São nos espaços descritos – comunidade do bairro Dom Bosco e Unidade de Saúde – que "circulam" os sujeitos deste estudo: usuários hipertensos não aderentes à terapia medicamentosa anti-hipertensiva. São homens e mulheres que se dispuseram a compartilhar sua experiência com relação ao cuidado medicamentoso e colaborar para decifrar o enigma da não adesão.
O Quadro 1 traça um perfil destes usuários, especificando alguns aspectos sociodemográficos:
Quadro 1 – Perfil dos sujeitos entrevistados: aspectos sociodemográficos
Usuário Sexo Idade Estado
civil Escolari- dade* Religião Etnia autorrefe- rida Renda família Profis- são E1 F 44 anos Solteira Ensino mé- dio com- pleto Católica Parda 1 SM Cuida- dora de idosos E2 M 70 anos Separado Primeiro grau incom- pleto Católico Pardo 1 SM Vigilante aposen- tado E3 M 55
anos Casado Primário Católico Negro 1 SM
Vendedor bebidas aposen-
tado E4 F 49
anos Casada Primário Católica Branca
Entre 1
e 2 SM Do lar
E5 F 65
anos Solteira Primário
Evangé-
lico Negra 2 SM Artesã
E6 F 64 anos
Desqui- tada
Segundo
grau Católica Parda
Entre 1 e 2 SM Domés- tica E 7 F 53 anos Casada Primeiro grau incom- pleto Evangé- lica Negra 2 SM Cuida- dora de idosos E 8 F 75
anos Viúva Primário Católica Branca
Entre 1 e 2 SM Domés- tica E 9 F 54 anos Casada Segundo
E 10 M 50
anos Solteiro
Primeiro
grau Espírita Negro 2 SM
Cozi- nheiro aposen- tado E 11 F 43 anos Solteira Primeiro grau Evangé-
lica Negra 1 SM Lancheira
E 12 F 73
anos Viúva Primário Católica Parda 2 SM
Tecelã aposen- tada
E 13 F 85
anos Viúva Primário Católica Negra
Entre 1 e 2 SM Serviços gerais área hos- pitalar aposen- tada E 14 F 32 anos Solteira Segundo
grau Espírita Branca
Entre 1 e 2 SM
Serviços gerais
E 15 F 79
anos Viúva Primário Católica Negra 2 SM
Tecelã aposen- tada E 16 F 59 anos Desqui- tada Primeiro
grau Católica Branca 1 SM Do lar
E 17 F 73
anos Viúva
Primeiro
grau Espírita Negra 1 SM
Domés- tica apo- sentada E 18 M 77
anos Casado Analfabeto
Evangé- lico Negro 1 SM Padeiro aposen- tado E 19 F 50 anos Solteira Primeiro grau incom- pleto Católica Negra < 1 SM Serviços gerais - afastada tempora- riamente E 20 F 47 anos Divorci-
ada Primário Católica Branca < 1 SM Do Lar
Nota: * Embora as terminologias referentes às etapas de ensino tenham mudado ao longo do tempo, neste estudo foi utilizado as nomenclaturas mais antigas como primário, primeiro e segundo grau, em concordância com a fala da maioria dos entrevistados.
Legenda: SM – salário mínimo Fonte: Dados da Pesquisa
O Quadro 1 evidencia que a idade dos entrevistados variou entre 32 a 85 anos, com média de 59,85 anos. Entre os homens a idade variou de 50 a 77 anos, com média de 63 anos, enquanto entre as mulheres a idade variou de 32 a 85 anos, com média de idade de 59,06 anos. Este é um dado relevante pois quanto mais elevada a idade do usuário, maior será a chance de desenvolver um quadro hipertensivo (AMERICAN HEART ASSOCIATION, 2011). A maioria dos participantes é do sexo feminino (16 mulheres e 4 homens). Encontrar um número maior de
mulheres vai ao encontro do defendido no estudo de Ladeira, Brandão Neto e Furtado (2013) que revela uma prevalência do quadro hipertensivo em mulheres, se comparada aos homens, em especial após os 50 anos. Ademais, as mulheres, sobretudo as idosas, além de constituírem a maior parcela da população mundial, também são as que procuram os serviços de saúde disponíveis, superando o quantitativo de homens na busca por estes serviços (SILVA, C. F. et al., 2016).
No que diz respeito à etnia a maioria se autodeclarou negro ou pardo. De acordo com a American Heart Association (2011), o quadro hipertensivo acomete com mais frequência a população de etnia não branca. Pereira e Silva (2011), referem que os indivíduos negros possuem mais sensibilidade ao uso de sal na alimentação, apresentando níveis pressóricos que tendem a ser mais severos do que aqueles encontrados em pessoas de etnia branca. Tal particularidade faz com os usuários hipertensos negros e pardos necessitem mais constantemente do uso do tratamento medicamentoso para atingir o controle da hipertensão.
Os dados relativos ao estado civil revelam que apenas cinco são casados. Mesmo compreendendo que ter um parceiro necessariamente não significa ter um companheiro que compartilha, cuida, a sua ausência, em especial nos idosos, pode contribuir para um descuido com relação ao controle da doença. Segundo Bezerra, Lopes e Barros (2014) a existência de um parceiro pode facilitar a adesão ao tratamento, posto que fornece um suporte social importante para o combate a situações negativas associadas ao tratamento crônico, estimulando o autocuidado mais efetivo. Por outro lado, o tempo dedicado à família pode comprometer o autocuidado (GUSMÃO; MION JÚNIOR, 2006).
No âmbito da educação formal os dados apontam que grande parte dos entrevistados possui baixo nível de escolaridade. Esta realidade tem correspondência com outros estudos que revelam que o baixo nível de escolaridade dificulta o entendimento sobre a doença hipertensiva e favorece a não adesão a terapêutica (GOMEZ, Y. E. B., 2015; MALTA et al., 2017).
A religiosidade também foi revelada pelos entrevistados. Todos afirmaram possuir uma religião definida, sendo que a predominância recaiu na católica, seguida pela espírita e evangélica. No que tange a relação entre religiosidade e controle de níveis pressóricos C. F. Silva et al. (2016) esclarecem que a fé atua de forma positiva para o controle da hipertensão. Argumentam que a religiosidade diminui os níveis do
hormônio cortisol (substância que ajuda a elevar a pressão arterial) e ainda contribui de maneira positiva, no enfrentamento de obstáculos e dificuldades da vida.
Em relação ao trabalho ou ocupação, pouco mais da metade dos entrevistados não se encontram no mercado de trabalho, sobretudo em função de aposentadorias. Os demais exercem diferentes profissões. De acordo com Andrade e Fernandes (2016) existem algumas evidências que associam fatores ocupacionais à ocorrência de hipertensão arterial, dentre eles a realização de trabalhos em turnos, a presença de ruídos e o estresse no ambiente de trabalho. Além disto o trabalho, qualquer que seja ele, requer tempo para sua execução e, muitas vezes, ele é priorizado, em detrimento do tempo requerido para o autocuidado e para a realização do tratamento adequado das doenças que afetam a população adulta. Isto claramente dificulta a adesão medicamentosa (FIGUEIREDO, N. N. ; ASAKURA, 2010).