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As duas principais cidades portuguesas, Porto e Lisboa, em vários trechos são comparadas

com duas das principais cidades do Brasil: Rio de Janeiro e São Paulo. Tais semelhanças geraram

comparações interessantes, pois segundo a percepção dos autores em seus livros, a analogia entre

o jeito de ser do portuense assemelha-se ao paulistano e o do carioca ao lisboeta.

O primeiro ponto de comparação refere-se à vida noturna portuense nos anos de 1954, ano

de publicação do livro Roteiro de Portugal: A viagem da Embaixada Universitária “RUY

BARBOSA”. Muito semelhante a São Paulo, devido ao fato de ambas as cidades serem

conhecidas por seu povo trabalhador, a vida noturna no Porto era praticamente nula porque,

segundo os autores, pessoas que trabalham muito não teriam tempo para o lazer. “É habitual

frequentar um cinema ou teatro, comer um bife num bom café e, logo mais, embrenhar-se no

leito. Sossegada a cidade. É a São Paulo portuguesa, terra em que prepondera o trabalho e onde

as diversões são raras” (Gonçalves, 1954, p. 70). Graciotti, autor do livro Portugal: Crônicas de

viagem para adultos e crianças, também expressa a percepção de que as cidades compostas por

trabalhadores não teriam grande tradição em ter uma vida noturna atrativa. “Vida noturna no

Pôrto! Qual, rapazes, vocês pensam que um povo como o portuense, que trabalha o dia inteiro, à

70 A palavra Nikkei refere-se aos imigrantes japoneses e sua descendência. Recuperado em 04 de maio, 2020, de https://istoe.com.br/nikkei-uma-comunidade-orgulhosa-de-suas-contribuicoes-ao-brasil/

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moda dos paulistas, tenha disposição para à noite, divertir-se em “boites” e salões de festa? Não

tem, não” (Graciotti, 1957, p. 300).

Em uma das passagens, Vila Nova de Gaia é comparada ao famoso bairro paulista do

Brás, conhecido por ser um centro de comércio popular que atrai “sacoleiros

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” de todas as partes

do país, que compram produtos (geralmente roupas) com preços mais acessíveis e posteriormente

revendem em outras localidades do Brasil. Na época em que foi escrito o livro Portugal:

Crônicas de viagem para adultos e crianças, o bairro paulistano era conhecido por seu grande

número de fábricas, oficinas, usinas e laboratórios, caracterizado como um bairro industrial da

cidade de São Paulo. Desta forma, Vila Nova de Gaia é comparada ao Brás por possuir uma

grande concentração de indústrias. “Vila Nova de Gaia é assim. Tem fábricas que não acabam

mais: cerâmica, conservas, curtumes, cortiça, azulejos, alumínio, adubos agrícolas, fundição de

ferro e metal, louça, óleos, saboarias, malharias, refinação de açúcar, tecidos, vidros” (Graciotti,

1957, pp. 294-295).

Ainda em termos de comparações com bairros paulistanos, para um dos autores, o Porto

assemelha-se à parte mais antiga da cidade de São Paulo. O livro VEJA (comigo) O MUNDO (de

ontem e de hoje) SEM SAIR DE CASA- Europa Vol. I Portugal Tomo-1 compara a modernização

que desfigura a paisagem clássica do Porto com as obras feitas na capital paulista na época, “o

Porto tem muito da nossa São Paulo, principalmente a parte velha do Tabatinguera, da Ladeira

Porto Geral, da Bela Vista, e tem até a mesma mania de modernização” (José, 1981, p. 175).

Além da característica do Porto ser uma cidade voltada ao trabalho, onde as pessoas

andam apressadas de um lado ao outro, o clima também foi um fator que contribuiu para

aumentar a comparação com a capital paulista. “Gente apressada, um sem-número de

automóveis, lojas e lojas, e mais indústrias, e mais indústrias. De clima chuvoso e úmido, lembra

o meu São Paulo. Para tanto, contribui o seu renome de capital do norte” (Graciotti, 1957, p.

310). O livro Portugal para Brasileiros caracteriza o Porto como sendo uma miniatura de São

Paulo, por possuir “uma população superior a 400 mil habitantes, cujas atividades na indústria e

no comércio, fazem do Pôrto o grande centro de trabalho do país. Uma espécie de São Paulo em

miniatura” (Nasser, 1965, p. 127). Freyre, no livro Aventura e Rotina, observa que falta ao Porto

71 Termo informal usado para designar quem faz venda ambulante de roupas ou pequenos objetos. Pessoas que

compram mercadorias por preços baixos para revenda.

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a doçura de Lisboa, como a doçura do Rio falta a São Paulo, destacando que “o Rio que vem

paulistanizando-se: perdendo a graça latina, o não sei quê de cidade-mulher, para adquirir a crua

masculinidade anglo-americana de São Paulo. Em Portugal, o Porto continua a ser o Porto e

Lisboa a ser Lisboa” (1953, p. 188).

A rivalidade que marca Lisboa e Porto também gera comparações como as que existem

entre paulistas e cariocas. Nasser (1965) caracteriza o lisboeta, que é chamado de “alfacinha”,

como sósia do carioca, que faz do trabalho seu motivo de sobrevivência, mas, sem dedicação

exclusiva, seu objetivo com o trabalho é que ele lhe proporcione horas de lazer. O “tripeiro”,

como é apelidado o portuense, faz do trabalho sua religião, sendo sério e comprometido como o

paulistano. Nasser (1965), em seu livro Portugal, meu avozinho, enfatiza o sotaque de Lisboa

como sendo o mesmo do carioca; o lisboeta seria o “alegrão” de Portugal, o boêmio, festeiro,

chamado por ele de carioca da Europa. “A gíria carioca é lisboeta” (Nasser, 1965, p. 47). Ainda

segundo Nasser, os lisboetas “acham o Pôrto muito chato, assim como os cariocas não admitem

que possa existir terra pior que S. Paulo” (1965, p. 65).

Êste ciúme entre portuenses e lisboetas é como o ciúme entre cariocas e paulistas. Se São

Paulo construir um estádio para 100.000 pessoas, podem esperar que os cariocas

constróem um para 200.000. E, se os cariocas constróem uma para 200.000, esperem que

os paulistas farão um para 400.00 pessoas… (Graciotti, 1957, pp. 109-110).

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