1.3 Instruments sociolinguistiques et ethnographiques dans la collecte de données
1.3.5 De retour du terrain
Iniciei o Capítulo 1 abordando percalços relativos à autoria de textos acadêmicos. Nesta seção, tento “fugir” da escrita na terceira pessoa, na forma impessoal e retornar novamente para o “eu”, escrevendo na primeira pessoa. Escrever na primeira pessoa não se trata de algo novo. Nesse sentido, o historiador Georges Duby (1993), explica que tem empregado em seus livros a palavra “eu” com mais frequência, na intenção de advertir o leitor, sem a pretensão de comunicar a verdade, mas de sugerir o provável, mostrar a imagem que ele tem do real a partir de seus documentos, nos quais ele define como “provas”. No entanto, tenho ciência de que escrevo em certos momentos na terceira pessoa, uma vez que minha escrita resulta do diálogo que estabeleço com os autores e as leituras inerentes ao processo de orientação.
Se os documentos dão suporte para alicerçarem a versão fragmentada da história narrada pelo historiador, busco aqui relatar as trilhas que percorri, a minha relação com os arquivos e o tratamento com as fontes encontradas. Procuro descrever o meu trabalho detetivesco, como coloca Ginzburg (1989) ao comparar o trabalho do historiador com o trabalho de um caçador ou de um detetive, respaldado por “um método interpretativo centrado sobre os resíduos, sobre os dados marginais, considerados reveladores” (GINZBURG, 1989, p. 149), no qual o autor
denomina como método indiciário. Para Ginzburg, em algumas situações, como as experiências cotidianas e obras de arte, este método é flexível, sem regras formalizadas, uma vez que para aprender um ofício, conhecer, diagnosticar, é preciso alguns elementos importantes, como o faro, o golpe de vista e a intuição.
Seja um caçador ou um detetive, também comparo o ofício do historiador a de um garimpeiro. Assim como a garimpagem consiste na busca de metais e pedras preciosas em seu estado bruto para serem lapidadas, polidas ou esculpidas, o historiador também é um explorador de preciosidades. Ao encontrar o documento em seu estado bruto, ele lapida, aperfeiçoa, tornando-o belo e digno de ser apreciado.
“Pode acontecer que o historiador descubra inadvertidamente muito do que procura quando sai de seu quarto e olha ao seu redor” (DUBY, 1993, p. 39) e foi exatamente o que aconteceu, quando saí da minha “zona de conforto” e adentrei nos arquivos, apreciando e cortejando a materialidade. Embora tenha percorrido alguns arquivos institucionais, foi no Centro de Documentação e Obras Valiosas (CEDOV) da Bibliotheca Pública Pelotense que encontrei meus achados, isso devido à consulta dos jornais. Dessa forma, foi possível vivenciar a mesma experiência de outros pesquisadores, quando afirmam que o arquivo tem cheiro, tem sabor, provocando diferentes emoções.
Mesmo tendo a experiência de pesquisar no CEDOV e saber da existência de alguns documentos, os primeiros levantamentos das fontes textuais e iconográficas foram feitas através da pesquisa dos acervos do Instituto São Benedito, Instituto de Menores Dom Antônio Zattera (IMDAZ), Instituto Nossa Senhora da Conceição, dentre outros. Apenas o acervo do IMDAZ está organizado e catalogado, mas o material disponível para consulta é muito limitado. Algumas congregações foram contatadas, entre elas a dos Irmãos De La Salle, Irmãs do Bom Pastor (São Paulo e Caxias do Sul) e Irmãs Franciscanas (Pelotas e Santa Maria).
Tais consultas foram por conta do Anteprojeto de Doutorado, intitulado “Nos tempos de Dom Antônio Zattera”: benemérita obra de assistência ao menor em Pelotas/RS (1944-1987) no qual o objetivo maior era o de pesquisar o Abrigo de Menores, atual IMDAZ, a colaboração da Igreja Católica no que tange as instituições asilares e os trabalhos de Dom Antônio em prol da educação dos desvalidos.
Entre os empecilhos encontrados no percurso desta pesquisa, esteve a dificuldade do acesso aos arquivos religiosos. A congregação Bom Pastor de
Angers, é um dos exemplos de congregações mais reservadas e consequentemente acabam dificultando o acesso as fontes históricas37.
Os pesquisadores que mencionam esta congregação em seus trabalhos se debruçam a investigar a história de instituições prisionais e mulheres privadas de liberdade. Leonardi (2006, p. 6) mencionou que a finalidade da congregação era o trabalho com a “educação e preservação da juventude, reeducação e reabilitação das jovens decaídas, reformas das delinquentes, amparo de órfãos e menores abandonados”. Esta finalidade vai ao encontro dos objetivos do Asilo Bom Pastor de Pelotas, responsável por abrigar e regenerar mulheres com condutas inapropriadas aos padrões da época, aquelas consideradas moças e mulheres transviadas. Esta dificuldade de acesso às fontes justifica o fato de que os periódicos passaram a ser as principais fontes documentais neste estudo.
Com as fontes limitadas, aos poucos a pesquisa foi se modificando, na tentativa de adequá-la para o uso de documentos de fácil acesso. Nesse intento, os periódicos, mais precisamente os jornais, surgem como fonte protagonista para o desenvolvimento acerca do tema escolhido. Meu entendimento pelo uso de jornais é semelhante ao de Farge (2009), quando escreve sobre o impresso. Segundo a autora:
O impresso é um texto dirigido intencionalmente ao público. É organizado para ser lido e compreendido por um grande número de pessoas; busca divulgar e criar um pensamento, midificar um estado de coisas a partir de uma história ou de uma reflexão. Sua ordem e sua estrutura obedecem a sistemas mais ou menos fáceis de decifrar e, independentemente da aparência que assuma, ele existe para convencer e transformar a ordem dos conhecimentos [...] Disfarçado ou não, ele é carregado de intenções, sendo que a mais singela e mais evidente é a de ser lido pelos outros (FARGE, 2009, p. 13).
Cheios de intenções e dirigidos para um público específico, tenho a consciência de que o jornal é carregado de subjetividades, não sendo o espelho da realidade ou fonte totalmente fidedigna. Duby (1993) expõe que o contato com o
37
Através da troca de e-mails, a pesquisadora Débora Soares Karpowicz, que em 2017 defendeu a Tese de Doutorado intitulada Do convento ao cárcere: do caleidoscópio institucional da Congregação
Bom Pastor d’Angers à penitenciária feminina Madre Pelletier (1936-1981), relatou que demorou
aproximadamente dois anos para consultar os arquivos da instituição, com sede em São Paulo. A pesquisa no acervo foi interrompida, a partir do início da reforma do prédio que mantinha os arquivos, tendo os documentos interditados para pesquisa.
documento e sua análise, além de lhe proporcionar um prazer excitante, também exige um exercício de decifrar, um jogo de paciência. A pesquisa nos jornais me exigiu tempo, atenção e muita paciência.
Assim, retomada a empolgação pela pesquisa, era necessário elencar quais periódicos locais que seriam consultados, visando à diversidade do publico leitor, como os católicos da Diocese de Pelotas, membros da Maçonaria, elite pelotense, além dos jornais diários destinados para a população em geral e o semanário tendo a comunidade negra e operária como principais leitores.
No entanto, prevendo o tempo hábil para a conclusão da investigação, apenas dois jornais foram consultados. Ambos constituem parte do acervo histórico da Bibliotheca Pública Pelotense, sendo que alguns anos do jornal A Alvorada está disponível para consulta online38.
A escolha pelos jornais surgiu como “garantia” de finalizar a pesquisa, embora confesse minha frustração no que tange à escassez e o uso de documentos considerados oficiais neste estudo. Trata-se de dados e dos locais em que estão salvaguardados, como elucida Nunes (2008, p. 38):
Todos nós que nos dedicamos à pesquisa histórica já passamos pela angustiante experiência de não encontrá-los pelo descuido intencional, sistemático e criminoso com que os acervos da História e da memória da Cultura e da Educação brasileira vêm sendo dilapidados em nosso país. No entanto, paradoxalmente, poucos de nós viveram outra angústia: a de vasculhar os arquivos existentes, organizados e disponíveis. Seja por desconhecimento, impaciência, preguiça, desinteresse, descuido ou até falta de oportunidade, muitos pequenos grandes tesouros permanecem escondidos numa vasta gama de documentação "perdida" nos arquivos privados ou públicos, "tagarelando" e assustando o pesquisador, acuado justamente pela quantidade de informação aí reunida. São diários de viagem, farta correspondência, relatórios de diretores e professores, memoriais, fotografias, desenhos, que aguardam o seu olhar atento.
É meu desejo ainda, em estudos futuros, analisar estatutos, regimentos, livros de ocorrências, fichas de matrículas, fotografias dos prédios e dos acolhidos pelas instituições, registros dos próprios sujeitos institucionalizados, dentre outros importantes documentos envolvendo os atores educativos.
Mas devo ressaltar que os jornais apresentaram uma nova possibilidade, qual seja, a de sair dos “muros” das instituições e analisar a representação e o imaginário
38
O semanário pode ser consultado através do link:
social daqueles que elenquei como “agentes de normatização”. Essa imersão aos arquivos e a tensão da pesquisa, provocou questionamentos no qual Nunes (2008, p. 40) dividiu em dois eixos:
[...] o da representação da experiência vivida e o da representação que recria a representação. Isto quer dizer que, no primeiro caso, nosso objetivo é alcançar a experiência vivida pelo outro em seus próprios termos, sem, no entanto, aprisionarmo-nos ao seu horizonte mental e, no segundo caso, é entender como o historiador concebe e utiliza o arsenal teórico de que dispõe.
Este olhar macro, global, para além das instituições, foi possibilitado através das vozes dos articulistas dos jornais. Tratam-se de mediadores culturais que compõem uma elite intelectual, que escreve a partir da representação e do imaginário que prima por uma sociedade ideal, da ordem e do progresso. Tenho a consciência de que ler o que foi publicado nos periódicos não é a apreensão do real, mas parte da representação a partir de certo lugar de fala e de escrita.
A sua leitura exigiu um olhar atento que foi sendo aprimorado através do contato diário com os jornais. Foram alguns dias para conhecê-los, saber da distribuição das reportagens, das notas policiais, sociais, dos textos dos principais articulistas, das repetidas propagandas e publicidades.
Farge (2009, p. 22) alerta que “ler o arquivo é uma coisa; encontrar o meio de retê-lo é outra. Pode parecer estranho afirmar que as horas passadas na biblioteca consultando o arquivo são horas passadas copiando-o, sem mudar nenhuma palavra”. A partir da seleção do que poderia ser útil para a pesquisa, copiei as reportagens em cadernos, palavra por palavra, sem modificar a ortografia da época, dispensando a digitação no computador, que constantemente faz correções automáticas de acordo com a ortografia vigente.
Pensando também no tempo hábil para finalização da pesquisa, busquei ser mais direta e objetiva possível sobre aquilo que tinha ido buscar. Foquei nas questões que envolviam a educação, infância, o lado pobre da cidade e as ações por parte dos representantes municipais em prol da população menos abastada. Este foi o primeiro processo de triagem para a decisão de realizar a cópia ou não do que foi lido. Nesse sentido, Farge (2009, p. 66) menciona que:
Em plena coleta, não há como dispensar informações, pois o importante é deter o conjunto de dados sobre a questão, naturalmente nos limites cronológicos e espaciais previamente estabelecidos. Em contrapartida, para
selecionar o mesmo, o olhar não pode se impedir de se deter no diferente, pelo menos para saber se não há com que se preocupar.
Assim como muitos pesquisadores que ainda preferem os livros na sua materialidade, achei mais útil e rápido utilizar o caderno e a caneta para apreender a informação, trabalho minucioso, como o trabalho de um artesão, conforme coloca Farge (2009, p. 23) ao elucidar que:
O arquivo copiado à mão em uma página em branco é um fragmento de tempo capturado; só mais tarde separam-se os temas, formulam-se interpretações. Isso toma muito tempo e às vezes faz mal ao ombro, provocando estiramento no pescoço; mas ajuda a descobrir o sentido.
Tentando dar sentido a atividade desenvolvida durante o dia, utilizei o turno da noite para anotar, selecionar e reagrupar aquilo que havia copiado. Esse movimento de leitura e cópia durante a coleta, deu margem para que eu caísse em algumas armadilhas, dentre elas a de não consultar alguns anos de publicação e partir para anos e datas mais precisas e o de apenas resumir ou tomar nota das ideias principais do que foi publicado. Cair nestas armadilhas diminuiria o “sabor do arquivo”, expressão empregada por Farge (2009, p. 23), explicada da seguinte forma:
O sabor do arquivo passa por esse gesto artesão, lento e pouco rentável, em que se copiam textos, pedaço por pedaço, sem transformar sua forma, sua ortografia, ou mesmo sua pontuação. Sem pensar muito nisso. E pensando o tempo todo. Como se a mão, ao fazê-lo, permitisse ao espírito ser simultaneamente cúmplice e estranho ao tempo e a essas mulheres e homens que vão se revelando. Como se a mão, ao reproduzir à sua maneira o formato das sílabas e de palavras de outrora, conservando a sintaxe daquele século, penetrasse no tempo com mais audácia do que por meio de notas refletidas, em que a inteligência teria selecionado previamente o que lhe parecesse indispensável, deixando de lado o excedente do arquivo.
O trabalho de cópia provoca desgaste físico e mental. As grandes reportagens, distribuídas entre uma ou duas páginas e as imagens presentes nos periódicos, foram registradas através de fotografias, totalizando um arquivo com 53 imagens39. Como forma de organização do material coletado, enumerei as páginas
39
Na BPP o registro dos jornais em forma de fotografia não é totalmente permitido. Há pouco foi adquirido um aparelho de scanner para a digitalização dos periódicos, sendo o semanário A Alvorada o primeiro impresso a ser digitalizado. O pesquisador para conseguir a imagem da página de um jornal, tem que solicitar para que o historiador responsável do CEDOV ou estagiário faça a fotografia
dos cadernos com os textos copiados dos impressos. Também optei por utilizar um caderno auxiliar, em que ia anotando títulos e resumos dos textos da imprensa, distribuindo-os de acordo com o sumário elaborado para a tese. O mesmo ocorreu com as fotografias das reportagens. Esse processo facilitou a finalização da escrita dos capítulos e de suas seções.
Reconheço que o tempo dedicado ao “garimpo” e aos “achados” durante esse processo, são insuficientes para a totalidade do tema investigado. Primeiro, dado às publicações de outros pesquisadores, eu já tinha perguntas e ideias pré-elaboradas para a busca nos jornais. De fato encontrei parte do que fui procurar. Mesmo com a pesquisa empírica, tenho a sensação da falta, da insuficiência do que foi coletado, principalmente ao reler, reunir, separar, comparar, lapidar os “meus achados”. Esse retorno aos documentos faz com que a leitura seja realizada com “novos olhos”, na tentativa de unir peças e preencher vazios, além de suscitar dúvidas sobre o que fazer com eles (FARGE, 2009; DUBY, 1993).
No entanto, busco não descartar fontes coletadas durante anos de pesquisa e que possam ser úteis ao que me propus desenvolver. São relatórios, estatutos e outros materiais impressos utilizados para qualificar este estudo. Mesmo assim, o jornal ainda é o principal documento da pesquisa. Nesse intento, as duas próximas seções são dedicadas aos periódicos consultados: Diário Popular e A Alvorada.