Em seu texto “Análise de Classes” (1999), Ralph Miliband escreve que a crítica proveniente de dentro da esquerda em relação ao fato de ser hoje o conceito ‘classe social’ incapaz de explicar aspectos cruciais da realidade social, nada mais é que um reducionismo simplista do entendimento deste conceito e que tal idéia é equivocada. O que faltaria seria uma melhor compreensão desta categoria analítica e o reconhecimento de ela ser um “construto teórico de valor incomparável”, que não se tornará facilmente ultrapassado.
A visão marxista clássica é de que os protagonistas das lutas de classes estão diretamente relacionados com a sua localização no processo produtivo, como já foi dito anteriormente. É bem verdade que a maioria considerável dos trabalhos realizados pela academia brasileira nos estudos relativos aos movimentos sociais (ver DOIMO, 1995 e GOSS; PRUDÊNCIO, 2004, por exemplo) inicia suas análises com uma afirmação em relação à incapacidade de o conceito em questão em explicar a “nova realidade dos movimentos sociais”. Esta afirmação, no entanto, segundo Miliband, é feita sem uma análise apropriada do termo, trabalhando-o de forma reducionista e tendo o debate em relação a esta categoria de análise enquanto já dado.
A visão clássica marxista (adotada pelo paradigma marxista) enfatiza a questão da exploração, enquanto Miliband (1999) sugere a possibilidade (e até mesmo necessidade) de mudança de foco. Enquanto o foco na exploração remete a análise necessariamente à esfera produtiva, o foco na dominação clarifica o fato de haver formas múltiplas da mesma. O autor enfatiza que a dominação de classe é que permite a exploração, mas que esta (a exploração) não é o objetivo principal da primeira (da dominação). O que Miliband propõe então é uma mudança de foco:
a exploração continua sendo o objetivo essencial da dominação. Mas o foco na dominação (...) permite um exame e uma identificação mais abrangentes e realistas dos protagonistas da luta de classes. Com esse foco, a classe
dominante na sociedade de classe deixa de ser definida unicamente em termos da propriedade dos meios de produção. Falando de forma mais
apropriada, uma classe dominante em qualquer sociedade de classes é constituída em virtude de seu controle efetivo sobre três fontes principais de dominação: os meios de produção , onde o controle deve envolver (...) a propriedade desses meios, mas não precisa necessariamente fazê-lo; os
meios da administração e coerção do Estado; e os principais meio para estabelecer a comunicação e o consenso. (MILIBAND, 1999: 476. Grifo
nosso).
A ênfase é deslocada da noção de propriedade dos meios de produção à noção de controle. Obviamente a noção de propriedade continua sendo fundamental, ela deixa apenas de ser central, abrindo espaço para a principal fonte de poder na sociedade capitalista: o poder corporativo e o poder do Estado. Pode haver, portanto, exploração e opressão aonde não haja nenhuma fonte econômica que o engendre.
A ‘elite do poder’, segundo esta perspectiva, seria hoje composta não só pelos detentores do poder econômico, como também pelos detentores do poder Estatal. A classe dominante deixaria de ser um todo homogêneo e passaria a ser composta, por exemplo, pela classe média e classe média alta, mesmo estas não tendo coisa alguma que possa ser chamado de ‘seu’ poder. Estão incorporados ne sta classe aqueles elementos da sociedade que exercem qualquer forma de poder, seja ele em termos econômicos, sociais, políticos ou culturais. (MILIBAND, 1999)
Percebe-se que em Miliband o conceito de classe social torna-se elástico. A classe trabalhadora, por outro lado, é apenas uma parte da classe subordinada. Criar uma igualdade entre as duas categorias, classe subordinada e classe trabalhadora, é querer entender o todo (classe subordinada) pela parte (classe trabalhadora). É importante a observação do autor de que
a pirâmide (de classes) é uma dura, sólida realidade e de que as
classes situadas nos níveis inferiores são de fato muito grandes em termos de riqueza, renda, poder, responsabilidade, estilo e qualidade de vida e tudo o mais que compõe a textura da existência. Isso pode ser deplorado, ou louvado, ou declarado lamentável mas inevitável, ou visto de outro modo qualquer. O que não se pode ou não se deve fazer é ignorar a existência
de tais divisões e a importância crucial que elas têm para a vida da sociedade onde ocorrem. (MILIBAND, 1999: 483. Grifo nosso)
A classe subordinada estaria envolvida permanentemente em um processo de pressão que pode ser exercida para modificar e melhorar as condições nas quais a subordinação em si é vivenciada ou para erradicar completamente esta subordinação. No primeiro caso, de modificação ou melhoria das condições de subordinação, haveria reforma, no segundo caso, de erradicação das condições de subordinação, a revolução.
O autor discorda da noção de classes sociais vista como insuficiente, quando não obstáculo, à explicação de temas como o feminismo, questões étnicas, entre outros.
Para Miliband (1999), mulheres, negros e outros grupos são também membros de uma classe. É legítimo que estes grupos da sociedade civil sintam-se que são, acima de tudo, mulheres, negros ou o que quer que seja e que isso, antes de qualquer outra coisa, seja o atributo que lhes dê identidade e seja o que define o seu ‘Ser social’.
Essa identidade, no entanto, não reduz a importância do fator ‘classe social’ na composição de seu ‘Ser social’. É preciso enxergar este Ser como um todo complexo e contraditório, em um processo dialético constante de autoreprodução. Nele, muitas identidades diferentes coexistem e colidem entre si.
É fato que a localização dos indivíduos na estrutura social é imprescindível para identificar e determinar as maneiras pelas quais as pessoas vivenciam a discriminação, exploração e opressão. Afinal, “ser pobre significa não apenas privação econômica e material, mas também ser submetido a regras culturais que implicam uma completa falta de reconhecimento das pessoas pobres como sujeitos, como portadores de direitos”. (DAGNINO, 2000: 82)
3. DA RELAÇÃO ENTRE OS MOVIMENTOS SOCIAIS, ORGANIZAÇÕES NÃO-