3. Résultats
3.1. Retour de questionnaires
Segundo Martins (2003), os principais fatores que denotam a qualidade de uma tese consistem na inovação por ela proporcionada ao campo do conhecimento e na forma de olhar proposta para o problema em questão. Assim, a justificativa da pesquisa proposta vem das contribuições teóricas e práticas proporcionadas pela mesma, além da já destacada originalidade e importância do tema. A relevância teórica advém da elucidação do entendimento das relações entre redes de conhecimento, SMEs, GIC e CI – que é uma questão ainda inédita na literatura. Do ponto de vista prático, no entanto, a contribuição decorre da explicitação da forma de uso prático das informações e conhecimentos pelos indivíduos e empresas objeto do estudo no contexto das redes (gerando com isso capital humano). O capital humano ao ser conjugado com o contexto capacitante e estrutura adequados (capital estrutural) e com os relacionamentos decorrentes das interações da rede (capital relacional) tem o potencial de gerar mais CI – questão de interesse para grande parte das empresas e empresários, bem como para os profissionais de contabilidade, economia, engenharia e gestão.
O estudo sobre redes como disciplina independente começou a ser realizado de maneira sistemática apenas a partir da década de 1980, sendo considerado, na época, novo tanto na teoria quanto na aplicação (Osborn e Hagedoorn, 1997). Esse tema ainda possui, atualmente, algumas lacunas de pesquisa a serem preenchidas, especialmente em relação às pequenas empresas (Neves et al., 2011; Balestrin et al., 2014; Verbano e Crema, 2016). Na verdade, são várias as justificativas apresentadas para o estudo das redes de SMEs (Balestrin et al., 2008; Belso- Martinez e Diez-Vial, 2018). Inseridas em ambiente hipercompetitivo, essas empresas, em muitas ocasiões, carecem de tempo e recursos (materiais, financeiros, tecnológicos, produtivos, humanos e intelectuais, dentre outros) bem como das ferramentas certas para integrar as tarefas de gestão nas atividades e negócios organizacionais (Balestrin et al., 2008; Mertins e Orth, 2011) e produzir conhecimento e CI.
As SMEs também apresentam dificuldades de obter os melhores preços, vantagens na compra de matérias primas e componentes, menores custos (de produção, marketing, financeiros, etc.), capacitação e treinamento da mão de obra, atualização tecnológica, disponibilidade de linhas de crédito e financiamento, acesso a novos mercados e oportunidades de exportação de produtos, dentre outras (Holanda et al., 2006; Zen e Wegner, 2008; Jardon e Martos, 2009; Teixeira et al., 2009; Romiti e Sarti, 2011; Toloie-Eshlaghy e Akbari-Yusefvand, 2011; Jardon
e Martos, 2012; Reis e Amato Neto, 2012; Sánchez et al. 2012). Na visão de Balestrin et al. (2008), os problemas enfrentados por tais empresas dificilmente desaparecerão. Contudo, essas dificuldades podem ter seus efeitos neutralizados ou amenizados pela ação coletiva das pequenas empresas em redes, pois, a partir da consciência da necessidade de atuação conjunta e de cooperação, almejando tornarem-se eficientes e competitivas, é que surge a lógica da configuração em rede. No entanto, os referidos autores chamam a atenção especial para a lacuna de pesquisa atinente à GIC no contexto das redes de SMEs.
Massaro et al. (2014) acentuam que a implementação do posicionamento estratégico envolve o ajuste com diferentes elementos do CI, a fim de melhorar a eficácia organizacional. Esses autores afirmam que, curiosa e paradoxalmente, ainda há uma falta de análise sobre como as SMEs exploram os recursos do conhecimento, a fim de promover o seu posicionamento estratégico desejado. Autores como Pelufê (2005), Toloie-Eshlaghy e Akbari-Yusefvand (2011) e Durst e Edvardsson (2012) também já haviam destacado a relevância do tema no contexto específico das SMEs, ressaltando que, embora tenha havido um crescente número de pesquisas sobre a GIC, ainda há poucos estudos sobre a realidade das empresas de menor porte. O fato é que, como refere Rossoni (2010, p. 21):
as SMEs são consideradas como os principais agentes econômicos de um país. Elas formam de 50% a até 99% da economia. São principais fontes de geração de trabalho e têm sido expostas a pressões competitivas sem precedentes. Os produtos e serviços cada vez mais estão sendo transformados em commodities, forçando as SMEs a buscarem rapidamente mecanismos para se diferenciar e incrementar seus níveis de competitividade nesta era de economia globalizada. Adicionalmente, como ressaltam Guimarães et al. (2010), as SMEs são diretamente responsáveis pela geração de milhões de empregos (mais de 2/3 do total de novos postos de trabalho nos EUA e na maioria absoluta dos países da Europa). No Brasil, os dados do SEBRAE indicam que as SMEs foram responsáveis pela criação de cerca de 80% das novas vagas de trabalho com carteira assinada no país desde o início do ano de 2011. Os dados mais recentes desse órgão apontam que os pequenos negócios foram responsáveis por mais de 99% dos empregos formais gerados no Brasil em 2015 e no início de 2016, ou seja, pela quase totalidade destes (SEBRAE, 2017). Informações veiculadas no site da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) confirmam a informação de que as SMEs estão bancando a criação de empregos do Brasil nos últimos anos; e que o saldo líquido de empregos (relação entre empregos gerados e demissões) foi gerado em 99% pelos pequenos negócios. Adicionalmente, mostram que esse universo soma mais de sete milhões de empresas, representando mais de 90%
do total dos negócios em atividade no país, sendo responsáveis por 25% do PIB e por 40% da massa salarial.
A importância econômica, política e social das SME vem sendo destacada em nível global por entidades como a própria Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) – que reconhecem expressamente as pequenas e médias empresas como agentes centrais no desenvolvimento econômico e na geração de emprego e renda (ONU, 2017, 2018; OCDE, 2010, 2019).
A despeito da grande relevância política e gerencial das SMEs para a economia, a sociedade e os governos apontada por entidades das mais relevantes em nível de Brasil ou do mundo e por vários autores como Durst e Edvardsson (2012), Khalique et al. (2015), Sekhar et al. (2015) e Marzo e Scarpino (2016), porém, outros estudiosos como Balestrin et al. (2008) já haviam reconhecendo isso a mais de uma década. Esses últimos autores vêm chamando a atenção também para o fato de que a grande maioria das pesquisas dentro do campo de estudos de rede interorganizacionais (principalmente por autores anglo-saxões) tem privilegiado os arranjos como joint ventures e outras formas de alianças estratégicas entre grandes empresas. Os referidos autores ainda reconhecem que as redes possuem vários atributos estratégicos, que dificilmente são encontrados nas empresas quando essas trabalham de forma individualizada. Sem embargo, a literatura apresenta evidências sobre as vantagens competitivas alcançadas pelas empresas por meio de redes interorganizacionais (e.g. Holanda et al., 2006; Zen e Wegner, 2008) e redes de conhecimento (e.g. Phelps et al., 2012; Moslehi et al., 2014). Conforme Verbano e Crema (2016), esses benefícios são ainda mais evidentes quando se trata de SMEs. Na contemporaneidade, a falta de pesquisa sobre as SMEs é ressaltada nos trabalhos de Henry (2013), Durst e Edvardsson (2012), Guthrie et al. (2012) e Agostini et al. (2017), dentre outros. Guthrie et al. (2012), por exemplo, demonstrou, a partir da análise de mais de 300 artigos, que apenas três por cento das pesquisas sobre o CI foram dedicadas a esse tipo de empresas. No entanto, nenhuma delas analisou a forma como os recursos do conhecimento foram e têm sido gerenciados de forma real a partir de estudos de caso específicos sobre SMEs, nem relacionou o CI com a GIC no contexto dos pequenos negócios, especialmente em redes, ou economias emergentes, confirmando a expressividade do tema e a originalidade da pesquisa.
A necessidade da realização da pesquisa ora descrita é ampliada no cenário atual, em que as redes de cooperação e os processos de compartilhamento de informações e conhecimentos a elas associados são essenciais para o sucesso das empresas (Balestrin et al., 2014). Principalmente nas SMEs, que têm maiores dificuldades para atuar isoladas no mercado. Como destaca Tomaél (2005, p. 21):
o assunto se impõe, porquê, atualmente, o compartilhamento da informação e a construção de conhecimento nas redes passam a ser um diferencial para a organização moderna. Se souber aproveitar as habilidades essenciais intrínsecas de cada ligação das redes que estão sendo formadas, se conhecer os papéis que cada ator representa na rede, a dinâmica de como ela se movimenta e como se vai configurando a cada situação enfrentada, a organização terá maior condição de aproveitar as capacidades individuais e coletivas dos ativos que possui.
Além disso, as constantes e rápidas mudanças que ocorrem nos mercados forçam as SMEs a procurar continuamente por maneiras de sobreviver, crescer e ser competitivas. Para isso, há que se considerar que as atividades baseadas no conhecimento são a principal fonte de vantagens competitivas sustentáveis na economia, especialmente nesse tipo de empresas. Essa ideia é sustentada nas premissas de Valkokari e Helander (2007), que afirmam ser a cooperação estratégica e a formação de redes, os meios que permitem às SMEs competir e inovar em ambientes de negócios dinâmicos. Consequentemente, os referidos autores argumentam que o sucesso dessas empresas dependeria da sua colaboração com outras organizações que influenciam a criação e entrega de seus produtos ou serviços, bem como da capacidade delas em produzir, armazenar e aplicar os conhecimentos para tentarem sobreviver no longo prazo. Faz-se necessário chamar a atenção para os resultados da pesquisa de Jardon e Martos (2012), que demonstraram que o CI é mais importante como fonte de vantagem competitiva nas pequenas do que nas grandes empresas, porque os recursos tangíveis daquelas são muitas vezes inferiores aos destas e, por causa disso, as SMEs precisam competir mais por meio de recursos intangíveis do que tangíveis, integrando as políticas de gestão do CI como fonte primária de vantagens competitivas. Finalmente, recorda-se aqui os argumentos de Muhammad et al. (2011) que asseveram ser a pesquisa sobre CI considerada como um fator causal na ascensão da economia da informação e do conhecimento, tendo como base as implicações deste elemento no desenvolvimento da tecnologia, da gestão e até mesmo da economia e da sociedade. Um estudo recente realizado pela OCDE e de autoria de Brassell e Boschmans (2019) revelou a crescente relevância dos ativos intangíveis para a sobrevivência, o crescimento e o desenvolvimento das SMEs, concluindo que o CI é, verdadeiramente, o principal contribuinte para a geração de valor para os pequenos negócios, fornecendo mais acesso a várias
oportunidade e variados recursos sejam financeiros ou organizacionais para SMEs, ampliando a competitividade dessas empresas e dos países nas quais estão instaladas.
Assim, tendo em vista os argumentos apresentados, a realização da pesquisa ora descrita pode facilitar o desenvolvimento de políticas e estratégias gerenciais cada vez mais assertivas, principalmente sobre os ativos do conhecimento formadores do CI em SMEs organizadas em redes conhecimento e sobre as práticas de GIC necessárias para que os processos informacionais e cognitivos possam se dar efetivamente no âmbito dessas SMEs e suas redes. Finalmente, esta tese, além de auxiliar a preencher uma lacuna investigativa, conta com as recomendações de pesquisa de estudiosos como Perrow (1992), Tomaél (2005), Valkokari e Helander (2007), Behr e Nascimento (2008), Silva (2008), Jardon e Martos (2009), Mertins et
al. (2010), Durst e Edvardsson (2012), González-Loureiro e Dorrego (2012), Jardon e Martos
(2012), Ngah et al. (2015) e Marzo e Scarpino (2016), dentre outros. Nesse sentido, a pesquisa descrita nesta Tese não somente fornece contribuições teóricas e práticas, consolidando e ampliando o conhecimento da relação entre redes, GIC, CI na realidade das SMEs, como também oferece significativas implicações sociais e gerenciais, pois os resultados destacam a relevância econômica, política e social das SMEs e o potencial das redes interorganizacionais, consubstanciadas em redes de conhecimento, como meios para superar as dificuldades organizacionais, financeiras e gerenciais das SMEs.
Desse modo, essa Tese preenche uma significativa lacuna de pesquisa, revelando como as redes podem e devem ser usadas como estratégia deliberada pelas SMEs para criar, adquirir, usar, absorver e compartilhar informações e conhecimentos, além de gerar CI, proporcionando, assim, incrementos nos resultados financeiros e organizacionais, além de maior competitividade e capacidade de inovação e para essas empresas e suas redes. Nesse contexto, analistas, gerentes, empresários, governantes, formuladores de políticas públicas e outros tomadores de decisão são convidados a usar esse tipo de rede para melhorar as práticas de GIC (em termos de criação, sistematização e compartilhamento de informações e conhecimentos) e geração de CI (em suas dimensões humana, relacional e estrutural), para ampliar a capacidade das SMEs de gerar um valor em uma perspectiva de desempenho organizacional sustentável – uma questão bastante relevante e ainda pouco explorada na literatura, oferecendo várias avenidas de pesquisa futuras.