Eventos políticos, como eleições, são importantes termômetros para que empresas de jornalismo testem modos de se comunicar com o público. Nosso olhar para a cobertura especializada sobre a transmissão de vídeo ao vivo pela internet permitiu a identificação de um curioso marco na cobertura do TechCrunch (SCHONFELD, 2009; PEREZ, 2017), um dos sites especializados em cobertura de tecnologia de São Francisco (EUA). Em um período de oito anos que separou a posse de Barack Obama, em 2009, da transferência do cargo para Donald Trump, em 2017, dois títulos de crítica de mídia completamente diferentes para eventos similares (Ver Figura 4).
Em ambos os textos, a quebra sucessiva de recordes de transmissões ao vivo dá indícios de que a tecnologia foi sendo aceita ao passo em que o acesso e as condições melhoraram. Porém, no primeiro caso a tecnologia é uma questão: falhou, precariedade, não deu conta, as TVs podem ficar despreocupadas. No segundo momento, a tecnologia é um festejo: novos caminhos abertos, ascensão do vídeo ao vivo em HD, diversidade de serviço, a TV é ignorada da análise. Certamente, há uma série de nuances – inclusive políticas – por trás desses dois momentos, mas do ponto de vista da tecnologia de vídeo ao vivo vale observar sua evolução e os agentes envolvidos nela. É o que faremos a seguir.
Figura 4 - O live em 2009 (esq.) e em 2017 (dir.) na cobertura da TC
Fonte: captura de tela do site techcrunch.com
Em diferentes situações, incluindo, particularmente, as autopromoções das empresas de jornalismo que utilizam as transmissões ao vivo pelas redes sociais, tal recurso é apresentado
como uma novidade, uma inovação tecnológica recente. É bem verdade que desde a popularização das ferramentas de live streaming através da incorporação às redes sociais online, em 2015, até o momento em que escrevemos os resultados dessa pesquisa, em 2018, decorre relativamente pouco tempo. Também tomamos como verdadeira a premissa de que a camada de rede social adicionada às transmissões online (STEWART; LITTAU, 2016) se mostrou um elemento disruptivo no histórico da tecnologia live streaming – com a aquisição do Periscope pelo Twitter e mais fortemente com o lançamento do Facebook Live, mas não apenas por se tratar de uma tecnologia de domínio dessas corporações44. Antes, acreditamos, pelo modo como
este formato incorporou as dinâmicas de interações dessas redes45.
Como já mencionamos anteriormente e iremos explorar neste tópico, o live streaming não se trata de uma tecnologia nova, já que data do início dos anos 1990, embora venha passando por mudanças sociotécnicas através de processos inovativos e acumulativos que estão sendo incorporados por essas redes. Cabe, então, recuperar o que veio antes desse marco iniciado pelos aplicativos Meerkat, Periscope e Facebook Live. Winocur (2007) sugere que um importante ângulo de observação sobre as apropriações das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) é justamente pensar essas inter-relações entre suportes, que traçamos historicamente na primeira parte deste capítulo. Manovich (2001) também considera que há um fator social – ligado ao que chama de princípio da variabilidade – que faz com que as novas mídias surjam em um ambiente em que as tradicionais ainda estão em uso, de modo que as novas mídias ganham essa denominação não apenas por redesenhar processos de produção e circulação, mas também pela sua capacidade de conexão com formatos midiáticos que a precederam.
A primeira transmissão de um vídeo ao vivo pela internet ocorreu em 1993 (SAVETZ; RANDALL; LEPAGE, 1998), foi uma apresentação da banda de rock Severe Tire Damage, formada por músicos da Califórnia (EUA) que também atuavam na área da tecnologia. O segundo evento notório desse histórico foi a transmissão de áudio ao vivo de um jogo de beisebol entre New York Yankees e Seattle Mariners, em 1995. A responsável por esta última transmissão foi a empresa RealNetworks, que mais à frente, em 1997, consolidara-se como
44 Edelman (2016) aponta que a entrada do Twitter no mercado de live streaming, com a compra do ainda beta Periscope para concorrer com o Meerkat, conferiu credibilidade para ambas as empresas e, por extensão, uma
certa credibilidade e aposta para este formato de conteúdo.
45 Em seu trabalho de dissertação, Veloso (2002) apontou que os usuários, até então, tinham mais possibilidades
de interação e escolha em transmissões ao vivo sob demanda (VoD) do que em conteúdos ao vivo, em que as únicas opções seriam seguir o fluxo de transmissão ou interrompe-lo. Atualmente, a interação com o conteúdo se mostra um dos principais elementos deste modo de transmissão (RODRIGUEZ-GIL et al., 2018b).
pioneira no mercado de streaming, com o lançamento comercial da tecnologia, e chegaria até o início dos anos 2000 com o domínio de 85% do conteúdo de streaming (não necessariamente ao vivo) que circulava na internet com seu player Real46 (OZER, 2011).
Também movido pela música, outro antigo serviço de streaming de vídeo é o Ustream, desenvolvido em 2007 para resolver a frustração de um dos seus desenvolvedores de não poder assistir à banda de rock do irmão ao vivo. O ano de 2007 também trouxe para o mercado o
Livestream. De acordo com Wadhwa (2016), ambos serviços experimentaram um sucesso
inicial por conta do modo como soldados americanos se apropriaram desses recurso para se conectar, através dos seus computadores pessoais, com os familiares em casa. Mas, acredita Wadhwa, não ganharam escalabilidade pela falta de regularidade e por não terem sido incorporados aos ciclos tradicionais de notícia.
Figura 5 - O ‘primeiro’ Facebook Live
Fonte: reprodução do site techcrunch
Embora tenha sido lançado nos moldes que conhecemos hoje em 2015, o Facebook Live (com este nome) surgiu dentro do Facebook em agosto de 2010, com uma outra lógica e com a tecnologia de transmissão ainda baseada em uma parceria com a empresa Livestream (LAWLER, 2010; PEREZ, 2010; VELOSO, 2010). Usando o serviço do Livestream47, o
46 A empresa RealNetworks, que desenvolveu o RealPlayer, foi pioneira na utilização de webcasting – o
processo que permite o streaming – para distribuição em escala não apenas de vídeos ao vivo, mas também de transmissão direta de áudio (van Haandel, 2009, p. 36).
47 Com essa característica, já havia ali a possibilidade de interagir com a publicação com comentários
moderados. Em outubro daquele ano a parceria cresceu e o Livestream for Facebook iniciou uma operação em que as lives poderiam chegar aos feeds de modo integrado (TSOTSIS, 2010). Ao longo de 2011 houve também movimentos similares nos EUA de testes de transmissões de conteúdo esportivo dentro da plataforma, mas com essa extensão do Livestream.
Facebook Live era um canal do próprio Facebook para divulgação ao vivo de conteúdos
institucionais, participações em eventos de tecnologias e afins, mas também chegou a ser usado de modo experimental para o entretenimento, como foi a ocasião da estreia do canal, que serviu para a divulgação do filme The Dry Land, com participação da atriz America Ferrera.
Em 2008, uma parceria entre a Microsoft e a rede de televisão e de rádio comercial americana NBC permitiu pela primeira vez a transmissão ao vivo pela internet de todo os Jogos Olímpicos de Verão daquele ano. “Durante as duas semanas de competição, 50 milhões de visitantes únicos [...] assistiram 10 milhões de horas de vídeo [...]. Em um único evento, o ‘streaming moderno’ provou que a internet era capaz de transmitir vídeos escalonáveis, confiáveis e com qualidade de transmissão” (“7 Things That Define Modern Video Streaming”, 2017).
Figura 6: A cerimônia de abertura da Olimpíada de 2008 deu início a 2.200 horas de vídeos online transmitidos
em um período de duas semanas
Fonte: “7 Things That Define Modern Video Streaming” (2017)
Edelman (2016) descreve a forma como a entrada do Twitter no mercado de live streaming, com a compra do ainda beta Periscope, para concorrer com o Meerkat, transferiu credibilidade para o setor, favorecendo ambas as empresas e, por extensão, ampliando a aposta no formato
comerciais, em 2011 e em 2014, passaram a demonstrar o interesse de gigantes para a popularização do streaming48.
Na primeira dessas operações, o Skype comprou a startup de vídeo Qik, que havia sido lançada, em 2007, com a audaciosa proposta, para a época, de compartilhamentos de vídeo ao vivo através de celulares. O Qik, inclusive, foi o meio pelo qual ocorreu a primeira transmissão no Brasil de uma reportagem em um jornal online para a web com a tecnologia 3G: uma reportagem do JH Online, de Novo Hamburgo (RS), em 30 de maio de 2008, segundo conseguiu datar Silva (2008b). A segunda operação comercial foi vultosa. Tratou-se da aquisição, em 2014, do Twitch (antigo Justin.tv) pela Amazon, por US$ 970 milhões. Atendendo um nicho específico de mercado, os gamers, o Twitch foi considerado um dos primeiros sucessos de popularidade do live streaming.
Porém, as principais ondas de popularidades de aplicativos do gênero, antes de 2015, estiveram atreladas aos grandes protestos de rua em diferentes partes do mundo, principalmente em 2011, tendo como exemplo o movimento Occupy, nos EUA, ou o 15-M, na Espanha (MONTERDE; POSTILL, 2013) ou ainda os protestos na Ucrânia em 2013 (ORLOVA, 2016). Outro exemplo, também de 2011, foi a importância, no auge da chamada Primavera Árabe, do aplicativo Bambusers. Iniciado em 2008 como uma plataforma de jornalismo cidadão,
Bambusers se popularizou no Egito e chegou a publicar mais de 10 mil transmissões ao vivo
em um único dia (KHARIF, 2015). No Brasil, os protestos de Junho de 2013 permitiram a emergência do coletivo Mídia Ninja justamente pela atuação através das transmissões ao vivo via aplicativo Twitcasting.tv – que possuía uma integração unilateral com o Twitter –, denunciando violência policial, dando voz a manifestantes e chegando a confrontar as narrativas e o domínio do jornalismo audiovisual profissional (BRASIL; FRAZÃO, 2013; BECKER; MACHADO, 2014; BARNEY; SUSANNA, 2015).As claras mudanças no modo de se fazer ativismo49 por conta da atuação de manifestantes com o live streaming (PANDELL, 2016; PAZ
48 Uma gigante da tecnologia que não se mostra competitiva na transmissão ao vivo de streaming é a Google.
Embora tenha iniciativas ao vivo desde 2008 e seja detentora de umas das principais plataformas de streaming do mundo, a empresa não fez altas apostas, ocupando um espaço de transmissão de eventos, principalmente musicais. Em 2013, lançou a possibilidade de transmissão ao vivo através do Google Hangouts On Air (o serviço de transmissão ao vivo de eventos do Google encerrado em 2016 e concentrado no próprio Youtube). Somente em 2016 a Google permitiu o streaming de vídeo ao vivo de seu aplicativo móvel.
49 O uso do live streaming se mostra uma tendência não apenas no ativismo e ações de uma esquerda
progressista, mas também para o fortalecimento, por exemplo, de mídias conservadoras. Exemplo é uma reportagem da Wired de janeiro de 2017, cujo título em tradução livre é Facebook Live é a nova Fox News (disponível em: <www.wired.com/2017/01/Facebook-live-is-the-right-wings-new-fox-news/>, acesso em: 15 de nov. de 18), detalhando a atuação de um repórter de um veículo que apoiava o presidente Trump. Ou ainda, no Brasil, a eleição de Jair Bolsonaro como um político que diz se conectar diretamente com sua audiência e, após declarado eleito, fez o seu primeiro pronunciamento através do Facebook Live.
et al., 2016) incentivaram inclusive a criação de um organismo de Direitos Humanos
especializado na atuação com vídeos ao vivo, a Witness50.
Com a atual popularização de serviços como o Facebook Live, o questionamento que surge é onde estão todas essas empresas anteriormente citadas. A resposta é simples: muitas delas cresceram ou se direcionaram para o atendimento a clientes corporativos (KHARIF, 2015), retornando ao ambiente das videoconferências em que a tecnologia de streaming de vídeo se fortaleceu ou criando outras soluções. É o caso, inclusive, da Ustream ou do próprio Bambusers. Esse movimento que precedeu a popularização das lives, inclusive, é parte do argumento usado pelo marketing de empresas como Periscope ao se declararem como um serviço “para todos”, não mais para pequenos grupos, não mais com foco no ambiente corporativo. Com isso, essa nova fase das lives se fortalece, antecipando aqui um primeiro ponto de distinção entre o pré e o pós Meerket-Periscope-Facebook Live, como um fenômeno novo do ponto de vista da experiência e do caráter social (REIN; VENTURINI, 2018).
Esse histórico que apresentamos não apenas nos ajuda a fugir do fetichismo da “novidade” como também colabora com um questionamento sobre o que há, então, de rupturas em relação ao que vinha sendo desenvolvido. Ao refletir sobre os impactos da instantaneidade e do efeito da rede no consumo, produção e distribuição de notícias, Bradshaw (2014) aponta um primeiro caminho para pensar essa quebra e uma primeira consequência disso:
“Tempo real” não é propriamente um novo desenvolvimento. Já era possível assistir vídeo livestream a partir de um telemóvel anos antes de o Twitter ter sido inventado. A questão estava no fato de os usuários estarem presentes num website em particular. O que o Twitter e o Facebook adicionaram foi a infraestrutura de distribuição: a possibilidade para que aqueles livestreams, imagens, livros-áudio e textos fossem entregues a centenas de milhões de usuários. É neste ponto que a principal vantagem competitiva do publishing (jornalismo) tradicional está sendo desafiada (BRADSHAW, 2014, p. 113– 114).
A tensão, vai defender o autor, concentra-se justamente na perda do controle da distribuição entre as empresas de jornalismo, dando lugar aos mecanismos de busca e às redes sociais no controle desse fluxo, através dos seus escusos “interesses algorítmicos” e do modo como os usuários e seu consumo interferem nisso. Além disso, observamos que não há elementos inerentemente novos sobre as tecnologias de transmissão ao vivo. O que é diferente agora é a facilidade de acesso e a recente ascensão das mídias sociais como espaço e linguagem para apropriação dessa tecnologia.
Nota-se, pelo histórico, que a própria tecnologia digital, que é estruturante no modo como a internet distribui conteúdo, já traz como potência a possibilidade de transmissão ao vivo de vídeos, o que, em um primeiro momento, é limitado pela disponibilidade de softwares, aspectos do hardware (havia transmissões entre computadores e com a captura de imagem feita através de webcams), mas principalmente pela qualidade e velocidade de internet necessária nas duas pontas51, cuja entrega era baixa, inviabilizando que essa fosse uma tecnologia popular e acessível. Os avanços nesses aspectos anteriormente citados, associado ao declínio ainda em vigor dos custos de produções audiovisuais e a chegada e expansão dos smartphones, serviram de ponte para o advento deste novo momento das transmissões ao vivo.