ANNEX V. UNITED STATES OF AMERICA
V- 7 Retrieval at Idaho National Engineering and Environmental Laboratory
Manhã de sábado, 23 de março de 2013, dia ensolarado. No terreiro, alguns filhos já estavam cumprindo as obrigações ritualísticas, especificamente limpando o terreiro e colhendo ervas para os rituais do dia.
Era o primeiro dia da iniciação do professor Pedro e de Zenilda. Os dois já estavam no terreiro desde 6 da manhã. Chegaram juntos e ambos foram levados, no fim da manhã, para o quarto de Oxum. Acomodados em banquinhos de madeira, deveriam manter o silêncio e esperar. Aquele momento era considerado uma preparação para os processos ritualísticos que começariam no fim da tarde. Durante a manhã, pouco movimento na casa. Basicamente se organizavam os últimos itens da lista de obrigação, bem como era verificado se todos os elementos ritualísticos tinham sido comprados e as ervas colhidas. Antes de ir ao quarto de Oxum, Pedro e Zenilda passaram um tempo no barracão. Existia uma apreensão no ar. O nervosismo da futura ekedji era observável claramente em suas falas e ações. Lembro-me que quando me aproximei dela, ela pareceu bem emocionada, chorava e sempre perguntava se as coisas estavam próximas de começar. Zenilda demonstrava ser a mais curiosa, sempre enchendo o professor Pedro de perguntas. Professor Pedro, mais calmo, sempre tentando responder às pergunta, além de tentar acalmá-la. Lembro-me de uma comparação feita por ele durante a conversa: “Não
podemos ser o coelho, temos que ser o camaleão! O coelho é apressado demais, vive rápido e pouco. Já o camaleão vive mais, lentamente, e se adaptando a tudo e a todos”.
O professor Pedro parecia ter entendido que o percurso ritualístico era para ser aceito e vivenciado da forma que Mãe Lúcia determinasse. Afinal, ali era o espaço de Mãe Lúcia, o lugar de poder da sacerdotisa, campo de suas ações. Na negociação, os lugares da ação de ambos foram bem estabelecidos. Naquele momento,
159 performaticamente, o professor daria lugar ao deus. Ali, no centro daquele barracão, o professor viraria Ogum.
Depois do descanso e das horas em silêncio, resguardados no quarto de Oxum foram ambos trazidos novamente para o barracão. Nesse momento, os rituais iriam começar e só parariam no sétimo dia, com a festa de apresentação pública dos novos dois cargos que nasceram ali, na casa de Oxum.
Às quatro da tarde começaram oficialmente os rituais. Pedro e Zenilda foram para os banhos ritualísticos; depois foi a vez dos ebós47. Durante os rituais de limpeza, ouvi Mãe Lúcia ordenar que tudo deveria começar pelo professor. Segundo ela, Ogum é quem deveria levar todos os rituais, ele é o “Orixá de frente”, o responsável por abrir o caminho, permitir que as coisas fluam. Prontamente, todos seguiram e, assim, professor Pedro tomou a frente nos rituais. Depois da limpeza, os dois neófitos foram levados para o barracão, e lá ficaram sentados em duas esteiras de palha.
Duas longas horas se passaram até a chegada de Mãe Lúcia no barracão. Antes de sua chegada, os filhos de santo já estavam sentados e na expectativa de assistir os rituais que iriam começar. O ar era solene, sem risadas ou conversas, o clima era de total apreensão. Em todos os rituais que acompanhei, observei que isso era comum. A chegada de Mãe Lúcia no ritual sempre era cheia de temor pelos filhos. Ela, sempre perfeccionista, esperava que todos estivessem preparados e com todos os elementos que seriam usados dispostos, só aguardando seu aval. A distribuição das tarefas era estabelecida conforme um sistema de sentidos: aos que dispunham de cargos competia executar as atividades - tocar, girar, levantar -, ao passo que Mãe Lúcia se caracterizava pelo ar austero e performático de observadora atenta e caprichosa. A despeito desse desnível e distribuição de funções, os rituais só iniciavam quando a sacerdotisa estava no barracão. Sua opinião e participação, ainda que simbólica, eram determinantes para prosseguir os rituais.
O barracão já estava todo preparado, ao lado das esteiras duas bacias de ágata, dentro delas um mistura de várias ervas. Após a chegada de Mãe Lúcia, durante algumas horas foram feitas inúmeras rezas, enquanto se lavavam os elementos que iam compor os
assentamentos. Pedras, búzios, moedas, pedaços de metais nobres, tudo era sacralizado
para compor e energizar o altar. Após a limpeza e sacralização dos elementos, os dois
47 A composição de cada ebó depende de sua finalidade. Em geral, seus componentes são bebidas, frutas,
folhas, velas, adornos, alimentos secos, mel, dendê, louças, artefatos de barro ou ágata. O termo ebó tem pelo menos dois significados práticos. O primeiro quando é usado para denominar um processo de limpeza, chamado também de sacudimento por muitos terreiros. O segundo quando é usado genericamente para o ato de fazer uma oferenda, ou sacrifício animal.
160 neófitos foram levados para quartos separados. Lá eles dariam continuidade aos rituais durante os sete dias seguintes.
Dentro dos quartos dos Orixás, eles passaram pelos procedimentos chamados de
awô (segredos). Lá, seus corpos foram marcados com pequenos cortes e receberam as
energias provenientes dos sacrifícios de animais.
Mãe Joselma, no candomblé há 10 anos, me falou um pouco mais sobre o processo de confirmação de uma ekedi e ogan na casa, cujo tempo de reclusão é menor do que o tempo de recolhimento para os iaôs (filhos e filhas iniciados que incorporam os Orixás). “Os preceitos, as regras que o santo manda, é tudo igual, meu filho, só não raspamos a
cabeça como os que são feitos no santo e ficamos recolhidas menos tempo. A gente já até fez isso, mas Mãe Lúcia aprendeu diferente, mudou tudo, depois do Opó Afonjá”.
Observei que o maior cuidado foi dado ao ritual precedente à entrada no quarto. O ritual chamado Bólonan foi cercado de temores. Existia certo “medo no ar”. Perguntei a uma filha de santo que estava sentada próxima a mim o porquê daquele medo generalizado. As tensões giram em torno da possibilidade de equívoco, na avaliação por vezes inadequada e que organiza a separação entre virantes e não-virantes, ou seja, entre aqueles dotados da capacidade de cederem seus corpos aos orixás e incorporarem e aqueles que não podiam. Situações desse tipo eram lidas com temor e compunham parte dos awô (segredo) de todos os terreiros, configurando uma forma de constrangimento e de questionamento que deve ser controlada e gerida com sensibilidade e cuidado.
Beniste (2001) explica em uma das passagens do livro “As águas de Oxalá - Áwon omi Òsàlá”, que tanto uma ekedi como um ogan passam pelo ritual chamado Bólónan para verificar a sua condição de filho de santo, ou seja, se terá apenas o santo assentado, ou, no caso de alguma reação, ou seja, havendo alguma incorporação, ser recolhido como Iaô. Sendo assim, diz Beniste, a intenção desse ritual, quando é feito nos ogans e ekedis, é contrária ao ritual feito para iaôs, ou seja, esses novos cargos deverão provar que não se manifestam com Orixá em nenhuma hipótese. Isto tem o objetivo de evitar que, no futuro, aconteça uma manifestação “indevida”. O ritual de Bólónan, segundo Mãe Joselma, só começou a ser realizado na casa de Mãe Lúcia após a entrada no Opó Afonjá.
“Depois de alguns acontecimentos, a gente achou melhor fazer para não arriscar. O opó afonjá pediu que a gente fizesse!”
Já dentro dos quartos, os procedimentos ritualísticos prosseguiram. Os neófitos, por questões ritualísticas, disse Mãe Lúcia, seriam separados em quartos diferentes. No quarto de Oxum ficou o professor Pedro; no quarto de Xangô, Zenilda.
161 Após a entrada nos quartos, os sacrifícios iniciaram. Eu fui convocado pelos demais filhos a auxiliar na limpeza e transporte dos animais que seriam sacrificados para o professor Pedro. Algumas galinhas e bodes - nada que me causasse estranheza. Prossegui, lavei os animais que separaram para mim e depois levei até os quartos de santo. Lá já estavam alguns animais abatidos, sem suas cabeças. Na frente do professor Pedro estava seu assentamento, o sangue dos animais já estava banhando aqueles objetos mágicos e algumas partes do corpo do Professor Pedro. Na entrada, enquanto me aproximava, na tentativa de olhar com mais detalhes o que se processava no ritual, fui afastado por uma ekedi, que imediatamente me pediu para baixar a cabeça: “Baixe a
cabeça, Ogum já está se alimentando!”.
Essa mesma ekedi, depois do ritual, me revelou, quando questionei a propósito da quantidade de sangue sobre o professor Pedro e seu assentamento, que o sangue dá a vida, sem ele, disse-me, “seria impossível fazer axé”. O sacrifício está na base ritualística das religiões afro-brasileiras porque partem do princípio de que as entidades cultuadas recebem a vida como contrapartida para liberar o princípio vital de tudo que existe, o axé, cujo representante principal é o sangue.
O sacrifício de sangue é o processo em que alguém fornece uma vítima a uma entidade superior visando benefícios. O animal sacrificado, nas religiões afro-brasileiras, deve ser respeitado, venerado por “alimentar” os orixás, ele mesmo é sagrado. O sangue é um fluxo, uma via de comunicação e de vinculação entre o que poderíamos chamar de sagrado e profano, sem implicar com isso uma separação dicotômica. Trata-se de um campo de intensidades e de regimes de confluência na qual, através do rito, o corte faz emergir o sangue e então se estabelece uma economia de trânsitos marcada pela cessão de sangue e pela concessão de axé. Um se vai para que outro venha, mas antes mesmo dos destinos finais, é o trajeto, o rito que possibilita essa conversão de matéria e energia. O ato é absorvido pela procura simbólica do axé; simbólico porque tal “força” estará presente em vários elementos naturais e pode ser retirado e transmitido em diversas realizações para várias finalidades. Observou Santos (2002) que o axé, como toda força, pode diminuir ou aumentar, e que pode ser transmitido através de certos elementos materiais, de certas substâncias, seja no reino animal (presente principalmente no sangue), no vegetal (extraído da seiva, do sumo das plantas), como dos minerais (sais e substâncias retiradas da lavagem de alguns minerais). Desta forma, podemos dizer que o sacrifício de sangue é um ato religioso que, pela própria ação de consagrar um animal, apresentará modificações no estado moral e espiritual – relação de crença na força, seja de cura,
162 prosperidade, felicidade, etc, pela realização do ato – daquelas pessoas que realizam e interagem no momento.
Os rituais de sacrifício, banhos e rezas duraram oito dias seguidos. No dia 30, a festa pública, chamada de “saída”, seria realizada à noite. No dia 29, logo cedo, começaram os preparativos. Mãe Lúcia fez várias reuniões; era para sair tudo perfeito. Além de todos os religiosos que ela tinha convidado, existia uma espera especial na vinda dos acadêmicos e alguns políticos locais que haviam confirmado a presença. O precedente da festa pública não foi tão conturbado, as tarefas eram poucas, basicamente se concentravam na limpeza do ambiente e na ornamentação. Mãe Lúcia tinha contratado um buffet responsável pela distribuição e organização dos alimentos da festa. Com o vasto tempo disponível, filhos e filhas andavam pela casa com seus trajes, enfeites, bijuterias. Todos organizavam suas vestimentas da melhor forma possível.
O relógio marcava dezenove horas quando o som dos atabaques começou a eclodir pelo terreiro. Filhos e filhas de santos se espremiam no centro do barracão, cantavam e dançavam, por vezes gritavam saudações aos Orixás homenageados nas canções. A casa estava lotada. Muitos visitantes ilustres. Alguns políticos e acadêmicos foram levados para a parte interna, próxima à grande roda, onde existia cadeiras mais confortáveis. Os demais - a população e alguns religiosos - ficaram no entorno, mesclados ao povo da comunidade local que sempre enchia o barracão em noites de festas.
O ritual seguiu o script, os planejamentos anteriores e o planejado nas várias reuniões precedentes para organizar o ritual. Todos pareciam contentes. Mãe Lúcia passou a maior parte do ritual sentada; só levantou para acompanhar a chegada dos neófitos. Foi nesse momento que a patrona da casa, Oxum, chegou. Mãe Lúcia, começou a desequilibra-se, o corpo, rápida e sutilmente, cedia seu controle a outra pessoa que não ela mesma. Fortes tremores e pulos eram dados por ela. Quando mais ela estremecia, mais gritos de saudação eram gritados pelos filhos e filhas. Os atabaques soavam altíssimos quando Oxum chegou.
Oxum dançou um pouco, fez gestos para alguns convidados. Por fim, pegou os dois iniciados e os levou até o centro. Lá, dançou para os dois e, no fim da terceira canção, gritou algo em meio aos gritos e sons do atabaque. Eu não consegui entender. A princípio, achei que fosse alguma saudação, mas no fim do ritual ouvi os comentários dos filhos relatando que naquele momento os nomes ritualísticos do professor Pedro e Zenilda tinham sido gritado por Oxum.
163 “O homem morreu, nasceu o Orixá”, disse um dos filhos. Aquele era a entrada definitiva no terreiro do professor Pedro. “O professor virou Ogum, o deus do ferro, o
senhor dos caminhos”, disse um dos ogans, em seu discurso, no final da festa. Foram
longos discursos, todos ressaltavam a entrada de um africano, um acadêmico. Por fim, Mãe Lúcia agradeceu a presença de todos, destacando algumas presenças específicas, artistas e políticos locais. Com a mão no ombro do professor Pedro, disse em meio a risadas: “bem-vindo à família”.