O Discurso do Sujeito Coletivo – DSC é uma técnica de análise de dados qualitativos elaborada com base na teoria das representações sociais e
“elenca e articula uma série de operações sobre a matéria-prima de depoimentos coletados em pesquisas empíricas de opinião por meio de questões abertas, operações que redundam, ao final do processo, em depoimentos coletivos confeccionados com extratos de diferentes depoimentos individuais – cada um desses depoimentos coletivos veiculando uma determinada e distinta opinião ou posicionamento, sendo tais depoimentos redigidos na primeira pessoa do singular, com vistas a produzir, no receptor, o efeito de uma opinião coletiva, expressando-se, diretamente, como fato empírico, pela ´boca´ de um único sujeito de discurso” (LEFÈVRE; LEFÈVRE, 2006).
Em outras palavras, através do DSC obtemos uma resposta coletiva sobre uma determinada opinião comum a diferentes depoimentos, cartas, papers, numa dada
pesquisa de opinião. Desta forma, é criado um discurso em primeira pessoa representativa de todos os discursos semelhantes em um conjunto de dados. Assim
“ao mesmo tempo em que sinaliza a presença de um sujeito individual do discurso, expressa uma referência coletiva na medida em que esse eu fala pela ou em nome de uma coletividade.” (LEFÈVRE; LEFÈVRE, 2003, grifo dos autores).
A técnica do DSC vem sendo amplamente utilizada no meio acadêmico, o que mostra sua eficácia para “o processamento e expressão das opiniões coletivas” (LEFÈVRE; LEFÈVRE, 2006).
Para que possa ser confeccionado, o DSC passa por algumas etapas e necessita de algumas figuras metodológicas que facilitam a compreensão e distinção das diferentes opiniões recorrentes num determinado depoimento para que, ao final, opiniões semelhantes sejam agrupadas para formar um único discurso, o DSC. Assim, baseando-se em Lefèvre e Lefèvre (2003), criadores e precursores desta técnica, tentaremos expor brevemente o significado destas figuras, bem como as etapas de criação do DSC.
Expressões-chave: são trechos literais dos depoimentos que expressam alguma
opinião relevante sobre o objetivo do estudo, revelando a essência do discurso individual. As expressões chaves (ECH) devem ser destacadas no discurso transcrito (de preferência, coloridas, para facilitar a distinção das idéias que representarão cada ECH), de forma a gerar diferentes idéias centrais, como veremos a seguir.
Idéias Centrais: as idéias centrais (IC) são expressões sintéticas e fidedignas
oriundas de um conjunto de ECH e expressam o sentido de cada um dos discursos
analisados. Não cabe aqui interpretar a opinião do entrevistado através das ECH,
mas sim descrever, na forma de IC, qual o sentido do depoimento dele. É possível e comum que haja mais de uma IC num mesmo discurso individual, de modo que é importante que as IC sejam diferenciadas e destacadas (coloridas, de preferência) sob os mesmos moldes que as ECH que as originaram.
Ao final da identificação de todas as IC nos depoimentos, serão compostos os DSC, de forma que cada IC gerará um DSC diferente.
Ancoragem: algumas ECH levam à definição não necessariamente de uma IC, mas
sim de um pressuposto teórico ou ideológico que se definiu como “ancoragem” - AC. Cada discurso tem um pressuposto que acaba embasando o sujeito a explicitar sua opinião. Mas em grande parte das vezes esse pressuposto é demasiado genérico, o que dificulta a explicitação de AC, tornando-a inviável. Porém, algumas vezes esse pressuposto é claramente identificado em teorias e conceitos mais objetivos, sendo que a definição da AC se torna importante para a discussão posterior com o DSC.
Discurso do Sujeito Coletivo: O DSC é o resultado da manipulação das figuras
anteriormente citadas. Cada DSC será composto segundo uma determinada IC ou AC, identificada, por sua vez, pelas ECH correspondentes, de forma que o discurso em si é elaborado utilizando-se, literalmente, as ECH componentes daquela IC ou AC.
A construção do DSC exige alguns passos constituintes de qualquer abordagem qualitativa como a correta elaboração do roteiro de entrevistas, escolha dos sujeitos, preparação do ambiente de entrevista, etc. (MINAYO, 2006; LEFÈVRE; LEFÈVRE, 2003). Porém, a tabulação dos dados segue passos específicos, com a construção dos chamados IAD – Instrumentos de Análise de Discurso (LEFÈVRE; LEFÈVRE, 2003).
Primeiramente, é necessária a construção do chamado IAD 1 – Instrumento de Análise de Discurso 1 da seguinte forma, ainda segundo Lefèvre e Lefèvre (2003), conforme quadro a seguir: devem ser copiados os conteúdos de cada entrevista isoladamente em seu respectivo IAD 1, ou seja, a primeira questão de cada entrevistado deve ser transcrita para a primeira coluna, onde será feita a leitura e identificação das ECH do discurso daquele indivíduo. As outras colunas do IAD 1 compõem-se de IC e AC. Portanto, após definir a ECH do conteúdo do discurso e destacá-la, deve ser descrito qual IC ou AC a que ela nos remete, e identificá-la na coluna correspondente, como na ilustração abaixo. Após este processo com a primeira questão de cada entrevistado, faz-se o mesmo com a segunda questão e assim sucessivamente39.
39
Um detalhamento mais claro e preciso sobre as etapas de construção do DSC pode ser encontrada em Lefèvre e Lefèvre (2003).
IAD 1
EXPRESSÕES- CHAVES
IDÉIAS CENTRAIS ANCORAGEM
Questão 1: discurso do sujeito 1 IC A IC B AC A Questão 1: discurso do sujeito 2 IC B Questão 1: discurso do sujeito 3 IC A IC C AC A Questão 1: discurso do sujeito 4 IC A AC A
Após terminada essa tabulação inicial e separação de ECH e IC e/ou AC, partimos para a construção do IAD 2 – Instrumento de Análise de Discurso 2, que nos dará, finalmente, todos os DSC originários dos discursos individuais. Primeiramente, após definidas as IC e/ou AC pelo IAD 1, será necessário um IAD 2 para cada IC. Sendo assim, serão transcritas para a primeira coluna todas as ECH que correspondem àquela IC que originou o IAD 2 em questão, formando, ao final, um agrupamento desconexo de várias ECH com mesmo teor de opinião. A segunda coluna é destinada à confecção final do DSC, conectando as ECH de modo a formar um discurso único, coerente e que realmente seja capaz de expressar o que todos os
entrevistados que tiveram essa opinião disseram e acreditam. Observemos a ilustração a seguir, que dá continuidade à primeira ilustração40.
IAD 2
Idéia Central A (retirada do IAD 1)
EXPRESSÕES-CHAVES
(referentes à IC A)
DISCURSO DO SUJEITO COLETIVO
ECH do Sujeito 1
ECH do Sujeito 3
ECH do Sujeito 4
DSC composto pelas ECH dos Sujeitos 1, 3 e 4, conectadas, coerentes e capaz de
condizer com a opinião expressa individualmente no discurso individual de
cada um.
O mesmo procedimento deve ser feito com cada IC obtida no IAD 1, de forma a obtermos neste exemplo, portanto, três DSC diferentes para a questão 1, já que foram obtidas três IC diferentes.
Assim, com o DSC em mãos, para cada uma das IC de cada questão a análise dos dados encontrados pode ser feita normalmente, respeitando as características e rigores de uma análise qualitativa.
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Cabe lembrar novamente que uma única questão pode gerar várias IC e/ou AC e cada uma delas gerará um DSC.
Capítulo V – PARTICIPAÇÃO E REPRESENTAÇÃO NO CONSELHO MUNICIPAL