social, como corte de verbas na educação, na saúde, desmatamento crescendo vertiginosamente, invasões e mortes em comunidades indígenas, a comunidade científica sendo desprestigiada, tudo isso para favorecer a uma elite empresarial do Brasil, permitindo assim que a maioria da população brasileira fique exposta a severas fragilidades.

Além desse pano de fundo como crítica, pensávamos nessa história a contar como uma passagem temporal cíclica, como o Sol que nasce e morre todos os dias no horizonte. O tempo diário que se termina com as 24 horas e volta a renascer, como uma história que não teria um possível fim... A fábula, então, passaria como num sonho. Dentro do sonho o tempo se dilata, e isso nos faria questionar: “Será que estamos vivendo de verdade?”. A cada dia que passa a hora de dormir chega, e precisamos passar por esta hora: a hora sagrada do sono, do sonho, onde o mundo real e a fantasia se encontram nesse tempo adormecido, onde as horas passam e não passam, onde o passado/presente/futuro se misturam, onde os mais belos sonhos podem acabar virando monstruosos pesadelos.

TEMPO DOS SONHOS!... Era o nosso universo. Foi daí que conseguimos encontrar o ponto de partida para contar a nossa história. E agora tínhamos melhores condições de sequenciar as ações cênicas de início, meio e fim. Com esse amadurecimento no trabalho, seguimos experimentando e fazendo amarras mais justas em nosso roteiro dramatúrgico, chegando à última versão no dia 20 de novembro, o qual exponho a seguir.

DRAMATURGIA/ROTEIRO DE AÇÕES “PROCESSO TEMPO”:

*CENA 1 - Escuridão. Todas as figuras estão em círculo, imóveis, como móveis do quarto da Menina (Ana Clara): mesa, mesa de cabeceira, 2 bichos de pelúcia, abajur, cabideiro. Os personagens Mãe (Rhávilla) e Menina são os únicos que se movem e fazem uma cena em que a Mãe coloca à força a Menina para dormir. A Menina resiste.

Silêncio (José Ricardo) começa a tocar a cítara. A Menina aos poucos adormece, assim como a Mãe, embaladas pelo som melódico da cítara. As figuras vão começando a se mexer lentamente, ganhando, aos poucos, vida.

33 *CENA 2 - O personagem da Bruxa/Energia (Patrícia) acorda e começa a tocar e a realizar seu ritual de enterro/morte, enterrando sua botija mágica no meio da cena, onde se encontram Mãe e Menina dormindo. Ela não sai de seu espaço, a não ser que seja para passar a energia sonora a um outro. A Energia fala o prólogo de abertura enquanto ritualiza, tocando diversos instrumentos:

1º Maracá. “Não, tempo perdido! Tempo que não existe.”

2º Baquetas. “O feitiço é o antídoto do tempo que vive perdido. Tempo da vida. Tempo da morte.”

3º Ganzá. “Tempo da vida e profana hora. Tempo é risco e Ritmo é paciência. Tempo tem hora. Essa é nossa existência. História.”

4º Panderola. “Tomei o feitiço como antídoto, E jogada no espaço fui explosão, Causando discórdia e confusão, Medo de tudo, uma paixão. A paixão que jamais é cantada, Uma canção.”

2.1 Os Guias – Paciência (Pedro Silvan) e o Sol (Vanilson) – vão colocando símbolos e formações com as pedras que eles possuem, indicando para onde os perdidos poderiam ir...

Texto balbuciado pelos Guias: “O passado choraria se pudesse ver a nossa decadência.” MOTE: [“Se estes forasteiros puderem descobrir os segredos do nosso passado, talvez possamos salvar o nosso futuro.”]

2.2 A Espera (Valéria) rasteja até encontrar a Paciência (Pedro Silvan), que guia a Espera com as pedras...

2.3 O Ritmo (Hairton) caminha a passos lentos, marcando compasso junto com a Espera. Dá uma volta completa no espaço até encontrar a Morte (Marcely). Quando ele a encontra, a Morte libera a Boneca/Finitude (Malu).

34 *CENA 37 – A Bruxa/Energia encontra seu último elemento sonoro: o Atabaque!

5º Atabaque. “Energia!”

3.1 Nessa tocada, o personagem da Dádiva/Mãe entra em trabalho de parto: gera o Medo (Menina)!

3.2 A Morte encontra o Ritmo e o segue. A Boneca/Finitude vai atrás da Menina, mas esta não a reconhece mais, não a quer.

3.3 O Silêncio com sua cítara enfeitiça a Boneca/Finitude, que o segue.

*CENA 4 – A filha da Dádiva/Mãe compartilha seus medos com sua mãe, e também as pedras que marcam o tempo. O guia do Medo/Menina e da Dádiva/Mãe, que são elementos presentes, é a Paciência. Esta se junta com as duas e forma-se um ritual de pedras entre Dádiva/Mãe, Medo/Menina e Paciência. Tem-se a Bruxa/Energia e a Felicidade que os circundam celebrando esse encontro.

*CENA 5 – A Espera foi, enquanto isso, ao futuro e deparou-se com a Morte, e resolveu retornar para o passado até encontrar o momento presente. Ela se cansa de esperar e resolve agir. “Ah, Ah...”. Ela vai juntando todas as pedras que a Paciência havia deixado no caminho e as joga, ao som de um grito, dentro do ritual entre Dádiva/Mãe, Medo/Menina, Paciência, Bruxa/Energia e Felicidade. Com isso, o Medo/Menina se assusta e sai a correr por aí...

Texto Medo: “De novo isso? De novo isso? Não. Não.”

Texto entre Espera, Paciência e Dádiva/Mãe: [eles jogam com as falas] [Talvez as perguntas venham da Paciência e da Dádiva/Mãe, já que a Espera sabe o que lhe espera]: “Por que o tempo corre? Porque corremos! Por que não vemos? Porque esquecemos. Por que não nos vemos mais? Porque o que não foi visto, desapercebidamente, já ficou lá para trás. – Que tempo é o seu tempo? – Qual é o tempo que você gostaria de ter? – Que tempo tem o tempo? – Será que sabemos quanto tempo o tempo pode durar? O tempo está cada vez mais curto. O tempo está acabando e, quando ele acabar de vez, como ficaremos? Acabaremos também? Faz

7A partir deste momento, para enfatizar as metáforas da dramaturgia, optamos por suprimir os nomes dos atores

35 tanto tempo que perdi o Tempo, dizem que o Tempo resolve tudo, quanto tempo tem o Tempo? – Somos escravos do tempo? – O tempo dos esquecidos.”

Há uma briga entre esse caldeirão de pedras. Paciência, Dádiva e Espera criam um conflito por ele. As pedras se esparramam pelo chão e a Bruxa/Energia vai atrás de assustar mais ainda o Medo/Menina, que é ao mesmo tempo protegida pela Felicidade.

*CENA 6 – A Felicidade não sabendo conter a Bruxa/Energia, faz com que o Ritmo surja e intervenha! Ele controla a Bruxa/Energia. Também há um conflito entre os dois. [Retomar o laboratório da disputa com o elástico] Aqui também chega o Silêncio, assessorado pela Boneca/Finitude.

*CENA 7 – O tempo, a partir daqui, começa a querer acabar de novo. O Silêncio vai causando transtorno em tudo. O Silêncio hipnotiza a Bruxa/Energia e diz a ela que “Conduza a Criatura” para o local de sua morte.

Texto Silêncio: “É preciso voltar; É preciso que sopre o caminho; É chegada a hora; Eu não vou voltar para casa do senhor; Às sete horas da manhã bateu o sino; Olha o que eu trouxe para você; Na casa do senhor; Olhe para os meus olhos! Conduza a criatura!”

7.1 O Silêncio hipnotizou o Ritmo.

Texto Ritmo: “Eu não consigo mais enxergar. Num compasso disritmado eu não sei que tempo é esse. Pausa. Pausa. Pausa. Por que riem de uma criança do tempo perdido?”

Texto Paciência: “Não é uma boa escolha!”

Texto Bruxa/Energia: “Zero horas e zero minutos.” “Tempo não existe aqui.” Texto Medo/Menina: “Pare com isso! É mentira! De novo, não!”

7.2 O Silêncio luta com o Ritmo. De longe, a Espera observa com sua garrafa aquilo acontecer, apoiada no Sol.

7.3 O Silêncio mata o Ritmo, mas não é uma morte mesmo, é como se ele tivesse entrado em coma.

36 Texto [a ver quem diz essas frases]: “- Se não tem tempo, não tem morte. – E nem vida. – Nada. – A guerra do tempo perdido. – O tempo está perdido. – O tempo está dormindo. – O tempo está rindo do tempo. – Tempo? O que é tempo? – Não tem nada aqui. – Não pode matar o silêncio. – Você sabe o que você fez? – Ele morreu de que horas? – Não existe tempo. – Não existe vida. – Não existe nada. – O tempo é algo visível ou invisível no espaço. – Ele está em coma sonhando, tendo pesadelos. Sonhos nunca antes sonhados.”

Há a “morte” do Ritmo. A Morte é quem dá a tocada final na alfaia indicando o momento. Suspensão/Pausa.

7.4 A Boneca/Finitude ri!

7.5 O sepultamento do Ritmo acontece com a ajuda do Medo/Menina, Dádiva/Mãe, Paciência. Ritual de Morte! Quando eles terminam de colocar as pedras sobre o Ritmo, ele mesmo se levanta e se junta à Morte.

A Morte estava sob a cabeça do Ritmo. O Sol passou as vestes para a Felicidade durante o sepultamento, e a Felicidade passa essas vestes para a Morte e a adorna com 1 de seus maracás.

*CENA 8 – Com a morte do Tempo/Ritmo, o que fazer?

Aparece a figura do Silêncio (José Ricardo)... feito um velho, e indaga para a Morte quem tem o poder de matar. O Silêncio faz todos acreditarem que foi a Menina/Medo. Todos vão encurralá-la!

8.1 Quando a figura do Silêncio aparece, a Boneca/Finitude volta ser o que era. 8.2 A Dádiva/Mãe ajuda a Menina/Medo!

8.3 Todos os personagens vão voltando às suas posições iniciais com o tocar da cítara do Silêncio. Tudo volta! Cíclico. Voltar para a cena inicial! A Menina/Medo acorda de seu pesadelo.

37 Percebo que em diversos momentos, ao finalizar o roteiro dramatúrgico, as cenas deste processo foram delineadas como numa partitura musical. Cada estímulo sonoro, inclusive a ausência dele, direcionava o percurso, dando a tônica dos corpos, das falas, e das transições de ações. Talvez esta forma de estruturar a cena seja decorrente de minha relação com a música e com a dança, que me permite visualizar com mais facilidade a cena que se desdobra em suas dinâmicas, intensidades, cores (timbres) e alturas. As duas artes, dança e música tem uma forte ligação com o tempo. A música está relacionada ao quarto elemento: o Ar.

Com base nessa configuração, nós fizemos nossa primeira apresentação do processo Tempo dentro do “I Seminário Internacional de pesquisa do Grupo Arkhétypos”, que aconteceu nos dias 21 a 24 de novembro de 2019, nas dependências do Departamento de Artes da UFRN e também nas do Museu Câmara Cascudo. Idealizado pela integrante Nadja Rossana e pelo professor e coordenador do Grupo Arkhétypos Robson Haderchpek, este seminário buscou dar visibilidade às práticas, pensamentos, produções, pedagogias, dramaturgias do Arkhétypos Grupo de Teatro.

Apresentamos todo o extrato cênico no último dia de seminário, no dia 24 de novembro, num domingo à tarde, no Museu Câmara Cascudo. A temática desse momento dentro da programação era “Debates Decoloniais”, onde junto a Ana Clara (também integrante do Arkhétypos e do processo Tempo) e do pesquisador Saulo Vinícius do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (PPGAC - ECA/USP) falamos sobre as nossas perspectivas e produções de pesquisa nesse campo.

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Fig. 4 – Cena 1. Apresentação do processo “Tempo” no Museu Câmara Cascudo. Fonte: Robson Haderchpek.

Fazendo uma análise desta encenação, a cena 1 traz como ambiente o quarto de uma menina. Ela, ainda querendo estar acordada e brincar, é impelida pela mãe a se deitar e a dormir. A menina fica muito desgostosa, raivosa, pois ela desejava aproveitar o seu momento livre, seu momento de brincadeira. Mas, enquanto ainda criança, esta vive de acordo com o que o pai/mãe ou a autoridade dita sobre ela, dizendo como ela deve se portar, seus horários a cumprir. É uma espécie de escravidão. Pode parecer um pouco dura a comparação, mas veja que a criança tal como o escravo/cativo, sujeita-se a, submete-se, ou seja, é dominada pelos comandos de quem está sob sua responsabilidade, sem poder fazer diferente.

A menina agitada é acalmada pela mãe que a recolhe em seus braços, e a coloca para dormir. E nessa repressão sofrida pela personagem, obedecendo ao que foi ordenado pela mãe, sem poder escolher, ela acaba adormecendo junto à mãe. E, assim, mergulha no fantástico mundo/tempo dos sonhos. Embalada pelo som da cítara, seu sono vai ficando cada vez mais pesado, e é o start para que os móveis de seu quarto sob o som melódico ganhem vida, como criaturas a espreitar esse novo tempo que surge.

A Bruxa/Energia vai apimentando a chegada desse novo tempo pouco a pouco. Com os dizeres do seu prólogo e a utilização dos instrumentos musicais com batidas cada vez mais

39 fortes e rápidas, ela vai ditando as nuances desse novo tempo que chega, culminado com o nascimento dessa menina – a criança reprimida – no mundo dos sonhos.

A menina, na presença de sua Mãe/Dádiva, vem a este tempo dos sonhos com Medo. Assim é, pois a Criança/Medo não consegue ainda entender o funcionamento daquele outro tempo, um tempo que está suspenso, um tempo em que se pode sonhar, um tempo que abriga tempo! Ali tudo é possível de acontecer, como as criaturas que se movem neste espaço, que são objetos metamorfoseados de seu quarto. Um abajur e um vaso transformados em Sol e Paciência, respectivamente, tentam guiar com símbolos de pedras formados no chão a Menina/Medo, nessa estadia/passagem no novo espaço/tempo. Uma de suas bonecas vira a Felicidade neste tempo de sonho, e passa também a acompanhar proximamente a Criança/Medo.

A Bruxa/Energia fornece todo o vapor a essa construção dramática. Ela, com suas batidas frenéticas dos instrumentos musicais, com seus gritos alarmantes, vai gerando o movimento e a pulsação rítmica da cena. A Felicidade tenta apaziguar a excitação que a Bruxa/Energia causa na Menina/Medo, mas não consegue. E vai pedir ajuda ao Ritmo.

Daí surge um embate entre o Ritmo e a Bruxa/Energia. Ela, esperta e dinâmica, é quem causa o movimento, mas causa também a falta dele quando se encontra aliada ao Silêncio. O Silêncio se junta sorrateiramente nessa batalha à Bruxa/Energia, como a sombra que invade pouco a pouco a claridade do dia. O Silêncio mata o Ritmo. O Silêncio se instaura. O tempo parece que começa a morrer, com toda a finitude que ele possui dentro de sua infinitude.

A figura do Silêncio então aparece. Ela culpa a própria Criança/Medo pela morte do Ritmo, quer dizer, pela morte da pulsação que gerava divertimento e alegria em sua vida. Assim como é na vida. A Energia gerada é tão grande em nosso dia-a-dia, que passamos cada vez mais a pulsar descontroladamente, desritmadamente, criando uma desarmonia ensurdecedora.

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Fig. 5 – Cena 3. Nascimento da Criança/Medo. Fonte: Helena Saltoris.

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Fig. 6 – Cena 3. Apresentação do processo “Tempo” no Museu Câmara Cascudo. Fonte: Helena Saltoris.

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Fig. 7 – Cena 4. Apresentação do processo “Tempo” no Museu Câmara Cascudo. Fonte: Helena Saltoris.

Perdidos nesse caos que ensurdece, nós matamos nosso tempo do prazer, do brincar, do sonhar, da ociosidade e, com isso, passamos a ficar eternamente DESritmados. Por isso, o Silêncio é cada vez mais constante. E essa Criança ainda leva a culpa por sonhar! Mas ela já não sabe mais sonhar. Ela já não sabe ser tranquila. Ela não sabe descansar e controlar suas energias. O tempo do sonho virou pesadelo. E o silêncio é cada vez mais constante... e as criaturas vão voltando aos seus espaços/tempos iniciais... o tempo dos sonhos vai acabando... E a Menina/Medo volta a acordar.

Reflexões sobre a encenação feitas, afirmo que, como a proposta de apresentação teve mais um caráter de ensaio aberto, pois a estrutura do espetáculo como um todo ainda não estava finalizada, optamos por improvisar com os figurinos, cenário e maquiagem. Escolhemos peças de figurino de nosso próprio guarda-roupa que possibilitassem a movimentação fluida dos atores e atrizes, e optamos por tonalidades mais sóbrias, passeando pelo preto, branco e tons pasteis e terrosos. Quanto ao cenário, brincamos de compô-lo com os próprios elementos cênicos. A maquiagem foi utilizada somente nxs personagens não- humanxs (todos exclusive a Dádiva/Mãe e Menina/Medo), para acentuar suas caricaturas. Pensamos, futuramente, em trabalhar com próteses também.

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Fig. 8 – Cena 5. Apresentação do processo “Tempo” no Museu Câmara Cascudo. Fonte: Robson Haderchpek.

Fig. 9 – Cena 5. Apresentação do processo “Tempo” no Museu Câmara Cascudo. Fonte: Robson Haderchpek.

44 Após a apresentação, fiz a leitura de um pequeno texto produzido pela atriz Rhávilla que serviria muito bem como sinopse do trabalho e que poeticamente descreve a encenação do processo Tempo.

TEMPO

O Tempo Tudo sabe Tudo vê Tudo toca Tudo transforma Tudo sente Tudo muda O tempo serve pra tudo E quase não serve de nada.

O tempo é a maior dádiva que temos, Então com medo mesmo, vai No seu ritmo, mas aproveita Porque entre o tempo e o seu fim

A felicidade corre solta, “cê” só tem que encontrar. A espera nos faz perder tempo,

E ao mesmo tempo ganhar o que ele nos tem para dar. E todas as energias trabalham em prol do tempo, afinal O que seria dos corpos e das almas sem o tempo? Quem seríamos nós em um tempo que não existe? Ou, Que existe e simplesmente passa…

Afinal, o tempo é finito, assim como o período de 24 horas que a Terra leva para girar em torno do Sol,

passa correndo…

e logo encontra a morte. E isso é bom ou ruim…!? O Tempo é quem vai dizer. Então,

Paciência.

Lido, partimos direto para a discussão da mesa temática, não tendo muito espaço de imediato para conversar sobre as impressões e retornos a respeito da encenação. Porém, passado o Seminário, em outro dia de reunião dos integrantes do “Processo Tempo”, pudemos conversar melhor sobre os feedbacks da apresentação. Notou-se que o trabalho estava bastante musical, e que precisaríamos nos dedicar melhor a ele, trabalhando mais momentos de pausa e silêncio durante a encenação. E, claro, amadurecer todo material cênico até ali já conquistado.

Com base nos feedbacks, creio que conseguimos passar a mensagem dessa Criança/Medo que habita dentro de nós e que quer sonhar, quer se ver livre, que quer ter tempo para brincar e viver a vida prazerosamente. Mas quando essas asas da liberdade são cortadas, pelo modo de vida que temos hoje, na história representada pela Mãe castradora, que sujeita a nossa Criança aos seus domínios, passamos a viver um tempo enlouquecedor.

E é interessante perceber, neste momento de reflexão sobre o trabalho, como partes de meu inconsciente vieram à tona no processo “Tempo”. Resgato, por exemplo, a minha

45 trajetória pessoal até me encontrar nas Artes. Lembro-me o quanto o medo, a tristeza, o desajuste em minha vida se faziam presentes, a ponto de eu sentir realmente o meu corpo adoecer... como relatado nas páginas iniciais dessa monografia. E somente o encontro com aquilo que me dava realmente prazer, o encontro com o fazer teatral, com meu modo de agir perante o mundo, é que me deu as forças e a saúde para superar aqueles tempos de pesadelo, e assim ter uma chance de poder viver, novamente, num tempo de sonhos!

Iríamos dar continuidade ao trabalho no primeiro semestre deste ano de 2020, porém o tempo nos fez parar, e com a pandemia do Corona Vírus, tivemos que suspender todas as atividades acadêmicas. Parece que o nosso processo teve um tom premonitório. E é, no mínimo, curioso como essa necessidade em fazer o tempo parar de correr foi atendida. Foi como se nós, atores, atrizes, encenadorxs do processo “Tempo”, nos tornássemos verdadeiros canais, a partir da metodologia do teatro ritual, permitindo que o inconsciente coletivo8 se manifestasse através de personagens arquetípicos que colapsaram em nossos corpos, mentes, caminhos e histórias contados (HADERCHPEK, 2015). Estamos agora em quarentena, passando por quase 3 meses de isolamento social. Entretanto, isso traz uma mensagem poderosa para todos nós: SE VOCÊ NÃO PODE IR LÁ FORA, VÁ PARA DENTRO. É o que tenho buscado ao viver meus momentos de ócio!

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