As diferenças acerca da música corporal são muitas. Em cada lugar do mundo, com influência da cultura social e musical, da especificidade de comunicação e dos próprios corpos, as linguagens da música corporal acabam por apresentar distinções.
Música corporal, para mim, não é uma linguagem universal. Dentro dela existem muitas línguas, muitos sotaques e cada um é criado dentro de um contexto específico. Por causa disso, cada técnica ou linha de trabalho de música corporal tem um tipo diferente de abordagem performática, no sentido de abordagem cênica, técnico, visual, corporal. (Consorte, 215, entrevista via e-mail)
No mundo, a maior e mais significativa representação da música corporal acontece através do International Body Music Festival7 (IBMF), que ocorre a cada dois anos na Área da baía de São Francisco (Califórnia) e em algum outro lugar do mundo nos anos intercalados, carregando como lema a proposta: “music you can see, dance you can
hear”. É a partir deste festival que torna-se possível observar na
prática a colocação de Consorte, quando enfatiza que dentro da música corporal existem muitas línguas e sotaques, e que isso influencia diretamente nas abordagens performáticas específicas de cada grupo ou artista.
O IBMF foi fundado em 2008 como projeto da organização artística Crosspulse8 (EUA), e é produzido pelo artista americano Keith
Terry, pioneiro da música corporal, oferecendo workshops e
apresentações de artistas da música corporal vindos do mundo inteiro.
Fig. 7 – Keith Terry (foto retirada do site: http://crosspulse.com/aboutkt.html)
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Organização artística sem fins lucrativos dedicada à criação, performance e gravação de música e dança intercultural http://www.crosspulse.com/aboutcp.html
Foi ele quem pensou a música corporal como expressão, na tentativa de definir a prática de criar música apenas com recursos sonoros corporais (recursos vocais, rítmicos, melódicos, harmônicos e também os recursos percussivos do corpo todo, como palmas, pisadas no chão, estalos de dedo e etc) e assim, o termo passou a ser mais utilizado. Para o artista a música corporal é tanto música quanto dança, e este termo utilizado funciona como um guarda- chuva pra descrever algo que existe há séculos; algo que envolve inúmeros estilos de música corporal e não um padrão tradicional estático, ou seja, que não sofre influências.
There are many Body Musics still thriving today. In the United States, hambone was popular at the turn of the century and is still in practice. Some South Pacific island people create music by clapping and slapping the chest and thighs, and in Morroco, there is a version that involves beating the chest while singing. Certain Sumatran line dances use slapped chests and legs for percussive accompaniment, and in Ethiopia armpit music is produced by groups of players who cup their hands under their arms and force the arm in a downward motion, creating tones with air rushing around and between the fingers of the cupped hand. These are only a few examples of a varied and vital Body Music scene. (Terry apud Simão, 2013, p. 89)
O criador e diretor artístico do International Body Music Festival
(2008), Keith Terry, é compositor, produtor, dançarino,
percussionista e um dos maiores criadores, performers, exploradores e pesquisadores da música corporal performática no mundo, já tendo conquistado espaço para o festival não só em Oakland, onde vive nos Estados Unidos, mas também em São Paulo (Brasil), em 2010, Istambul (Turquia), em 2012 e Terni (Itália), em 2014. No ano atual,
2015, o festival acontece em Bali (Indonésia), na segunda semana do mês de julho.
Durante os festivais acontecem apresentações de muitos grupos, onde os mesmos ensinam formas específicas de fazer música com o corpo, transformando o acontecimento em um intercâmbio artístico musical e pedagógico, bem como uma oportunidade extremamente importante na consolidação do reconhecimento da música corporal.
(…) este festival traz uma forte concepção para difundir essa atividade não só no palco. É uma festa de integração. A partir da apresentação dos grupos de vários países, integram-se também às artes cênicas, à dança e raízes culturais. (Stenio Mendes, 2014, entrevista via e-mail)
Por carregar consigo esta característica da diversidade cultural e social, diferentemente dos núcleos de música corporal como
Barbatuques e BatuKatu, neste festival a prática acaba por não ser
diretamente relacionada à inclusão e ao coletivo. Algumas diferenças de linguagem sonora e sotaques musicais e corporais são desconhecidos por outras culturas, o que, consequentemente, segrega e diminui as dinâmicas de coletividade.
Música corporal não é sinônimo de coletividade, de generosidade e de inclusão. Quem define isso é a linha de pensamento e de trabalho por trás da música corporal. (Consorte, 2015, entrevista via e- mail)
É possível observar nos diferentes tipos de performance artística, o diálogo e a conexão da prática e de suas linguagens com o contexto cultural de onde aqueles recursos sonoros utilizados provém. Os estilos tendem a estar respectivamente relacionados com suas localizações e contextos.
Por outro lado, este ambiente propõe justamente esta troca cultural, este ensino e aprendizado ininterrupto de especificidades musicais, corporais e sociais. A grande relevância deste momento internacional da música corporal é o fluxo contínuo de conhecimentos e abordagens que levam a música corporal ao seu estado natural e inerente, aquele onde somente são necessárias a entrega e a liberdade para tornar-se musical, para produzir sons corporais, para sentir e trasformar o corpo em movimento e música. Di Luca defende esta qualidade como essencial e tão relevante na prática da música corporal:
A partir do momento em que se propõe a expressão musical com diferentes culturas e conhecimentos musicais em um mesmo contexto, participando de dinâmicas que possibilitem o diálogo sonoro, a desmistificação da música como campo exclusivo e o seu aprendizado, ocorrem de maneira espontânea. (2011, p.101)